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sexta-feira, 19 de julho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Aquele que vê sem ser visto, ouve sem ser ouvido, pensa sem ser pensado, conhece sem ser conhecido, e para além de quem nada veja, ouça, pensa ou conheça – esse é o teu próprio Eu.

Brihadaraniaka Upanishad, epigrafe em Novas Andanças do Demónio de Jorge de Sena.

sábado, 11 de maio de 2019

NO PAÍS DOS SACANAS


O título do post pertence a um poema de Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão.

Herberto Helder no começo de Os Passos em Volta:

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis.

O que se passou ontem com a audição de Joe Berrado na Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco, é inenarrável.

Um vendedor de banha da cobra tem andado a enganar toda a gente com primeiros-ministros, ministros, banqueiros à cabeça da lista.

Num linguajar migrante, declarou que não tem dívidas, nem património, excepto uma garagem particular no Funchal, e culpa os bancos por lhe terem emprestado dinheiro.

«Não sabem o que fazem!»

Disse mais:

«Sou disléxico, misturo nomes, números. Não sou perfeito, ainda bem. Quem foi o mais prejudicado aqui fui eu».

Sempre me importei com determinado tipo de coisas e nada mudou ao ponto de deixarem de me incomodar.

Os breves minutos em que ouvi o traste, a rir-se de todos nós, aproximou-me do limiar do vómito, e saltei fora.

Passei pela estante e não sei se a (des)propósito saquei este poema do Jorge de Sena:

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma. 

Legenda: Imagem JM Madeira

sexta-feira, 3 de maio de 2019

CENTENÁRIOS



Em Lisboa, a 2 de Novembro de 1919, nascia Jorge de Sena pelo que, neste ano, ocorre o centenário do seu nascimento.

Perante a efeméride, que fará a cultura portuguesa?

Perseguido pela ditadura, perseguido por alguns fantasmas que foi criando ao longa da atribulada vida, deverá continuará a ser esquecido por quem entende que isto da cultura é coisa de somenos, que nem votos dá.

Jorge de Sena não era um homem fácil, mas foi um extraordinário trabalhador intelectual cuja obra vai da poesia à ficção, ao ensaio, ao teatro e, em vida, sempre lamentou que a sua obra não tivesse motivado mais estudos.

Destaco uma curiosa observação feita por José Gomes Ferreira no 3º volume dos seus DiasComuns.

Em 1970, Sena verificou que, numa nota crítica, José Bento cometera algumas omissões sobre escritores que se tinham pronunciado sobre a obra de Irene Lisboa:

«Só me espanta o seguinte: como é que o Jorge de Sena, no meio dos seus versos, das suas lições, dos seus estudos literários, dos seus contos, dos seus romances, das suas leituras, da sua correspondência, etc., etc., etc. – ainda arranja tempo para esta vigilância infatigável das pequeninas injustiças?»

 Jorge de Sena tem belíssimos e pungentes poemas.

Para além de alguns dos seus poemas, guardo a leitura do extraordinário conto Homenagem ao Papagaio que faz parte do livro Os Grão-Capitães e o romance Sinais de Fogo «primeira parte de um vasto ciclo que não sei se chegarei a escrever». Jorge de Sena não teve oportunidade de concluir esse ciclo e Sinaisde Fogo, nas suas 519 páginas, trata apenas de alguns meses de 1936 quando o projecto dessa viagem dentro de Portugal iria de 1936 a 1959.

Remate-se em nota de pé de página, que neste ano também se regista, 6 de Novembro de 1919, o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, escassíssimos dias depois do nascimento de Jorge de Sena. Mas estou (quase) certo de que Sophia terá uma outra atenção que não caberá a Jorge de Sena.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


Nunca me entusiasmei com a atribuição dos prémios Nobel da Literatura.

As atribuições contêm uma vasta lista de erros, gente obsoleta de que a história não mais ouviu falar e de escritores injustamente ausentes.

