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domingo, 31 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

OLHARES

Aqui ainda é O Toni dos Bifes.

Um dos restaurantes mais antigos de Lisboa, na Rua Praia da Vitória, junto ao Saldanha.

Carlos de Oliveira morava no prédio ao lado de O Toni dos Bifes.

Almoçava por lá. Depois o Augusto Abelaira ia ter com ele, ou almoçava também, e depois iam para o Monte Carlo onde continuavam a aparecer mais escritores, pintores, cineastas, artistas de teatro e cinema.

Quando ainda havia cafés.

Os cafés eram locais privilegiados para as tertúlias.

 Locais de convívio e de escrita.

Augusto Abelaira terá sido o escritor que mas utilizou os cafés para a escrita dos seus romances.

Era vê-lo mergulhado na escrita/leitura de papeis, cachimbo em riste – podia-se fumar nos cafés, pois então!

Na Cister, na Alsaciana, na Coimbra, que ainda existem.

A primeira fase consiste em escrever, escrever, porque as fases seguintes, de reescrita e montagem, têm de ser em casa. Seria preciso andar com uma mala e espalhar muitos papéis.

Mais ainda:

Como eu escrevo nos cafés, o que eu precisava era que houvesse cafés para, durante a manhã, estar a escrever. Como os cafés vão desaparecendo, a possibilidade de escrever é cada vez menor. Quando todos os cafés tiverem desaparecido de Lisboa eu encerro a escrita. Deixo de escrever, isto é, vou morrer, quando fechar o último café em Lisboa onde possa escrever.


Jorge Silva Melo foi um assíduo frequentador dos cafés de Lisboa.

O seu livro de memórias No Século Passado está cheio de referências:

E era nos cafés, abertos desde manhã cedo e até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo isso se ia passando.

Também os Dias Comuns do José Gomes Ferreira estão cheios de referências dos cafés que frequentava com os escritores seus amigos e camaradas, cafés que iam fechando – naquele tempo com destino certo de dependências bancárias - e obrigava a arranjar outro refúgio.

Tal como no 4º volume desses Dias Comuns, José Gomes Ferreira conta:

6 de Janeiro de 1968

A Bel comunicou-me este triste recado do Carlos de Oliveira: o café Bocage, nosso ninho de longos anos Avenida da República vai fechar amanhã.

28 de Maio de 1968

Fechou o Martinho.
Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
- Mas será verdade’ – PERGUNTEI, INCRÉDULO.
- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no jornal da tarde.
Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do passado.
- E agora?
- Talvez o Paladium  nos restauradores.
- Pois seja o Paladium!


E nisto de cafés, no fechar da página, impossível não ir buscar o João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.

Texto publicado em 21 de Janeiro de 2016

terça-feira, 19 de maio de 2020

CONVERSANDO


Somerset Maugham colocou no seu romance O Mundo é Pequeno esta epígrafe:

«É, pois curta a vida do homem e estreito o canto da terra onde ele vive.»

Não tem indicação de autor, e até poderá ser do próprio Somerset Maugham.

Os governantes vão-nos dizendo que, aos poucos, podemos regressar aos nossos quotidianos.

Mas há tantas limitações!...

Não consigo ver como se pode viver assim…

E há o medo… sobretudo o medo…

O Jorge Silva Melo, como só ele sabe escrever (o texto completo pode encontrá-lo em Coffeepaste), mostra-nos as dificuldades que há nestas tentativa de viver… normalmente…

«Os teatros podem abrir daqui por uns dias, sim.

Mas serão teatros?

Ou só umas fachadas a fingir que vivemos “normalmente”?

Pode haver teatros se não há cidade? E a cidade – que nestes últimos anos de cruzeiros à porta morria da desenfreada especulação e se desertificava – não foi isso que morreu?

Pode haver cidade se não houver abraços?

Vivi a minha adolescência numa cidade – Lisboa – onde era proibido beijarmo-nos na rua. E sonhava com Paris onde os “os rapazes e raparigas da minha idade / caminhavam a dois e dois/ e sabiam o que era ser feliz / e de olhos nos olhos, de mão na mão / não tinham medo do amanhã”, tão linda a Françoise Hardy.

