Mostrar mensagens com a etiqueta Jornais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jornais. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 22 de maio de 2020

DISSE DEMOCRÁTICO!?...


O jornalista Pedro Tadeu pergunta hoje no Diário de Notícias:


Respondo:

O jornal Público, hoje, não é um jornal democrático!

Como já sou um tanto ou quanto velho, tive um professor, no 6º ano dos tempos da ditadura salazarenta, lamentavelmente não lembro o nome, que dava essa coisa que se chamava  Organização Política e Administrativa da Nação.

Ele dizia que a liberdade é um valor inestimável mas que, pelos tempos que corriam, se devia ter muito cuidado em relação às pessoas que enchiam a boca com a dita palavra , olhar, sempre, o campo em que se situavam.

Os mesmos cuidados se deviam ter quando nos falavam de democracia.

Nas entrelinhas do falar do professor de Organização Política, quem quis reteve o que ele pretendia dizer.

O lembrete serve para situar das razões porque digo que o Público não é um jornal democrático.

O jornal Público que começou por ser um jornal de referência, assim se manteve enquanto o seu director foi Vicente Jorge Silva.

Quando para director foi esse rapaz que se chama José Manuel Fernandes, o jornal entrou em derrapagaem até se estatelar completamento ao comprido.

Esse tal rapaz, hoje é director de um vómito on-line que se chama Observador e onde campeia tudo o que é ultra-liberal e saudosistas diversos de Salazar/Caetano.

Por aqui me fico.

Um dos meus defeitos,  é que nunca aprendi a ser sintético, apesar dos esforçados ensinamentos de um professor de português, então no 2º ciclo, e desse lembro o nome: o professor Sousa.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

OLHARES


Um linotipista do tempo em que os jornais se compunham a chumbo.
O cheiro a chumbo, a tinta, que emanava da tipografia do Diário de Lisboa, naquelas tardes de segundas-feiras quando, com o Mário Castrim, olhávamos a prova de granel do Juvenil.
Aquele cheiro que ainda persistia quando íamos beber o café na Brasileira.
Um certo romantismo, dizia então o Armindo.
E se ele sabia aplicar as palavras.

Legenda: fotografia  Shorpy da autoria de Jack Delano, linotipista do Greensboro Herald Journal, Georgia.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Ferreira Fernandes e Catarina Carvalho pediram a demissão dos cargos que ocupavam na direcção do Diário de Notícias e a administração aceitou o pedido.

Perspectiva-se o accionamento da lay-off nos vários títulos que fazem parte da Global Média e os directores entenderam que não tinham condições para continuar.


«A partir de amanhã, a edição em papel só sairá aos domingos.

Nos restantes dias terá uma edição digital.

Dizem que é um passo em direcção ao futuro, um futuro mais firme.

Na quinta-feira, na «Quadratura do Círculo» , José Pacheco Pereira disse: o Diário de Notícias acabou!

Ferreira Fernandes não está nada de acordo e, hoje, num texto bem esgalhado, explica a Pacheco Pereira o tal futuro mais firme.

Não serei tão taxativo como Pacheco Pereira, mas, face a esta mudança,  também tenho as minhas dúvidas.

O meu avô paterno, republicano histórico, odiava o Diário de Notícias, como então se dizia, o jornal das sopeiras e só lia O Século.

Segui-lhe as pisadas e, também,  muito raramente passei as mãos pelas suas páginas.

O Diário de Notícias apenas foi o meu jornal enquanto os nomes de Luís Barros e José Saramago estiveram no cabeçalho do jornal.

De Abril a Novembro de 1975: os dias dos dias.»

Nestes Dias cruéis que vamos vivendo, é mais uma notícia triste.

Sim, aproximam-se péssimos dias para o Diário de Notícias-on line que ainda hoje destacava esta notícia:

«Choque de desemprego será o maior de que há registo em Portugal.»

Péssimas e arrepiantes notícias para todos os órgãos de informação, sejam da imprensa escrita, da rádio, da televisão.

