Quando o meu
pai não quis ir ver oCinema Paraíso, o filme de Giuseppe Tornatore,
andou para ali às voltas e fiquei com a vaga ideia de me ter falado numa
crónica do Carlos Pinhão que eu não tinha lido, pelo que não lhe pude adiantar
qualquer comentário e nasceu por ali um qualquer silêncio.
Acabei por
recuperar essa crónica do Carlos Pinhão.
Lia-a mais
que uma vez, ainda hoje voltei a relê-la, e não encontro qualquer motivo de,
por ela, o meu pai não querer ir ver o filme.
Passado todo
este tempo, os motivos eram outros. Bem fortes e sem qualquer porta de saída, a
não ser aquela que veio a acontecer.
Mas fica a
crónica do Carlos Pinhão:
Como
complemento fica também uma crónica do Jorge Listopad, sobre Cinema Paraíso:
De quem sabe que a morte pode estar ligada ao estupor de
um vírus, que caminhou de muito longe para nos atormentar os dias, mas também as
amarguras profundas, solidões muito
grandes, de quem não soube lidar com as fraquezas que minam cada um de nós.
Será que o destino é cruel?
Talvez, mas acima de tudo é um tipo sem moral nenhuma.
Somos, por isto ou por aquilo, uns meros doentes da vida.
«E só as crianças
se riem durante o sono», como escreveu Jorge Listopad.
O velho Woody
Allen gostava de marcar distâncias: «Não
é que eu esteja com medo de morrer. Apenas não quero estar lá quando isso
acontecer.»
Já que te acusam de citares muito, coloca mais três
citações:
Escreveu o poeta e filósofo José Tolentino Mendonça:
«Muitas vezes Deus prefere entrar em nossa casa quando
não estamos.»
O poeta
transmontano A.M. Pires Cabral:
«Que de tudo se
precisa nesta vida. Na outra, por enquanto não se sabe»
Marguerite Yourcenar:
«não creio como eles crêem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.»
A música, bom a música é o coro final da Paixão Segundo São Mateus de Johann Sebastian Bach.
De tudo se precisa nesta vida, é certo, mas esta música não poderá deixar de nos acompanhar, sejam quais forem os passos que necessitamos de percorrer.
1.
Todo o tempo desta Páscoa, vai ser molhado.
Choveu, em Lisboa, durante todo o dia.
Lembro-me do poeta José Gomes Ferreira, à janela da
varanda da sua casa, no 2º Frente Esquerdo do nº 33 da Avenida Rio de Janeiro, a ver a chuva cair e a lembrar-se que aquela
chuvinha era uma bênção para os nabos e outras hortaliças, que tinha plantados na
sua casa de Albarraque, num terreno herdado do seu pai, projecto do filho do
poetaRaul Hestnes Ferreira, com o patiozinho voltado para poente, a desenhar
com os olhos a Serra de Sintra.
2.
Obrigo-me a que estes dias de pesadelo se tornem
ligeiramente diferentes.
Meto-me com os livros, alinho na música e em filmes comprados
pela Aida, alguns ainda com o celofane de compra, remexo em montes de jornais,
caixas com recortes, com o desejo de os enfiar no lixo, mas há sempre uma qualquer
linha, uma palavra que obriga a reguardá-los.
Lembro-me da casa do Mário Castrim, na Rua dos Lusíadas.
Livros e jornais por tudo o que era sítio, e eu a
perguntar-lhe como é que ele se orientava com a livralhada espalhada pela casa?
«Quando preciso de
algum, assobio e ele aparece.»
Os dias desta semana têm merecido visitas a José Gomes
Ferreira.
Hoje fui apanhado a
falar sozinho por essas ruas… Que o primeiro poeta que nunca falou sozinho pelas
ruas se levante e me atire a primeira estrela! (Cá nós, os poetas, nunca
atiramos pedras uns aos outros. Só atiramos estrelas).
3.
Quando os médicos entendem cuidar do seu quintalinho,
esquecendo o resto, é provável que o cidadão comum não entenda as suas
atitudes.