Pode haver rua, pode haver cidade, pode haver teatro se tivermos – como temos – medo?»

domingo, 29 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Está a findar mais um domingo desta quarentena de que não se conhece o fim.

O que me levou a guardar esta frase do Jorge Silva Melo, lida numa crónica do Público de 6 de Novembro de 2005?

«Tanta gente na rua, domingo em Lisboa, gente a passear, bonita de tanta gente.»

Ao tempo que isto foi, mas houve um motivo, motivo que conhecia no dia em que a guardei, agora não lembro qual foi, mas de certeza que não tinha nada a ver com  este domingo de Lisboa, triste, dramático, sem gente a passear nas ruas.

Nunca me entendi muito bem com Gustav Mahler.

As muitas dificuldades são minhas, reconheço.

Tempos houve que me dediquei a trasnpôr os osbstáculos do obsessivo Mahler.

Quase nenhuns resultados.

Hei-de continuar.

Disse Mahler:

«A tradição é alimentar o fogo, não ficar a olhar as cinzas.»

Neste domingo, deixo-vos com o final da sua 2ª sinfonia «Ressurreição», gravação de um dos Concertos Promenade.




1.

Os números negros:

Itália

10 779 mortes

 Espanha

6 802 mortes 

China

3 182 mortes

Irão

2 640 mortes

França

2 606 mortes

Reino Unido

1 228 mortes

Portugal

119 mortes

No Mundo

33.854

2.

Palavras de António Ramos Rosa, para o findar deste domingo e tiradas do seu livro O Aprendiz Secreto:

Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio, mas o pilar mais forte da construção será uma palavra. Tão viva e densa como o silêncio e que, nascida do silêncio, ao silêncio conduzirá. 

sábado, 18 de janeiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


Ensaiar é também aprender a morrer: e morrer também é deixar a vida.

OLHAR AS CAPAS


Deixar a Vida

Jorge Silva Melo
Edições Cotovia, Lisboa, Abril de 2002

E assim posso chegar a um novo ensaio geral: trabalhámos dois meses, as regras foram ultrapassadas, as hipóteses estão definidas, o espectáculo pode estrear amanhã. Durmo confiante: a vida vai entrar. Porque tudo o que fazemos nos sombrios dois meses de todas as dúvidas que são os ensaios foi deixar a vida entrar.
Não a quero espartilhar, dominar, dobrar. Quero que ela entre, imprevista, ao sopro tangente dos dias, delicada: em nome de um trabalho responsável.
Ensaiar é também aprender a morrer: e morrer também é deixar a vida.

terça-feira, 30 de abril de 2019

OLHARES


Não há vez alguma que passe pela porta do Gambrinus que não me lembre do Fernando Lopes.

Porque o balcão do Gambrinus era o lugar preferido do Fernando Lopes, tinha outros mas o Gambrinus é que era.

 Ao ponto de, numa entrevista deixou dito, cito de memória,  que um do seus grandes sonhos era ter ali uma placa bem visível com o seu nome, assim ao jeito das cadeiras de lona dos realizadores..

Maravilhado, ainda estou sentado da sala Estúdio do Cinema Império a assistir ao filme que Fernando Lopes realizou, adaptando Uma Abelha na Chuva de Carlos de Oliveira.

Jamais esquecerei.

Luís de Pina escreveu que Uma Abelha na Chuva de Fernando Lopes «é talvez o momento estético mais importante do cinema novo português.»