Sou de um tempo em que o jornalismo era uma profissão respeitável, ler um jornal não era dar o tempo por perdido, era um gesto importante. Também não  existiam on-lines e havia a necessidade de olhar o que se passava no país e no mundo, mesmo sabendo que o lápis azul da censura, frequentara as pilhas de jornais que se amontoavam, ainda não havia quiosques, no ardina da esquina.

Existiam também as entrelinhas que, magistralmente, alguns jornalistas sabiam utilizar, assim fintando  os-incultos-quase-analfabetos-coroneis-da-censura.

Recordo, não com jornais, mas uma história da rádio, contada por Luis Flipe Costa:

Em 17 de Maio de 1967, Palma Inácio realizou o assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz, o que seria o primeiro acto político da LUAR. Obviamente a notícia foi proibida pela censura, mas sabia-se, por portas travessas, o que tinha acontecido, e no noticiário da uma da manhã do Rádio Clube Português, o jornalista Luís Filipe Costa aproveitou a leitura do boletim meteorológico para concluir a sua apresentação:

"Felizmente, há luar".

Baptista-Bastos, Capitão de Médio Curso:

«Mais do que uma instituição pública, o jornal é uma declaração de amor, um momento, e a sua arte reside justamente na virtude de chegar na hora, na criação do contraponto entre o que permanece e o que vai acontecendo.
A solidão do jornalista decorre da fraternidade por ele jamais recusada, da responsabilidade por ele aceite como princípio ético, da severidade imposta pelo comércio das ideias feito com outros homens. Mas a solidão do jornalista é intermediária, porque reflecte uma época também intermediária, onde o poder, a força e a riqueza têm menor importância do que a ciência. Sendo acto, sonho, declaração de amor, o jornal é também uma ciência – eis porque os tiranos temem o prestígio do jornal que vê claro e escreve vivo: a felicidade apoia-se na verdade, a ilusão assenta na mentira.»

Nicolau Santos, aqui:

«Hoje. Ao fundo, um homem sai de um gabinete. O gabinete do chefe. Do ex-chefe. Do ex-chefe que ainda é chefe, ex é ele: ex-empregado. Acaba de ser despedido. É um de um rol de muitos, um nome a mais numa lista, uma fila a menos numa folha de cálculo. Sai calado, pelo espaço aberto, outros olhos viram-se primeiro para ele, depois para baixo. Outro nome é chamado, lá vai ele, o mesmo gabinete, o mesmo destino. Hoje a empresa não é uma empresa, é um matadouro. Morrem empregos. Saiu nas notícias e tudo. É um dia na vida.»

Faz-nos companhia, uma velha e gloriosa canção dos Byrds: «Turn, Turn, Turn.»

Um tempo para nascer, um tempo para morrer, um tempo, a canção não o diz mas escrevo eu, para acreditar que não é possível viver sem jornais em papel, um aceno longo ao meu pai que, no tempo da ditadura, foi jornalista, fechava o jornal madrugada fora dentro, numa correria louca para não perder os comboios que levavam o jornal para a província, hoje sabemos que os jornais cada vez estão mais pobres, arrastam-se num amontoado reles de notícias inventadas pelas redes sociais, copiadas pelos estagiários, em que se nota à vista desarmada que de há muito, foram perdidos os princípios… e assim sendo…




1.

Donald Trump cumpriu com o que havia ameaçado. A sua Administração suspendeu o financiamento à Organização Mundial da Saúde.

O Presidente dos Estados Unidos, país que é o maior doador da OMS, acusa esta organização internacional de falhar decisões no momento adequado.

Richard Horton, chefe de redacção da revista médica The Lancet:

«A decisão do presidente Trump de suspender o financiamento à OMS é simplesmente isso - um crime contra a humanidade. Todos os cientistas, todos os profissionais de saúde, todos os cidadãos devem resistir e revoltarem-se contra esta terrível traição à solidariedade social.»

2.