O diretor do Serviço
de Cirurgia Geral e Transplantação do Hospital Curry Cabral, Américo
Martins, demitiu-se por ter visto impedida a proposta de reorganização do
serviço na unidade.
«O Conselho de Administração não aceitou a criação de
dois circuitos independentes” no Curry Cabral para manter, como propunham os
médicos, os serviços destinados aos doentes oncológicos e transplantados no
Curry Cabral».
Já há dias, o médico cirurgião Eduardo Barroso dizia não
compreender a decisão de encerrar a unidade do Centro Hepatobiliopancreático e
de Transplantação do Curry Cabral para que o hospital se possa dedicar a
receber apenas doentes infetados com o novo coronavírus, considerando o
encerramento demagógico e preocupante.
Como continuamos a ouvir o Bastonário da Ordem dos
Médicos a pontapear as decisões do governo, esquecendo (?) tudo o resto, é
normal que nos interroguemos sobre as críticas e decisões dos médicos.
Em tempo de pandemia não me parece muito correcto que se
pense apenas em vaidadezinhas particulares, no quintalinho de cada médico…
4.
A Brisa já
accionou o mecanismo para ser indemnizada pelo Estado.
5.
O senador Bernie Sanders abandonou a corrida presidencial americana:
«Não posso, em consciência, manter uma campanha sem
condições de vencer e que interferiria no que a todos é exigido nesta hora
difícil.»
6.
Em abono da verdade,
não li a crónica de última página do direitista-cronista-com-a-mania-que tem-graça-João-Miguel-Tavares,
olhei apenas o título:
«Meter as pessoas dentro de casa foi fácil. E tirá-las?»
O Dudu chateava-se
que lhe chamassem a atenção para o facto de, mesmo sem ter visto o filme, dizer
que era uma merda.
Caro direitista-Tavares:
Nem uma coisa nem outra
estão no capítulo das facilidades terrenas.
Não foi fácil as
pessoas ficarem nas suas casas, não vai ser fácil tirá-las de lá!
Os jornais, as
televisões só deviam aceitar colaboradores que apresentassem provas de que se
lavam todos os dias!
Para
assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram publicados.
IRISH OAK
Tanto quanto
me lembro comecei a fumar cachimbo pelos meus quinze anos.
Por
curiosidade, por uma qualquer maneira de querer ser diferente, diferente dos
que fumavam cigarros. Hoje fumo cachimbo por prazer. Fumar cachimbo é uma
maneira de estar, filosófica, assim como acariciar gatos. Cada vez que pego num
cachimbo para o fumar, sinto sempre a tal diferença.
As minhas
primeiras marcas de tabaco foram os incontornáveis “Mayflower”, o “Clan” o
“Gama”. Mais tarde fixei-me no “Revelation”, um agradável “Smoking Mixture” da
Philip Morris e que nos pacotes em lugar do estúpido “Fumar Mata” tinha “it’s
mild and mellow”. Nos finais dos anos 70 deixaram de o fabricar e mais tarde
descobri o “Captain Black”.
Conheci-o
através do agente da "Aminter" em Ponta Delgada. Na primeira vez que
apareceu no escritório deixou um inebriante perfume, que mais tarde o Paulo
Rodrigues definiu como sabor a caramelo. Na altura não se vendia em Lisboa, mas
o Nascimento lembrou-se que tinha um cunhado a trabalhar da Base aérea das
Lajes e passei a receber latas de meio quilo de “Captain Black” a um preço “five
Stars”. Entretanto passou a vender-se em Lisboa.
Um dia ao ler
um livro do Jorge Listopad dei com uma marca de tabaco de cachimbo que ele
achava muito bom, mas, lamentava-se, que só se vendia nos "free shops
"dos aeroportos.
Como o Miguel
viaja muito, pedi-lhe que me tentasse arranjar uma embalagem.
Nunca o
encontrou, nem em Paris, nem nas "free shops” dos diversos aeroportos por
onde passava.
