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sábado, 16 de maio de 2020

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Quando o meu pai não quis ir ver o Cinema Paraíso, o filme de Giuseppe Tornatore, andou para ali às voltas e fiquei com a vaga ideia de me ter falado numa crónica do Carlos Pinhão que eu não tinha lido, pelo que não lhe pude adiantar qualquer comentário e nasceu por ali um qualquer silêncio.

Acabei por recuperar essa crónica do Carlos Pinhão.

Lia-a mais que uma vez, ainda hoje voltei a relê-la, e não encontro qualquer motivo de, por ela, o meu pai não querer ir ver o filme.

Passado todo este tempo, os motivos eram outros. Bem fortes e sem qualquer porta de saída, a não ser aquela que veio a acontecer.

Mas fica a crónica do Carlos Pinhão:


Como complemento fica também uma crónica do Jorge Listopad, sobre Cinema Paraíso:

quinta-feira, 9 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Quinta-feira, dita de Paixão.

O mais duro dos percursos.

De quem sabe que a morte pode estar ligada ao estupor de um vírus, que caminhou de muito longe para nos atormentar os dias, mas também as amarguras profundas,  solidões muito grandes, de quem não soube lidar com as fraquezas que minam cada um de nós.

Será que o destino é cruel?

Talvez, mas acima de tudo é um tipo sem moral nenhuma.

Somos, por isto ou por aquilo, uns meros doentes da vida.

«E só as crianças se riem durante o sono», como escreveu Jorge Listopad.

 O velho Woody Allen gostava de marcar distâncias: 

«Não é que eu esteja com medo de morrer. Apenas não quero estar lá quando isso acontecer.»

Já que te acusam de citares muito, coloca mais três citações:

Escreveu  o poeta e filósofo José Tolentino Mendonça:

«Muitas vezes Deus prefere entrar em nossa casa quando não estamos.»

O poeta transmontano A.M. Pires Cabral:

«Que de tudo se precisa nesta vida. Na outra, por enquanto não se sabe»

Marguerite Yourcenar:

«não creio como eles crêem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.»

A música, bom a música é o coro final da Paixão Segundo São Mateus de Johann Sebastian Bach.

De tudo se precisa nesta vida, é certo, mas esta música não poderá deixar de nos acompanhar, sejam quais forem os passos que necessitamos de percorrer.



1.

Todo o tempo desta Páscoa, vai ser molhado.

Choveu, em Lisboa, durante todo o dia.

Lembro-me do poeta José Gomes Ferreira, à janela da varanda da sua casa, no 2º Frente Esquerdo do nº 33 da Avenida Rio de Janeiro,  a ver a chuva cair e a lembrar-se que aquela chuvinha era uma bênção para os nabos e outras hortaliças, que tinha plantados na sua casa de Albarraque, num terreno herdado do seu pai, projecto do filho do poeta  Raul Hestnes Ferreira, com o patiozinho voltado para poente, a desenhar com os olhos a Serra de Sintra.

2.

Obrigo-me a que estes dias de pesadelo se tornem ligeiramente diferentes.

Meto-me com os livros, alinho na música e em filmes comprados pela Aida, alguns ainda com o celofane de compra, remexo em montes de jornais, caixas com recortes, com o desejo de os enfiar no lixo, mas há sempre uma qualquer linha, uma palavra que obriga a reguardá-los.

Lembro-me da casa do Mário Castrim, na Rua dos Lusíadas.

Livros e jornais por tudo o que era sítio, e eu a perguntar-lhe como é que ele se orientava com a livralhada espalhada pela casa?

«Quando preciso de algum, assobio e ele aparece.»

Os dias desta semana têm merecido visitas a José Gomes Ferreira.

Hoje fui apanhado a falar sozinho por essas ruas… Que o primeiro poeta que nunca falou sozinho pelas ruas se levante e me atire a primeira estrela! (Cá nós, os poetas, nunca atiramos pedras uns aos outros. Só atiramos estrelas).

3.

Quando os médicos entendem cuidar do seu quintalinho, esquecendo o resto, é provável que o cidadão comum não entenda as suas atitudes.