No dia da morte de Fernando Lopes, « um visionário que não teve mais eco» Jorge Silva Melo, velho companheiro do cineasta, escreveu:

«O cinema do Fernando Lopes tinha a liberdade e a delicadeza das composições de jazz. Tinha uma forte presença musical. E era o cinema da amizade porque é indissociável dos seus amigos. O Belarmino [começou assim, nas] noites de conversa e amizade no café na Avenida da Liberdade, que foi gravando na pedra. O Baptista-Bastos, o Alexandre O’Neill, o Alberto Seixas Santos a irem depois comer as comidas da mãe do Fernando na Avenida de Roma. Ele prezava os amigos, dava-se bem com toda a gente e era impossível resistir ao Fernando. Os seus filmes são sobre isso e são também a solidão em que foi avançando ao longo da vida. Não era ra ele a compadecer-se com as suas dores, era ele a encontrar um amigo. Era um entusiasta e espalhava imensa ternura por todos. Mas ele ficava genuinamente feliz com as conquistas dos outros. Não se desanimava com seus filmes não terem êxito. Queixava-se muito que os meios de produção actuais estavam esclerosados, e dizia que era precisa uma nova nouvelle vague, com meios mais ligeiros para fazer cinema. O Fernando gostava de meter as mãos na massa que eram os filmes dos outros. Há uma famosa história em que depois da estreia de Verdes Anos, de Paulo Rocha, foram para o laboratório cortar 3 minutos no positivo, porque o Fernando achava que ainda havia coisas para acertar. Tinha 14 ou 15 anos quando vi o “Belarmino” e conheci o Fernando à mesa do Monte Carlo, um café que existia no Saldanha.»

segunda-feira, 9 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO



Porque não é na juventude que nos formamos, maldita maldição: é no resto da vida (que não é nenhum cruzeiro mas trambolhões e solavancos) que em nós fazemos as rugas.

Jorge Silva Melo em Século Passado

sábado, 10 de março de 2018

POSTAIS SEM SELO



Quando estiveres aborrecido, senta-te num café com vidros grossos que impeçam que até ti chegue o som da rua. E olha para as pessoas que passam. Quando retirares um elemento da vida — o som, neste caso — vês que tudo é uma dança sem fim, insólita, completamente conjugada.

Jacques Tati, citado por Jorge Silva Melo em Século Passado

Legenda: pintura de Vincent Giarrano

sábado, 28 de outubro de 2017

QUE OS LIVROS ESTEJAM CONVOSCO|


O livro A Cavalo do Diabo, do José Cardoso Pires, comprei-o na Livraria do Centro Comercial Arco-Íris, ao lado de outro centro comerciak, o Apolo70.
O Centro ainda existe, a livraria já não.
Entro numa livraria como a borboleta atraída pela luz.
Gostava muito desta livraria, onde era atendido por gente simpática, estava longe a chegada dos computadores, e que sabia o que é ser livreiro.
Como poetizou Manuel Alegre:

Há homens que são capazes
duma flor onde
as flores não nascem.
Outros abrem velhas portas
em velhas casas fechadas há muito
outros ainda despedaçam muros
acendem nas praças uma rosa de fogo.
Tu vendes livros  quer dizer
entregas a cada homem
teu coração dentro de cada livro.

As livrarias, aos poucos, têm vindo a desaparecer.
Lembro sempre o arrepio de Jorge Silva Melo quando viu fechar uma livraria em Campo de Ourique:
Numa crónica a que chamou Já Fechou a Livraria, incluída no seu Século Passado, conta que uma pequena livraria abriu um dia em Campo de Ourique mas não chegou a estar aberta um ano.«Por que não fui interlocutor solidário daquela senhora que efectivamente ousou e foi vencida? Por que hei-de perdoar-me a mim? Não foi isso mesmo o que eu disse àquele pequena livraria? Que não a queria? Que não me servia para nada? Que lhe prefiro a Internet e as fnacs? Se a pequena livraria fechou, fui também eu que a fechei».
Num ranking elaborado pelo jornal britânico The Telegraph, há duas livrarias portuguesas entre as 16 que o jornal considera como as mais bonitas do mundo.
Uma em Lisboa, a Ler Devagar, outra no Porto, a Lello & Irmão.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


& Etc. – Prolegómenos a uma Editora
Catálogo da Exposição

Coordenação editorial, capa e concepção gráfica: Paulo da Costa Domingos
Autores de textos e imagens:
Alberto Pimenta, Almeida Faria, Carlos Ferreiro, Inês Dias, João E. Cutileiro, Jorge Silva Melo, Maria Inês Cordeiro, Paulo da Costa Domingos, Ricardo Álvaro, Telma Rodrigues, Vitor Silva Tavares
Livraria Letra Livre, Biblioteca Nacional, Lisboa. Fevereiro de 2017