Mas um dia
surpreendeu-me com um saquinho com três latas de “Irish Oak”.
Tinha-o descoberto
numa pequena loja de tabacos em Bruxelas, junto à estação de caminhos de ferro.
Pode ser que
ele, um dia, se disponibilize, para nos contar, aqui, os pormenores.
Há um bom par
de anos, em conversa com o Miguel Alves, lamentava-se das suas cada vez maiores
dificuldades em comprar “Captian Black” em Lisboa. Disse-lhe que, depois do
encerramento das tabacarias no Rossio, passei a comprá-lo numa loja do Centro
Comercial Vasco da Gama.
Aproveitei
para lhe contar a história com o “Irish Oak” e falar do Jorge Listopad.
A história
chama-se “Pernoitar” e encontra-se no livro Em Chinatown com a Rosa:
É esta a
história:
«Emergiu da noite, não, eram dois, sim,
emergiram da noite, mas como se ela não existisse, até àquele momento eu estava
sentado sozinho na esplanada com as cadeiras empilhadas e arrumadas, a noite e
ninguém, estava sentado numa cadeira branca de abrir e fechar, a única que não
fora presa pela corrente, fumava cachimbo, “Irish Oak”, o tabaco que outrora
Graham Greene me mandara com um cachimbo “Peterson”, uma oferta por tê-lo
acompanhado, eu ou a Clara ou nós os dois, pela cidade ainda alvoroçada, por
tê-lo apresentado às novas personalidades, ter-lhe aberto as portas das
instituições e dos clubes revolucionários, habituei-me ao “Irish Oak” nem
sempre fácil de arranjar, nem mesmo no “free shop” dos aeroportos, estou
sentado e penso tabaco, tabaco, o fumar divino, paz e sossego, stop, Virgem
Maria, arco do céu, se eu quisesse ouviria o mar, as gaivotas estão a dormir,
eis senão quando emergiu da noite à noite, mas afinal eram dois, ele sentou-se
no muro e disse boa noite, o que em Portugal não significa que se vá dormir já,
mas algo como noite acordada e que seja boa, que a vida continue na escuridão.
Interromperam o meu fluxo silencioso de
palavras e o navegar em ideias aproximadamente formadas pelas palavras, tal
como agora interrompi a frase anterior que não tinha fim. Cumprimentei-o, pois,
com essa mesma boa noite à portuguesa, procurei e no bolso encontro o isqueiro
e esperei, esperei enquanto aguardava. Sentou-se no muro. Ela ficou ao pé,
afastou-se. O cachimbo era excelente, embora seja evidente que um cachimbo
aceso pela segunda vez deixa de ser tão cheiroso e saboroso. “Irish Oak”. Na
tampa da caixinha redonda de lata um carvalho verde, um quadro que no escuro
tem de ser imaginado. Ao longe as luzes baças de um barco de pescadores. A
oscilarem no ar incerto. Como numa narrativa.
- Rouba-se muito por aqui, aventurou
ele.
- Onde, aqui?
- Em Portugal.
Era uma frase muito sintética. Inusitadamente
sintética. Eu não estava acostumado a isso.
- Fui seu aluno, senhor professor, disse
depois.
No dia anterior eu tinha estado com os
pescadores. Tinha percebido que toda a pesca é um conflito. Com o mar, com as
redes, com a organização do próprio trabalho, com o sistema da entreajuda.
- Professor de quê? Perguntei baixinho,
devagar, sem quase ter perguntado. Algures, alguém pôs uma motocicleta em
marcha.
- Foi há muito tempo.
Ninguém me dirá nada de novo, afirmou
Zaratustra. Não quero ouvir nada de novo, eu. Mas quem é o eu?. Quem é
Zaratustra? Cada dia nos aproxima mais. Mas aproxima de quem? De quê?
Não tinham onde dormir. Dormiram no meu
quartinho. Coisas que se curam, que não se curam. Eu tinha tempo. O tempo ainda
me pertencia.»
