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segunda-feira, 11 de maio de 2020

OLHAR AS CAPAS


Correspondência
(1943-1977)

Jorge de Sena/João Gaspar Simões
Incluindo o carteio de Mécia de Sena
Organização, estudo introdutório: Filipe Delfim Santos
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz Editores, Lisboa, Maio de 2013

Lx. 22/2/952

Gaspar Simões,

Não quero deixar de agradecer-lhe a referência longa, cuidadosa e atenta, que dedicou no Diário Popular ao meu Indesejado. Muito obrigado.
Só lamento que não tenha dito que a peça está pronta desde fins de 1945, visto que foi lida, tal qual publicada agora, em março de 1946. E isto é importante, porque é anterior à publicação de todas as peças do Montherlant, anterior a Christopher Fry, anterior a todas as peças históricas citadas no seu artigo. Mas não se pode exigir tudo.

Gratamente o

Jorge de Sena

sexta-feira, 19 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS



Novas Andanças do Demónio

Jorge de Sena
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 93
Portugália Editora, Lisboa, Agosto de 1966

Este conto é um conto breve. É mesmo brevíssimo. De resto, se não fosse breve, muitíssimo breve, correria o risco de não ser um conto. A obrigação principal dos contos, mais que dos homens, é conhecerem os seus limites.

domingo, 23 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


 Correspondência
(1969-1978)

Jorge de Sena
Carlo Vittorio Cattaneo
Edição: Mécia de Sena, Jorge Fazenda Lourenço e Joana Meirim
Tradução do italiano. Jorge Vaz de Carvalho
Guimarães Editores, Lisboa, Novembro de 2013

Lamento que V. não tenha recebido a sua bolsa (alguém a recebeu em vez de si?). e vejo que o encargo de organizar a biblioteca do Instituto é assim como um prémio de consolação (ao menos pagam-lhe). Quanto ao prémio de poesia… meu caro: os prémios de poesia só se dão aos consagrados, aos amigos dos consagrados, aos amantes ou às amantes dos consagrados e dos júris. E, para ser-se um consagrado e recebê-los, é preciso ou ser-se um milagre de diplomacia e de bonomia com os idiotas deste mundo, ou fazer parte da pandilha. Eu que o diga, que nunca concorri pessoalmente a nenhum, mas que várias vezes entrei em prémios a que os editores, concorriam, por mim. Há anos, não sei se lhe contei, apesar de oposições velhas de anos, e muita raiva surda, o Prémio Nacional do Diário de Notícias foi votado para mim (50 contos que me faziam um arranjo enorme, caríssimo) – não havia saída, eu ia ganhar… ah, havia uma saída, não podiam premiar-me porque sou cidadão brasileiro (e viva a dupla nacionalidade das pátrias irmãs… ) e não apanhei o prémio que foi para o sujeito que tem apanhado sempre (é a terceira vez) os prémios que me tiram, o Torga.

(Duma carta de Jorge de Sena, datada de 16 de Novembro de 1971, para Carlo Vittorio Cattaneo).

sábado, 9 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Sobre Cinema

Jorge de Sena
Organização e Introdução de Mécia de Sena
Co-organização e Notas de Manuel S. Fonseca
Capa: Luís Miguel Castro
Cinemateca Portuguesa. Lisboa, 1988

Devemos agradecer a Gloria Swanson a coragem inexcedível com que aceitou assumir a interpretação de uma imagem simultaneamente transposta e no íntimo exacta do seu próprio destino de grande astro. A inteligência certeira com que representou a aflitiva deshumanização final de toda uma teoria mistificada da vida ficará na história do cinema como um dos getos mais corajosos que uma celebridade terá executado, e só comparável, na sua essência, à mensagem que Charlot nos trouxe, como um testamento perante o qual nos devemos curvar rendidos, nas suas Luzes da Ribalta. O final de Sunset Boulevard, aquela descida triunfal para a prisão e o manicómio, com a dádiva do público de um rosto gloriosamente prestigiosos e mesquinhamente envelhecido, que só a loucura de uma derradeira aparição angustiosamente nimba, é uma despedida em beleza, uma lição de humanidade, um manifesto de consciência artística.

(Extracto do texto lido, na sala do Cinema Tivoli, sobre Sunset Boulevard de Billy Wilder).

