Aquele que vê sem ser visto, ouve sem ser ouvido,
pensa sem ser pensado, conhece sem ser conhecido, e para além de quem nada
veja, ouça, pensa ou conheça – esse é o teu próprio Eu.
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sexta-feira, 19 de julho de 2019
POSTAIS SEM SELO
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Postais Sem Selo
sábado, 11 de maio de 2019
NO PAÍS DOS SACANAS
O título do post
pertence a um poema de Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão.
Herberto Helder
no começo de Os Passos em Volta:
Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme
de histórias terríveis.
O que se passou
ontem com a audição de Joe Berrado na Comissão Parlamentar de Inquérito à
Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco, é inenarrável.
Um vendedor de
banha da cobra tem andado a enganar toda a gente com primeiros-ministros,
ministros, banqueiros à cabeça da lista.
Num linguajar
migrante, declarou que não tem dívidas, nem património, excepto uma garagem
particular no Funchal, e culpa os bancos por lhe terem emprestado dinheiro.
«Não sabem o que
fazem!»
Disse mais:
«Sou disléxico,
misturo nomes, números. Não sou perfeito, ainda bem. Quem foi o mais
prejudicado aqui fui eu».
Sempre me
importei com determinado tipo de coisas e nada mudou ao ponto de deixarem de me
incomodar.
Os breves
minutos em que ouvi o traste, a rir-se de todos nós, aproximou-me do limiar do
vómito, e saltei fora.
Passei pela
estante e não sei se a (des)propósito saquei este poema do Jorge de Sena:
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
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Herberto Helder,
Jorge de Sena
sexta-feira, 3 de maio de 2019
CENTENÁRIOS
Em Lisboa, a 2
de Novembro de 1919, nascia Jorge de Sena pelo que, neste ano, ocorre o
centenário do seu nascimento.
Perante a
efeméride, que fará a cultura portuguesa?
Perseguido pela
ditadura, perseguido por alguns fantasmas que foi criando ao longa da atribulada
vida, deverá continuará a ser esquecido por quem entende que isto da cultura é
coisa de somenos, que nem votos dá.
Jorge de Sena
não era um homem fácil, mas foi um extraordinário trabalhador intelectual cuja
obra vai da poesia à ficção, ao ensaio, ao teatro e, em vida, sempre lamentou que
a sua obra não tivesse motivado mais estudos.
Destaco uma
curiosa observação feita por José Gomes Ferreira no 3º volume dos seus DiasComuns.
Em 1970, Sena
verificou que, numa nota crítica, José Bento cometera algumas omissões sobre
escritores que se tinham pronunciado sobre a obra de Irene Lisboa:
«Só me espanta o seguinte: como é que o Jorge de Sena,
no meio dos seus versos, das suas lições, dos seus estudos literários, dos seus
contos, dos seus romances, das suas leituras, da sua correspondência, etc.,
etc., etc. – ainda arranja tempo para esta vigilância infatigável das
pequeninas injustiças?»
Jorge de Sena tem belíssimos e pungentes
poemas.
Para além de
alguns dos seus poemas, guardo a leitura do extraordinário conto Homenagem ao
Papagaio que faz parte do livro Os Grão-Capitães e o romance Sinais de Fogo «primeira parte de um vasto ciclo que não sei se chegarei a
escrever». Jorge de Sena não teve oportunidade de concluir esse ciclo e Sinaisde Fogo, nas suas 519 páginas, trata apenas de alguns meses de 1936 quando
o projecto dessa viagem dentro de Portugal iria de 1936 a 1959.
Remate-se em
nota de pé de página, que neste ano também se regista, 6 de Novembro de 1919, o
centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, escassíssimos
dias depois do nascimento de Jorge de Sena. Mas estou (quase) certo de que
Sophia terá uma outra atenção que não caberá a Jorge de Sena.
quarta-feira, 10 de abril de 2019
SARAMAGUEANDO
Nunca me entusiasmei com a atribuição dos prémios Nobel
da Literatura.
As atribuições contêm uma vasta lista de erros, gente
obsoleta de que a história não mais ouviu falar e de escritores injustamente
ausentes.
O Prémio Nobel, é
acima de tudo, dinheiro, uma pipa de massa, como diria o Luiz Pacheco que só
vivia de «vintes» em troca das folhecas que escrevia ou editava.