Perdi-o. E gostei tanto desse cisne negro, companheiro
Leal dos bons e maus momentos. Não foi a primeira vez que perdi um cachimbo,
mas a última é sempre mais dolorosa.
Perdi, não sei onde.
Dir-se-á que o facto não interessa a ninguém. De acordo.
Todavia, noite alta, tento relembrar os lugares onde o podia ter deixado. No
transporte? No café? No jornal onde deixei o meu escrito numa correria para o
emprego? No emprego? Em que andar de que reunião? Ou foi depois, ao almoço de
peixe grelhado naquela tasca (que o pretende ser), ou quando dei um salto ao
correio? Teria sido na sala de montagem onde estive a trabalhar, cheia de filmes,
de coladeiras, entradas, saídas? No Conservatório, à noite? Talvez na
Secretaria onde tive de preencher um papel selado? Na leitaria do bairro Alto
onde bebi uma coca entre duas aulas? No cinema da meia-noite, para não perder
enfim o filme tantas vezes perdido?
Tanta gente, tantos lugares; e eu em todos imagino o meu gesto com o cachimbo
na mão. Imagino e vejo. E vejo o cachimbo, abandonado. Como se em todos os
lados tivesse deixado o meu cisne negro, companheiro leal.
Ninguém tem nada com isto, bem sei.
Todavia, agora, noite alta, cismo quantos e diferentes lugares e espaços
frequentei num dia banal, frequentei, estive, vivi, existi, para estar,
existir. Odisseia em ponto pequeno. Sobre isso James Joyce escreveu um grande
romance. Em vez de Lisboa, Dublin. Tanto faz.
Ele, um grande romance. Eu, esta pobre nota; na origem, porém, a mesma violenta
vertigem da vida inominável.
No dia 28 de Julho de 2010 recordámos, aqui, esse saudoso objecto que era um dos acessórios que, em tempos
antigos, nos acompanhava no prazer da leitura, sem nunca esquecer o
indispensável lápis para sublinhados.
E passámos os olhos
por um velho texto de Jorge Listopad
«Ontem, quando aqui
contei que abri o livro Os Poemas
Possíveis de José Saramago, com uma faca própria para abrir livros,
que também servia para abrir as cartas, quando havia cartas, quando as pessoas,
por escrito, se correspondiam, lembrei-me de um velho texto de Jorge Listopad
publicado na sua coluna «Secos
&Molhados» que, durante anos, manteve na última página do «Diário de Notícias.»
Essas notas, essas fichas, foram,
mais tarde, reunidas em livro, que Listopad também titulou como Secos Molhados.
É dele que transcrevo O Caso da Faca de Papel:
De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem leitor que fui. A faca de
papel.
Hoje em dia são raros os livros que precisam de faca
para abrirem as páginas; os livros vendem-se já com as páginas cortadas. Sem
dúvida, a leitura é mais cómoda. Ganhe-se em tempo o que se perde por outro
lado: em “controle” de que o livro “foi” aberto e não é apenas uma prenda
platónica ou um ornamento de biblioteca; em higiene e, sobretudo, no sentimento
de sermos nós os primeiros a abrir as páginas do mistério do novo mundo que
cada livro representa, fechado. Sem esquecer que esse tempo de trabalho manual,
habitualmente acompanhado de umas primeiras paragens de leitura supragiagonal,
mas quão impressiva, representa um contacto físico e quase amoroso com o papel
impresso que é mais do que isso.
A ferramenta fora de uso morre. A faca de papel, belo
objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura.»
Qualquer dia tens finalmente de contar a alguém, talvez a teu filho, ao nosso
filho, refractário indivisível, que te amei muito e fazia bem amor contigo. Uma
vez, hoje, tomámos banho nus, ouvimos o Requiem KV 626, trouxeste a pêra parda
cozida até à água transbordante; depois vesti-me com a camisola comum e fui,
vou comprar a canela para fazeres o arroz. Com a canela compro sempre um pouco
de proa ao vento azul do velho barco de um oriente de estampa, criado na pátria
de água doce. Ao regressar, subindo a rua, amo-te. O futuro ainda vai no adro;
a leve aragem do indicativo presente ondula o ar, mas quase não há fronteiras,
tempos verbais, margens, e se não houvesse as colheitas de castanhas, não sabia
soube que é era será outono no outeiro chamado mais exactamente outubro segundo
o calendário gregoriano.