 O Prémio Nobel, é acima de tudo, dinheiro, uma pipa de massa, como diria o Luiz Pacheco que só vivia de «vintes» em troca das folhecas que escrevia ou editava.

José Saramago no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote:

«... deixemo-nos de hipocrisias e tenhamos a franqueza de reconhecer que, nesta comédia, o que verdadeiramente conta é o dinheiro».

Numa carta a José Rodrigues Miguéis, datada de 14 de Maio de 1967, José Saramago revela:

Alguma vez hei-de fazer o que me dá gosto…

José Saramago queria ser escritor, era esse o seu gosto.

Já tinha publicado, em 1947, Terra do Pecado que passou despercebido e em 1953 termina o romance Clarabóia que fica perdido num armazém da Empresa Nacional de Publicidade, em 1966 é editado o seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis.

Não consigo encontrar – tempos antes de Pilar del Rio - qualquer afirmação que revele que José Saramago alguma vez pensasse que um dia seria Nobel da Literatura.

Há aquela frase largamente citada, em que Saramago afirma, sem qualquer indicação específica:

«Aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter».

É de crer que será com Pilar que a ideia surge com força e determinação.

José Luís Judas, numa conversa revelada no livro de Joaquim Vieira, um dia ficou sem qualquer dúvida de que Pilar del Rio iria batalhar para que Saramago chegasse ao Nobel.

Numa carta de Sophia Mello Breyner Andresen, datada de Março de 1978, escreve a Jorge de Sena:

«Surgiu um facto que quero que fique claro: Por alturas de Dezembro recebi uma carta da Academia Sueca a convidar-me para eu propor um candidato ao Nobel da Literatura. No ano passado propus o teu nome. Depois disso, aqui há tempos surgiu uma comissão propondo o Torga e pediram-me que me associasse à sua proposta. Associei-me pois não me podia negar. Primeiro porque admiro muito o Torga, segundo porque gostaria que houvesse um Nobel português, uma vez que seja um escritor que tenha um nível de qualidade que como pátria me honre. Isto é : eu queria que o voto em ti funcionasse a teu favor, mas não contra o Torga. Para que não fosse diminuída a possibilidade de o Nobel ser atribuído a um português. Em consequência escrevi de novo à Academia Sueca explicando que mantinha o voto em ti mas que também apoiava uma candidatura do Torga dado que ambas eram candidaturas com grande qualidade e dignidade.
Só te digo isto a ti porque a carta da Academia Sueca me pede silêncio sobre o meu voto por isso te peço que não fales disto a ninguém.»

Pela leitura de José Saramago: Rota de Vida fica-se a saber que quatro pessoas acreditavam que um dia Saramago seria Prémio Nobel.

Joaquim Vieira na introdução que faz ao livro revela que, enquanto responsável editorial do Expresso convidou José Saramago em 1993 para escrever uma crónica de jornal todas as semanas.
«Confesso porém, que ao fazer-lhe a proposta, tinha na cabeça outro pensamento que guardei para mim: «Este tipo qualquer dia vai ganhar o Nobel da Literatura, e nesse momento será muito prestigiante para o Expresso tê-lo já como colunista.»

Outra pessoa que acredita no prémio é Isabel da Nóbrega.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Pilar del Rio também tinha a firme convicção de que um dia Saramago seria Nobel da Literatura.

A páginas 548 de Rota da Vida é referida uma conversa entre o sindicalista José Luís Judas, José Saramago e Pilar del Rio, em que a conversa gira em redor do veto que Sousa Lara impusera ao Evangelho Segundo Jesus Cristo. Saramago desabafou: «Este é um país de vetos».
Pilar pronunciou uma frase que José Luís Judas não mais esqueceu:
«Quando receberes o Prémio Nobel, estes fulanos vão ficar todos cheios de inveja.»
Judas tem a certeza que Saramago corou e disse:
«Esta andaluza dá-me cabo da cabeça da cabeça.»
Conversa rematada por Judas a Joaquim Vieira:
«Mas ela não só acreditou como batalhou por isso. Não tenho dúvidas.»

