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segunda-feira, 11 de maio de 2020

RELACIONADOS


Gosto de livros que reúnem a correspondência entre personalidades da cultura.

Ajuda-nos, para além dos livros, dos filmes, das exposições, a compreender melhor os personagens.

Jorge de Sena é o intelectual de que conheço mais correspondência publicada.

Devemos esse trabalho a sua mulher Mécia de Sousa que, amorosa e ferreamente, se dedicou a esse extraordinário trabalho.

«E está longe de ser tudo, mesmo sem infindável arca. Assim eu tenha vida, saúde e lucidez para realizar essa monstruosa tarefa»

(Carta de Mécia de Sousa a João Gaspar Simões.).

Por alturas da Feira do Livro do ano passado o Luís Eme perguntava-me sobre a Correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões, se já tinha lido o livro.

Não tinha lido nem comprado.

Entendia que, apesar de amigos, acabaram por se desentender, e detestavam-se.

Não sabia que raio de correspondência existiria entre os dois.

Falava-lhe também de que os livros da «Guerra e Paz» atingiam preços algo pesados. As coisas são o que são e os livros saem caros. Resta-nos fazer uma gestão do orçamento mensal e por aí fora.

Mas a pergunta do Luís deixara  pozinhos a bailar por mim dentro.

Numa última ida à Feira, acabei por comprar o livro.

Folheado em casa, não me entusiasmou e acabou por ir para a secção de «Livros a Ler».

Em tempo de pandemia, a obra foi lida.

Não é daqueles livros imprescindíveis, mas não lamento o tempo que lhe dediquei.

Através da introdução de Filipe Delfim Santos, das cartas trocadas entre Gaspar Simões e Mécia de Sena, que a determinada altura, dado o grave ataque de coração que Sena sofreu, passa a responder às cartas que são dirigidas ao marido, se fica a perceber, um pouco mais, de como foram as relações, pessoais e de escrita, entre Sena e Gaspar Simões.

Pessoalmente, nunca apreciei o cidadão João Gaspar Simões, como crítico nada digo porque me falta tudo, e mais alguma coisa, para poder dizer o que quer que seja.

Mas entre as diversas referências que tenho sobre/de Gaspar Simões, apresento três, cada uma a seu modo:

Uma de JoséGomes Ferreira, no IX volume dos seus Dias Comuns, realçando a camaradagem de Gaspar Simões:

«2 de Julho de 1970
O João Gaspar Simões disse-me ontem pelo telefone que se vira obrigado a emendar algumas palavras na minha última crónica, para a gente de O Primeiro de Janeiro a deixar sair.
Que palavras?
Estas: tipa, macha, pernas, etc. (Incrível), consideradas impróprias por um energúmeno velhorro da redacção que as sublinhou com lápis vermelho.
Fiquei furioso. Duas censuras ( a oficial e a do velhorro paralítico cerebral) parecem-me cadeias demais para poder dançar!
Quanto à atitude de João Gaspar Simões – seria uma covardia escrever aqui o que não ousei dizer-lhe por delicadeza… Aliás, estou convencido de que da parte dele houve apenas camaradagem jornalística. Custava-lhe que eu perdesse os 400 paus do artigo – como me confessou.
Agradeci-lhe a camaradagem.»

Outra é a espantação de Mário-Henrique Leiria, numa carta à sua «querida menina», contando-lhe que o Gaspar Simões dissera bem de um seu livro:

Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do “Diário de Notícias”? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!

Por fim, o passo de uma crítica de João Gaspar Simões ao livro As Solicitações e Emboscadas  de Mário Dionísio:

O que nos fica, finda a leitura deste livro, não é a imagem de um homem fazendo gestos para que o vejam: é a imagem de uma alma segredando aos outros qualquer coisa impossível de calar.

Não quero terminar este apontamento, sem referir uma frase de Adolfo Casais Monteiro que Filipe Delfim Santos coloca a abrir a introdução sobre a Correspondência de Sena e GasparSimões:

«… é muito difícil fazer crítica a um livro do Sena».

sábado, 2 de maio de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Muitos não sabem o que custou esta liberdade em que vivemos, quantos – eram tão poucos, mas com uma gana e um querer tão grandes – se empenharam para que um dia soubéssemos a sua cor.

«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade.», escreveu o Jorge de Sena.

Perante a histeria que aconteceu por a CGTP ter realizado uma reunião na Alameda para comemorar o 1º de Maio, duvido que essa gente saiba dessa saga histórica.

Não sabem nada de nada.

Pior ainda: não querem saber!

Somos o que somos, somos os que ainda sabemos e não vejo que seja necessário ensinar seja o que for a quem não quer saber e não tenha vontade e capacidade para saber.

Nos Primeiros de Maio da ditadura salazarenta, José Gomes Ferreira passeava-se de gravata vermelha pelas ruas de Lisboa.

Permitimos que os que agora gerem os nossos destinos fossem construindo os seus caminhos.