Em que momento é que
se zangou com o Cardoso Pires?
Começou muito cedo. Ele era um tipo muito
consciencioso a escrever e mostrava-me sempre primeiro. Um dia ele estava a
ler-me um texto e eu mostrei-me desinteressado, e ele disse: «Tu não estás a
ligar nenhuma!» E eu respondi: «Não estou, porque não estou a gostar.» Ficou
todo chateado. E depois ele chegou-se muito aos comunistas, para ter apoios,
para ter público… Este último livro o Alexandra Alpha já
nem li, e a Balada da Praia
dos Cães é um disparate. Há
um livrinho do cabo, um livrinho de memórias, bem não tem valor literário, mas
é um documento muito mais giro que a Balada da Praia dos Cães.
E como surgiu a ideia de fazer um livro a partir
de um conjunto de cartas?
No tempo do fascismo, a epistolografia
era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas, eu
gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me
apetecia. O Pacheco vs. Cesariny é
um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa.
Literária e não só…
Mas as pessoas não se chatearam de lhes publicar as cartas?
Alguns sim. Mas eu não podia publicar as
minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu,
dar o nome aos bois. Depois um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca mais
me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe
que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário.
Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca eram mais de
100 ou 200 paus…
Legenda: José Cardoso
Pires no Bar Americano no Cais do Sodré.
Vamos acordar de manhã e estar mortos. Será tudo ainda mais leve e perguntarás:
«Queres o pequeno-almoço?» E eu, mais tarde: «Daremos parte do acontecimento
aos nossos amigos?» E tu: «Quais?»
Não nos será difícil descer a rua. Vamos então lembrar-nos de que é mês de
Agosto, em Lisboa, apesar do chuvisco suíço.
«Quantos dedos tem a chuva? Muitos?»
«Cinco», digo.
«Só?»
«Em cada mão.»
«Apanha-se bom ar». Pego os teus dedos com desapego. Dedos de yoga.
Iremos. Leves. Em simpatia térmica com tudo. A paz finalmente. A administração
frugal: excepcionalmente banal, como a saudade de corpo e alma sem regresso e
sem perspectiva além dessa rua longa, estreita, irregular, de natureza boa e
segura.
Continuará a chover mas não vamos ficar molhados. As frases curtas, sempre mais
curtas. Mais curtas. Curtas.
Acabo a perguntar: «Escrevo tudo isto?»
Escrevo no meio da cidade silenciosamente percorrida, com chuva a cair nas
artes gráficas.
Este livro, Fruta Tocada por Falta de Jardineiro, de Jorge Listopad, editado pela Quasi, é o
1º volume que reúne a sua prosa publicada ao longo dos anos.
A saber:
Tristão ou a Traição de um Intelectual
Contos Carcomidos
Estreitamento Progressivo
Primeiro Testamento
Secos e Molhados.
Não tenho
notícia de que tenham existido mais volumes a reunir a restante prosa.
Como seríamos
felizes se tivéssemos ao nosso dispor aqueles diários que Listopad fazia
publicar na última página do «JL», mais as histórias do seu Coelinho.
Conta a lenda
que Listopad, chegado ao Porto vindo de Praga, ou de Paris, ou de todo o lado, aprendeu português em escassíssimos meses lendo O Crime do Padre
Amaro do Eça de Queiroz.
Agustina
Bessa-Luís escreveu, para este livro, o prefácio e arranca definitiva:
« Falar de Jorge Listopad é para mim falar do porto.
Foi lá que o conheci, e onde começámos uma amizade que o humor não permitiu que
o tempo ofuscasse. O humor é, nas pessoas, um elemento terrivelmente
desconhecido. Pode unir um povo inteiro como o não fazem os costumes e a
própria língua.»
