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quarta-feira, 13 de maio de 2020

ODE AOS LIVROS QUE NÃO POSSO COMPRAR


Hoje, fiz uma lista de livros,
e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
- sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhes falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanto humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.
Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de outra fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.

Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão

sexta-feira, 24 de abril de 2020

ALGUÉM LHES DIRÁ O QUE SOFREMOS...


Estas são as últimas fotografias de murais, pintados, pós 25 de Abril, nas ruas de Lisboa.

Havia mais algumas mas estão em muito pior estado do que aquelas que foram publicadas.

Há 46 anos, sem muitos o saberem, chegávamos à véspera do Dia das Surpresas.

Neste caminhar do 25 de Abril pelo tempo, há quem pergunte se o 25 de Abril cumpriu o que, por aqueles dias, foi prometido ao povo.

Há um poema de José Saramago em que se pode ler:

«O homem diz que sabe o caminho, mas não acrediteis porque o homem não sabe o caminho e há sessenta séculos que o homem diz: Eu sei o caminho mas nós sabemos que o homem não sabe o caminho e outros sessenta séculos ouviremos o homem dizer: Eu sei o caminho mas o pobre do homem não soube, não sabe, nem saberá jamais o caminho.»

Não sei das contabilidades do cumpriu ou não cumpriu.

Pelo menos sei de uma, e considero-a de uma importância tal que me faltam palavras:

O FIM DA GUERRA COLONIAL!

Lembram-se das palavras de morte que o botas-ditador-de-santa-comba
nos lançou?

«A Pátria não se discute, defende-se!»

Mas qual pátria?

Toda uma juventude serviu de carne para canhão para defender o que nem sequer era nosso.

O Jorge de Sena tem um poema, simplesmente arrepiante, que marca o quanto foi possível aqueles ditadores de pacotilha terem resistido tanto tempo:


«Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Africas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!»

Os cinco dias a que me propus o colocar fotografias dos murais, juntando uma canção daqueles tempos, levou a que muitas dessas canções tivessem ficado de fora.

Mas o Manuel Freire não poderia faltar.

Foi ele que com a «Pedra Filosofal» divulgou o António Gedeão, o próprio poeta o reconheceu, que não teria a projecção que teve, se não fosse essa canção.

Mas irei escolher «Livre», um poema de Carlos de Oliveira que faz parte de um EP editado em 1968.



Legenda: o título é tirado de um poema de Egito Gonçalves.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

NATAL - 1950


Nenhum Natal será possível: sei
que tudo enfim suspenso aguarda
não já Natais sempre de guerra mas
a morte iluminada como aurora
entre esta gente que se junta rindo
e as luzes interiores, muitas cabeças juntas;
entre as lágrimas de ternura e os murmúrios de esperança,
entre as vozes e os silêncios, as pedras e as árvores,
entre muralhas de janelas sob a chuva,
entre agonias dos que lutam porque são mandados
e a cobarde angústia dos que apenas mandam,
no meio da vida, círculo de fogo,
à luz de que se vê uma calçada suja
de restos de comida e de papéis rasgados
– se sei, embora saiba, quanto soube:
ah canto do meu canto, olhar do meu olhar,
nenhum Natal, bem sei, mas outra gente,
e tanta gente, e mesmo que um só fosse,
já louco, envelhecido, apenas hábito,
que poderei fazer, senão humildemente cantar?

Jorge de Sena em Natal… Natais

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

QUEM MUITO VIU, SOFREU


Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi –

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

Jorge de Sena, soneto retirado de Entrevistas

Legenda: Fotografia de Cassie Werber

domingo, 3 de novembro de 2019

SACRIFÍCIO DA IMORTALIDADE


A minha voz quando estiver tão longe,
que apenas eruditos ma percebam,
no que, do tempo, eu não levei comigo,
já não dirá desilusões ou sonhos,
quantas esperanças dei não crendo nelas,
para que as vissem quem não via o mundo,
ou visse o mundo alguém, mesmo sem elas
– será como um silêncio do passado,
onde o futuro se advinha extremo,
e não sabemos qual, se será vosso,
se outro será, de que nasceu connosco
o erro de o julgar, como se fora
alheia a liberdade ao próprio tempo...

E só no tempo em vão me perderei.