A China manteve o surto de Covid-19 em segredo durante seis dias. A Associated Press  revelou o conteúdo de vários documentos que indiciam que o vírus foi mantido em segredo da população durante seis dias.

No dia 14 de janeiro, altura em que foi detetado o primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus na Tailândia, o ministro da Comissão Nacional de Saúde da China avisou vários responsáveis, entre eles o presidente, Xi Jinping, para o possível cenário de pandemia através de uma videoconferência.

Mas o presidente da China só alertou a população para a gravidade do vírus no dia 20 de Janeiro, seis dias depois e nessa altura mais de 3000 mil pessoas já tinham sido infectadas

3.

O número de trabalhadores abrangidos pela medida de lay-off simplificado, lançada pelo Governo para responder à pandemia de Covid-19, abrange actualmente já mais de 930 mil trabalhadores. O número de desempregados situa-se nos 353 mil.

4.

Os negros números:

Portugal regista 599 mortos.

O número de vítimas mortais em França, subiu para 17.167, a Itália regista 21.465 mortos.

Em Espanha já morreram 18.579 pessoas, na Grã-Bretanha 12.868 mortos, enquanto os Estados Unidos chegaram ao número de 25.757 óbitos. Só em Nova Iorque já se registaram 7.905 mortes.

5.

João Lopes no seu Covid-20:

«Tradicionalmente, define-se o jornalismo como a profissão, a arte ou a missão de dar conta da realidade. O que, convenhamos, envolve uma humildade equívoca. O jornalismo é também um sistema de linguagens que, conscientemente ou não, integra e contamina todas as componentes da dita realidade, não poucas vezes transfigurando as suas formas de percepção e verosimilhança. Desde meados da década de 1990, tudo isso passou a ser vivido, e bem ou mal pensado, também através da Internet, prevalecendo a ideia segundo a qual o mundo virtual seria tão só uma reconfiguração técnica do mundo clássico (?) em que vivíamos ou julgávamos viver. Chegados aqui, enfrentamos a mais gelada das evidências: a realidade integra o virtual. Como é que uma profissão, uma arte ou uma missão consegue viver perante tão cruel omnipresença?»

Legenda: João César Monteiro no dia em que soube que o Diário de Lisboa ia deixar de se publicar a partir do dia 30 de Novembro de 1990.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

QUOTIDIANOS


Em Ferreira do Alentejo, Janeiro de 2019, o embaixador Francisco Seixas da Costa constatou que deixou de haver jornais em papel à venda.
Quantas mais Ferreiras do Alentejo por aí espalhadas?, perguntava o embaixador no Anuário do Ano de 2019 que escreveu para o JL.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS

JL

Jornal de Letras, Artes e Ideias

Ano XXXIX – Número 1280
De 3 de Outubro a 5 de Novembro de 2019
Número dedicado ao nascimento de Jorge de Sena
Jorge de Sena nasceu a 2 de Novembro de 1919

Editorial – José Carlos de Vasconcelos
Poesia, Peregrinação e Portugal – António Carlos Cortez
As Ficções de um Poeta – Jorge Vaz de Carvalho
Uma Correspondência Única (com Eugénio de Andrade) – Eugénio Lisboa
Divulgar um Escritor Plural – Luís Ricardo Duarte
Sena e Sophia, Dois Poetas no Princípio do Mundo – Luís Filipe Castro Mendes

Acho que havia muita intuição, mas sobretudo uma atenção constante ao mundo para lá da superfície das coisas.
Sofreu muito com o exílio e com a sensação de nãp ser reconhecido, mesmo depois de uma longa carreira académica,
As cartas servem-lhe para elaborar certas ideias que depois dão origem a poemas, narrativas, ensaios ou críticas.
Uma das suas dimensões mais interessantes é a defesa da liberdade, a fluidez de géneros, comunicando com leitores de todas as idades, tendências, pertenças e opções.