E mais vai
dizendo que «não há como um humorista para ser poeta; delicioso e autêntico
poeta. Em geral não gosto daqueles poetas a quem, como dizia Nietzche, a dor
faz cacarejar como as galinhas. Nos autênticos poetas, o humor é prova duma
desilusão profunda. Algo que, por subtil, não tem nome, nem aspecto. É uma
sombra da dor, mas não é dor. É como o nome de Tristão – só é triste porque foi
nomeado na tristeza».
A sequência dosbeijos cortados pelo padre-censor, levou-me para este cartoon, publicado no
Cinéfilo nº 33 de 25 de Maio de 1974, da autoria de Rui, retratando a Comissão
de Censura da ditadura, durante e depois da projecção dum filme, em que gozavam à tripa
forra para depois nos roubaram a beleza dos filmes.
As datas não as tenho, apenas o recorte que penso ser do Diário de Lisboa.
É um texto de Jorge Listopad.
No tempo em que Proença de Carvalho, «um Maquiavel à moda do Minho», como lhe chamou José Mensurado,
tomou conta da RTP e colocou como directora de programas Maria Elisa.
Certamente, recebendo ordens de Proença, Elisa desatou a
despedir trabalhadores, «à esquerda e à
direita, mais à esquerda que à direita», entre os quais encontrava-se Jorge
Listopad.
Águas passaram por debaixo das pontes e chegou a vez de,
certo dia, Maria Elisa, mais duas jornalistas, ser despedida da RTP.
Listopad não esqueceu o que estava para trás, e escreveu
este
Checo de nascimento, cidadão do mundo por vontade
necessária de vagabundo culto.
Em Julho de 1981, Baptista-Bastos perguntou-lhe se era um
homem feliz: «Ah, sou! Mas não diga nada a ninguém
porque quer os deuses quer as pessoas, são invejosos da felicidade humana.»
Na Feira aparece
uma pessoa a comprar todos os meus livros. Põe-nos todos diante de mim para que
os autografe, os grossos e os finos, os caros e os baratos, trinta e tal contos
de papel, conforme vim a saber depois, e o que me desconcerta é que o homem não
é um convertido recente ao “saramaguismo, um adepto de fresca data, um neófito
disposto às mais loucas ousadias, pelo contrário, fala do que de mim leu com à
vontade e discernimento. Resolvo-me a perguntar-lhe a razão da ruinosa compra,
e ele responde simplesmente, com um sorriso onde aflorou uma rápida amargura:
“Tinha-os todos, mas ficaram na outra casa.” Compreendi. E depois de ele se ir
embora, ajoujado sob a carga, pus-me a pensar na importância dos divórcios na
multiplicação das bibliotecas…
Por duas vezes, ou talvez tivessem sido três,
apareceram-me na Feira do Livro de Lisboa, em anos passados, outros tantos
leitores, os dois ou os três, ajoujados ao peso de dezenas de volumes novos,
comprados de fresco, e em geral ainda acondicionados nos sacos de plástico de
origem. Ao primeiro que assim se me apresentou fiz-lhe a pergunta que me
pareceu mais lógica, isto é, se o seu encontro com o meu trabalho de escritor
havia sido para ele coisa recente e, pelos vistos, fulminante. Respondeu-me que
não, que me lia desde há muito tempo, mas que se tinha divorciado, e que a ex-esposa,
também leitora entusiasta, havia levado para a sua nova vida a biblioteca da
família agora desfeita. Ocorreu-me então, e sobre isso escrevi umas linhas nos
velhos Cadernos de Lanzarote, que seria interessante estudar o assunto do
ponto de vista do que nessa altura designei como a importância dos divórcios na
multiplicação das bibliotecas. Reconheço que a ideia era algo provocadora, por
isso deixei-a em paz, ao menos para não vir a ser acusado de colocar os meus
interesses materiais acima da harmonia dos casais. Não sei, nem o imagino,
quantas separações conjugais terão dado origem à formação de novas bibliotecas
sem prejuízo das antigas. Dois ou três casos, que tantos são os que conheci,
não foram suficientes para fazer nascer uma primavera, ou, por palavras mais
explícitas, por aí não melhoraram nem os lucros do editor, nem a minha cobrança
direitos de autor.