Montaram as televisões que quiseram, não tentaram, ajudar um povo que estava tão longe do que Abrilmente lhes acontecera, as televisões serviram-lhes para tudo, até para vender presidentes, menos para serem didácticos.

Até a Igreja teve uma televisão, e inábil que é em coisas terrenas, não teve unhas para tocar a guitarra que São Cavaco Silva lhe ofereceu.

Encheram o povo de mentiras, de telenovelas, de futebol, um caldo de couves estragadas com tudo a desaguar num salve-se quem puder, a ter que existir um polígrafo que nos diga o que está certo e o que está errado.

 Um cronista saloio, com a mania que tem graça, titulava hoje em crónica pública, que face ao que a CGTP organizou em cidades do país: «Assim se vê a força do PC!»

O sorridente rapaz, nem um ano tinha quando aconteceu o 25 de Abril.

Sabe lá ele o que é o PC e a sua força.

Poderia ao longo dos tempos ter lido uns livrecos, mas quem passa da engenharia química para ciências da comunicação, acaba sempre por tropeçar no que não
deve.

A música para hoje, é uma passagem pelas Danças Guerreiras do Principe Igor de Alexander Borodin.


1.

A Confederação Episcopal aconselha adiar casamentos e procissões para depois de Setembro.

2.

Dizem que em Junho, aqui pelo pedaço, haverá futebol sem espectadores nos estádios.

Eles não gostam de futebol.

Acreditem.

Gostam de dinheiro, vaidades, carros topo de gama, comida servida por «chefs»,ÍCEIS raparigas de alterne.

3.

 Na última semana, pelo menos 3,8 milhões de trabalhadores ficaram sem emprego nos Estados Unidos; em seis semanas, o Departamento do Trabalho norte-americano registou 30 milhões de pessoas sem trabalho.

4.

A EMEL arrisca-se a perder 10 milhões de euros de receitas por causa da Covid-19, que levou à suspensão das pagamentos em parques de estacionamento e nos parquímetros, não havendo data para a cobrança ser retomada.

5.

A propósito não se sabe bem porquê, Donald Trump telefonou a Marcelo Rebelo de Sousa.

Como Trump diz ter visto provas de que o coronavírus teve origem num laboratório de Wuhan e de lá escapou-se para o mundo, terá solicitado a Marcelo apoio político para a diatribe?

Acontece-nos tudo!

6.

Os negros números:

Portugal regista 1.023 óbitos.

Os Estados Unidos, que registaram a sua primeira morte ligada ao coronavírus no início de Fevereiro, são o país mais atingido quer em número de mortos, 65.068, quer infeccionados:  1.104.161.

Itália: 28.710 mortos
Grã-Bretanha: 28.131 mortos
França: 24.563 mortos
Espanha: 24.543 mortos

Em todo o mundo já morreram 242.270 pessoas. 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

ALGUÉM LHES DIRÁ O QUE SOFREMOS...


Naquele tempo as fotografias eram em papel, possivelmente, alguém em qualquer parte do mundo, já pensava noutras maneiras de as guardar.

Já passaram muitos e muitos dias e as cores dos murais foram ficando para o desmaiado.

Mas por que será que o papel é sempre o papel?

Mudando o disco.

Há um texto de Sophia Mello Breyner Andresen, fragmento poético de Os Gracos, que guarda uma lição de política.

«Os ricos nunca perdem a jogada, nunca fazem um erro. Espiam. E esperam os erros dos outros. Administram os erros dos outros. São hábeis e sábios. Têm uma larga experiência do poder e quando não podem usar a própria força, usam a fraqueza dos outros. E ganham.»

Não lemos bem as lições que nos dizem para ler.

Não aprendemos com as lições que devíamos ler, ou ler com mais atenção.

Sabemos das razões, mas fazemos por olvidar.

Ficamos a inquietação da distância.

«Valerá a pena você gastar tanta inteligência para explicar aos parvos que são parvos?

De uma carta de Sophia para Jorge de Sena, Maio de 1962.

Nos tempos da ditadura, numa televisão a preto e branco, o país sentava-se atentamente frente ao aparelho para assistir ao Zip-Zip.

Apesar dos cortes da censura, era um programa que conseguia passar para lá do habitual cinzentismo que nos assistia.

Por ele o país ficou a conhecer Almada Negreiros, o poeta António Gedeão, outros mais, por ele começou a ver e a ouvir uma série de rapazes que, de viola na mão, cantavam coisas fora do circuito do então já chamado nacional- cançonetismo.

Mais espantadas ficaram as gentes quando uma noite um padre, Francisco Fanhais de seu nome, pegando num poema de Sebastião da Gama, entrou casa dentro a dizer que a um rouxinol lhe tinham quebrado as asas não o deixando voar, lhe quebraram o bico não o deixando cantar.


Legenda: o título é tirado de um poema de Egito Gonçalves.

terça-feira, 7 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Neste tempo parado no tempo, o tempo dá para tudo: pensar em chocolates, numa sopa de tomate com ovos escalfados à alentejana, prometida há muito à Aida, lembrar coisas de que nunca se pensa que nos iríamos lembrar tanto, a importância da memória, os suores frios quando topamos que a memória começa a tropeçar, a angústia de perder a memória.