José Saramago no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote:
«... deixemo-nos de hipocrisias e tenhamos a franqueza de reconhecer que, nesta comédia, o que verdadeiramente conta é o dinheiro».
José Saramago no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote:
«... deixemo-nos de hipocrisias e tenhamos a franqueza de reconhecer que, nesta comédia, o que verdadeiramente conta é o dinheiro».
Numa carta a José Rodrigues Miguéis, datada de 14 de Maio
de 1967, José Saramago revela:
Alguma vez hei-de fazer o que me dá gosto…
José Saramago
queria ser escritor, era esse o seu gosto.
Já tinha
publicado, em 1947, Terra do Pecado que passou despercebido e em 1953
termina o romance Clarabóia que fica perdido num armazém da Empresa
Nacional de Publicidade, em 1966 é editado o seu primeiro livro de poesia, Os
Poemas Possíveis.
Não consigo
encontrar – tempos antes de Pilar del Rio - qualquer afirmação que revele que
José Saramago alguma vez pensasse que um dia seria Nobel da Literatura.
Há aquela frase
largamente citada, em que Saramago afirma, sem qualquer indicação específica:
«Aquilo que tiver
que ser meu às mãos me há-de vir ter».
É de crer que será com Pilar que a ideia surge com força
e determinação.
José Luís Judas, numa conversa revelada no livro de
Joaquim Vieira, um dia ficou sem qualquer dúvida de que Pilar del Rio iria
batalhar para que Saramago chegasse ao Nobel.
Numa carta de Sophia Mello Breyner Andresen, datada de
Março de 1978, escreve a Jorge de Sena:
«Surgiu um facto que quero que fique claro: Por
alturas de Dezembro recebi uma carta da Academia Sueca a convidar-me para eu
propor um candidato ao Nobel da Literatura. No ano passado propus o teu nome.
Depois disso, aqui há tempos surgiu uma comissão propondo o Torga e pediram-me
que me associasse à sua proposta. Associei-me pois não me podia negar. Primeiro
porque admiro muito o Torga, segundo porque gostaria que houvesse um Nobel
português, uma vez que seja um escritor que tenha um nível de qualidade que
como pátria me honre. Isto é : eu queria que o voto em ti funcionasse a teu
favor, mas não contra o Torga. Para que não fosse diminuída a possibilidade de
o Nobel ser atribuído a um português. Em consequência escrevi de novo à
Academia Sueca explicando que mantinha o voto em ti mas que também apoiava uma
candidatura do Torga dado que ambas eram candidaturas com grande qualidade e
dignidade.
Só te digo isto a ti porque a carta da Academia Sueca
me pede silêncio sobre o meu voto por isso te peço que não fales disto a
ninguém.»
Pela leitura de José Saramago: Rota de Vida fica-se a saber que quatro pessoas acreditavam que
um dia Saramago seria Prémio Nobel.
Joaquim Vieira na introdução que faz ao livro revela que,
enquanto responsável editorial do Expresso convidou José Saramago em 1993
para escrever uma crónica de jornal todas as semanas.
«Confesso porém, que ao fazer-lhe a proposta, tinha na
cabeça outro pensamento que guardei para mim: «Este tipo qualquer dia vai
ganhar o Nobel da Literatura, e nesse momento será muito prestigiante para o Expresso
tê-lo já como colunista.»
Outra pessoa que
acredita no prémio é Isabel da Nóbrega.
Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira
conta a seguinte história:
«Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em
1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas
na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do
pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia,
vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»
Pilar del Rio
também tinha a firme convicção de que um dia Saramago seria Nobel da Literatura.
A páginas 548 de
Rota da Vida é referida uma conversa entre o sindicalista José Luís
Judas, José Saramago e Pilar del Rio, em que a conversa gira em redor do veto
que Sousa Lara impusera ao Evangelho Segundo Jesus Cristo. Saramago
desabafou: «Este é um país de vetos».
Pilar pronunciou
uma frase que José Luís Judas não mais esqueceu:
«Quando receberes o Prémio Nobel, estes fulanos vão
ficar todos cheios de inveja.»
Judas tem a
certeza que Saramago corou e disse:
«Esta andaluza dá-me cabo da cabeça da cabeça.»