 O diretor do Serviço de Cirurgia Geral e Transplantação do Hospital Curry Cabral, Américo Martins, demitiu-se por ter visto impedida a proposta de reorganização do serviço na unidade.

«O Conselho de Administração não aceitou a criação de dois circuitos independentes” no Curry Cabral para manter, como propunham os médicos, os serviços destinados aos doentes oncológicos e transplantados no Curry Cabral».

Já há dias, o médico cirurgião Eduardo Barroso dizia não compreender a decisão de encerrar a unidade do Centro Hepatobiliopancreático e de Transplantação do Curry Cabral para que o hospital se possa dedicar a receber apenas doentes infetados com o novo coronavírus, considerando o encerramento demagógico e preocupante.

Como continuamos a ouvir o Bastonário da Ordem dos Médicos a pontapear as decisões do governo, esquecendo (?) tudo o resto, é normal que nos interroguemos sobre as críticas e decisões dos médicos.

Em tempo de pandemia não me parece muito correcto que se pense apenas em vaidadezinhas particulares, no quintalinho de cada médico…


4.

 A Brisa já accionou o mecanismo para ser indemnizada pelo Estado.

5.

O senador Bernie Sanders abandonou a corrida presidencial americana:

«Não posso, em consciência, manter uma campanha sem condições de vencer e que interferiria no que a todos é exigido nesta hora difícil

6.

Em abono da verdade, não li a crónica de última página do direitista-cronista-com-a-mania-que tem-graça-João-Miguel-Tavares, olhei apenas o título:

«Meter as pessoas dentro de casa foi fácil. E tirá-las?»

O Dudu chateava-se que lhe chamassem a atenção para o facto de, mesmo sem ter visto o filme, dizer que era uma merda.

Caro direitista-Tavares:

Nem uma coisa nem outra estão no capítulo das facilidades terrenas.

Não foi fácil as pessoas ficarem nas suas casas, não vai ser fácil tirá-las de lá!

Os jornais, as televisões só deviam aceitar colaboradores que apresentassem provas de que se lavam todos os dias!

7.

Os negros números:

Itália

18.279 mortes

Espanha

15.238 mortes

Estados Unidos

14.695 mortes

França

12.210 mortes

Grã-Bretanha

7.097 mortes

Irão

4.110 mortes

China

3.215 mortes

Bélgica

2.523 mortes

Alemanha

2.451 mortes

Holanda

2.396 mortes

Portugal

409 mortes

Mundo

93.425 mortes

8.

«Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida»

António Ramos Rosa

sábado, 28 de março de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS



Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

IRISH OAK


Tanto quanto me lembro comecei a fumar cachimbo pelos meus quinze anos.

Por curiosidade, por uma qualquer maneira de querer ser diferente, diferente dos que fumavam cigarros. Hoje fumo cachimbo por prazer. Fumar cachimbo é uma maneira de estar, filosófica, assim como acariciar gatos. Cada vez que pego num cachimbo para o fumar, sinto sempre a tal diferença.

As minhas primeiras marcas de tabaco foram os incontornáveis “Mayflower”, o “Clan” o “Gama”. Mais tarde fixei-me no “Revelation”, um agradável “Smoking Mixture” da Philip Morris e que nos pacotes em lugar do estúpido “Fumar Mata” tinha “it’s mild and mellow”. Nos finais dos anos 70 deixaram de o fabricar e mais tarde descobri o “Captain Black”.

Conheci-o através do agente da "Aminter" em Ponta Delgada. Na primeira vez que apareceu no escritório deixou um inebriante perfume, que mais tarde o Paulo Rodrigues definiu como sabor a caramelo. Na altura não se vendia em Lisboa, mas o Nascimento lembrou-se que tinha um cunhado a trabalhar da Base aérea das Lajes e passei a receber latas de meio quilo de “Captain Black” a um preço “five Stars”. Entretanto passou a vender-se em Lisboa.

Um dia ao ler um livro do Jorge Listopad dei com uma marca de tabaco de cachimbo que ele achava muito bom, mas, lamentava-se, que só se vendia nos "free shops "dos aeroportos.

Como o Miguel viaja muito, pedi-lhe que me tentasse arranjar uma embalagem.

Nunca o encontrou, nem em Paris, nem nas "free shops” dos diversos aeroportos por onde passava.