Porque a memória segura um edifício que é a maneira como olhamos a rua onde nascemos, onde corremos, demos e levámos porrada, de onde olhamos o mundo, de onde tudo se olha.

Porque somos aquilo que fomos fazendo e a recordação do que fizemos.

O tempo agora é o tempo de não termos medo de perder tempo.

A memória do tempo. No tempo da memória. Para que a memória não esqueça.

Chegar a um poema de Jorge de Sena, um lindíssimo e dramático poema, palavras de quem, muito tarde na noite, se sente cansado, ouve a sonata para violino e piano de César Franck, sente que o cansaço não o larga e antevê o profundo silêncio do que há-de chegar.

«É tarde, muito tarde da noite,
trabalhei hoje muito, tive de sair, falei com vária gente,
voltei, ouço música, estou terrivelmente cansado.
Exactamente terrivelmente com a sua banalidade
é o que pode dar a medida do meu cansaço.
Como estou cansado. De ter trabalhado muito,
ter feito um grande esforço para depois
interessar-me por outras pessoas
quando estou cansado demais para me interessarem as pessoas.

E é tarde, devia ter-me deitado mais cedo,
há muito que devera estar a dormir.
Mas estou acordado com o meu cansaço e a ouvir música.
Desfeito de cansaço,incapaz de pensar, incapaz de olhar,
totalmente incapaz até de repousar à força de cansaço.
Um cansaço terrível
da vida, das pessoas, de mim, de tudo.
E fumo cigarro após cigarro no desespero
de estar tão cansado. E ouço música
(por sinal a sonata para violino e piano de César Franck,
e depois os Wesendonck Lieder)
num puro cansaço de dissolver-me
como Brunhilda ou como Isoldano que não aceitarei nunca,
l' amor che muove il sole e l' altre stelle.
Nada há de comum entre esse amor de que estou cansado,
e o outro que não ama, apenas queima e passa ,
e de cuja dissolução no espaço e no tempo em que vivo
estou mais cansado ainda. Dissolvam-se essas damas
que eram princesas ou valquírias, se preferem, no eterno.

Eu estou cansado de não me dissolver
continuamente em cada instante da vida,
ou das pessoas, ou de mim, ou de tudo.
Qu' ai-je à faire de l' eternel? I live here.
Non abbiamo confusion. E aqui é que morrerei
danado de cansaço, como hoje estou
tão terrivelmente cansado.»

                                        

1.

Julio Anguita, militante espanhol da Esquerda Unida:

«Muitos vão ter que apertar o cinto, o problema é que há gente já que nem cinto tem.»

2.

Pelo menos 33.366 empresas já se candidataram ao ‘lay-off’ simplificado, o que correspondente a um universo de 556.751 trabalhadores.

3.

A Organização Internacional do Trabalho considera que o mercado de emprego está a enfrentar com a pandemia do coronavírus a sua crise mais grave desde a Segunda Grande Guerra. Há 1,25 mil milhões de trabalhadores em risco elevado de despedimento ou de redução salarial.

4.

«Os Richmonds estão inundados e a electricidade foi-se. Deus está-nos a testar e eu por mim quero estar preparada. Onde é que está a vodka?»

- Diane, a personagem de Elaine Strich em Setembro, filme de Woody Allen.

5.

Os negros números:

Itália

17.127 mortes

Espanha

13.912 mortes

Estados Unidos

10.335 mortes

França

10.328 mortes

Grã-Bretanha

6.159 mortes

Irão

3.872 mortes

China

3.212 mortes

Holanda

2.101 mortes

Bélgica

2.035 mortes

Alemanha

1.983 mortes

Portugal

345 mortes

Mundo

81.200 mortes

 6.

«O medo nasce em qualquer lugar, como erva daninha por dentro. O medo suporta tudo e cresce no escuro até ser adulto, até ser do tamanho de um homem, e lhe tomar o corpo e pensar por ele.»

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

domingo, 29 de março de 2020

MÉCIA DE SENA (1920-2020)



No passado dia 16, tinha feito 100 anos.

Notável guardiã e divulgadora da obra, de seu marido, Jorge de Sena.