Há um pequeno
texto de Jorge Listopad, provavelmente publicado no JL, não encontro a
data, muito bonito e em louvor das máquinas de escrever. Acredito que muito boa
agente desconheça do que se trata:
Tinha um vizinho desconhecido. Mas ouvia-o a escrever
à máquina às mais variadas horas nocturnas. Agora reina o silêncio. Pergunto:
morreu? Foi raptado? Mudou-se? Comprou um computador?
Seja como for, celebro a memória daquela máquina de
escrever, desconhecida.
Sabe-se que
Fernando Assis Pacheco, uma das muitas suas imagens de marca, martelava o
teclado da sua máquina de escrever HCESAR, apenas com o dedo indicador da mão
direita e que se perguntava a Augusto Abelaira por que é que ele demorava tanto
tempo a publicar um livro:
É que eu escrevo
à mão e depois passo à máquina. Só que depois de uma primeira passagem à
máquina vêm as modificações. Então é preciso passar tudo de novo à máquina.
Um dia hei-de
falar da minha máquina de escrever, também uma HCESAR.
Mário-Henrique
Leiria nasceu a 2 de Janeiro de 1923 e morreu a 9 de Janeiro de 1980.
Há quem diga que
morreu de fome, de prolongado abandono. O Luiz Pacheco não concordava e escreveu:
Não dei por tal. Da última vez que o visitei na Vivenda Xavier, em
Carcavelos, estava doente, acamado. Mas dotado do humor mordaz que sempre lhe
conheci. Rimo-nos muito, como de costume. Não viveria no luxo, tão-pouco caíra
no lixo. Diminuído no físico, alerta e destro no espírito.
Jorge Listopad:
Nada de Passadismos para os «Secos & Molhados», disseram-me.
Por isso hoje começo por Mário-Henrique Leiria que
morreu há uma semana. Tão presente. Escritor e poeta que baralhou as cartas de
todas as convenções, o humorista de origem melancólica, magíster da ironia mordaz e terna, ao
observar o mundo como o fruto surrealista de coincidências artísticas, realmente
muito «chateado» com a desordem da ordem.
Lisboeta, nasceu em 1923. Curriculum: Belas-Artes, não acabadas, movimento surrealista,
marinha mercante, caixeiro de praça, metalúrgico, caminheiro (estradeiro, como
diz Mário de Andrade), Europa Latina, Balcãs, Transibéria (?), Carcavelos, Carcavelos-hospital.
Autor de poesia, de centenas de textos jornalísticos,
de contos, cujo livro Contos do
Gin-Tonic em 73, no último marcelismo, foi um best-seller pela
qualidade e livre respiração.
Chegaram depois a sua casa e disseram-lhe:
- Mas você não consegue escrever coisas compridas!
Isso que faz é uma miséria.
Há 70 anos, no
nº 30 da Avenida Guerra Junqueiro, a Mexicanaabriu portas.
Um dos símbolos
das Avenidas Novas, zona-menina-bonita dos olhos do salazarismo.
Uma lindíssima casa,
concebida e decorada com gosto, o charme dos anos 50/60, mas que nos últimos
tempos tem sofrido diversas alterações que não a beneficiaram, bem pelo
contrário.
Não houvesse a
circunstãncia de estar considerada com imóvel de utilidade pública, e o crime
seria bem mais desastroso.
A Praça de
Londres, a Avenida de Roma, chegaram a constituir uma respeitável concentração
de cafés e pastelarias.
Desse conjunto
resta a Mexicana e, já perto da Avenida dos Estados Unidos, o Vá-Vá e
a Luanda.
Tudo o resto,
pelos motivos mais diversos, fechou portas.