Conversa
rematada por Judas a Joaquim Vieira:
«Mas ela não só acreditou como batalhou por isso. Não
tenho dúvidas.»
Joaquim Vieira
revela que Natália Correia também acreditava que Saramago seria Nobel da
Literatura. Vem na página 549 do livro:
«Até mesmo a intuitiva Natália Correia, em conversa
que terá lugar no Botequim a propósito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo se
alhear da temática nacional, entrevira uma aproximação ao Nobel – no relato de
Fernando Da costa como testemunha: «A Natália falva de "desterritorialização”
da litearatura em Portugal, de autores que escilhiam temas que não tinham que
ver com o país, pois achavam que assim eram mais fáceis de traduzir e editar lá
fora. E disse ao saramago, a propósito disso: “E tu também enveredaste por esse
processo, porquês queres ganhar o Prémio Nobel. Vais ganhá-lo, mas, como és um
tipo sério, vais voltar aos temas portugueses.»
Nunca se me
colocou a ideia, breve que fosse, de que José Saramago poderia um dia ganhar o
Prémio Nobel da Literatura.
No ano da atribuição
do prémio tinha guardado um recorte do Público de 2 de Outubro em que e
hipótese era admitida, e na véspera da atribuição, o jornal 24 horas , no
topo direito da 1ª página, revelava que os «americanos apostam em Saramago».
De mim para mim, fui dizendo que esta coisa dos prováveis vencedores é a história do costume, e não vale a pena pensar muito no assunto.
Ao longo dos
cinco volumes dos Cadernos de Lanzarote, Saramago foi guardando registos
das expectativas de um dia poder vir a ser Nobel da Literatura:
No 1º volume, entrada escrita a 26 de Abril de 1993:
«Entrevista a Plínio Fraga, da “Folha de S. Paulo. Uma
das questões era que António Houaiss, aqui há tempos, teria apostado em dois
nomes para o Prémio Nobel deste ano: João Cabral de Melo Neto e este servidor.
Pedia-se-me que comentasse a declaração de Houaiss e eu lembrei a Plínio o que
Graham Greene respondeu a um jornalista que lhe perguntou o que pensava ele da
atribuição do Prémio Nobel a François Mauriac. Foi esta a frase histórica: “O
Nobel honrar-me-ia a mim, ao passo que Mauriac honra o Nobel.” Aí tem, disse,
eu sou o Grahaam Greene desta história, e João Cabral de Melo Neto o Mauriac.
Mas, em seguida, esgotada a minha capacidade de abnegação e modéstia, e também
para não aparecer aos leitores da “Folha” como um sujeitinho hipócrita,
acrescentei, desta maneira me sangrando em saúde: “Em todo o caso,
parecer-me-ia justo que o primeiro Nobel de Literatura para a Língua Portuguesa
fosse dado a um português, porque, na verdade, vai para novecentos anos que
estamos à espera dele, enquanto vocês nem sequer dois séculos de esperanças
frustradas levam…”
No 2º volume, entrada escrita a 12 de Outubro:
“Diz-se em Lisboa que o Nobel está no papo de Lobo
Antunes. Pelos vistos, o jornalista brasileiro, amigo de Jorge Amado, sabia do
que falava. Também me dizem que Lobo Antunes já se encontra na Suécia.”
No mesmo volume, entrada escrita a 13 de Outubro:
“O Nobel foi para um escritor japonês, Kenzaburo Oe.