Será mistério, escuridão, cansaço,
memória ténue de ansioso abraço,
em volta de um saber de coisa alguma…

Mas não será retorno. O que ficou
jamais  dirá que tornarei a ser:
pois se me enchi de instantes e de acasos,
não deixei senão quanto não morre,
ainda que a Vida se recuse a tanto.

12/6/44

Jorge de Sena de Tempo de Coroa da Terra em 40 Anos de Servidão

Legenda: Jorge de Sena

terça-feira, 29 de outubro de 2019

A SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Filhos e versos, como os dás ao mundo?
Como na praia te conversam sombras de corais?
Como de angústia anoitecer profundo?
Como quem se reparte?
Como quem pode matar-te?
Ou como quem a ti não volta mais?


1950

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A EUGÉNIO DE ANDRADE


Desses teus lábios, onde o fruto se infunde
de húmidos clarões, cresce o amor em macia
aparência de cardo, cal ou sol.
E como um rio que goteja em dor uma alegria
no terrível espaço que divide
das tuas mãos os vestígios de um corpo,
de deuses não nascidos inviolável recordo.

É essa tua pureza de pássaro
- do sangue irrompes e da noite
pela invenção do dia e das estações –
que da minha solidão desvelas,
amigo, uma louca
repercussão de ecos e difracções.

Jorge de Sena em Correspondência com Carlo Vittorio Cattaneo

Legenda: fotografia de A. Lopes Fernandes

sábado, 27 de abril de 2019

QUEM MUITO VIU...


Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi –

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

1961


Legenda: fotografia Shorpy

domingo, 7 de abril de 2019

SE A MINHA VIDA NÃO FOSSE UMA DIFICULDADE...


Carta, datada de 18 de Janeiro de 1959, de Jorge de Sena para António Ramos Rosa.

Sena informa que envia um poema para ser publicado nos Cadernos do Meio-Dia, publicação não periódica dirigida por António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira Ferreira e Hernâni de Lencastre.

«Dos meus livros, só está esgotado Perseguição, embora os outros tenham levado mais ou menos sumiço, e eu não possua controlo da situação em que eles se encontram. Coroa da Terra foi editado por Lello & Irmão e ainda há alguns exemplares, que eu saiba. Juntamente lhe envio o exemplar da minha mulher para V. copiar dele o que quiser e mo devolver. Se a a minha vida não fosse uma dificuldade, teria o maior prazer em comprara um para lho oferecer
Quanto  à revista em que me fala, pela mesma razão não posso assiná-la. E colaborar regularmente também não posso prometer, esmagado como ando de encargos e compromissos.
Aqui lhe mando copiado o poema que me pede e é dos que não tiveram lugar em Fidelidade. Se possível gostaria de ver uma prova dele.
Abração com muita e grata estima o seu camarada

JORGE DE SENA

P.S. – O exemplar da Coroa, além do valor estimativo, é o único que possuo. Peço-lhe o maior cuidado no uso e na devolução dele.»

É este o poema publicado no nº 4 dos Cadernos do Meio-Dia, Fevereiro de 1959, poema incluído no Post-Scriptum de Poesia I (1961), com novo título:


 «Reconciliação».

DEPOIS DA ESPERANÇA, QUALQUER PAZ

Reconciliamo-nos sempre.
No fundo, e às vezes nem muito ao fundo,
a reconciliação nos espreita,
na mira da primeira fraqueza, da primeira humidade
de lágrima ou de sexo. Às vezes,
nem sequer disso: a poalha dispersa
que o sol define em branda agitação,
ou mesmo a própria luz num reflexo
(quanto mais breve e modesto melhor emociona)
lhe bastam.
Espreita-nos para que aceitemos, para que
pensemos noutra coisa ou nesse refúgio das pequenas coisas
que é, diz-se, não pensar em nada.
reconciliamo-nos pois. E amamos logo tudo,
ou, mais subtilmente, fingimos que do tudo
apenas uns sinais, algo de nobre
e muito humilde. Assim
como se a solidão se acompanhasse
de muitas outras reconciliações humanas, simultâneas,
paralelas, mas não connosco, de outrem.
Quase mais que a nossa própria nos espreita
a reconciliação, suposta apenas, de outros.