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Entrevistas
1958-1978

Jorge de Sena
Selecção de Jorge Fazenda Lourenço
Capa: João Botelho
Babel, Lisboa, Março de 2013

Escrever, para mim, não é sacrifício: é um prazer. É também um acto moral e social. Eu sempre achei que a criação literária é uma criação comprometida, , ainda que a pessoa não esteja comprometida, digamos no sentido partidário. Mas está comprometida com todo um ideal de justiça, de liberdade, de visão social do mundo. Tudo isso representa um comprometimento sem o qual a literatura acto moral e social. Tudo isso representa um comprometimento sem o qual a literatura para mim não existe.

Da entrevista dada a Baptista-Bastos e publicada no Diário Popular de 30 de Setembro de 1976

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Sinais de Fogo

Jorge de Sena
Nota: Mécia de Sena
Prefácio: Arnaldo Saraiva
Capa: A. Saldanha Coutinho
Edições 70, Lisboa, Maio de 1981

Uma saciedade contraditória, como de saudade lancinante que se adiasse tranquila sem deixar de ser agudamente física, se me ajustava à frustração humilhada. Limpei-me com o lenço. Olhei aflito em volta, com a sensação que antes não tivera de milhares de olhos escarninhos a observar-me o ridículo. Mas não havia ninguém. Caminhei até ao murete da linha dos comboios, e procurei na vedação de arame, que encerrava as linhas pelo outro lado, uma abertura por onde passar. Encontrei-a mais adiante. Como num entressonhar, fui andando até chegar a uma azinhaga ao fim da qual via postes de eléctrico. Foi quando uma onda asfixiante de bem-estar, um bem estar irónico, sardónico, casquinante, estourou dentro de mim num silenciosos grito que retiniu nos tímpanos, nos muros, na atmosfera já sombria da azinhaga.
- Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço…
Febrilmente, e ao mesmo tempo com a serenidade de quem está seguro de que as vozes lhe falam e não vão calar-se (eu já ouvia as cadências continuar-se), escrevi:

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre-
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego-
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte-
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor nos traiu-
Quanta traição existe em possuir-te a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro-
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará-
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só-
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro-
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida-
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam-
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS


80 Poemas

Emily Dickinson
Selecção, tradução e prefácio: Jorge de Sena
Nota Preliminar: Márcia de Sena
Capa: João Botelho
Guimarães Editores, Lisboa, Outubro de 2010

Morri pela Beleza mas mal eu
Na tumba me acomodara,
Um que pela Verdade então morrera
A meu lado se deitava.

De manso perguntou por quem tombara…
. pela Beleza – disse eu.
- A mim foi a Verdade. É a mesma Coisa.
Somos irmãos – respondeu.

E quais na Noite os que se encontram falam –
De Quarto a Quarto a gente conversou –
Até que o Musgo veio aos nossos lábios –
E os nossos nomes  -  tapou.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Poesias Escolhidas

Selecção, prefácio e notas: Jorge Fazenda Lourenço
Capa: Rochinha Diogo
Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1989

Os trabalhos e os dias

Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.

À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.

Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.

domingo, 7 de maio de 2017

OLHAR AS CAPAS


40 Anos de Servidão

Jorge de Sena
Prefácio: Mécia de Sena
Colecção Círculo de Poesia nº 92
Moraes Editores, Lisboa, Setembro de 1982

Deixem-se de fingir de heróis da esquerda,
com bancos e bancas de advogados, redacções,
editoriais, automóvel, bolsas e cátedras,
quintas herdadas, páginas literárias.
Deixem-se de uivar em defesa de ismos
que nenhum vos pertence ou a que pertenceis
a não ser para dançar a dança desnalgada
dos que não têm vergonha do povo português.
O único ismos em consonância com os arrotos
de bem comidos, e rosnidos de instalados
naquilo que criticam disfarçando-se,
é o relismo - de reles. Nada mais.


15/1/72

quinta-feira, 13 de abril de 2017

OLHAR AS CAPAS




Correspondência
1959-1978

Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena
Notas Prévias de Mécia de Sousa e Maria Andresen Sousa Tavares
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz, Lisboa, Fevereiro de 2010

Desculpe o longo silêncio: você sabe que eu tenho a maior vocação para falar ao telefone e nenhuma vocação para escrever cartas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 22 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Correspondência
1949-1978

Jorge de Sena/Eugénio de Andrade
Organização: Mécia de Sena
Apresentação: Isabel de Sena
Notas: Jorge Fazenda Lourenço
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz, Lisboa, Outubro de 2016