Afinal, o jornalista estava enganado. Nelson de Matos até tinha feito
declarações à rádio, ou à televisão, não sei bem, dando como favas contadas a
vitória do seu editado. O que vale é que o ridículo, pacientíssimo, continua a
não matar, Quanto a mim, tenho de começar a pedir desculpa aos meus amigos por
não ganhar o Nobel…»
No 3º volume, entrada escrita a 23 de Maio:
«Uma leitora na Feira: “Para o ano que vem teremos
mais “Cadernos”?”. Respondo medievalmente como de costume: “Vida havendo e
saúde não faltando…” E ela: “É que quero ver neles a notícia do Prémio Nobel…»
No 5º volume, entrada escrita a 9 de Outubro de 1997:
«Foi muito simples. Encontrávamo-nos na cozinha, Pilar
e eu, sós, quando a rádio informou que o Prémio Nobel tinha sido atribuído a
Dario Fo. Olhámo-nos tranquilamente (sim, tranquilamente, jurá-lo-ia se fosse
necessário) e eu disse: “Pronto. Podemos voltar ao nosso sossego.” Falámos
depois sobre o que naquele momento sentíamos, e ambos estivemos de acordo: alívio»
No mesmo volume, entrada escrita a 14 de Outubro de 1997:
«Frankfurt. Pilar telefonou hoje para casa, a saber se
havia alguma novidade, e realmente, sim, havia novidade, a mais inesperada de
todas as possíveis, aquela que nunca seríamos capazes de imaginar: nada mais
nada menos que uma chamada telefónica de Dario Fo e dizer: «Sou um ladrão,
roubei-te o prémio. Um dia será a tua vez. Abraço-te.» Mal saído do assombro em
que a notícia me tinha deixado, disse a Pilar: «Suponho que uma coisa assim
nunca terá acontecido na história deste prémio…», e Pilar, sábia, respondeu-me:
«Não há que perder a confiança na generosidade humana.»
segunda-feira, 1 de abril de 2019
ALEGRIA POÉTICA
Carta, datada de
1 de Dezembro de 1958, de António Ramos Rosa para Jorge de Sena.
Acabada de sair
a 3ª série das Líricas Portuguesas, publicada pela Portugália editora,
com selecção, prefácio e notas de Jorge se Sena, Ramos Rosa apresta-se a saudar
a publicação, enquanto vai traduzindo a dez escudos a página a Narrativa de
Boris Pasternak:
«Transpondo um himalaia de dificuldades e trabalho
obcecante e torturante – estou a traduzir a Narrativa de Pasternak, para a Europa-América, e por dez escudos a
página francamente não recompensa – venho abraçá-lo muito sinceramente e, neste
abraço, testemunhar-lhe toda a minha gratidão, não tento em nome individual,
como na qualidade de amante de poesia, pelo excelente trabalho e magnífico
serviço que prestou à Poesia Portuguesa. Que grande alegria me deu a sua
antologia.»
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quinta-feira, 21 de março de 2019
POR FALTA DE MASSAS!
Paramos, hoje,
em duas cartas de António Ramos Rosa para Jorge de Sena em que
volta a referir
as tremendas dificuldades económicas em que vivia.
António Ramos
Rosa, para além de poeta admirável, do melhor que a nossa literatura possui,
era um homem amável e sincero, de uma humildade desconcertante.
No findar da
carta, datada de 13 de Agosto de 1958, pergunta a Jorge de Sena se recebeu o
seu livro «O Grito Claro»:
«Recebeu o meu livrinho? Vi-me obrigado a fazer essa
selecção porque as massas não chegavam para o livro completo. Fiz mal? Mesmo
assim, fiquei inteiramente depenado. Vamos a ver se se vende.»
Tomem nota:
por falta de massas Ramos Rosa não publicou o livro que tinha entre mãos, o
livro que deveria ser publicado.
No dia seguinte
envia outra carta:
«Aí lhe mando um poema que lhe é especialmente
delicado que me levou a escrever as palavras de admiração que lhe dirigi ontem.
Não ponha em dúvida a minha sinceridade do que ultrapassa de muito longe a pura
amabilidade. Não o enganará decerto o tom dos meus versos, fracos porventura,
mas onde eu creio perpassa algo de puro e genuíno. Eles foram inesperados. Há
mais de cinco, seis ou sete meses que eu não escrevia um verso. Quase me sinto
feliz – e duplamente por eles terem nascido para si. É decerto um sangue novo
que aflui, não só à minha poesia, mas a esse diálogo que eu julgo não
interrompido entre nós. Ainda bem e oxalá V. esteja de acordo comigo. É claro,
digo isto, independentemente do valor real que se possa atribuir a esta minha
poesia. Pode V. fazer dela o que entender, mas eu tinha empenho em que ela
fosse publicada, para público testemunho duma gratidão que neste caso
ultrapassa qualquer pessoalismo. Como não posso inteiramente descurar o lado
material da questão, sugeriria que a publicasse na pág. lit. Do Diário de
Notícias *, pois encontrando-me neste período de Verão, quase sem trabalho,
como é habitual, muito jeito me fazia esse negócio. Claro, o negócio é por
acréscimo, mas tem urgência.