1958


Legenda: a capa de Coroa da Terra foi encontrada em gabrielagouveialivrosantigos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

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Neste excerto decarta, António Ramos Rosa refere-se aos sonetos de Jorge de Sena publicados em As Evidências de 1955.

Ramos Rosa copiou à mão todos os sonetos que Jorge de Sena lhes emprestara.

Ramos Rosa ficou deslumbrado com a leitura desses sonetos.

«Perdoe-me o que haja nesta de redundante, mas não duvide do meu entusiasmo nem da certeza, que também é profundamente minha, de que os seus sonetos são uma grande coisa (uma grande e bela coisa!).»

Jorge de Sena escreveu a Ramos Rosa:

«Devo-lhe, de facto, muitos agradecimentos: por V. ser capaz de entusiasmo, por se ter entusiasmado com os sonetos, por mo ter dito, por mo ter dito directamente e tão bem.
Guarde para si essa cópia que lhe mandei – e devolva-me só a primeira página ou a que quiser, para eu inscrever uma dedicatória.»

É este o Soneto XXI que tanta alegria e deleite deu a António Ramos Rosa:

XXI

Cendrada luz enegrecendo o dia,
tão pálida nos longes dos telhados!
Para escrever mal vejo, e todavia
a dor libérrima que a mão me guia
essa me vê, conforta meus cuidados.

Ao fim terrível que me espera extenso,
nenhum conforto poderei pedir.
Da liberdade o desdobrado lenço
meu rosto cobrirá. Nem sei se penso
ou pensarei quando de mim fugir.

Perdem-se as letras. Noite, meu amor,
ó minha vida, eu nunca disse nada.
Por nós, por ti, por mim, falou a dor.
E a dor é evidente – libertada.

Legenda: capa de As Evidências de Jorge de Sena tirada da Loja Frenesi

sábado, 3 de novembro de 2018

SÚPLICA FINAL


Senhor: não peço mais que silêncio,
o silêncio das noites de planície como enevoadas águas,
o silêncio dos montes quando a tarde acabou e as pedras
se afiam na friagem que é azul-celeste,
o silêncio do sol encarquilhando as folhas,
e o vento na areia depois de ter passado,
o silêncio das ondas ao longe espumejando tranquilas,
o silêncio das mãos e o dos olhos,
e o das aves negras que pairam nas alturas
de um céu silencioso e límpido. Não peço
mais que silêncio. O silêncio das ideias que deslizam
no tecto escorregadio da memória silente.
E o silêncio dos sonhos coloridos, e o dos outros
a preto e branco imagens desejadas
que não pensei que desejava e esqueço
ao querer lembrá-las. E o silêncio
dos sexos que se possuem sem uma palavra.
E o do amor também, tão silencioso esse,
que não sei quem amo.

Não peço mais. Afasta
de mim o estrondo: não o das cidades,
ou dos homens, das águas, do que estala
na memória ou penumbra das salas desertas.
Afasta de mim o estrondo com que a vida
se acabará contigo, num rasgar de súbito
em que ficarei inerte e silencioso. O estrondo
em que não ouvirei mais nada. O estrondo
em que não mexerei um dedo. O estrondo
em que serei desfeito. O estrondo
em que de olhos abertos
alguém mos abrirá.

Senhor: não peço mais do que o silêncio do mundo,
o silêncio dos astros, o silêncio das coisas
que outros homens fizeram, e o das coisas
que eu próprio fiz. E o teu silêncio
de senhor que foi. Não peço mais.
Não é nada o que peço. Dá-me
o silêncio. Dá-me o que não fui:
silêncio (porque calei tanto):
o que não sou (pois que calo tanto):
o que hei- de ser (já que falar não adianta):
Silêncio.
Senhor: não peço mais.

1961

sábado, 22 de setembro de 2018

GLÓRIA


Um  dia se verá  que o mundo não viveu  um drama.

Todas   estas  batalhas,  todos  estes   crimes,
todas estas crianças que não chegaram a desdobrar-se em carne viva
e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,
todos estes poetas furados por balas
e todos  os  outros   poetas  abandonados  pelos  que
nem coragem tiveram de matar um homem,
toda   esta   mocidade   enganada   e  roubada
e a outra que morreu sabendo que a roubavam,
todo este sangue expressamente coalhado
à   face  íntegra   da   terra,
tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.