Mas um dia surpreendeu-me com um saquinho com três latas de “Irish Oak”.

Tinha-o descoberto numa pequena loja de tabacos em Bruxelas, junto à estação de caminhos de ferro.

Pode ser que ele, um dia, se disponibilize, para nos contar, aqui, os pormenores.

Há um bom par de anos, em conversa com o Miguel Alves, lamentava-se das suas cada vez maiores dificuldades em comprar “Captian Black” em Lisboa. Disse-lhe que, depois do encerramento das tabacarias no Rossio, passei a comprá-lo numa loja do Centro Comercial Vasco da Gama.

Aproveitei para lhe contar a história com o “Irish Oak” e falar do Jorge Listopad.

A história chama-se “Pernoitar” e encontra-se no livro Em Chinatown com a Rosa:

É esta a história:

«Emergiu da noite, não, eram dois, sim, emergiram da noite, mas como se ela não existisse, até àquele momento eu estava sentado sozinho na esplanada com as cadeiras empilhadas e arrumadas, a noite e ninguém, estava sentado numa cadeira branca de abrir e fechar, a única que não fora presa pela corrente, fumava cachimbo, “Irish Oak”, o tabaco que outrora Graham Greene me mandara com um cachimbo “Peterson”, uma oferta por tê-lo acompanhado, eu ou a Clara ou nós os dois, pela cidade ainda alvoroçada, por tê-lo apresentado às novas personalidades, ter-lhe aberto as portas das instituições e dos clubes revolucionários, habituei-me ao “Irish Oak” nem sempre fácil de arranjar, nem mesmo no “free shop” dos aeroportos, estou sentado e penso tabaco, tabaco, o fumar divino, paz e sossego, stop, Virgem Maria, arco do céu, se eu quisesse ouviria o mar, as gaivotas estão a dormir, eis senão quando emergiu da noite à noite, mas afinal eram dois, ele sentou-se no muro e disse boa noite, o que em Portugal não significa que se vá dormir já, mas algo como noite acordada e que seja boa, que a vida continue na escuridão.
Interromperam o meu fluxo silencioso de palavras e o navegar em ideias aproximadamente formadas pelas palavras, tal como agora interrompi a frase anterior que não tinha fim. Cumprimentei-o, pois, com essa mesma boa noite à portuguesa, procurei e no bolso encontro o isqueiro e esperei, esperei enquanto aguardava. Sentou-se no muro. Ela ficou ao pé, afastou-se. O cachimbo era excelente, embora seja evidente que um cachimbo aceso pela segunda vez deixa de ser tão cheiroso e saboroso. “Irish Oak”. Na tampa da caixinha redonda de lata um carvalho verde, um quadro que no escuro tem de ser imaginado. Ao longe as luzes baças de um barco de pescadores. A oscilarem no ar incerto. Como numa narrativa.
- Rouba-se muito por aqui, aventurou ele.
- Onde, aqui?
- Em Portugal.
Era uma frase muito sintética. Inusitadamente sintética. Eu não estava acostumado a isso.
- Fui seu aluno, senhor professor, disse depois.
No dia anterior eu tinha estado com os pescadores. Tinha percebido que toda a pesca é um conflito. Com o mar, com as redes, com a organização do próprio trabalho, com o sistema da entreajuda.
- Professor de quê? Perguntei baixinho, devagar, sem quase ter perguntado. Algures, alguém pôs uma motocicleta em marcha.
- Foi há muito tempo.
Ninguém me dirá nada de novo, afirmou Zaratustra. Não quero ouvir nada de novo, eu. Mas quem é o eu?. Quem é Zaratustra? Cada dia nos aproxima mais. Mas aproxima de quem? De quê?
Não tinham onde dormir. Dormiram no meu quartinho. Coisas que se curam, que não se curam. Eu tinha tempo. O tempo ainda me pertencia.»

Texto publicado em 28 de Fevereiro de 2010

sábado, 11 de janeiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


As minhas bibliotecas foram-se fazendo e desfazendo com casamentos, divórcios, separações…

Jorge Listopad

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

CACHIMBO


Perdi-o. E gostei tanto desse cisne negro, companheiro Leal dos bons e maus momentos. Não foi a primeira vez que perdi um cachimbo, mas a última é sempre mais dolorosa.