*Há tempos pedi a este jornal que, na secção «Ronda»,
anunciasse o meu livrinho: até agora nada. Há anos enviei para lá um artigo, em
carta registada, dirigida a Natércia Freire e também não o publicaram nem me
responderam.»
Segue-se o poema
que Ramos Rosa dedica a Sena e que foi publicado no Diário de Notícias de
4 de Setembro de 1958, Certamente não seria publicado se Jorge de Sena não
tivesse feito diligência junto da matriarca Natércia. «Já lho pagaram?,
pergunta ainda Sena em carta de 28 de Setembro.
Legenda:
reprodução da 1ª edição de O Grito Claro, tirada de In-Libris
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
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Neste excerto decarta, António Ramos Rosa refere-se aos sonetos de Jorge de Sena publicados em As
Evidências de 1955.
Ramos Rosa
copiou à mão todos os sonetos que Jorge de Sena lhes emprestara.
Ramos Rosa ficou
deslumbrado com a leitura desses sonetos.
«Perdoe-me o que haja nesta de redundante, mas não
duvide do meu entusiasmo nem da certeza, que também é profundamente minha, de
que os seus sonetos são uma grande coisa (uma grande e bela coisa!).»
Jorge de Sena
escreveu a Ramos Rosa:
«Devo-lhe, de facto, muitos agradecimentos: por V. ser
capaz de entusiasmo, por se ter entusiasmado com os sonetos, por mo ter dito,
por mo ter dito directamente e tão bem.
Guarde para si essa cópia que lhe mandei – e devolva-me
só a primeira página ou a que quiser, para eu inscrever uma dedicatória.»
É este o Soneto
XXI que tanta alegria e deleite deu a António Ramos Rosa:
XXI
Cendrada luz enegrecendo o dia,
tão pálida nos longes dos telhados!
Para escrever mal vejo, e todavia
a dor libérrima que a mão me guia
essa me vê, conforta meus cuidados.
Ao fim terrível que me espera extenso,
nenhum conforto poderei pedir.
Da liberdade o desdobrado lenço
meu rosto cobrirá. Nem sei se penso
ou pensarei quando de mim fugir.
Perdem-se as letras. Noite, meu amor,
ó minha vida, eu nunca disse nada.
Por nós, por ti, por mim, falou a dor.
E a dor é evidente – libertada.
Legenda: capa de
As Evidências de Jorge de Sena tirada da Loja Frenesi
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Relacionados
domingo, 21 de outubro de 2018
OLHAR AS CAPAS
O Fim da Aventura
Graham Greene
Tradução e Prefácio:
Jorge de Sena
Capa: João Machado
Colecção Letras do
Mundo
Edições Asa, Porto,
Fevereiro de 1995
Escrevi ao princípio que era isto um memorial de ódio; e, caminhando
ali ao lado de Henry, em direcção ao copo de cerveja da tarde, descobri a única
oração que parecia contentar a tristeza do Inverno: Ó meu Deus, já fizeste
bastante, já me roubaste bastante, sinto-me por demais cansado e velho para
aprender a amar, deixa-me em paz para sempre.
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terça-feira, 4 de setembro de 2018
OLHAR AS CAPAS
Portugueses na Califórnia
Helder Pinho
Prefácio: Jorge de
Sena
Posfácio: Eduardo
Mayone Dias
Capa: João da Câmara
Leme
Editorial Notícias,
Lisboa, Outubro de 1978
A saudade e a solidariedade foram as duas características bem
portuguesas que mais nos revelaram os nossos compatriotas. Elas aprendidas e
assimiladas no berço natal, constituem em muitos dos casos a razão de ser da
ligação do emigrante
À pátria que o viu nascer.
- É a maior catástrofe do açoriano, a saudade. Ele não é capaz de
esquecer nada, quando emigra, leva tudo consigo: a ilha, o pai, a mãe, os
gatos, os cães, os coelhos… As ilhas, aquelas queridas ilhas, andam sempre às
costas com ele, açoriano, e, quando volta a pisar terra portuguesa a primeira
coisa que faz é perguntar: ó minha mãe onde é que está isto e aquilo que ali
estava?...