Joaquim Vieira revela que Natália Correia também acreditava que Saramago seria Nobel da Literatura. Vem na página 549 do livro:

«Até mesmo a intuitiva Natália Correia, em conversa que terá lugar no Botequim a propósito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo se alhear da temática nacional, entrevira uma aproximação ao Nobel – no relato de Fernando Da costa como testemunha: «A Natália falva de "desterritorialização” da litearatura em Portugal, de autores que escilhiam temas que não tinham que ver com o país, pois achavam que assim eram mais fáceis de traduzir e editar lá fora. E disse ao saramago, a propósito disso: “E tu também enveredaste por esse processo, porquês queres ganhar o Prémio Nobel. Vais ganhá-lo, mas, como és um tipo sério, vais voltar aos temas portugueses.»

Nunca se me colocou a ideia, breve que fosse, de que José Saramago poderia um dia ganhar o Prémio Nobel da Literatura.

No ano da atribuição do prémio tinha guardado um recorte do Público de 2 de Outubro em que e hipótese era admitida, e na véspera da atribuição, o jornal 24 horas , no topo direito da 1ª página, revelava que os «americanos apostam em Saramago».

De mim para mim, fui dizendo que esta coisa dos prováveis vencedores é a história do costume, e não vale a pena pensar muito no assunto.

Ao longo dos cinco volumes dos Cadernos de Lanzarote, Saramago foi guardando registos das expectativas de um dia poder vir a ser Nobel da Literatura:

No 1º volume, entrada escrita a 26 de Abril de 1993:

«Entrevista a Plínio Fraga, da “Folha de S. Paulo. Uma das questões era que António Houaiss, aqui há tempos, teria apostado em dois nomes para o Prémio Nobel deste ano: João Cabral de Melo Neto e este servidor. Pedia-se-me que comentasse a declaração de Houaiss e eu lembrei a Plínio o que Graham Greene respondeu a um jornalista que lhe perguntou o que pensava ele da atribuição do Prémio Nobel a François Mauriac. Foi esta a frase histórica: “O Nobel honrar-me-ia a mim, ao passo que Mauriac honra o Nobel.” Aí tem, disse, eu sou o Grahaam Greene desta história, e João Cabral de Melo Neto o Mauriac. Mas, em seguida, esgotada a minha capacidade de abnegação e modéstia, e também para não aparecer aos leitores da “Folha” como um sujeitinho hipócrita, acrescentei, desta maneira me sangrando em saúde: “Em todo o caso, parecer-me-ia justo que o primeiro Nobel de Literatura para a Língua Portuguesa fosse dado a um português, porque, na verdade, vai para novecentos anos que estamos à espera dele, enquanto vocês nem sequer dois séculos de esperanças frustradas levam…”

No 2º volume, entrada escrita a 12 de Outubro:

“Diz-se em Lisboa que o Nobel está no papo de Lobo Antunes. Pelos vistos, o jornalista brasileiro, amigo de Jorge Amado, sabia do que falava. Também me dizem que Lobo Antunes já se encontra na Suécia.”

No mesmo volume, entrada escrita a 13 de Outubro:

“O Nobel foi para um escritor japonês, Kenzaburo Oe. Afinal, o jornalista estava enganado. Nelson de Matos até tinha feito declarações à rádio, ou à televisão, não sei bem, dando como favas contadas a vitória do seu editado. O que vale é que o ridículo, pacientíssimo, continua a não matar, Quanto a mim, tenho de começar a pedir desculpa aos meus amigos por não ganhar o Nobel…»

No 3º volume, entrada escrita a 23 de Maio:

«Uma leitora na Feira: “Para o ano que vem teremos mais “Cadernos”?”. Respondo medievalmente como de costume: “Vida havendo e saúde não faltando…” E ela: “É que quero ver neles a notícia do Prémio Nobel…»

No 5º volume, entrada escrita a 9 de Outubro de 1997:

«Foi muito simples. Encontrávamo-nos na cozinha, Pilar e eu, sós, quando a rádio informou que o Prémio Nobel tinha sido atribuído a Dario Fo. Olhámo-nos tranquilamente (sim, tranquilamente, jurá-lo-ia se fosse necessário) e eu disse: “Pronto. Podemos voltar ao nosso sossego.” Falámos depois sobre o que naquele momento sentíamos, e ambos estivemos de acordo: alívio»

No mesmo volume, entrada escrita a 14 de Outubro de 1997:

«Frankfurt. Pilar telefonou hoje para casa, a saber se havia alguma novidade, e realmente, sim, havia novidade, a mais inesperada de todas as possíveis, aquela que nunca seríamos capazes de imaginar: nada mais nada menos que uma chamada telefónica de Dario Fo e dizer: «Sou um ladrão, roubei-te o prémio. Um dia será a tua vez. Abraço-te.» Mal saído do assombro em que a notícia me tinha deixado, disse a Pilar: «Suponho que uma coisa assim nunca terá acontecido na história deste prémio…», e Pilar, sábia, respondeu-me: «Não há que perder a confiança na generosidade humana.»

segunda-feira, 1 de abril de 2019

ALEGRIA POÉTICA


Carta, datada de 1 de Dezembro de 1958, de António Ramos Rosa para Jorge de Sena.
Acabada de sair a 3ª série das Líricas Portuguesas, publicada pela Portugália editora, com selecção, prefácio e notas de Jorge se Sena, Ramos Rosa apresta-se a saudar a publicação, enquanto vai traduzindo a dez escudos a página a Narrativa de Boris Pasternak:

«Transpondo um himalaia de dificuldades e trabalho obcecante e torturante – estou a traduzir a Narrativa de Pasternak, para a Europa-América, e por dez escudos a página francamente não recompensa – venho abraçá-lo muito sinceramente e, neste abraço, testemunhar-lhe toda a minha gratidão, não tento em nome individual, como na qualidade de amante de poesia, pelo excelente trabalho e magnífico serviço que prestou à Poesia Portuguesa. Que grande alegria me deu a sua antologia.»

quinta-feira, 21 de março de 2019

POR FALTA DE MASSAS!


Paramos, hoje, em duas cartas de António Ramos Rosa para Jorge de Sena em que
volta a referir as tremendas dificuldades económicas em que vivia.
António Ramos Rosa, para além de poeta admirável, do melhor que a nossa literatura possui, era um homem amável e sincero, de uma humildade desconcertante.
No findar da carta, datada de 13 de Agosto de 1958, pergunta a Jorge de Sena se recebeu o seu livro «O Grito Claro»:

«Recebeu o meu livrinho? Vi-me obrigado a fazer essa selecção porque as massas não chegavam para o livro completo. Fiz mal? Mesmo assim, fiquei inteiramente depenado. Vamos a ver se se vende.»

Tomem nota: por falta de massas Ramos Rosa não publicou o livro que tinha entre mãos, o livro que deveria ser publicado.

No dia seguinte envia outra carta:

«Aí lhe mando um poema que lhe é especialmente delicado que me levou a escrever as palavras de admiração que lhe dirigi ontem. Não ponha em dúvida a minha sinceridade do que ultrapassa de muito longe a pura amabilidade. Não o enganará decerto o tom dos meus versos, fracos porventura, mas onde eu creio perpassa algo de puro e genuíno. Eles foram inesperados. Há mais de cinco, seis ou sete meses que eu não escrevia um verso. Quase me sinto feliz – e duplamente por eles terem nascido para si. É decerto um sangue novo que aflui, não só à minha poesia, mas a esse diálogo que eu julgo não interrompido entre nós. Ainda bem e oxalá V. esteja de acordo comigo. É claro, digo isto, independentemente do valor real que se possa atribuir a esta minha poesia. Pode V. fazer dela o que entender, mas eu tinha empenho em que ela fosse publicada, para público testemunho duma gratidão que neste caso ultrapassa qualquer pessoalismo. Como não posso inteiramente descurar o lado material da questão, sugeriria que a publicasse na pág. lit. Do Diário de Notícias *, pois encontrando-me neste período de Verão, quase sem trabalho, como é habitual, muito jeito me fazia esse negócio. Claro, o negócio é por acréscimo, mas tem urgência.