É assim que se
envelhece…
Não havia ida ao
Cinema Star ou ao Cinema Londres sem uma paragem, antes ou
depois, na esplanada da Mexicana.
A efeméride é
motivo para ir buscar um velhinho texto do Jorge Listopad:
Não sei porquê, mas habitualmente em Dezembro, a
alguns dias ou semanas antes da ditadura directa do Natal, regresso, se
possível, num dia solarengo, à Mexicana. Matar saudades? Saudades de quê? O
repouso anual do guerreiro, nesse café arquitectonicamente, na sua época bem
pensado (este ano um tanto restaurado e limpo), hoje o ninho da terceira idade com
o passado modernista das Avenidas Novas. Portanto, acomodo-me, tomo a bica e
“croissant perfeito, para depois continuar nesta balbúrdia entre Marks
&Spencer e os livros da Barata. Muito a observar: a cidade.
Se existiu
alguém que deu trabalho aos Correios de Portugal, Luiz Pacheco está no pelotão
da frente.
Através do seu
ficheiro pessoal enviava aos leitores, à cobrança, os livros da Contraponto,
Por tudo e por
nada, enviava, cartas e bilhetes-postais, a meio mundo e parte do outro.
Numa entrevista
chegou a observar:
«As pessoas dizem «estou a ler», «tenho à cabeceira»,
mas não lêem. Dizem que não têm tempo: não têm é hábitos de leitura.»
Para os livros
da Contraponto Pacheco não invocava nada.
Lessem ou não
lessem, o importante é que mandassem o guito, para ajudar à sobrevivênciazinha.
Serafim
Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa,
que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e
1996.
Do prefácio:
«No entanto, talvez seja através das suas cartas que
epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de
nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas
amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das
Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso
de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na
linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito
a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento
pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas e depoimentos que se conhecem.»
Já em Maio de
1974, Pacheco lança, na Estampa, Pacheco Versus Cesariny,um folhetim
inventado e montado.
Entre a muita
correspondência que por lá abunda, há uma carta do crítico e escritor Manuel de
Lima, que começa assim:
«Acabo de saber, com grande surpresa e algum alarme
que, todas as vezes, que lhe escrevia por uma simples necessidade de comunicar
consigo, estava inadvertidamente a escrever para a história.»
Na conversa que
Rui Zink e Carlos Quevedo mantiveram com Luiz Pacheco, foi-lhe perguntado como
tinha surgido a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas.
Pacheco
respondeu:
«No tempo do fascismo, a epistolografia era
considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas eu gostava
muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia.
O Pacheco versus Cesariny é um
documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa.
Literária e não só.»
Os jornalistas lembram-lhe
que as pessoas podiam ficar chateadas com a publicação das cartas.
Pacheco não
desarma:
«Alguns sim. Mas
eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso
sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois, um dia apareceu o
Listopad a dizer que nunca maus me ia escrever nada, porque eu podia publicar
as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não
tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá
dentro. Também, nunca era mais de 100 ou 200 paus…»
Em Fevereiro de
2002, Bernardo de Sá Nogueira, edição Alexandria, transcreve treze cartas e
quatro postais de Luiz Pacheco para o poeta António José Forte. O livro chama-se Mano Forte.
Pacheco não
gostou.
Na entrevista a
João Pedro George, publicada em O Crocodilo que Voa, explicou:
«Um tipo sabe que fulano António José Forte, por
exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais. Guardou, morreu, foi
para às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem…
Depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial, e
faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma,
este livro é uma golpada, é de rabo à mostra…»
Luiz Pacheco no
seu Memorando, Mirabolando, Setembro de 1995 para além de outros textos,
publica cartas enviadas a Mário Cesariny de Vasconcelos, Pepe Blanco, Jaime
Aires Pereira, Jaime Salazar Sampaio, Vitor Silva Tavares e Maria Manuela
Ferreira.
Muito mais
postais e cartas existirão por aí espalhados em jornais, jornalecos, revistas,
revistecas.
Talvez algum dia
se faça a necessária divulgação de toda essa correspondência.