Vitor Silva Tavares foi um Homem raro. Genuíno, naturalmente vertical, lúcido, felino, livre-livre como um pardal-de-telhado que transporta a Liberdade no voo, Senhor de uma «grande razão» e de uma sabedoria e dimensão existencial para além das medidas curtas desta mesquinha alfaiataria humana, certo até à medula da sua altitude e profundidade. Vitor Silva Tavares despediu-se deste mundo e já não mora aqui. O editor-poeta da nossa Legião dos Únicos, dos «últimos dos últimos», viaja na sua Automotora a caminho do Fundão, da «chafarica», Pasárgada, & et. Obrigado por esta boleia generosa e atá à próxima estação.

(Do texto de Ricardo Álavro)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Lisboa, a minha cidade já não existe, e se calhar, quase com 70 anos, já não tenho direito a tê-la. 

Jorge Silva Melo

Legenda: fotografia tirada do blogue Restos de Colecção

sábado, 7 de janeiro de 2017

LER PODE SER MELHOR QUE VIVER


Pode-se viver sem ler?

Pode, mas vive-se pior.

Há discursos sagrados em redor dos livros mas nada impede que Pepe Carvalho, o célebre detective de Manuel Vasquez Montalban, doente pelo Barcelona, bom garfo, amante de um bom cognac e um “puro” , também de boleros, admirador de mulheres nas “ramblas”, pusesse o detective de Manuel Vasquez Montalban, todas as noites acender a lareira com as páginas das suas leituras preferidas.

Num país de iletrados não é difícil encontrar ignorantes.

Pena é que sejam burros ao ponto de, orgulhosamente, afirmarem que nunca leram um livro, como se isso fosse uma prova de entrada no reino dos céus.

Números velhos, talvez de 2004, mostravam que 1 em cada 10 portugueses não sabe ler ou escrever. São os analfabetos absolutos. Depois há os alfabetizados (teoricamente) que não lêem (90% dos portugueses) e os que lêem, mas não sabem interpretar, nem assimilar o que lêem.

Conheço criaturas que frequentaram, ou tiraram um curso superior, sem ter um único livro em casa, mesmo do que andaram a cursar.

Como tudo isto acontece?

Diz quem andou por lá, que há estupendas “sebentas” nas nossas faculdades.

Cabe aqui a história do petiz a quem o Raul Solnado perguntou se gostava de ler e que lhe respondeu: “Evito!”
       
          Os nossos livros estão empoeirados
           canecas de cerveja ensinam melhor,
           a cerveja dá-nos  prazer,
           os livros só aborrecimentos.

Fia-te nos que gostam de ler, desconfia quando alguém te diz que não tem tempo para ler, dizia o meu avô, um leitor compulsivo.

Os pobres não lêem porque não têm meios e os ricos porque não querem.

É mais fácil passar o tempo a olhar para a televisão. Outros há que desviam o dinheiro que têm para outras prioridades: comprar um carro topo-de-gama, comprar uma casa na praia, férias em Punta Cana ou qualquer outro lugar exótico.

Lê-se porque sim, porque não se pode deixar de ler. 

A leitura é um hábito que, no entanto, necessita de constante exercício porque quando se perde o hábito de ler, a necessidade de ler, o prazer de ler, corre-se o risco de não se recuperar.

Não é bem como andar de bicicleta...

François Truffautt adaptou ao cinema um livro de Ray Bradbury: Farenheit  451.

Filme e livro perturbantes.

Ler é pecado, quem pensa é um fora da lei.

 Não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar, cantava o José Afonso,  Mao Tsé Tung  dizia que ler demasiado é prejudicial, Júlio César, na peça de Shakespeare, desconfiava de Cássio porque era magro e porque lia muito.

Escreveu Paul Valery que os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a humidade, os animais, o tempo, e o seu próprio conteúdo.