Querido Jorge:

Recebi simultaneamente a tua carta e original de Cavafy, há já alguns dias, mas não tive ocasião de te escrever logo após a leitura dos poemas, como gostaria de ter feito. Comparei mesmo alguns poemas com a tradução do Pontani. Como imaginava, a tua tradução é incomparável, particularmente, os poemas breves, os mais difíceis de traduzir, pelo risco que alguns correm de se transformarem numa quase banalidade madrigalesca, o que acontecia com as traduções francesas, a que não escapam mesmo as traduções mais belas. É um prodígio o que consegues. E se podes afirmar, apoiado em Goethe, que não há grande poema que não possa ser traduzido, seria indispensável juntar que tudo vai do tradutor. Ora o Cavafy teve a sorte de te encontrar no caminho. Se dou mais relevo às traduções dos «eróticos » (achando igualmente notável o que fizeste dos três poemas do Cavafy que prefiro – «O deus abandona Marco António», «Ítaca» e «À espera dos bárbaros») é tão-só porque considero a tradução de tais poemas mais difíceis que os outros. A matéria, além de muito frágil é, em outro sentido, delicada. Tu resolves tudo com uma franqueza, uma elegância e uma frescura verdadeiramente notáveis. Reparo até que os poemas têm uma força explosiva que só intuíra nas traduções francesas ou italianas, receando até que tais poemas constituam um pequeno escândalo, justamente, como muito bem referes no teu prefácio, que é muito corajoso, pela nobreza moral que revelam, isentos, como são, dos perversos conceitos de «pecado».
As traduções deram-me uma grande alegria.Este livro pertence-me. A primeira vez que traduziste o Cavafy, lembras-te?, foi para mim, numa noite em tua casa, talvez depois da leitura de As Evidências. Quando apareceram as tuas primeiras traduções no Comércio, estimulei-te, através de correspondência, no sentido de publicares novas traduções. Quando o editor me pediu a indicação de alguns poetas estrangeiros para a colecção que iniciou com o Lorca, o Cavafy, traduzido por ti, foi dos primeiros nomes que apontei. «Um deus abandona Marco António» e «A origem» são poemas que me acompanham desde a tua tradução no Comércio. (Pude assim notar agora as variantes, importantíssimas, lendo agora «A Origem» neste teu volume).
Felizmente que a alegria que me deu o teu livro me compensou da melancolia da tua carta. O que sobretudo lamento, nesta história do prémio, é que por via de o não receberes sejamos privados de nova visita tua. Tu já sabes o descrédito que tem para mim a chamada glória literária. Ser-se Namora, para me servir da tua expressão, é coisa que suponho não interessa a ninguém. Que importa o êxito? Tu não és um escritor para multidões, não no fundo o desejaste nunca ser. De um certo êxito suponho que terás até desprezo. Podes estar tranquilo: a tua obra está aí, e brilha, e aquece. Ela pertence aos melhores, como bem sabes. É pena, realmente, que a tal ilha, Taiti ou outra qualquer (a minha fica no mar grego), não esteja nunca senão no nosso desejo. Que havemos de fazer? Suportar é tudo – não foi o Rilke que disse? Suportar– não há para nós outra solução sob pena de abdicarmos de sermos homens.
Na próxima carta já te direi quais são os teus 50 poemas que prefiro. Tenho o maior gosto em indicar-tos.
Lembranças afectuosas à Mécia. Para ti o maior abraço do muito
teu,
Eugénio

(Carta de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, datada de 21 de Maio de 1969)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Correspondência

Eduardo Lourenço/Jorge de Sena
Organização e notas: Mécia de Sena
Capa: Maria J, Matos
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, Abril de 1991

E por aqui me fico, que esta já vai desmedida. Vamos a ver se nos encontramos na pátria ingrata, ou algures na Europa. Lembra-te, em qualquer caso, de que, estando eu em Lisboa, estarei na minha casa do restelo, cujo telefone é 610405 (vem na lista em meu nome). E que, não estando eu em casa, ou estando no Porto eventualmente, vive lá uma família que toma conta da casa e pode receber recados. Por sinal, é uma família de retornados de Angola, que perderam absolutamente tudo quanto tinham, e fazem parte de um largo clã familiar muito ligado por gerações de amizade angolana a mim e à minha família, Os membros do dito clã receberam de repente, em Lisboa, 30 pessoas sem nada, e apelaram para mim. Por certo, para certa esquerda estúpida, que eu albergue retornados deve ser uma horrorosa traição.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

