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sexta-feira, 14 de abril de 2017

SALMO


Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz 
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
— Pai Pai faça-se a tua vontade! —
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiada pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém 
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer 
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de álibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti 

Jorge Sousa Braga


Legenda: pintura de Rogier van der Weyden

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


A Religião do Girassol

Antologia organizada por Jorge Sousa Braga
Ilustrações: Albuquerque Mendes, Pedro Tudela, Ângelo de Sousa
                     Luísa Gonçalves, Júlio Resende, Fernando Pinto Coelho, 
                      Cristina Valadas
Capa: Girassol Peruano de Giovani Neri
Colecção Documenta Poética nº 54
Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2000

Apesar de o tempo o ter desgastado
continua contando os passos do sol,
perseguindo um doce país doirado,
o girassol.

O mesmo aonde erguendo-se do túmulo
uma virgem branca como a neve
e um jovem consumido pelo desejo
aspiram que os leve.

William Blake

segunda-feira, 6 de abril de 2015

PÓLO NORTE


O que esperas sentado à
mesa do café olhando

a chávena vazia? Que
o lastro do quotidiano se

despegue da tua alma
e da tua pele e que a

beleza como um oceano
inunde a folha de papel

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

OLHAR AS CAPAS

Filhos da Neve
Antologia Poética

Leonard Cohen
Versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê
Colecção Rei Lagarto nº 10
Assírio &Alvim, Lisboa, Junho de 1985

Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive  em apartamentos mobilados
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
e escrevem isto mesmo 

domingo, 24 de novembro de 2013

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


De muitas coisas se pode morrer
em Veneza
De velhice de susto
de peste

ou de beleza

Jorge Sousa Braga em Poemas Com Cinema, antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queiroz, Rosa Maria Martelo, Ass´rio % Alvim, Lisboa Novembro de 2010.

Legenda: imagem do filme Morte em Veneza

quarta-feira, 22 de maio de 2013

À CONVERSA


João Luís Barreto GuimarãesTenho o livro Lugares Comuns (2000) que é todo passado à mesa do café. O café é uma metáfora do mundo, é uma segunda casa.
Jorge Sousa BragaOs cafés: quanto mais rascas, melhor. Quanto mais barulho, melhor. O café onde se ouve falar a dona Ricardina, não funciona.

Entrevista no Público, 10 de Fevereiro de 2013.

sábado, 11 de agosto de 2012

TINHA DUAS FACES COMO A LUA


Tinha duas faces como a lua
Uma que toda a gente conhece
e outra (a que nunca se vê, a que não reflecte o sol)
e que ninguém (ou quase ninguém) está interessado em conhecer
É esse o teu lado que me fascina
que sempre me fascinou
Pousavas sobre as coisas (uma bicicleta, os lábios de Yves Montand)
como uma borboleta
e não pesavas mais do que isso
e o écran ficava amarelo quando te punhas a sacudir
o pólen que trazias agarrado nas mãos
Eu que sempre gostei de ir ao fundo de tudo
(e acabo por me ficar pela superfície de tudo)
custa-me a entender como é que tu ao passares a língua
pela casca de um fruto carnudo
lhe ficavas logo a conhecer o sabor ácido da polpa

90-60-90…

São essas rigorosamente as medidas do universo
em que te movias
as medidas do pesadelo
que faz com que de manhã o céu acorde com olheiras enormes
e eu todo partido como se tivesse levado uma grande surra
Vejo-te a navegar num mar onde milhares de homens
desaguam desesperadamente
O mar está encapelado
Nem me dou conta que está morta –
Subiram o pano
A sessão da tarde vai começar…
Gostaria de me encontrar depois contigo
num dos manicómios desta cidade
(há vários e vai ser difícil escolher)
Talvez nos pudéssemos dedicar aí a cultivar rosas
amarelas e fragrantes
nos jardins da nossa inconsistência


Jorge Sousa Braga

domingo, 13 de novembro de 2011

AO PERDER-TE


1.
Ao perder-te a ti perdemos os dois
eu porque tu eras o que eu mais amava
e tu porque eu era quem mais te amava.
Mas de nós os dois és tu quem perde mais
porque eu poderei amar outras como te amava a ti.
Mas a ti não te hão-de amar como eu te amava

2.

Contaram-me que estavas apaixonada por outro
e então fui para o meu quarto
e escrevi um artigo contra o governo
razão pela qual estou preso


Ernesto Cardenal em Cem Poemas de Amor de Outras Línguas, Antologia  de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim

Legenda: pintura de Edward Hopper.

domingo, 3 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


Jovem ainda casei-me com um comerciante de Chu Tang
Dia após dia espero o seu regresso
Se soubesse quão regulares são as marés
Tinha casado com um barqueiro

Li I, poeta chinês, tradução Jorge de Sousa Braga

terça-feira, 1 de junho de 2010

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Hoje é o Dia Mundial da Criança.
Que seja.
Não é pelo dia que transcrevo este belíssimo poema de Jorge Sousa Braga. Encontram-no em do “Herbário” livro de poemas escritos para crianças, mas não só.
Espero que gostem tanto quanto eu gostei:


“As Árvores e os Livros”


“As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.


As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras”.

Legenda: Ilustração de Gérard Dubois tirada daqui.