Um dia nos  libertaremos da  morte sem deixar de morrer. 

Jorge de Sena De A Coroa da Terra em Poemas Escolhidos

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Sinais de Fogo

Jorge de Sena
Nota: Mécia de Sena
Prefácio: Arnaldo Saraiva
Capa: A. Saldanha Coutinho
Edições 70, Lisboa, Maio de 1981

Uma saciedade contraditória, como de saudade lancinante que se adiasse tranquila sem deixar de ser agudamente física, se me ajustava à frustração humilhada. Limpei-me com o lenço. Olhei aflito em volta, com a sensação que antes não tivera de milhares de olhos escarninhos a observar-me o ridículo. Mas não havia ninguém. Caminhei até ao murete da linha dos comboios, e procurei na vedação de arame, que encerrava as linhas pelo outro lado, uma abertura por onde passar. Encontrei-a mais adiante. Como num entressonhar, fui andando até chegar a uma azinhaga ao fim da qual via postes de eléctrico. Foi quando uma onda asfixiante de bem-estar, um bem estar irónico, sardónico, casquinante, estourou dentro de mim num silenciosos grito que retiniu nos tímpanos, nos muros, na atmosfera já sombria da azinhaga.
- Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço…
Febrilmente, e ao mesmo tempo com a serenidade de quem está seguro de que as vozes lhe falam e não vão calar-se (eu já ouvia as cadências continuar-se), escrevi:

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre-
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego-
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte-
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor nos traiu-
Quanta traição existe em possuir-te a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro-
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará-
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só-
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro-
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida-
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam-
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Filmes Pornográficos

Estes que não actores se alugam para filmes
da mais brutal pornografia crua
em que não representam mas só fazem
tudo o que possa imaginar-se e a sério
com a máquina espreitando bem de perto
por ângulos recônditos os gestos,
os orifícios penetrados e
quanto os penetra até que o esperma venha,
por certo são dos que prazer mais sentem
sabendo que afinal se exibem para tantos olhos.
São máquinas de sexo. Às vezes belas,
sem dúvida atraentes muitas delas,
imagens escolhidas como sonhos de
que possa ser a máquina perfeita.
Mas na verdade sentirão prazer?
E na verdade o dão no que se mostram?
Tão máquinas apenas – sem de humano
não digo só que o toque da carícia abrupta
mas mesmo uma atenção de sábio acerto
profissional de orgasmos a filmar –
que nada resta destes actos vistos
sequer desse animal mais que espontâneo
em corpos se afirmando que não falam
mas se penetram ao acaso dados.
Nada de humano ou de animal humano
flutua nestes ou na imagem deles:
até porque são vistos como nunca vistos
os actos cometidos ou espreitados,
e mesmo o esperma do ininterrupto coito
(para quem paga estar seguro de
não ser fingido nada o que foi feito)
ejaculado ou vendo-se escorrer
do corpo mais passivo numa cena
é como imitação que nada inunda
senão o olhar tornado a mesma máquina
que tão perto o foi filmar ampliado.
Horrível é tudo isto. Mas no entanto,
mecânico e brutal, sem graça nem beleza,
roubando ao imaginar quanto é sentido
porque se amor se faz mal pode ver-se,
isto possui uma nobreza estranha
e uma franqueza nua que nenhum amor
a si mesmo confessa: e contradiz
quanto mistério exista, que outro mais profundo
assim nos revela: actos de amor
são tantos actos de amor quanto são actos
de actores ocasionais para ele feitos
que todos somos desde que ele se faça.