OLHAR AS CAPAS



Correspondência (1952-1978)

Jorge de Sena/António Ramos Rosa
Edição: Mécia de Sousa e Jorge Fazenda Lourenço
Colaboração: Agripina Costa Marques e Inês Espada Vieira
Guimarâes Editores, Lisboa, Outubro de 2012

Uma conversão radical se há-de dar, no meu corpo ou no meu espírito, ou em ambos, ou então a morte purificadora. O seu bom conselho de não me deixar devorar pela solidão e de tomar posse dela tem sido possível de certo modo, dentro das minhas fracas possibilidades, mas o que se impunha era uma matéria real em que essa posse não se volatizasse a todo o instante. Infelizmente a minha saúde não tem melhorado e, desprovido de meios económicos e qualquer assistência médica, estou simplesmente entregue a esta tensão desesperada de superação, a esta vontade de me salvar.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Diários

Jorge de Sena
Introdução: Mécia de Sousa
Edições Caixotim, Lisboa, Outubro de 2004

Recebi uma carta do Margarido em que me pede colaboração para uns cadernos que pensa publicar com o Egito Gonçalves. Como hei-de dar a uns e recusar a outros? – E quando é que a vida me permitirá que trabalhe em obra e não em traduções e artigos para ganhar dinheiro mísero, não perder contacto e justificar a oferta de alguns livros que não posso comprar.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Os Grão-Capitães

Jorge de Sena
Edições 70, Lisboa Setembro 189

Meu pai era uma personagem mítica que eu quase só via à hora de jantar, durante uns quinze dias, de três em três meses. A sua chegada era prenunciada por um cheiro a encerados e a pó espanejado que se espalhava pela casa toda, cujas portadas de janela se semicerravam como para conservar, em estado de graça e de jazigo de família, aquele ambiente de silêncio e treva premonitória. Não se sabia nunca ao certo essa chegada. Ele não escrevia senão de raro em raro, e minha mãe, para calcular a demora da viagem, ia de vez em quando, comigo pela mão, aos portais da Companhia de Navegação ver, no quadro onde registavam o movimento dos barcos, em que porto das Áfricas o navio de meu pai saíra ou entrara. Quando eu já sabia ler, mandava-me lá a mim, e ficava-se meio oculta na esquina da rua creio que para, aos empregados que a conheciam, não mostrara que não sabia mesmo onde o marido andava. Telefonar, e não tínhamos telefone, não lhe ocorria; apresentar-se de cabeça erguida fosse onde fosse era contra os seus princípios. E, muito provavelmente, nem os empregados se lembrariam de achar estranho que ela, ainda que muitas cartas recebesse naquele tempo sem aviões, fosse ver a rota do navio. Eu, a quem tantos compartimentos da casa eram defesos, ficava durante e após as limpezas, e até ao dia da chegada, encurralado de todo, e sem nada que sujasse ou me sujasse. E odiava aquela expectativa, ao mesmo tempo que esperava curiosamente o que o meu pai traria: caixotes de vinho da Madeira, cachos de bananas, frutas várias em cestas, às vezes manipansos dos pretos, que me eram dados para eu brincar.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

OLHAR AS CAPAS


Correspondência

Jorge de Sena e José-Augusto França
Organização e notas: Mécia de Sena
Introdução: José-Augusto França
Biblioteca Autores Portugueses
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa Junho de 2007

Neste país, a fome de tachos é insaciável.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

OLHAR AS CAPAS


Peregrinatio Ad Loca Infecta

Jorge de Sena
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Poetas de Hoje nº 33
Portugália Editora, Lisboa Setembro 1969


NOUTROS LUGARES


Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas de solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exatamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS



Jorge de Sena

Selecção e prefácio de Eugénio Lisboa
Capa de Rui Ligeiro
Editorial Presença, Lisboa 1984

Um dia se verá que o mundo não viveu um drama.
 
Todas estas batalhas, todos estes crimes,
todas estas crianças que não chegam a desdobrar-se em carne viva
e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,
todos estes poetas furados por balas
e todos os outros poetas abandonados pelos que
nem coragem tiveram de matar um homem,
toda esta mocidade enganada e roubada
e a outra que morreu sabendo que a roubavam,
todo este sangue expressamente coalhado
à face integra da terra,
tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.
 
Um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.

Poema de Coroa da Terra, datado de 1942.

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.