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quinta-feira, 19 de julho de 2018
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Na Nota Preliminar
que Mécia, mulher de Jorge de Sena, escreveu para os 80 Poemas, conta que este projecto da tradução dos poemas de EmilyDickinson, era um velho sonho de Sena.
Em 1962 destinavam-se
a ser publicados em separata para a revista Bandarra,
organizada por Egito Gonçalves, mas nunca foram publicados.
Em 1967, com um
acréscimo de poemas traduzidos, foi enviado à Portugália Editora «onde não teve melhor sorte».
Em Julho de 1968 os
direitos autorais foram cedidos à Editorial Inova mas tudo ficou no
esquecimento.
Em Janeiro de 1978 as
Edições 70 prontificaram-se a publicar o livro, mas o poeta viria a morrer em
Junho desse mesmo ano.
Só em Outubro de 2010
os 80 Poemas de Emily Dickinson,
traduzidos por Jorge de Sena, teriam a sua publicação incluídos nas Obras
Completas que a Guimarães passou a publicar, tarefa a que a Editora se dedicou sem
grande carinho e entusiasmo. Diga-se.
Que o projecto era muito
querido a Jorge Sena, provam-no as muitas referências feitas a essas traduções
que se podem ler na Correspondência
que trocou com Eugénio de Andrade., ao todo 22 notas.
A Inova chegou a
andar às voltas com os poemas de Dickinson, juntamente com a tradução dos
poemas de Cavafy. Estes saíram, os de Dickinson não tiveram essa sorte. E como
Sena tereia ficado feliz com essa publicação.
Em 3 de Junho de
1969, Sena escrevia a Eugénio:
«Mas estou francamente inquieto até hoje não recebi, de ti ou da Inova,
notícia de ter chegado a Emily Dickinson, que mandei pouco antes do Cavafy e
nem a respeito deste ou dela recebi da Inova qualquer comunicação. Que se passa
ou não se passa?»
Em 22 de Dezembro de
1970, mais um lamento:
«E era preciso que essa Inova se lembrasse da minha pobre Emily
Dickinson que há tantos anos sempre se vê editorialmente preterida.»
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segunda-feira, 11 de junho de 2018
POSTAIS SEM SELO
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.
Jorge de Sena em Poemas Escolhidos
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Jorge de Sena,
Postais Sem Selo
quinta-feira, 3 de maio de 2018
OS CLÁSSICOS DO MEU PAI
Para beber uma
garrafinha de tinto, a acompanhar um petisco, qualquer motivo servia.
Mas o mais feliz
de todos era irmos ver um filme do João César Monteiro: juntar o gosto
petisqueiro à genialidade do João era o suprassumo do quotidiano, dizia o meu
pai.
É durante a
exibição de Veredas que o meu pai agarra com todos os sentidos a 7ªSinfonia de Anton Brucker que, juntamente com cantos populares de Trás-os-Montes e Alto
Alentejo, mais música instrumental da Idade Média, faz parte da banda sonora
deste filme datado de 1977.
Aliás, há que
salientar que, para além da excelência dos diálogos, há que mencionar as fabulosas bandas sonoras.
O mesmo se passa
com os filmes de Woody Allen.
Lembrar Vitor
Silva Tavares:
Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei
(na orelha do volume que reúne os argumentos de Le Bassin
de J.W. e de As Bodas de Deus): Melhor do que ele, ninguém escreve em
português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia
Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e
escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula
astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram
ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias
sejam, libertinagens, profanações.
O bichinho da 7ª
de Bruckner já andava a bailar no espírito do meu pai, mas foi depois de ter visto Veredas que
correu a comprar o CD.
Também já tinha
lido em A Cidade das Flores do Augusto Abelaira:
« E sorridente continuou. É o sorriso dum homem feliz
que observa Santa Croce, lé em baixo. Que é livre, que está a cantar, a cantar
muito de mansinho, aquele tema do primeiro andamento da Sétima de Bruckner,
aquele que se repete e se prolonga ao longo da sinfonia.»
O meu pai
adorava ter prazeres secretos.
Nunca os
explicava, não merecia a pena, ninguém entenderia, murmurava de olho brilhante
pelo vinhito.