William Wrigley, milionário da pastilha elástica, ao mobilar o seu sumptuoso apartamento, em Chicago, deu ordens à secretária: Meça-me aquelas prateleiras e compre-me os livros suficientes para mas encher. Arranje-me uma data de livros de um verde e um encarnado vivos e com uma batelada de letras douradas. Quero uma vista catita.

Livros para completar a mobília, dizia o Eça de Queiroz.

Jorge Luis Borges afirmou que o paraíso, se existe, tem a forma de uma biblioteca e o poeta francês Stéphane Mallarmé sabia que tudo no mundo existe para se transformar em livro.

Nota do Editor: o título é uma frase do Jorge Silva Melo


Legenda: pintura de Di Cavalcanti

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


 A notícia poderia ser o Jorge Silva Melo quando chama mentiroso ao Presidente da República ao dizer que estivera no primeiro espectáculo da Cornucópia, O Misantropo, de Moliére, em 1973, «é que eu é que tratava dos bilhetes, tenho memória infalível, era a nossa estreia e sei lindamente quem foi (muitos já morreram) e quem não foi.»

Mas volto-me para o texto que a Maria do Rosário Pedreira publicou ontem no seu blogue Horas Extraordinárias:

Desde que comecei a trabalhar na edição que vejo muitos jornalistas de qualidade desaparecerem de cena em levas sucessivas de despedimentos colectivos. E reparo que, frequentemente, os que saem são justamente aqueles que eu achava desempenharem melhor a sua função, substituídos por moleques e miúdas que têm quantas vezes ordenados de miséria mas dizem a tudo que sim. Desta feita, a injustiça tocou a alguém que está perto de mim – uma autora que, além de galardoada desde muito cedo como jornalista com quase todos os prémios de jeito que havia para ganhar, ainda arrecadou com o seu romance de estreia o prémio mais cobiçado atribuído anualmente a uma obra de ficção. Falo, evidentemente, de Ana Margarida de Carvalho (e de Que Importa a Fúria do Mar), que acaba de ser dispensada da revista Visão, para a qual trabalhava havia muitos anos, e que tinha seguramente mais bagagem, experiência e talento do que muitos dos seus confrades que lemos ou ouvimos actualmente nos meios de comunicação portugueses. Segundo um post que ela própria publicou no seu mural do Facebook, a terrível notícia foi-lhe dada por um membro dos Recursos Humanos da empresa, nem sequer por aqueles que chefiam a redacção ou dirigem a revista, como se as pessoas já nem fossem pessoas, mas meros números, e não merecessem respeito nem gratidão pelo trabalho que fizeram durante anos. Fico muito triste – não só por ela, mas pelo estado a que as coisas chegaram num país que teve de lutar pela liberdade de expressão durante tanto tempo e que, afinal, mais de 40 anos decorridos do estabelecimento da democracia, volta a comportar-se como se estivesse numa ditadura (a ditadura do dinheiro e das vendas): Pensas, logo não podes existir.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

O Rio Bravo de Howard Hawks é o mais belo filme do mundo.

Jorge Silva Melo 



quarta-feira, 22 de junho de 2016

POSTAIS SEM SELO


Isto de envelhecer é bom: antes de perder a memória, lembramo-nos de muitas coisas.

Jorge Silva Melo em Século Passado


Legenda: fotograma de Os Verdes Anos

quarta-feira, 4 de maio de 2016

QUOTIDIANOS


Ontem andei pela Baixa e fiquei espantadíssimo. Era um sítio onde me sentia em casa e agora não percebo nada. As lojas parecem-me todas as mesma, os restaurantes também. A minha irmã vai daqui a uns dias fazer 80 anos e não sei onde a levar a almoçar. Devia ser um sítio de que ela goste, de onde tivesse memórias mas já não há nada. Desapareceu tudo. Suponho que seja normal. É isso a velhice. Mas faz-me impressão a transformação ter sido tão rápida. Estamos aqui na Rua da Escola Politécnica há quase quatro anos. Já quase não há nenhuma das lojas que abriram quando já cá estávamos. Abriram, fecharam e já são outras. É estranhíssimo. Não consigo habituar-me.