Perdi, não sei onde.


Dir-se-á que o facto não interessa a ninguém. De acordo.


Todavia, noite alta, tento relembrar os lugares onde o podia ter deixado. No transporte? No café? No jornal onde deixei o meu escrito numa correria para o emprego? No emprego? Em que andar de que reunião? Ou foi depois, ao almoço de peixe grelhado naquela tasca (que o pretende ser), ou quando dei um salto ao correio? Teria sido na sala de montagem onde estive a trabalhar, cheia de filmes, de coladeiras, entradas, saídas? No Conservatório, à noite? Talvez na Secretaria onde tive de preencher um papel selado? Na leitaria do bairro Alto onde bebi uma coca entre duas aulas? No cinema da meia-noite, para não perder enfim o filme tantas vezes perdido?


Tanta gente, tantos lugares; e eu em todos imagino o meu gesto com o cachimbo na mão. Imagino e vejo. E vejo o cachimbo, abandonado. Como se em todos os lados tivesse deixado o meu cisne negro, companheiro leal.


Ninguém tem nada com isto, bem sei.


Todavia, agora, noite alta, cismo quantos e diferentes lugares e espaços frequentei num dia banal, frequentei, estive, vivi, existi, para estar, existir. Odisseia em ponto pequeno. Sobre isso James Joyce escreveu um grande romance. Em vez de Lisboa, Dublin. Tanto faz.


Ele, um grande romance. Eu, esta pobre nota; na origem, porém, a mesma violenta vertigem da vida inominável.

Jorge Listopad de Secos &Molhados em Fruta Tocada por Falta de Jardineiro

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

PRAZERES



No dia 28 de Julho de 2010 recordámos, aqui, esse saudoso objecto que era um dos acessórios que, em tempos antigos, nos acompanhava no prazer da leitura, sem nunca esquecer o indispensável lápis para sublinhados.

E passámos os olhos por um velho texto de Jorge Listopad

«Ontem, quando aqui contei que abri o livro Os Poemas Possíveis de José Saramago, com uma faca própria para abrir livros, que também servia para abrir as cartas, quando havia cartas, quando as pessoas, por escrito, se correspondiam, lembrei-me de um velho texto de Jorge Listopad publicado na sua coluna «Secos &Molhados» que, durante anos, manteve na última página do «Diário de Notícias.»

Essas notas, essas fichas, foram, mais tarde, reunidas em livro, que Listopad também titulou como Secos Molhados.

É dele que transcrevo O Caso da Faca de Papel:

De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem leitor que fui. A faca de papel.
Hoje em dia são raros os livros que precisam de faca para abrirem as páginas; os livros vendem-se já com as páginas cortadas. Sem dúvida, a leitura é mais cómoda. Ganhe-se em tempo o que se perde por outro lado: em “controle” de que o livro “foi” aberto e não é apenas uma prenda platónica ou um ornamento de biblioteca; em higiene e, sobretudo, no sentimento de sermos nós os primeiros a abrir as páginas do mistério do novo mundo que cada livro representa, fechado. Sem esquecer que esse tempo de trabalho manual, habitualmente acompanhado de umas primeiras paragens de leitura supragiagonal, mas quão impressiva, representa um contacto físico e quase amoroso com o papel impresso que é mais do que isso.
A ferramenta fora de uso morre. A faca de papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura.»

domingo, 23 de setembro de 2018

OUTONO


Qualquer dia tens finalmente de contar a alguém, talvez a teu filho, ao nosso filho, refractário indivisível, que te amei muito e fazia bem amor contigo. Uma vez, hoje, tomámos banho nus, ouvimos o Requiem KV 626, trouxeste a pêra parda cozida até à água transbordante; depois vesti-me com a camisola comum e fui, vou comprar a canela para fazeres o arroz. Com a canela compro sempre um pouco de proa ao vento azul do velho barco de um oriente de estampa, criado na pátria de água doce. Ao regressar, subindo a rua, amo-te. O futuro ainda vai no adro; a leve aragem do indicativo presente ondula o ar, mas quase não há fronteiras, tempos verbais, margens, e se não houvesse as colheitas de castanhas, não sabia soube que é era será outono no outeiro chamado mais exactamente outubro segundo o calendário gregoriano.