Jorge de Sena de Conheço o Sal… e Outros Poemas em Poemas Escolhidos.


sábado, 7 de abril de 2018

OS CALENDÁRIOS MUDAM


Os calendários mudam, são diversos,
povos contaram o tempo de outra maneira,
mas mais curtos ou mais longos desde sempre,
os anos passam. Como medida em que os dias
morrem agrupados numa série que mais longa
morre. Por eles e com eles somos gerações
uma após outra que desaparecem. Alguns ficam
na memória, nos museus, ou transformados
em ideias, sonhos, pesadelos, as imagens
do que fomos ou não, quisemos ser ou não.
Os anos passam. Este, como os outros,
está já nos últimos minutos que tão longamente
se não contaram quanto agora contam.
Foi como os outros sempre um ano triste
de mortes e massacres, insensatos crimes,
traições e mesquinhez, maldade e vis paixões,
e algumas guerras encobertas, exilados,
e foragidos, gente espoliada, tudo
o que sempre se fez na humanidade que
existe em nós maligna além aquém de quanto
às vezes nos faz grandes: um gesto, amor,
a música, e a bondade, as artes, toda a fé
seja em que for de puro e de profundo,
num só que se dedica, em todos que no dia
a dia vão perdendo o tempo que lhes resta.
Este ano morre, outro virá igual,
melhor, pior, terrível, este horror contínuo
de ser-se humano enquanto o ser-se humano é pouco
um pouco mais apenas que existir-se à sombra
do que nos rouba a liberdade clara
de sermos nós e amor, de sermos só sem ódio.
Vai-te como os outros, ano que terminas.
Outro virá cheio de morte e vida,
feito de tudo o que nos cria mais
tristes e mais velhos quando somos velhos,
raivosos e mais velhos quando somos jovens.
Vai-te e que se vá contigo o fétido clamor
de um ano mais. E que outro venha e traga:
oh nada, nada, nada, que não seja só
o tempo que se esvai neste sonhar da vida
como algo de viver-se dentro em nós e em todos.

31.1275

Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

L'ÉTÉ AU PORTUGAL


Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam?
              
Emigram-se uns para as Europas
e voltam como se eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.
              
Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvaziam,
resta um relento de lampeiros campos
espanejando as caudas com que se ataviam.
              
Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios com o bem e o mal
‑ mas com que há-de pagar-se quem se agacha e mente?
              
Chatins engravatados, peleguentas fúfias
passam de trombas de automóvel caro.
Soldados, prostitutas, tanto rapaz sem braços
ou sem as pernas – e como cães sem faro
os pilhas poetas se versejam trúfias.
              
Velhos e novos, moribundos mortos
se arrastam todos para o nada nulo.
Uns cantam, outros choram, mas todos tortos
que a mesquinhez tresanda ao mais singelo pulo.
              
Chicote? Bomba? Creolina? A liberdade?
É tarde, e estão contentes de tristeza,
sentados em seu mijo, alimentados
dos ossos e do sangue de quem não se vende.
              
(Na tarde que anoitecer o entardecer nos prende).

Jorge de Sena

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

1947


Mécia:
Não é já de Natal esta poesia.
E, se a teus pés deponho algo que encerra
e não algo que cria,
é porque em ti confio: como a terra,
por sobre ti os anos passarão,
a mesma serás sempre, e o coração,
como esse interior da terra nunca visto,
a primavera eterna de que existo,
o reflorir de sempre, o dia a dia,
o novo tempo e os outros que hão-de vir.

31.12.47

Jorge de Sena, poema retirado da Antologia  Natal…Natais

Legenda: Mécia de Sena

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Poesias Escolhidas

Selecção, prefácio e notas: Jorge Fazenda Lourenço
Capa: Rochinha Diogo
Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1989

Os trabalhos e os dias

Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.

À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.

Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ETECETERA


Há 50 anos Che Guevara foi assassinado.

«Muitos consideram-me um aventureiro e na verdade sou-o, mas de um tipo diferente, do tipo dos que arriscam a pele para provar o que dizem.»

Mário Sacramento no seu Diário:

«Parece que sempre conseguiram matar o Che Guevara, ao que dizem os jornais. Embora o sinta, não adiro com o mesmo sentimento que tive e tenho pelo Lumumba. É muito diferente lutar e morrer no seio do próprio povo ou agir como caixeiro-viajante da aventura revolucionária, no seio de outros. A dinastia dos Malraux nunca me foi simpática e a realidade confirma que há boas razões para isso.»