*Há tempos pedi a este jornal que, na secção «Ronda», anunciasse o meu livrinho: até agora nada. Há anos enviei para lá um artigo, em carta registada, dirigida a Natércia Freire e também não o publicaram nem me responderam.»

Segue-se o poema que Ramos Rosa dedica a Sena e que foi publicado no Diário de Notícias de 4 de Setembro de 1958, Certamente não seria publicado se Jorge de Sena não tivesse feito diligência junto da matriarca Natércia. «Já lho pagaram?, pergunta ainda Sena em carta de 28 de Setembro.




Legenda: reprodução da 1ª edição de O Grito Claro, tirada de In-Libris

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

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Neste excerto decarta, António Ramos Rosa refere-se aos sonetos de Jorge de Sena publicados em As Evidências de 1955.

Ramos Rosa copiou à mão todos os sonetos que Jorge de Sena lhes emprestara.

Ramos Rosa ficou deslumbrado com a leitura desses sonetos.

«Perdoe-me o que haja nesta de redundante, mas não duvide do meu entusiasmo nem da certeza, que também é profundamente minha, de que os seus sonetos são uma grande coisa (uma grande e bela coisa!).»

Jorge de Sena escreveu a Ramos Rosa:

«Devo-lhe, de facto, muitos agradecimentos: por V. ser capaz de entusiasmo, por se ter entusiasmado com os sonetos, por mo ter dito, por mo ter dito directamente e tão bem.
Guarde para si essa cópia que lhe mandei – e devolva-me só a primeira página ou a que quiser, para eu inscrever uma dedicatória.»

É este o Soneto XXI que tanta alegria e deleite deu a António Ramos Rosa:

XXI

Cendrada luz enegrecendo o dia,
tão pálida nos longes dos telhados!
Para escrever mal vejo, e todavia
a dor libérrima que a mão me guia
essa me vê, conforta meus cuidados.

Ao fim terrível que me espera extenso,
nenhum conforto poderei pedir.
Da liberdade o desdobrado lenço
meu rosto cobrirá. Nem sei se penso
ou pensarei quando de mim fugir.

Perdem-se as letras. Noite, meu amor,
ó minha vida, eu nunca disse nada.
Por nós, por ti, por mim, falou a dor.
E a dor é evidente – libertada.

Legenda: capa de As Evidências de Jorge de Sena tirada da Loja Frenesi

domingo, 21 de outubro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Fim da Aventura

Graham Greene
Tradução e Prefácio: Jorge de Sena
Capa: João Machado
Colecção Letras do Mundo
Edições Asa, Porto, Fevereiro de 1995

Escrevi ao princípio que era isto um memorial de ódio; e, caminhando ali ao lado de Henry, em direcção ao copo de cerveja da tarde, descobri a única oração que parecia contentar a tristeza do Inverno: Ó meu Deus, já fizeste bastante, já me roubaste bastante, sinto-me por demais cansado e velho para aprender a amar, deixa-me em paz para sempre.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Portugueses na Califórnia

Helder Pinho
Prefácio: Jorge de Sena
Posfácio: Eduardo Mayone Dias
Capa: João da Câmara Leme
Editorial Notícias, Lisboa, Outubro de 1978