Para além de outras iniciativas, deve-se-lhe a publicação das cartas que Jorge de Sena trocou com os seus pares e que constituem um valioso material para conhecimento dos tempos em que foram escritas, do próprio Sena e de todos os escritores que com ele se corresponderam.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

AQUELA SOLIDÃO AGÓNICA


  Foi um momento que me pareceu longuíssimo, ou, talvez que ao contrário, uma demorada suspensão que me pareceu momentânea. Mas era como morte, e eu não aguentava mais. Ou a minha vida era um pesadelo de que eu queria sair — e, para o horror de um pesadelo, tanto faz que ele seja, como nos pareça horrível —, e não podia sair doutra maneira dele; ou a morte me aparecia como um pesadelo que cobria de podridão tudo, todos, e eu próprio, e não era morrer o que eu queria, mas livrar-me da morte, da minha e da dos outros, mesmo que, para isso, eu tivesse de morrer. Havia talvez os que nasciam doidos, os que nasciam imbecis, os que iam ficando, pouco a pouco, vacinados contra a sordidez e a malignidade. Mas eu não era de uns nem de outros, ou as coisas tinham-se precipitado tão vertiginosamente, que uma pessoa sozinha não tinha tempo de ficar vacinada contra elas. A vacina faria efeito, quando já não fosse precisa. Ou a vacina era colectiva, assim como eu me lembrava de uma vez ter sido vacinado no liceu, toda a gente em fila e o médico arranhando todas com a mesma espátula afiada. Mas, colectiva, não nos vacinava da angústia individual como a que eu sentia e ninguém partilhava. Tínhamos todos mais ou menos partilhado tudo, ou partilhá-lo-íamos ainda mais. Mas aquela solidão agónica que eu sentia, porque era uma solidão, parecia que, da partilha, se aumentava. Aumentando, mais nos atirava uns sobre os outros, e uns contra os outros — e contra, não sabia eu já se para amar, se para ferir de morte. E, assim num molho inextrincável, como um nó de vermes ou de víboras, cada um de nós era uma solidão terrífica, tanto mais terrífica quanto excessivamente povoada.

Jorge de Sena em Sinais de Fogo 

domingo, 5 de janeiro de 2020

PAPÉIS DATADOS


Este ano, passam 250 anos sobre o nascimento de Beethoven.
Em Dezembro de 2001, a UNESCO designou a 9ª Sinfonia de Beethoven como Património da Humanidade.
Houve quem concordasse, também quem discordasse.
Houve quem considerasse que sendo toda a música património da humanidade, não havia muito cabimento em escolher uma só obra.
Richard Wagner considerava a 9ª sinfonia de Beethoven como o limiar absoluto do que é possível conceber em música.
Por prazeres secretos, nunca revelados, o meu pai gostava da 7ª Sinfonia.
Nos momentos finais da sua vida, o Papa Pio XII quis ouvir o «alegreto» da 7ª Sinfonia.
Está para breve, diz-se, que o Vaticano revelará documentação sobre a provável conivência de Pio XII com o nazismo/fascismo.
Sobre o desejo, na hora da morte, de Pio XII em que querer ouvir o «alegreto» da 7ª Sinfonia, dedicou um poema


Como de Vós

                À memória do papa Pio XII que quis, ouvir, moribundo, o «Alegreto»
                 da Sétima Sinfonia de Beethoven

Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,

importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.

Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.

Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo

(23 de Dezembro de 2001)

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Público

Ano XXX – Número 10.785
2 de Novembro de 2019

O centenário do nascimento de Jorge de Sena tem passado pouco menos do que despercebido em Portugal. E as muitas e justíssima homenagens prestadas à sua amiga e correspondente Sophia de Mello Breyner Andresen, apenas quatro dias  mais nova do que o poeta de Metamorfoses, vieram provavelmente ajudar, por contraste, a tornar esta indiferença ainda mais notória. Espera-se que os dois colóquios senianos que se anunciam para este mês, o primeiro na Biblioteca Nacional e o segundo na Universidade do Minho, venham ainda a tempo de compensar esta desatenção, prestando o devido tributo a quem foi seguramente uma das figuras intelectuais mais relevantes da cultura portuguesa do século XX.

Luís Miguel Queirós

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Na tarde que anoitece o entardecer nos prende.

Jorge de Sena

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que â morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena em Fidelidade em Poemas Escolhidos

Legenda: fotografia de Sarah Kurchak

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS

JL

Jornal de Letras, Artes e Ideias

Ano XXXIX – Número 1280
De 3 de Outubro a 5 de Novembro de 2019
Número dedicado ao nascimento de Jorge de Sena
Jorge de Sena nasceu a 2 de Novembro de 1919

Editorial – José Carlos de Vasconcelos
Poesia, Peregrinação e Portugal – António Carlos Cortez
As Ficções de um Poeta – Jorge Vaz de Carvalho
Uma Correspondência Única (com Eugénio de Andrade) – Eugénio Lisboa
Divulgar um Escritor Plural – Luís Ricardo Duarte
Sena e Sophia, Dois Poetas no Princípio do Mundo – Luís Filipe Castro Mendes

Acho que havia muita intuição, mas sobretudo uma atenção constante ao mundo para lá da superfície das coisas.
Sofreu muito com o exílio e com a sensação de nãp ser reconhecido, mesmo depois de uma longa carreira académica,
As cartas servem-lhe para elaborar certas ideias que depois dão origem a poemas, narrativas, ensaios ou críticas.
Uma das suas dimensões mais interessantes é a defesa da liberdade, a fluidez de géneros, comunicando com leitores de todas as idades, tendências, pertenças e opções.