Poema para Che Guevara escrito por Jorge de Sena:

Neste vil mundo que nos coube em sorte
por culpa dos avós e de nós mesmos
tão ocupados em desculpas de salvá-lo,
há uma diferença de revoluções.
Alguns sofrem do estômago, escrevem versos,
Outros reúnem-se à semana discutindo
o evangelho da semana; outros agitam-se
na paz da consciência que adquirem
com agitar-se em benefícios e protestos;
outros param com as costas na cadeia,
para que haja protestos. Há também
revoluções, umas a sério, que se acabam
em compromissos, e outras a fingir,
que não acabam nem começam. Mas são raros
os que não morrem de úlcera ou de pancada a mais,
e contra quem agências e computadores
se mobilizam de sabê-los numa selva
tentando que os campónios se revoltem.
Os campónios não se revoltam. E eles
São caçados, fuzilados, retratados
em forma de cadáver semi-nu,
a quem cortam depois cabeça, mãos,
ou dedos só (numa ânsia de castrá-los
mesmo depois de mortos) e o comércio
transforma-os logo num cartaz romântico
para quarto de jovens que ainda sonhem
com rebeldias antes de se empregarem
no assassinar pontual da sua humanidade
e da dos outros, dia a dia, ao mês,
com seguro social e descontando
para a reforma na velhice idiota.
Ó mundo pulha e pilha que de mortos vive!


PSD

Quando for eleito o sucessor, Passos Coelho vai renunciar ao mandato de deputado.

Rui Rio fará o anúncio da sua candidatura quarta-feira em Aveiro, não quis que fosse no porto ou em Lisboa.

Pedro Santana Lopes, segundo a SIC, almoçou hoje com Marcelo Rebelo de Sousa e ainda não parou de ponderar.

Marcelo que amiúde diz não querer meter-se na vida dos partidos, de que terá falado com Santana? Dos tempos em que este, como primeiro-ministro, quis pô-lo a andar de comentador da TVI?

Marcelo que, sabe-se, não gosta de Rui Rio nem de Santana, poderá, apesar de tudo, preferir Santana a Rio?

Fernanda Câncio no Diário de Notícias, de hoje, lamenta os louvores que por aí circulam dedicados a Pedro Passos Coelho, terminando o artigo:

«Lamento: não tenho prazer em zurzir em quem está de saída, mas o que é demais é demais. Há porém um inestimável serviço ao país pelo qual Passos ficará na história -- uniu a esquerda. E isso sim, é obra.»

CATALUNHA

Amanhã, provável declaração unilateral de independência da Catalunha.

Mariano Rajoy, afirmou hoje que o executivo fará tudo o que for preciso para impedir a independência da Catalunha.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

SARAMAGUEANDO


Ainda em ditadura, Manuel Alegre já nos falava de uma rapariga do País de Abril:

Por ti cantei entre meu povo e meu poema
E achei    achando-te    o País de Abril     

Em Os Poemas Possíveis, José Saramago, num qualquer dia, ouvindo Beethoven, garantiu-nos que um dia, um qualquer dia, ruiriam os altos muros e chegaria o dia das surpresas.

Assim foi.

Um outro poeta, Jorge de Sena, sabia que não havia de morrer sem saber qual a cor da liberdade, a grande ilusão, como lhe chamou José Gomes Ferreira, mas depois Sena acabaria por se espantar de a tal alegria ter assistido:

Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
- no negro desespero sem esperança viva -
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe-
E agora, povo português?

Com o andar dos tempos, o 25 de Abril foi deixando em José Saramago, uma certa amargura.

Ainda escreverá:

Não esquecerei o que então chamámos Esperança.


Mas conversando com João Céu e Silva, deixou cair:

Eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha também tem democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transição como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui há anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram nessa altura… Até o Melo Antunes disse «Esse tipo é parvo!» Por isso não me falem em 25 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer «25 de Abril sempre» mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendermos que são justas.


Já a 25 de Abril de 1993, Cadernos de Lanzarote, 1º volume, escrevera:

Carmélia telefonou de manhã, aos gritos «25 de Abril , sempre! 25 de Abril, sempre!» Lembrei-me daquela outra chamada, há 19 anos, no meio da noite, quando uma das filhas do Augusto da Costa Dias me avisou que a revolução está nas ruas, Agora, o entusiasmo de Carmélia, um entusiasmo de sobrevivente, deixou-me lamentavelmente frio.

No 5º volume dos Cadernos de Lanzarote, na entrada de 25 de Abril de 1997, José Saramago deixou escrito:

Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro, poster de Vieira da Silva