Jorge Silva Melo

segunda-feira, 7 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS


Sorte ou não, todos os livros que comprei por causa das capas se revelaram boas escolhas.

É provável que existam duas ou três excepções, mas não as recordo.


Jorge Silva melo, por exemplo, gosta tanto das capas de Trabalho Poético que não se vê a ler a poesia de Carlos de Oliveira sem ser nessa edição da Sá da Costa.

Cada maluco sua mania, dirão.

É bem verdade!

Mas quem gosta de livros, quem não entende os dias sem os ter por perto, não olha a meios, tudo lhe serve.

Pelo autor, pelos títulos, pelas capas, pelos começos, pelos conteúdos, pelos finais, tudo vale para adquirir livros.

O primeiro critério é o autor, mas gosto imenso de grandes começos de livros:

Maria Gabruiela Llansol começa assim o seu Na Casa de Julho e Agosto:

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos. Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia. Basta esperar que a “decisão da intimidade” se pronuncie.”

E há capas fabulosas.

Esta colecção do Público permite ter uma ideia sobre essa arte de fazer e Olhar as Capas.

quinta-feira, 3 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Só que não concebo teatro sem a publicação dos textos. 

Jorge Silva Melo

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Nasci na Mestre António Martins, uma rua situada entre a Avenida General Roçadas e a Rua da Penha de França.

Num espaço abrangente,havia uma larga mão cheia de cinemas: o Royal, o Cine-Oriente, o Max, o Imperial, o Lys, o Rex,

Todos cinemas de reprise, salas populares, com preços acessíveis, direito a ver dois filmes.

O Império era um outro luxo perto das tais avenidas que Salazar pretendia novas para esconder as misérias de outras ruas da cidade.

Cinema de estreia praticava preços acima das posses da malta do bairro.

Só em dias de festa se ia ao Império.

E os dias de festa eram escassissimos.

Mais tarde frequentei-o assiduamente.


Não só pelas estreias que iam acontecendo, também pelas Terças-Feiras Clássicas, e para ver as peças de Teatro que ali foram representadas pelo Teatro Moderno de Lisboa.

Já não falo dos filmes vistos no Estúdio, sala situada no último piso do edifício, com uma soberba vista para a Alameda D. Afonso Henriques, e inaugurada a 29 de Outubro de 1964 com o belíssimo Os Chapéus de Cherburgo.

Do Teatro Moderno de Lisboa, como do Estúdio, haverá, por um destes dias, outras conversas.


Ainda do Cinema Império recordo: juntava-me à concentração na Alameda, para o festejar do primeiro 1º de Maio, quando olho a fachada do Império e vejo cartaz de  O Couraçado de Potemkin.

Jorge Silva Melo, também, cita o pormenor no seu Século Passado:

…é um passeio vazio, sem gente nenhuma a estas horas, nem a sombra da multidão que naquele distante 1º de Maio de 1974 ali descia, pelas três da tarde, e via içarem no Império o cartaz d’ O Couraçado de Potemkin, imagem que não esqueço, vitória, dia de sol e voz clara, tanta gente sem medo e tão feliz.

 O Cinema Império começou a ser construído em 1947, concluído em 1952 e inaugurado em 1955, sendo um projecto de Cassiano Branco.

À entrada, um painel de azulejos de João Fragoso e nos foyer do 1º e 2º Balcão um mural de Luís Dourdil (1º balcão) e pinturas de Frederico George.

Como os cinemas também se abatem, fecharam portas os cinemas de bairro, os velhos «piolhos», onde tanta gente agarrou o gosto pelo cinema.

O mesmo aconteceu ao Império.

As salas de cinema que começaram a surgir nos Centros Comerciais desviaram espectadores e salas, como o Império, passaram a ter os dias contados.

Fechou portas no dia 31 de Dezembro de 1983 e em 1992 o Império passou a ser palco e circo de uma seita-dita-religiosa.

Ainda por lá se encontram.