Isabel de Sena

sexta-feira, 19 de julho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Aquele que vê sem ser visto, ouve sem ser ouvido, pensa sem ser pensado, conhece sem ser conhecido, e para além de quem nada veja, ouça, pensa ou conheça – esse é o teu próprio Eu.

Brihadaraniaka Upanishad, epigrafe em Novas Andanças do Demónio de Jorge de Sena.

sábado, 11 de maio de 2019

NO PAÍS DOS SACANAS


O título do post pertence a um poema de Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão.

Herberto Helder no começo de Os Passos em Volta:

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis.

O que se passou ontem com a audição de Joe Berrado na Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco, é inenarrável.

Um vendedor de banha da cobra tem andado a enganar toda a gente com primeiros-ministros, ministros, banqueiros à cabeça da lista.

Num linguajar migrante, declarou que não tem dívidas, nem património, excepto uma garagem particular no Funchal, e culpa os bancos por lhe terem emprestado dinheiro.

«Não sabem o que fazem!»

Disse mais:

«Sou disléxico, misturo nomes, números. Não sou perfeito, ainda bem. Quem foi o mais prejudicado aqui fui eu».

Sempre me importei com determinado tipo de coisas e nada mudou ao ponto de deixarem de me incomodar.

Os breves minutos em que ouvi o traste, a rir-se de todos nós, aproximou-me do limiar do vómito, e saltei fora.

Passei pela estante e não sei se a (des)propósito saquei este poema do Jorge de Sena:

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma. 

Legenda: Imagem JM Madeira

sexta-feira, 3 de maio de 2019

CENTENÁRIOS



Em Lisboa, a 2 de Novembro de 1919, nascia Jorge de Sena pelo que, neste ano, ocorre o centenário do seu nascimento.

Perante a efeméride, que fará a cultura portuguesa?

Perseguido pela ditadura, perseguido por alguns fantasmas que foi criando ao longa da atribulada vida, deverá continuará a ser esquecido por quem entende que isto da cultura é coisa de somenos, que nem votos dá.

Jorge de Sena não era um homem fácil, mas foi um extraordinário trabalhador intelectual cuja obra vai da poesia à ficção, ao ensaio, ao teatro e, em vida, sempre lamentou que a sua obra não tivesse motivado mais estudos.

Destaco uma curiosa observação feita por José Gomes Ferreira no 3º volume dos seus DiasComuns.

Em 1970, Sena verificou que, numa nota crítica, José Bento cometera algumas omissões sobre escritores que se tinham pronunciado sobre a obra de Irene Lisboa:

«Só me espanta o seguinte: como é que o Jorge de Sena, no meio dos seus versos, das suas lições, dos seus estudos literários, dos seus contos, dos seus romances, das suas leituras, da sua correspondência, etc., etc., etc. – ainda arranja tempo para esta vigilância infatigável das pequeninas injustiças?»

 Jorge de Sena tem belíssimos e pungentes poemas.

Para além de alguns dos seus poemas, guardo a leitura do extraordinário conto Homenagem ao Papagaio que faz parte do livro Os Grão-Capitães e o romance Sinais de Fogo «primeira parte de um vasto ciclo que não sei se chegarei a escrever». Jorge de Sena não teve oportunidade de concluir esse ciclo e Sinaisde Fogo, nas suas 519 páginas, trata apenas de alguns meses de 1936 quando o projecto dessa viagem dentro de Portugal iria de 1936 a 1959.

Remate-se em nota de pé de página, que neste ano também se regista, 6 de Novembro de 1919, o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, escassíssimos dias depois do nascimento de Jorge de Sena. Mas estou (quase) certo de que Sophia terá uma outra atenção que não caberá a Jorge de Sena.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


Nunca me entusiasmei com a atribuição dos prémios Nobel da Literatura.

As atribuições contêm uma vasta lista de erros, gente obsoleta de que a história não mais ouviu falar e de escritores injustamente ausentes.

 O Prémio Nobel, é acima de tudo, dinheiro, uma pipa de massa, como diria o Luiz Pacheco que só vivia de «vintes» em troca das folhecas que escrevia ou editava.

José Saramago no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote:

«... deixemo-nos de hipocrisias e tenhamos a franqueza de reconhecer que, nesta comédia, o que verdadeiramente conta é o dinheiro».

Numa carta a José Rodrigues Miguéis, datada de 14 de Maio de 1967, José Saramago revela:

Alguma vez hei-de fazer o que me dá gosto…

José Saramago queria ser escritor, era esse o seu gosto.

Já tinha publicado, em 1947, Terra do Pecado que passou despercebido e em 1953 termina o romance Clarabóia que fica perdido num armazém da Empresa Nacional de Publicidade, em 1966 é editado o seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis.

Não consigo encontrar – tempos antes de Pilar del Rio - qualquer afirmação que revele que José Saramago alguma vez pensasse que um dia seria Nobel da Literatura.

Há aquela frase largamente citada, em que Saramago afirma, sem qualquer indicação específica:

«Aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter».

É de crer que será com Pilar que a ideia surge com força e determinação.