Jorge Listopad de Primeiro Testamento em Fruta Tocada por Falta de Jardineiro

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

FICOU TODO CHAREADO



Em que momento é que se zangou com o Cardoso Pires?

Começou muito cedo. Ele era um tipo muito consciencioso a escrever e mostrava-me sempre primeiro. Um dia ele estava a ler-me um texto e eu mostrei-me desinteressado, e ele disse: «Tu não estás a ligar nenhuma!» E eu respondi: «Não estou, porque não estou a gostar.» Ficou todo chateado. E depois ele chegou-se muito aos comunistas, para ter apoios, para ter público… Este último livro o Alexandra Alpha já nem li, e a Balada da Praia dos Cães é um disparate. Há um livrinho do cabo, um livrinho de memórias, bem não tem valor literário, mas é um documento muito mais giro que a Balada da Praia dos Cães.

E  como surgiu a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas?

No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas, eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco vs. Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só…

Mas as pessoas não se chatearam de lhes publicar as cartas?

Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca mais me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca eram mais de 100 ou 200 paus…

Legenda: José Cardoso Pires no Bar Americano no Cais do Sodré.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

CHUVA


Vamos acordar de manhã e estar mortos. Será tudo ainda mais leve e perguntarás: «Queres o pequeno-almoço?» E eu, mais tarde: «Daremos parte do acontecimento aos nossos amigos?» E tu: «Quais?»
Não nos será difícil descer a rua. Vamos então lembrar-nos de que é mês de Agosto, em Lisboa, apesar do chuvisco suíço.
«Quantos dedos tem a chuva? Muitos?»
«Cinco», digo.
«Só?»
«Em cada mão.»
«Apanha-se bom ar». Pego os teus dedos com desapego. Dedos de yoga.
Iremos. Leves. Em simpatia térmica com tudo. A paz finalmente. A administração frugal: excepcionalmente banal, como a saudade de corpo e alma sem regresso e sem perspectiva além dessa rua longa, estreita, irregular, de natureza boa e segura.
Continuará a chover mas não vamos ficar molhados. As frases curtas, sempre mais curtas. Mais curtas. Curtas.
Acabo a perguntar: «Escrevo tudo isto?»
Escrevo no meio da cidade silenciosamente percorrida, com chuva a cair nas artes gráficas.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

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Este livro, Fruta Tocada por Falta de Jardineiro, de Jorge Listopad, editado pela Quasi, é o 1º volume que reúne a sua prosa publicada ao longo dos anos. 

A saber:

Tristão ou a Traição de um Intelectual
Contos Carcomidos
Estreitamento Progressivo
Primeiro Testamento
Secos e Molhados.

Não tenho notícia de que tenham existido mais volumes a reunir a restante prosa.

Como seríamos felizes se tivéssemos ao nosso dispor aqueles diários que Listopad fazia publicar na última página do «JL», mais as histórias do seu Coelinho.


Conta a lenda que Listopad, chegado ao Porto vindo de Praga, ou de Paris, ou de todo o lado, aprendeu português em escassíssimos meses lendo O Crime do Padre Amaro do Eça de Queiroz.

Agustina Bessa-Luís escreveu, para este livro, o prefácio e arranca definitiva:

« Falar de Jorge Listopad é para mim falar do porto. Foi lá que o conheci, e onde começámos uma amizade que o humor não permitiu que o tempo ofuscasse. O humor é, nas pessoas, um elemento terrivelmente desconhecido. Pode unir um povo inteiro como o não fazem os costumes e a própria língua.»

E mais vai dizendo que «não há como um humorista para ser poeta; delicioso e autêntico poeta. Em geral não gosto daqueles poetas a quem, como dizia Nietzche, a dor faz cacarejar como as galinhas. Nos autênticos poetas, o humor é prova duma desilusão profunda. Algo que, por subtil, não tem nome, nem aspecto. É uma sombra da dor, mas não é dor. É como o nome de Tristão – só é triste porque foi nomeado na tristeza».