Isabel de Sena

terça-feira, 17 de setembro de 2019

O DESEJAR SER JORNALISTA


Assim foi nascendo em mim a paixão pela escrita. E comecei a enviar textos para os suplementos juvenis do Diário de Lisboa, dirigido pelo Mário Castrim e do República. Alguns foram mesmo publicados, quase todos sob pseudónimo, por influência – imagine-se a presunção! – dos heterónimos de Fernando Pessoa. A certa altura, fui ao República entregar um texto, e quem me recebeu foi o Pedro Foyos. Disse-me «venha daí comigo, que estou com pressa» e eu fui atrás dele até às oficinas. Nunca antes tinha estado numa tipografia e fiquei fascinado com aquilo. Era uma tipografia tradicional, com as suas linotypes, a rotativa barulhenta… Ainda guardo, na minha memória olfactiva, o cheiro intenso a tinta que impregnava o ar. Depois, voltámos à redacção e, espreitando lá para dentro, vislumbrei velhas secretárias de madeira, pejadas de jornais. Ouvia-se o matraquear de uma máquina de escrever. Foram momentos importantes, porque, talvez tenha sido então que, pela primeira vez na minha vida desejei ser jornalista.

Depoimento de Daniel Ricardo em Memórias Vivas do Jornalismo

Legenda: fotograma do filme Deadline de Richard Brooks com Humphrey Bogart

terça-feira, 6 de agosto de 2019

BOA TARDE, FERNANDO ASSIS PACHECO!


Sou um saudoso dos suplementos literários dos jornais.
O que então aprendi com essas leituras.
Fernando Assis Pacheco, nos jornais por onde andou, fazia uma simples mas eficaz divulgação dos livros que iam saindo.
Hoje, na visita regular que faço à Loja Frenesi, o blogue onde o poeta e livreiro Paulo da Costa Domingues, expões os livros que tem à venda, encontrei estas palavras:

«Há ainda uma questão que deve ser aqui lembrada: Em finais dos anos 70 e início de 80 do século passado, o falecido Assis Pacheco, ao serviço de O Jornal, alimentava uma coluna jornalística que ainda hoje poderia servir de modelo a muito noticiário de publicação de livros. Chamava-se «Bookcionário», e perdeu-se-lhe o rasto como se perde tudo neste mundo quando os interessados se desinteressam, ou morrem, ou mudam de ramo. Nós, não esquecemos. Nem essa simpática coluna, nem o seu intuito, nem o estilo. – Os presentes verbetes de leitura, na nossa loja, em apoio das respectivas fichas técnicas, tomaram daí a antiga inspiração.»

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Capitão de Médio Curso

Baptista-Bastos
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Julho de 1977

O relato do que se passa no comportamento dos homens encontramo-lo todos os dias, em todos os jornais: na crónica do crime, nos telexes do estrangeiro, na política nacional, na reportagem desportiva, cada repórter, com a sua verdade e com o grande propósito de ser eficiente em a transmitir – em colocar um anónimo tijolo na casa que se vai erguendo. Mais do que uma instituição pública, o jornal é uma declaração de amor, um momento, e a sua arte reside justamente na virtude de chegar na hora, na criação do contraponto entre o que permanece e o que vai acontecendo.
A solidão do jornalista decorre da fraternidade por ele jamais recusada, da responsabilidade por ele aceite como princípio ético, da severidade imposta pelo comércio das ideias feito com outros homens. Mas a solidão do jornalista é intermediária, porque reflecte uma época também intermediária, onde o poder, a força e a riqueza têm menor importância do que a ciência. Sendo acto, sonho, declaração de amor, o jornal é também uma ciência – eis porque os tiranos temem o prestígio do jornal que vê claro e escreve vivo: a felicidade apoia-se na verdade, a ilusão assenta na mentira.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

NOTÍCIAS DO CIRCO


Em busca de leitores e audiências, o vale tudo já há muito invadiu jornais e televisões.
Esta capa do Público de domingo 13 de Janeiro é, simplesmente, miserável.
Ao nível do melhor jornalismo de sargeta que por aí pulula, no mesmo dia em que, também em 1ª página, anuncia o regresso desse comentador de triste figura que dá pelo nome de António Barreto.
Lê-se que Cristina Ferreira tem «Portugal a seus pés».
Onde vais jornalismo de referência que dizias que eras?
O Dudu, no café da Dona Luzia, diz que a dita personagem é «pobre de boa».
O Goucha, na TVI, convida um nazi para dizer alarvidades.
Estamos nisto!
Até onde?
Até quando?