A saudade e a solidariedade foram as duas características bem portuguesas que mais nos revelaram os nossos compatriotas. Elas aprendidas e assimiladas no berço natal, constituem em muitos dos casos a razão de ser da ligação do emigrante
À pátria que o viu nascer.
- É a maior catástrofe do açoriano, a saudade. Ele não é capaz de esquecer nada, quando emigra, leva tudo consigo: a ilha, o pai, a mãe, os gatos, os cães, os coelhos… As ilhas, aquelas queridas ilhas, andam sempre às costas com ele, açoriano, e, quando volta a pisar terra portuguesa a primeira coisa que faz é perguntar: ó minha mãe onde é que está isto e aquilo que ali estava?...

quinta-feira, 19 de julho de 2018

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Na Nota Preliminar que Mécia, mulher de Jorge de Sena, escreveu para os 80 Poemas, conta que este projecto da tradução dos poemas de EmilyDickinson, era um velho sonho de Sena.

Em 1962 destinavam-se a ser publicados em separata para a revista Bandarra, organizada por Egito Gonçalves, mas nunca foram publicados.

Em 1967, com um acréscimo de poemas traduzidos, foi enviado à Portugália Editora «onde não teve melhor sorte».

Em Julho de 1968 os direitos autorais foram cedidos à Editorial Inova mas tudo ficou no esquecimento.

Em Janeiro de 1978 as Edições 70 prontificaram-se a publicar o livro, mas o poeta viria a morrer em Junho desse mesmo ano.

Só em Outubro de 2010 os 80 Poemas de Emily Dickinson, traduzidos por Jorge de Sena, teriam a sua publicação incluídos nas Obras Completas que a Guimarães passou a publicar, tarefa a que a Editora se dedicou sem grande carinho e entusiasmo. Diga-se.

Que o projecto era muito querido a Jorge Sena, provam-no as muitas referências feitas a essas traduções que se podem ler na Correspondência que trocou com Eugénio de Andrade., ao todo 22 notas.

A Inova chegou a andar às voltas com os poemas de Dickinson, juntamente com a tradução dos poemas de Cavafy. Estes saíram, os de Dickinson não tiveram essa sorte. E como Sena tereia ficado feliz com essa publicação.

Em 3 de Junho de 1969, Sena escrevia a Eugénio:

«Mas estou francamente inquieto até hoje não recebi, de ti ou da Inova, notícia de ter chegado a Emily Dickinson, que mandei pouco antes do Cavafy e nem a respeito deste ou dela recebi da Inova qualquer comunicação. Que se passa ou não se passa?»

Em 22 de Dezembro de 1970, mais um lamento:

«E era preciso que essa Inova se lembrasse da minha pobre Emily Dickinson que há tantos anos sempre se vê editorialmente preterida.»

segunda-feira, 11 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena em Poemas Escolhidos

quinta-feira, 3 de maio de 2018

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Para beber uma garrafinha de tinto, a acompanhar um petisco, qualquer motivo servia.

Mas o mais feliz de todos era irmos ver um filme do João César Monteiro: juntar o gosto petisqueiro à genialidade do João era o suprassumo do quotidiano, dizia o meu pai.

É durante a exibição de Veredas que o meu pai agarra com todos os sentidos a 7ªSinfonia de Anton Brucker que, juntamente com cantos populares de Trás-os-Montes e Alto Alentejo, mais música instrumental da Idade Média, faz parte da banda sonora deste filme datado de 1977.

Aliás, há que salientar que, para além da excelência dos diálogos, há que  mencionar as fabulosas bandas sonoras.

O mesmo se passa com os filmes de Woody Allen.


Lembrar Vitor Silva Tavares:


Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei (na orelha do volume que reúne os argumentos de Le Bassin de J.W. e de As Bodas de Deus): Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.

O bichinho da 7ª de Bruckner já andava a bailar no espírito do meu pai,  mas foi depois de ter visto Veredas que correu a comprar o CD.

Também já tinha lido em A Cidade das Flores do Augusto Abelaira:

« E sorridente continuou. É o sorriso dum homem feliz que observa Santa Croce, lé em baixo. Que é livre, que está a cantar, a cantar muito de mansinho, aquele tema do primeiro andamento da Sétima de Bruckner, aquele que se repete e se prolonga ao longo da sinfonia.»