A seita tentou encerrar o Café Império, de que são proprietários porque compraram todo o edifício, mas movimentações dos trabalhadores e clientes, com o forte apoio da Câmara Municipal, impediram mais um crime-de-lesa-pátria.

O Cinema Império foi inaugurado a 24 de Maio de 1952.

Margarida Acciaiuoli, no seu livro Cinemas de Lisboa, coloca o Império, juntamente com o São Jorge e o Monumental, no capítulo: As Grandes Catedrais.

O filme de estreia foi O Preço da Juventude.

No programa de estreia, as sessões começavam com a exibição de um Jornal de Actualidades, o documentário Madrid eseguia-se um intervalo.

 Um outro intervalo acontecia a meio da exibição do filme.

Os intervalos eram local de encontro e convívio no agradável conforto dos foyers do Cinema.

No topo, reproduz-se a capa do 1º Programa do Cinema Império.

E esta é a apresentação pública:


Legenda:
O programa da inauguração do Cinema Império pertence ao acervo cinematográfico de Luís Miguel Mira.
A fotografia do cartaz do Couraçado Potemkim, na fachada do Império, foi tirada do blogue  À Pala de Walsh.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

OLHARES


Aqui ainda é O Toni dos Bifes.

Um dos restaurantes mais antigos de Lisboa, na Rua Praia da Vitória, junto ao Saldanha.

Carlos de Oliveira morava no prédio ao lado de O Toni dos Bifes.

Almoçava por lá. Depois o Augusto Abelaira ia ter com ele, ou almoçava também, e depois iam para o Monte Carlo onde continuavam a aparecer mais escritores, pintores, cineastas, artistas de teatro e cinema.

Quando ainda havia cafés.

Os cafés eram locais privilegiados para as tertúlias.

 Locais de convívio e de escrita.

Augusto Abelaira terá sido o escritor que mas utilizou os cafés para a escrita dos seus romances.

Era vê-lo mergulhado na escrita/leitura de papeis, cachimbo em riste – podia-se fumar nos cafés, pois então!

Na Cister, na Alsaciana, na Coimbra, que ainda existem.

A primeira fase consiste em escrever, escrever, porque as fases seguintes, de reescrita e montagem, têm de ser em casa. Seria preciso andar com uma mala e espalhar muitos papéis.

Mais ainda:

Como eu escrevo nos cafés, o que eu precisava era que houvesse cafés para, durante a manhã, estar a escrever. Como os cafés vão desaparecendo, a possibilidade de escrever é cada vez menor. Quando todos os cafés tiverem desaparecido de Lisboa eu encerro a escrita. Deixo de escrever, isto é, vou morrer, quando fechar o último café em Lisboa onde possa escrever.


Jorge Silva Melo foi um assíduo frequentador dos cafés de Lisboa.

O seu livro de memórias No Século Passado está cheio de referências:

E era nos cafés, abertos desde manhã cedo e até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo isso se ia passando.

Também os Dias Comuns do José Gomes Ferreira estão cheios de referências dos cafés que frequentava com os escritores seus amigos e camaradas, cafés que iam fechando – naquele tempo com destino certo de dependências bancárias - e obrigava a arranjar outro refúgio.

Tal como no 4º volume desses Dias Comuns, José Gomes Ferreira conta:

6 de Janeiro de 1968

A Bel comunicou-me este triste recado do Carlos de Oliveira: o café Bocage, nosso ninho de longos anos Avenida da República vai fechar amanhã.

28 de Maio de 1968

Fechou o Martinho.
Que se passa em Lisboa, onde já se respira tão pouco?
O Abelaira telefonou-me, alarmado, a dar-me a notícia fantástica.
- Mas será verdade’ – PERGUNTEI, INCRÉDULO.
- É… - Disse-me o Magalhães Godinho… A notícia vem no jornal da tarde.
Silêncio inquieto diante desta mutilação do fumo do passado.
- E agora?
- Talvez o Paladium  nos restauradores.
- Pois seja o Paladium!


E nisto de cafés, no fechar da página, impossível não ir buscar o João César Monteiro em Uma Semana Noutra Cidade:

São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.