Música: companheira de todas as horas.
sábado, 24 de fevereiro de 2018
PASSOU-SE TUDO TÃO LONGE E TÃO DEPRESSA
Chegamos ao fim da
viagem, iniciada em 27 de Setembro de 2017, que fomos fazendo sobre a Correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e
Jorge de Sena.
A última carta do
livro é de Sophia.
Está datada de 1 de
Julho de 1978, é endereçada a Mécia de Sousa, e refere a morte de Jorge De
Sena, ocorrida a 4 de Junho:
Querida Mécia
Telefonei duas vezes sem a encontrar. Sentia-me angustiada demais e
queria encontrar a sua voz. E não a tendo encontrado não tive coragem para as
palavras abreviadas do telegrama.
Para além do desgosto e da saudade sinto um profundo acabrunhamento.
Do Jorge oiço o grande rio em cheio da sua poesia passando através do
espaço e do tempo em que vivo.
Sei que dificilmente existirá alguém que seja seu igual. E não me
consolo destes dezoito anos de ausência que poderiam ter sido dezoito anos de
convívio, de encontros, conversas, riso comum, aflições e alegrias comunicadas.
Comecei por ser amiga do Jorge pela profunda admiração pela sua poesia.
Depois descobri a sua lealdade, a sua simpatia, o seu calor humano, e uma
grandeza humana que estava inscrita na grandeza da sua poesia.
Agora passou-se tudo tão longe e tão depressa. O Jorge era ainda novo e
em plena força de criação e de combate. Há uma violência difícil de aceitar.
O livro termina com a
transcrição do poema que Sophia escrveu sobre a sua morte.
Chamou-lhe «Carta(s) a Jorge de Sena:
I
Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde
II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida
E algo se desloca em nossa vida
III
Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos
IV
E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta
A morte vem como nenhuma carta
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
GOSTARIA QUE HOUVESSE UM NOBEL PORTUGUÊS...
Carta de Sophia, datada de Março de 1978, para Jorge de Sena:
Surgiu um facto que quero que fique claro: Por alturas
de Dezembro recebi uma carta da Academia Sueca a convidar-me para eu propor um
candidato ao Nobel da Literatura. No ano passado propus o teu nome. Depois
disso, aqui há tempos surgiu uma comissão propondo o Torga e pediram-me que me
associasse à sua proposta. Associei-me pois não me podia negar. Primeiro porque
admiro muito o Torga, segundo porque gostaria que houvesse um Nobel português,
uma vez que seja um escritor que tenha um nível de qualidade que como pátria me
honre. Isto é : eu queria que o voto em ti funcionasse a teu favor, mas não
contra o Torga. Para que não fosse diminuída a possibilidade de o Nobel ser atribuído
a um português. Em consequência escrevi de novo à Academia Sueca explicando que
mantinha o voto em ti mas que também apoiava uma candidatura do Torga dado que
ambas eram candidaturas com grande qualidade e dignidade.
Só te digo isto a ti porque a carta da Academia Sueca
me pede silêncio sobre o meu voto por isso te peço que não fales disto a
ninguém.
OLHAR AS CAPAS
Teatro I
Ti Coragem e os Seus Dois Filhos
A Boa Alma de Sé-Chuão
Bertolt Brecht
Tradução: Ilse
Losa
Poemas de Ti
Coragem e os Seus Dois Filhos traduzidos por Jorge de Sena
Poemas de A Boa
Alma de Sé-Chuão traduzidos por Alexandre O’Neill
Capa e desenho:
Tóssan
Portugália Editora,
Lisboa, 1961
A Canção do Fumo
O avô:
Em tempos, ainda não tinha eu estes cabelos brancos,
Julgava poder viver perfeitamente
Só da minha esperteza, como tantos…
Mas hoje sei: não há esperteza que sobre
Para encher o estômago dum pobre.
Portanto digo: deixa-te disso,
Olha o fumo cinzento que vai para além
De regiões frias, cada vez mais frias.
Assim vais tu também…
O homem:
Vi espancar os bons, vi espancar os justos,
E resolvi então seguir o meu caminho,
Mas por esse caminho, nós, os brutos,
Ainda mais brutos vamos ser.
Agora já não sei o que fazer.