O meu pai adorava ter prazeres secretos.

Nunca os explicava, não merecia a pena, ninguém entenderia, murmurava de olho brilhante pelo vinhito.


Música: companheira de todas as horas.


sábado, 24 de fevereiro de 2018

PASSOU-SE TUDO TÃO LONGE E TÃO DEPRESSA


Chegamos ao fim da viagem, iniciada em 27 de Setembro de 2017, que fomos fazendo sobre a Correspondência  entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena.
A última carta do livro é de Sophia.
Está datada de 1 de Julho de 1978, é endereçada a Mécia de Sousa, e refere a morte de Jorge De Sena, ocorrida a 4 de Junho:

Querida Mécia

Telefonei duas vezes sem a encontrar. Sentia-me angustiada demais e queria encontrar a sua voz. E não a tendo encontrado não tive coragem para as palavras abreviadas do telegrama.
Para além do desgosto e da saudade sinto um profundo acabrunhamento.
Do Jorge oiço o grande rio em cheio da sua poesia passando através do espaço e do tempo em que vivo.
Sei que dificilmente existirá alguém que seja seu igual. E não me consolo destes dezoito anos de ausência que poderiam ter sido dezoito anos de convívio, de encontros, conversas, riso comum, aflições e alegrias comunicadas.
Comecei por ser amiga do Jorge pela profunda admiração pela sua poesia. Depois descobri a sua lealdade, a sua simpatia, o seu calor humano, e uma grandeza humana que estava inscrita na grandeza da sua poesia.
Agora passou-se tudo tão longe e tão depressa. O Jorge era ainda novo e em plena força de criação e de combate. Há uma violência difícil de aceitar.

O livro termina com a transcrição do poema que Sophia escrveu sobre a sua morte.
Chamou-lhe «Carta(s) a Jorge de Sena:

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde

II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

GOSTARIA QUE HOUVESSE UM NOBEL PORTUGUÊS...


Carta de Sophia, datada de Março de 1978, para Jorge de  Sena:

Surgiu um facto que quero que fique claro: Por alturas de Dezembro recebi uma carta da Academia Sueca a convidar-me para eu propor um candidato ao Nobel da Literatura. No ano passado propus o teu nome. Depois disso, aqui há tempos surgiu uma comissão propondo o Torga e pediram-me que me associasse à sua proposta. Associei-me pois não me podia negar. Primeiro porque admiro muito o Torga, segundo porque gostaria que houvesse um Nobel português, uma vez que seja um escritor que tenha um nível de qualidade que como pátria me honre. Isto é : eu queria que o voto em ti funcionasse a teu favor, mas não contra o Torga. Para que não fosse diminuída a possibilidade de o Nobel ser atribuído a um português. Em consequência escrevi de novo à Academia Sueca explicando que mantinha o voto em ti mas que também apoiava uma candidatura do Torga dado que ambas eram candidaturas com grande qualidade e dignidade.
Só te digo isto a ti porque a carta da Academia Sueca me pede silêncio sobre o meu voto por isso te peço que não fales disto a ninguém.

OLHAR AS CAPAS


Teatro I
Ti Coragem e os Seus Dois Filhos
A Boa Alma de Sé-Chuão

Bertolt Brecht
Tradução: Ilse Losa
Poemas de Ti Coragem e os Seus Dois Filhos traduzidos por Jorge de Sena
Poemas de A Boa Alma de Sé-Chuão traduzidos por Alexandre O’Neill
Capa e desenho: Tóssan
Portugália Editora, Lisboa, 1961

A Canção do Fumo

O avô:

Em tempos, ainda não tinha eu estes cabelos brancos,
Julgava poder viver perfeitamente
Só da minha esperteza, como tantos…
Mas hoje sei: não há esperteza que sobre
Para encher o estômago dum pobre.
Portanto digo: deixa-te disso,
Olha o fumo cinzento que vai para além
De regiões frias, cada vez mais frias.
Assim vais tu também…