Para, definitiva, acabar por escrever:

«O melhor de Listopad são os pequenos textos, questão de gostos.»

Legenda:  contra capa de Fruta Tocada por Falta de Jardineiro

terça-feira, 17 de abril de 2018

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A sequência dosbeijos cortados pelo padre-censor, levou-me para este cartoon, publicado no Cinéfilo nº 33 de 25 de Maio de 1974, da autoria de Rui, retratando a Comissão de Censura da ditadura, durante e depois da projecção dum filme, em que gozavam à tripa forra para depois nos roubaram a beleza dos filmes.


A crónica de Carlos Pinhão, retirada do Público s/s, a tal crónica de que não consegui encontrar as pontas do novelo.



Crónica de Jorge Listopad, publicada no Diário de Lisboa de 23 de Abril de 1990.


Texto de Manuel Cintra Ferreira publicado no Público de 13 de Dezembro de 1991 referente à projecção do filme no Canal 1 da RTP.

domingo, 14 de janeiro de 2018

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Crónica publicada no Diário de Lisboa s/d.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

VELHOS RECORTES



As datas não as tenho, apenas o recorte que penso ser do Diário de Lisboa.
É um texto de Jorge Listopad.
No tempo em que Proença de Carvalho, «um Maquiavel à moda do Minho», como lhe chamou José Mensurado, tomou conta da RTP e colocou como directora de programas Maria Elisa.
Certamente, recebendo ordens de Proença, Elisa desatou a despedir trabalhadores, «à esquerda e à direita, mais à esquerda que à direita», entre os quais encontrava-se Jorge Listopad.
Águas passaram por debaixo das pontes e chegou a vez de, certo dia, Maria Elisa, mais duas jornalistas, ser despedida da RTP.
Listopad não esqueceu o que estava para trás, e escreveu este

FUR ELISE

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

JORGE LISTOPAD (1921-2017)


Checo de nascimento, cidadão do mundo por vontade necessária de vagabundo culto.
Em Julho de 1981, Baptista-Bastos perguntou-lhe se era um homem feliz:
«Ah, sou! Mas não diga nada a ninguém porque quer os deuses quer as pessoas, são invejosos da felicidade humana.»

domingo, 2 de julho de 2017

SARAMAGUEANDO


Há uma frase de Jorge Listopad:

As minhas bibliotecas foram-se fazendo e desfazendo com casamentos, divórcios, separações…

José Saramago fala de livros e divórcios no 1º Volume dos Cadernos de Lanzarote:

Na Feira aparece uma pessoa a comprar todos os meus livros. Põe-nos todos diante de mim para que os autografe, os grossos e os finos, os caros e os baratos, trinta e tal contos de papel, conforme vim a saber depois, e o que me desconcerta é que o homem não é um convertido recente ao “saramaguismo, um adepto de fresca data, um neófito disposto às mais loucas ousadias, pelo contrário, fala do que de mim leu com à vontade e discernimento. Resolvo-me a perguntar-lhe a razão da ruinosa compra, e ele responde simplesmente, com um sorriso onde aflorou uma rápida amargura: “Tinha-os todos, mas ficaram na outra casa.” Compreendi. E depois de ele se ir embora, ajoujado sob a carga, pus-me a pensar na importância dos divórcios na multiplicação das bibliotecas…

No 1º volume de O Caderno retoma o tema:

Por duas vezes, ou talvez tivessem sido três, apareceram-me na Feira do Livro de Lisboa, em anos passados, outros tantos leitores, os dois ou os três, ajoujados ao peso de dezenas de volumes novos, comprados de fresco, e em geral ainda acondicionados nos sacos de plástico de origem. Ao primeiro que assim se me apresentou fiz-lhe a pergunta que me pareceu mais lógica, isto é, se o seu encontro com o meu trabalho de escritor havia sido para ele coisa recente e, pelos vistos, fulminante. Respondeu-me que não, que me lia desde há muito tempo, mas que se tinha divorciado, e que a ex-esposa, também leitora entusiasta, havia levado para a sua nova vida a biblioteca da família agora desfeita. Ocorreu-me então, e sobre isso escrevi umas linhas nos velhos Cadernos de Lanzarote, que seria interessante estudar o assunto do ponto de vista do que nessa altura designei como a importância dos divórcios na multiplicação das bibliotecas. Reconheço que a ideia era algo provocadora, por isso deixei-a em paz, ao menos para não vir a ser acusado de colocar os meus interesses materiais acima da harmonia dos casais. Não sei, nem o imagino, quantas separações conjugais terão dado origem à formação de novas bibliotecas sem prejuízo das antigas. Dois ou três casos, que tantos são os que conheci, não foram suficientes para fazer nascer uma primavera, ou, por palavras mais explícitas, por aí não melhoraram nem os lucros do editor, nem a minha cobrança direitos de autor.