Portanto digo: deixa-te disso,
Olha o fumo cinzento que vai para além
De regiões frias, cada vez mais frias.
Assim vais tu também…
A sobrinha:
Oiço dizer que os velhos já não esperam
Pois o tempo – e o tempo é tudo! – já lhes falta,
Que aos jovens como eu – foi o que me disseram –
A porta se oferece escancarada,
Mas disseram-me ainda: aberta sobre o nada.
E então digo também: deixa-te disso,
Olha o fumo cinzento que vai para além
De regiões frias, cada vez mais frias.
Assim vais tu também…
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
POSTAIS SEM SELO
Já tudo escureceu;
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.
É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.
A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.
É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.
A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.
Jorge de Sena
Legenda. Ilustração
de Carlos Dotro
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quinta-feira, 23 de novembro de 2017
POSTAIS SEM SELO
Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser
salvo. Porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que
nos salvem dele. Mas sabe que não há maneira fácil?
Jorge de Sena
numa carta a Sophia de Mello Breyner Andresen
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domingo, 8 de outubro de 2017
A SUA POESIA REUNIDA VÊ-SE MELHOR
Carta, datada de 20 de Março de 1961, de Sophia Mello
Breyner Andresen, para Jorge de Sena:
Muito obrigada pela
Poesia e pelas Andanças do
Demónio. A sua poesia reunida vê-se
melhor. O livro deu-me uma extraordinária impressão de grandeza. Uma grandeza
que é estilo, precisão, exactidão, força, construção e mais ainda testemunho,
olhar olhando de frente, inteireza, coragem.
Na Perseguição que você
me mandou em 1943 estão sublinhados dois versos do «Andante»:
«Soube-me sempre a destino a
minha vida»
e
«As crianças nascem com uma
coragem que perdem»
Este último verso
está no centro da sua poesia. Em toda ela há como que o testemunho de que o
poeta é o homem que não perde a coragem com a qual nasceu.
Li o seu livro com
um misto de entusiasmo e aguda tristeza: entusiasmo porque o livro é maravilhoso,
tristeza porque mais ainda vejo e penso como aqui quase todos e quase tudo o
não mereceram. Esteve aqui há dias a Menez que tinha comprado o seu livro e
estava maravilhada. Ela pediu-me que lhe dissesse isto.
Mesmo as pessoas
que como ela e como eu já conheciam bem a sua poesia o livro é surpreendente.
Tudo cresceu e tomou a sua imagem completa. A sua poesia reunida aparece com
uma densidade sem repetição e sem desfalecimento, numa unidade construída ponto
contra ponto desde a primeira até à última palavra.
Que esta unidade
tenha sido vivida e «existida» é o que me maravilha. Há no livro um espantoso
«fazer face» que é o testemunho dum mundo onde a poesia foi a única liberdade e
onde o poeta foi chamado a assumir todo o seu destino.
Mandei o seu livro
à Maria Helena Vieira da Silva, porque ela o admira muito e é uma das pessoas
que eu penso que entenderá toda a grandeza desta Poesia – I.
Legenda: capa de Poesia
I é tirada de Frenesi Loja
sábado, 12 de agosto de 2017
UMA POESIA QUE ESMAGA
5 de Setembro de 1969
Reli hoje quase
inteiramente a obra poética do Jorge de Sena que, mais uma vez, me impressionou
pela aparência fácil da sua poesia riquíssima – sem dúvida um das mais
importantes do nosso século que, com o tempo, se abrirá em novas descobertas e
mistérios.
Só um «senão» lhe
posso opor aqui e ali… Certos acasalamentos clássicos de adjectivos e substantivos…
É uma poesia que
esmaga. Pelo menos esmagou-me hoje. Oxalá me esmague menos amanhã. Ou mais.
José Gomes Ferreira em Livro das
Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.
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domingo, 6 de agosto de 2017
OLHAR AS CAPAS
O Velho e o Mar
Ernest Hemingway
Tradução Jorge de Sena
Capa e Ilustrações: Bernardo Marques
Edição Livros do
Brasil, Lisboa Abril 2002
Sempre pensava no
mar como la mar, que é o que o
povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar
dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos
pescadores mais novos, os que usam bóias por flutuadores e têm barcos a motor,
comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem el mar,
que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo.
Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa
favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia
deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.
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