O homem:

Vi espancar os bons, vi espancar os justos,
E resolvi então seguir o meu caminho,
Mas por esse caminho, nós, os brutos,
Ainda mais brutos vamos ser.
Agora já não sei o que fazer.
Portanto digo: deixa-te disso,
Olha o fumo cinzento que vai para além
De regiões frias, cada vez mais frias.
Assim vais tu também…

A sobrinha:

Oiço dizer que os velhos já não esperam
Pois o tempo – e o tempo é tudo! – já lhes falta,
Que aos jovens como eu – foi o que me disseram –
A porta se oferece escancarada,
Mas disseram-me ainda: aberta sobre o nada.
E então digo também: deixa-te disso,
Olha o fumo cinzento que vai para além
De regiões frias, cada vez mais frias.

Assim vais tu também…

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Já tudo escureceu;
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.

 Jorge de Sena

Legenda. Ilustração de Carlos Dotro

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo. Porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele. Mas sabe que não há maneira fácil?

Jorge de Sena numa carta a Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 8 de outubro de 2017

A SUA POESIA REUNIDA VÊ-SE MELHOR


Carta, datada de 20 de Março de 1961, de Sophia Mello Breyner Andresen, para Jorge de Sena:

Muito obrigada pela Poesia e pelas Andanças do Demónio. A sua poesia reunida vê-se melhor. O livro deu-me uma extraordinária impressão de grandeza. Uma grandeza que é estilo, precisão, exactidão, força, construção e mais ainda testemunho, olhar olhando de frente, inteireza, coragem.
Na Perseguição que você me mandou em 1943 estão sublinhados dois versos do «Andante»:

                «Soube-me sempre a destino a minha vida»
                                                  e
                «As crianças nascem com uma coragem que perdem»

Este último verso está no centro da sua poesia. Em toda ela há como que o testemunho de que o poeta é o homem que não perde a coragem com a qual nasceu.
Li o seu livro com um misto de entusiasmo e aguda tristeza: entusiasmo porque o livro é maravilhoso, tristeza porque mais ainda vejo e penso como aqui quase todos e quase tudo o não mereceram. Esteve aqui há dias a Menez que tinha comprado o seu livro e estava maravilhada. Ela pediu-me que lhe dissesse isto.
Mesmo as pessoas que como ela e como eu já conheciam bem a sua poesia o livro é surpreendente. Tudo cresceu e tomou a sua imagem completa. A sua poesia reunida aparece com uma densidade sem repetição e sem desfalecimento, numa unidade construída ponto contra ponto desde a primeira até à última palavra.
Que esta unidade tenha sido vivida e «existida» é o que me maravilha. Há no livro um espantoso «fazer face» que é o testemunho dum mundo onde a poesia foi a única liberdade e onde o poeta foi chamado a assumir todo o seu destino.
Mandei o seu livro à Maria Helena Vieira da Silva, porque ela o admira muito e é uma das pessoas que eu penso que entenderá toda a grandeza desta Poesia – I.


Legenda: capa de Poesia  I  é tirada de Frenesi Loja

sábado, 12 de agosto de 2017

UMA POESIA QUE ESMAGA


5 de Setembro de 1969

Reli hoje quase inteiramente a obra poética do Jorge de Sena que, mais uma vez, me impressionou pela aparência fácil da sua poesia riquíssima – sem dúvida um das mais importantes do nosso século que, com o tempo, se abrirá em novas descobertas e mistérios.
Só um «senão» lhe posso opor aqui e ali… Certos acasalamentos clássicos de adjectivos  e substantivos…
É uma poesia que esmaga. Pelo menos esmagou-me hoje. Oxalá me esmague menos amanhã. Ou mais.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

domingo, 6 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Velho e o Mar

Ernest Hemingway
Tradução Jorge de Sena
Capa e Ilustrações: Bernardo Marques  
Edição Livros do Brasil, Lisboa Abril 2002

Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam bóias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.