Legenda: pintura de Félix Vallotton

sexta-feira, 21 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


Sou um homem feliz mas não o digo a ninguém porque os deuses são ciumentos.

Jorge Listopad

segunda-feira, 17 de abril de 2017

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...



Há um pequeno texto de Jorge Listopad, provavelmente publicado no JL, não encontro a data, muito bonito e em louvor das máquinas de escrever. Acredito que muito boa agente desconheça do que se trata:

Tinha um vizinho desconhecido. Mas ouvia-o a escrever à máquina às mais variadas horas nocturnas. Agora reina o silêncio. Pergunto: morreu? Foi raptado? Mudou-se? Comprou um computador?
Seja como for, celebro a memória daquela máquina de escrever, desconhecida.

Sabe-se que Fernando Assis Pacheco, uma das muitas suas imagens de marca, martelava o teclado da sua máquina de escrever HCESAR, apenas com o dedo indicador da mão direita e que se perguntava a Augusto Abelaira por que é que ele demorava tanto tempo a publicar um livro:

É que eu escrevo à mão e depois passo à máquina. Só que depois de uma primeira passagem à máquina vêm as modificações. Então é preciso passar tudo de novo à máquina.

Um dia hei-de falar da minha máquina de escrever, também uma HCESAR.

Está ali, naquele canto, a olhar…

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

COMPREENDE, NÃO É?


Mário-Henrique Leiria nasceu a 2 de Janeiro de 1923 e morreu a 9 de Janeiro de 1980.

Há quem diga que morreu de fome, de prolongado abandono. O Luiz Pacheco não concordava e escreveu: Não dei por tal. Da última vez que o visitei na Vivenda Xavier, em Carcavelos, estava doente, acamado. Mas dotado do humor mordaz que sempre lhe conheci. Rimo-nos muito, como de costume. Não viveria no luxo, tão-pouco caíra no lixo. Diminuído no físico, alerta e destro no espírito. 

Jorge Listopad:

Nada de Passadismos para os «Secos & Molhados», disseram-me.
Por isso hoje começo por Mário-Henrique Leiria que morreu há uma semana. Tão presente. Escritor e poeta que baralhou as cartas de todas as convenções, o humorista de origem melancólica, magíster da ironia mordaz e terna, ao observar o mundo como o fruto surrealista de coincidências artísticas, realmente muito «chateado» com a desordem da ordem.
Lisboeta, nasceu em 1923. Curriculum: Belas-Artes, não acabadas, movimento surrealista, marinha mercante, caixeiro de praça, metalúrgico, caminheiro (estradeiro, como diz Mário de Andrade), Europa Latina, Balcãs, Transibéria (?), Carcavelos,  Carcavelos-hospital.
Autor de poesia, de centenas de textos jornalísticos, de contos, cujo livro Contos do Gin-Tonic em 73, no último marcelismo, foi um best-seller pela qualidade e livre respiração.
Chegaram depois a sua casa e disseram-lhe:
- Mas você não consegue escrever coisas compridas! Isso que faz é uma miséria.
- Coisas compridas, como?
- Bem, romances, crónicas autênticas, ensaios sólidos.
.-Não, isso não sou capaz.
- Então você não é um escritor.
- Pois não. Quem se atreveu a chamar-me tal coisa?
- Desculpe. Mas uma coisa comprida, por favor, não arranja?
- Quando as coisas vão a ficar maiores, deito logo fora. Compreende, não é?

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

OLHARES


Há 70 anos, no nº 30 da Avenida Guerra Junqueiro, a Mexicana abriu portas.