José Luís Judas, numa conversa revelada no livro de Joaquim Vieira, um dia ficou sem qualquer dúvida de que Pilar del Rio iria batalhar para que Saramago chegasse ao Nobel.

Numa carta de Sophia Mello Breyner Andresen, datada de Março de 1978, escreve a Jorge de Sena:

«Surgiu um facto que quero que fique claro: Por alturas de Dezembro recebi uma carta da Academia Sueca a convidar-me para eu propor um candidato ao Nobel da Literatura. No ano passado propus o teu nome. Depois disso, aqui há tempos surgiu uma comissão propondo o Torga e pediram-me que me associasse à sua proposta. Associei-me pois não me podia negar. Primeiro porque admiro muito o Torga, segundo porque gostaria que houvesse um Nobel português, uma vez que seja um escritor que tenha um nível de qualidade que como pátria me honre. Isto é : eu queria que o voto em ti funcionasse a teu favor, mas não contra o Torga. Para que não fosse diminuída a possibilidade de o Nobel ser atribuído a um português. Em consequência escrevi de novo à Academia Sueca explicando que mantinha o voto em ti mas que também apoiava uma candidatura do Torga dado que ambas eram candidaturas com grande qualidade e dignidade.
Só te digo isto a ti porque a carta da Academia Sueca me pede silêncio sobre o meu voto por isso te peço que não fales disto a ninguém.»

Pela leitura de José Saramago: Rota de Vida fica-se a saber que quatro pessoas acreditavam que um dia Saramago seria Prémio Nobel.

Joaquim Vieira na introdução que faz ao livro revela que, enquanto responsável editorial do Expresso convidou José Saramago em 1993 para escrever uma crónica de jornal todas as semanas.
«Confesso porém, que ao fazer-lhe a proposta, tinha na cabeça outro pensamento que guardei para mim: «Este tipo qualquer dia vai ganhar o Nobel da Literatura, e nesse momento será muito prestigiante para o Expresso tê-lo já como colunista.»

Outra pessoa que acredita no prémio é Isabel da Nóbrega.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Pilar del Rio também tinha a firme convicção de que um dia Saramago seria Nobel da Literatura.

A páginas 548 de Rota da Vida é referida uma conversa entre o sindicalista José Luís Judas, José Saramago e Pilar del Rio, em que a conversa gira em redor do veto que Sousa Lara impusera ao Evangelho Segundo Jesus Cristo. Saramago desabafou: «Este é um país de vetos».
Pilar pronunciou uma frase que José Luís Judas não mais esqueceu:
«Quando receberes o Prémio Nobel, estes fulanos vão ficar todos cheios de inveja.»
Judas tem a certeza que Saramago corou e disse:
«Esta andaluza dá-me cabo da cabeça da cabeça.»
Conversa rematada por Judas a Joaquim Vieira:
«Mas ela não só acreditou como batalhou por isso. Não tenho dúvidas.»

Joaquim Vieira revela que Natália Correia também acreditava que Saramago seria Nobel da Literatura. Vem na página 549 do livro:

«Até mesmo a intuitiva Natália Correia, em conversa que terá lugar no Botequim a propósito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo se alhear da temática nacional, entrevira uma aproximação ao Nobel – no relato de Fernando Da costa como testemunha: «A Natália falva de "desterritorialização” da litearatura em Portugal, de autores que escilhiam temas que não tinham que ver com o país, pois achavam que assim eram mais fáceis de traduzir e editar lá fora. E disse ao saramago, a propósito disso: “E tu também enveredaste por esse processo, porquês queres ganhar o Prémio Nobel. Vais ganhá-lo, mas, como és um tipo sério, vais voltar aos temas portugueses.»

Nunca se me colocou a ideia, breve que fosse, de que José Saramago poderia um dia ganhar o Prémio Nobel da Literatura.

No ano da atribuição do prémio tinha guardado um recorte do Público de 2 de Outubro em que e hipótese era admitida, e na véspera da atribuição, o jornal 24 horas , no topo direito da 1ª página, revelava que os «americanos apostam em Saramago».

De mim para mim, fui dizendo que esta coisa dos prováveis vencedores é a história do costume, e não vale a pena pensar muito no assunto.

Ao longo dos cinco volumes dos Cadernos de Lanzarote, Saramago foi guardando registos das expectativas de um dia poder vir a ser Nobel da Literatura:

No 1º volume, entrada escrita a 26 de Abril de 1993:

«Entrevista a Plínio Fraga, da “Folha de S. Paulo. Uma das questões era que António Houaiss, aqui há tempos, teria apostado em dois nomes para o Prémio Nobel deste ano: João Cabral de Melo Neto e este servidor. Pedia-se-me que comentasse a declaração de Houaiss e eu lembrei a Plínio o que Graham Greene respondeu a um jornalista que lhe perguntou o que pensava ele da atribuição do Prémio Nobel a François Mauriac. Foi esta a frase histórica: “O Nobel honrar-me-ia a mim, ao passo que Mauriac honra o Nobel.” Aí tem, disse, eu sou o Grahaam Greene desta história, e João Cabral de Melo Neto o Mauriac. Mas, em seguida, esgotada a minha capacidade de abnegação e modéstia, e também para não aparecer aos leitores da “Folha” como um sujeitinho hipócrita, acrescentei, desta maneira me sangrando em saúde: “Em todo o caso, parecer-me-ia justo que o primeiro Nobel de Literatura para a Língua Portuguesa fosse dado a um português, porque, na verdade, vai para novecentos anos que estamos à espera dele, enquanto vocês nem sequer dois séculos de esperanças frustradas levam…”

No 2º volume, entrada escrita a 12 de Outubro:

“Diz-se em Lisboa que o Nobel está no papo de Lobo Antunes. Pelos vistos, o jornalista brasileiro, amigo de Jorge Amado, sabia do que falava. Também me dizem que Lobo Antunes já se encontra na Suécia.”

No mesmo volume, entrada escrita a 13 de Outubro:

“O Nobel foi para um escritor japonês, Kenzaburo Oe. Afinal, o jornalista estava enganado. Nelson de Matos até tinha feito declarações à rádio, ou à televisão, não sei bem, dando como favas contadas a vitória do seu editado. O que vale é que o ridículo, pacientíssimo, continua a não matar, Quanto a mim, tenho de começar a pedir desculpa aos meus amigos por não ganhar o Nobel…»

No 3º volume, entrada escrita a 23 de Maio:

«Uma leitora na Feira: “Para o ano que vem teremos mais “Cadernos”?”. Respondo medievalmente como de costume: “Vida havendo e saúde não faltando…” E ela: “É que quero ver neles a notícia do Prémio Nobel…»

No 5º volume, entrada escrita a 9 de Outubro de 1997:

«Foi muito simples. Encontrávamo-nos na cozinha, Pilar e eu, sós, quando a rádio informou que o Prémio Nobel tinha sido atribuído a Dario Fo. Olhámo-nos tranquilamente (sim, tranquilamente, jurá-lo-ia se fosse necessário) e eu disse: “Pronto. Podemos voltar ao nosso sossego.” Falámos depois sobre o que naquele momento sentíamos, e ambos estivemos de acordo: alívio»

No mesmo volume, entrada escrita a 14 de Outubro de 1997:

«Frankfurt. Pilar telefonou hoje para casa, a saber se havia alguma novidade, e realmente, sim, havia novidade, a mais inesperada de todas as possíveis, aquela que nunca seríamos capazes de imaginar: nada mais nada menos que uma chamada telefónica de Dario Fo e dizer: «Sou um ladrão, roubei-te o prémio. Um dia será a tua vez. Abraço-te.» Mal saído do assombro em que a notícia me tinha deixado, disse a Pilar: «Suponho que uma coisa assim nunca terá acontecido na história deste prémio…», e Pilar, sábia, respondeu-me: «Não há que perder a confiança na generosidade humana.»

segunda-feira, 1 de abril de 2019

ALEGRIA POÉTICA


Carta, datada de 1 de Dezembro de 1958, de António Ramos Rosa para Jorge de Sena.
Acabada de sair a 3ª série das Líricas Portuguesas, publicada pela Portugália editora, com selecção, prefácio e notas de Jorge se Sena, Ramos Rosa apresta-se a saudar a publicação, enquanto vai traduzindo a dez escudos a página a Narrativa de Boris Pasternak:

«Transpondo um himalaia de dificuldades e trabalho obcecante e torturante – estou a traduzir a Narrativa de Pasternak, para a Europa-América, e por dez escudos a página francamente não recompensa – venho abraçá-lo muito sinceramente e, neste abraço, testemunhar-lhe toda a minha gratidão, não tento em nome individual, como na qualidade de amante de poesia, pelo excelente trabalho e magnífico serviço que prestou à Poesia Portuguesa. Que grande alegria me deu a sua antologia.»

quinta-feira, 21 de março de 2019

POR FALTA DE MASSAS!


Paramos, hoje, em duas cartas de António Ramos Rosa para Jorge de Sena em que
volta a referir as tremendas dificuldades económicas em que vivia.
António Ramos Rosa, para além de poeta admirável, do melhor que a nossa literatura possui, era um homem amável e sincero, de uma humildade desconcertante.
No findar da carta, datada de 13 de Agosto de 1958, pergunta a Jorge de Sena se recebeu o seu livro «O Grito Claro»:

«Recebeu o meu livrinho? Vi-me obrigado a fazer essa selecção porque as massas não chegavam para o livro completo. Fiz mal? Mesmo assim, fiquei inteiramente depenado. Vamos a ver se se vende.»

Tomem nota: por falta de massas Ramos Rosa não publicou o livro que tinha entre mãos, o livro que deveria ser publicado.

No dia seguinte envia outra carta:

«Aí lhe mando um poema que lhe é especialmente delicado que me levou a escrever as palavras de admiração que lhe dirigi ontem. Não ponha em dúvida a minha sinceridade do que ultrapassa de muito longe a pura amabilidade. Não o enganará decerto o tom dos meus versos, fracos porventura, mas onde eu creio perpassa algo de puro e genuíno. Eles foram inesperados. Há mais de cinco, seis ou sete meses que eu não escrevia um verso. Quase me sinto feliz – e duplamente por eles terem nascido para si. É decerto um sangue novo que aflui, não só à minha poesia, mas a esse diálogo que eu julgo não interrompido entre nós. Ainda bem e oxalá V. esteja de acordo comigo. É claro, digo isto, independentemente do valor real que se possa atribuir a esta minha poesia. Pode V. fazer dela o que entender, mas eu tinha empenho em que ela fosse publicada, para público testemunho duma gratidão que neste caso ultrapassa qualquer pessoalismo. Como não posso inteiramente descurar o lado material da questão, sugeriria que a publicasse na pág. lit. Do Diário de Notícias *, pois encontrando-me neste período de Verão, quase sem trabalho, como é habitual, muito jeito me fazia esse negócio. Claro, o negócio é por acréscimo, mas tem urgência.

*Há tempos pedi a este jornal que, na secção «Ronda», anunciasse o meu livrinho: até agora nada. Há anos enviei para lá um artigo, em carta registada, dirigida a Natércia Freire e também não o publicaram nem me responderam.»

Segue-se o poema que Ramos Rosa dedica a Sena e que foi publicado no Diário de Notícias de 4 de Setembro de 1958, Certamente não seria publicado se Jorge de Sena não tivesse feito diligência junto da matriarca Natércia. «Já lho pagaram?, pergunta ainda Sena em carta de 28 de Setembro.




Legenda: reprodução da 1ª edição de O Grito Claro, tirada de In-Libris

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

RELACIONADOS


Neste excerto decarta, António Ramos Rosa refere-se aos sonetos de Jorge de Sena publicados em As Evidências de 1955.

Ramos Rosa copiou à mão todos os sonetos que Jorge de Sena lhes emprestara.

Ramos Rosa ficou deslumbrado com a leitura desses sonetos.

«Perdoe-me o que haja nesta de redundante, mas não duvide do meu entusiasmo nem da certeza, que também é profundamente minha, de que os seus sonetos são uma grande coisa (uma grande e bela coisa!).»

Jorge de Sena escreveu a Ramos Rosa:

«Devo-lhe, de facto, muitos agradecimentos: por V. ser capaz de entusiasmo, por se ter entusiasmado com os sonetos, por mo ter dito, por mo ter dito directamente e tão bem.
Guarde para si essa cópia que lhe mandei – e devolva-me só a primeira página ou a que quiser, para eu inscrever uma dedicatória.»

É este o Soneto XXI que tanta alegria e deleite deu a António Ramos Rosa:

XXI

Cendrada luz enegrecendo o dia,
tão pálida nos longes dos telhados!
Para escrever mal vejo, e todavia
a dor libérrima que a mão me guia
essa me vê, conforta meus cuidados.

Ao fim terrível que me espera extenso,
nenhum conforto poderei pedir.
Da liberdade o desdobrado lenço
meu rosto cobrirá. Nem sei se penso
ou pensarei quando de mim fugir.

Perdem-se as letras. Noite, meu amor,
ó minha vida, eu nunca disse nada.
Por nós, por ti, por mim, falou a dor.
E a dor é evidente – libertada.

Legenda: capa de As Evidências de Jorge de Sena tirada da Loja Frenesi

domingo, 21 de outubro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Fim da Aventura

Graham Greene
Tradução e Prefácio: Jorge de Sena
Capa: João Machado
Colecção Letras do Mundo
Edições Asa, Porto, Fevereiro de 1995

Escrevi ao princípio que era isto um memorial de ódio; e, caminhando ali ao lado de Henry, em direcção ao copo de cerveja da tarde, descobri a única oração que parecia contentar a tristeza do Inverno: Ó meu Deus, já fizeste bastante, já me roubaste bastante, sinto-me por demais cansado e velho para aprender a amar, deixa-me em paz para sempre.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Portugueses na Califórnia

Helder Pinho
Prefácio: Jorge de Sena
Posfácio: Eduardo Mayone Dias
Capa: João da Câmara Leme
Editorial Notícias, Lisboa, Outubro de 1978

A saudade e a solidariedade foram as duas características bem portuguesas que mais nos revelaram os nossos compatriotas. Elas aprendidas e assimiladas no berço natal, constituem em muitos dos casos a razão de ser da ligação do emigrante
À pátria que o viu nascer.
- É a maior catástrofe do açoriano, a saudade. Ele não é capaz de esquecer nada, quando emigra, leva tudo consigo: a ilha, o pai, a mãe, os gatos, os cães, os coelhos… As ilhas, aquelas queridas ilhas, andam sempre às costas com ele, açoriano, e, quando volta a pisar terra portuguesa a primeira coisa que faz é perguntar: ó minha mãe onde é que está isto e aquilo que ali estava?...