Um dos símbolos das Avenidas Novas, zona-menina-bonita dos olhos do salazarismo.

Uma lindíssima casa, concebida e decorada com gosto, o charme dos anos 50/60, mas que nos últimos tempos tem sofrido diversas alterações que não a beneficiaram, bem pelo contrário.
  
Não houvesse a circunstãncia de estar considerada com imóvel de utilidade pública, e o crime seria bem mais desastroso.

A Praça de Londres, a Avenida de Roma, chegaram a constituir uma respeitável concentração de cafés e pastelarias.

Desse conjunto resta a Mexicana e, já perto da Avenida dos Estados Unidos, o Vá-Vá e a Luanda.

Tudo o resto, pelos motivos mais diversos, fechou portas.

É assim que se envelhece…

Não havia ida ao Cinema Star ou ao Cinema Londres sem uma paragem, antes ou depois, na esplanada da Mexicana.

A efeméride é motivo para ir buscar um velhinho texto do Jorge Listopad:

Não sei porquê, mas habitualmente em Dezembro, a alguns dias ou semanas antes da ditadura directa do Natal, regresso, se possível, num dia solarengo, à Mexicana. Matar saudades? Saudades de quê? O repouso anual do guerreiro, nesse café arquitectonicamente, na sua época bem pensado (este ano um tanto restaurado e limpo), hoje o ninho da terceira idade com o passado modernista das Avenidas Novas. Portanto, acomodo-me, tomo a bica e “croissant perfeito, para depois continuar nesta balbúrdia entre Marks &Spencer e os livros da Barata. Muito a observar: a cidade.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

AS CARTAS DO PACHECO


Se existiu alguém que deu trabalho aos Correios de Portugal, Luiz Pacheco está no pelotão da frente.

Através do seu ficheiro pessoal enviava aos leitores, à cobrança, os livros da Contraponto,

Por tudo e por nada, enviava, cartas e bilhetes-postais, a meio mundo e parte do outro.

Numa entrevista chegou a observar:

«As pessoas dizem «estou a ler», «tenho à cabeceira», mas não lêem. Dizem que não têm tempo: não têm é hábitos de leitura.»

Para os livros da Contraponto Pacheco não invocava nada.

Lessem ou não lessem, o importante é que mandassem o guito,  para ajudar à sobrevivênciazinha.

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Já em Maio de 1974, Pacheco lança, na Estampa, Pacheco Versus Cesariny, um folhetim inventado e montado.

Entre a muita correspondência que por lá abunda, há uma carta do crítico e escritor Manuel de Lima, que começa assim:

«Acabo de saber, com grande surpresa e algum alarme que, todas as vezes, que lhe escrevia por uma simples necessidade de comunicar consigo, estava inadvertidamente a escrever para a história.»

Na conversa que Rui Zink e Carlos Quevedo mantiveram com Luiz Pacheco, foi-lhe perguntado como tinha surgido a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas.

Pacheco respondeu:

«No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco versus Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só.»

Os jornalistas lembram-lhe que as pessoas podiam ficar chateadas com a publicação das cartas.

Pacheco não desarma:

«Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois, um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca maus me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca era mais de 100 ou 200 paus…»

Em Fevereiro de 2002, Bernardo de Sá Nogueira, edição Alexandria, transcreve treze cartas e quatro postais de Luiz Pacheco para o poeta António José Forte. 

O livro chama-se Mano Forte.

Pacheco não gostou.

Na entrevista a João Pedro George, publicada em O Crocodilo que Voa, explicou:

«Um tipo sabe que fulano António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais. Guardou, morreu, foi para às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… Depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial, e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra…»

Luiz Pacheco no seu Memorando, Mirabolando, Setembro de 1995 para além de outros textos, publica cartas enviadas a Mário Cesariny de Vasconcelos, Pepe Blanco, Jaime Aires Pereira, Jaime Salazar Sampaio, Vitor Silva Tavares e Maria Manuela Ferreira.

Muito mais postais e cartas existirão por aí espalhados em jornais, jornalecos, revistas, revistecas.

Talvez algum dia se faça a necessária divulgação de toda essa correspondência.

Talvez…

Legenda: pintura de William Albanese