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

UMA MORTE APRESSADA


José-Augusto França tem 95 anos.

A idade que teria José Saramago se ainda caminhasse por aqui.

Ambos nasceram no mesmo dia, no mesmo ano, 16 de Novembro de 1922 , «ele às 14 horas (mas não muito viáveis numa declaração rural), eu às 14 e 35 minutos (declaração rigorosa de meu Pai contabilista), em sítios mais ou menos vizinhos, ele numa aldeia cerca da Golegã, eu, como se sabe, nos Estaus da cidade de Tomar.»

José Prudêncio, professor de Filosofia, investigou as cartas astrológicas de ambos, teve conversas com os dois intelectuais e escreveu sobre o assunto, um interessante livro: Um Céu e Dois Caminhos.

Ontem, o Público noticiou a morte de José-Augusto França.

Como Mark Twain, Augusto França poderia dizer:

«Parece-me que as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas».

Todos temos a morte anunciada mas é exigível que se morra pelo próprio pé e não empurrado, para a dita cuja, pelo mau jornalismo.

A explicação da Direcção editorial do matutino:

«O PÚBLICO falhou no que não pode nunca falhar
A equipa do PÚBLICO tem um conjunto consistente de explicações para o erro que nos levou a noticiar o falecimento de José-Augusto França. Tem o rasto de uma informação que chegou à redacção e tem uma fonte credível e com rosto (que nomeamos no momento em que corrigimos a primeira notícia) que a validou. Mas essa explicação não passa disso mesmo: de uma explicação. Que não basta para justificar a gravidade do nosso erro. As fontes que ouvimos, mesmo que credíveis, não eram suficientes. E não tomámos a devida consciência que notícias sensíveis como estas, que afectam gravemente a intimidade e os direitos de pessoas concretas e das suas famílias, exigem cuidados redobrados.
O PÚBLICO errou e, manda a nossa forma transparente de estar, a Direcção Editorial assume o erro por inteiro. Vai ser necessário rever procedimentos para garantir que não haverá repetições.
Para lá destas necessárias explicações e do indispensável pedido de desculpas aos leitores, resta-nos ainda uma palavra especial para José-Augusto França e para a sua família. É dada aqui com este reconhecimento e será dada de forma pessoal pela nossa equipa.»

A nota pontual de Ferreira Fernandes publicada, hoje, no Diário de Notícias:

«Um jornal, que não este, anunciou ontem a morte de José-Augusto França. Logo, outros jornais portugueses, incluindo este, publicaram a citada morte. Ora, José-Augusto França, de 95 anos, está vivo. O primeiro dos jornais a publicar-lhe a morte será talvez o único a ter uma razão plausível para o erro cometido - talvez um seu jornalista tenha recebido notícias que julgou fidedignas. Talvez tenha sido vítima de uma brincadeira de mau gosto. Talvez, não sei... Porém, todos os outros jornais, incluindo o DN, não têm desculpa nenhuma.
Desses, incluindo o DN, sabe-se, sem margem para dúvidas, porque publicaram a falsa notícia: porque outro jornal já o fizera, os outros apressaram-se a segui-lo. Apressaram o push - aviso para os telemóveis e computadores dos leitores - pois um segundo de atraso diminuiria os cliques de leitura. Um push é útil porque permite aos nossos leitores terem rapidamente o alerta de uma notícia. Mas um push falso é uma arma letal: informa mal o leitor e desvaloriza o nome do jornal.
E há, como neste caso, outra consequência mais grave: a falsa notícia gratuitamente incomodou um homem, os seus familiares e os seus amigos. De notícias de mortes apressadas está a história do jornalismo cheia, algumas entraram na lenda e, com o passar do tempo, até fazem sorrir. Mas quando a razão do erro bebe numa prática que destapa as fraquezas do jornalismo atual - os seus meios limitados, as suas redações curtas e a pressão pelo imediatismo - o melhor é tomar a sério a gravidade. O push é importante, mas mais importantes são as pessoas.
E outra coisa: o push mandado por um jornal é um assunto editorial, de jornalistas, que têm uma relação com a informação que vai para lá da eficácia. O jornalista serve a verdade e só. Conselhos de técnicos da rapidez e de aumento de tráfego são bons de ouvir porque devemos lidar bem com a tecnologia. Tal como os jornalistas devem agradecer aos técnicos de ontem que lhes deram teclados QWERT para escreverem as notícias. Mas tal como aos técnicos de ontem não lhes era permitido insinuar que numa dada notícia se devia bater mais vezes na letra Q do que na letra R, um jornalista de hoje não deve permitir outra razão, além do jornalismo, que lhe apresse o push. Ponto.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI



Estava a reler O Prazer de Matar de Fredric Brwon para colocar um pedaço de prosa com que habitualmente fazemos em Olhar as Capas.

É uma manhã quente de sábado e Sam Evans, repórter do Herald, está, na redacção do jornal, às voltas com um moscardo que lhe está a estragar a paz serena  do não fazer nada, porque nada havia para fazer.

Lembrei-me de imediato de Harry James, num 78 rotações por minuto que o meu pai amiúde punha a rodar, com o Voo do Moscardo, um interlúdio para orquestra composto por Rimsky-Korsakov.

O trompetista Harry James era um dos clássicos do meu pai, que gostava de big bands e, essencialmente, de trompetistas.

Mais abaixo ouvirão o Harry James e eu acrescento mais um pouco da prosa de Fredric Brown, no exacto momento em que Sam é chamado ao gabinete de Ed, o editor do Herald. Porque o que se segue me fez lembrar o jornalismo de sarjeta que é o Correio da Manhã, o português e todos os que se encontram espalhados pelo mundo:

«Sentei-me na cadeira em frente da secretária, e aguardei que levantasse a vista, esperando intimamente que o não fizesse. Mas fez. Disse:
- Um rapaz sofreu um acidente mortal na «montanha-russa», em Whitewater Beach. Quero uma história com interesse humano que o retrate como um estupendo moço, que diga como os pais estão inconsoláveis, et etecetera e tal… enfim esse género de coisas. Puxa ao choradinho de que o público gosta. Bem sabes o que quero dizer.
Eu sabia o que ele queria dizer.
- Já estou a chorar – respondi-lhe.»


domingo, 1 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO



O jornalismo devia ser feito só por amantes do seu ofício.

Ferreira Fernandes

sábado, 30 de junho de 2018

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Esta é a 1ª página do Diário de Notícias de hoje.

A partir de amanhã, a edição em papel só sairá aos domingos.

Nos restantes dias terá uma edição digital.

Dizem que é um passo em direcção ao futuro, um futuro mais firme.

Na quinta-feira, na «Quadratura do Círculo» , José Pacheco Pereira disse: o Diário de Notícias acabou!

Ferreira Fernandes não está nada de acordo e, hoje, num texto bem esgalhado, explica a Pacheco Pereira o tal futuro mais firme.

Não serei tão taxativo como Pacheco Pereira, mas, face a esta mudança,  também tenho as minhas dúvidas.

O meu avô paterno, republicano histórico, odiava o Diário de Notícias, como então se dizia, o jornal das sopeiras e só lia O Século.

Segui-lhe as pisadas e, também,  muito raramente passei as mãos pelas suas páginas.

O Diário de Notícias apenas foi o meu jornal enquanto os nomes de Luís Barros e José Saramago estiveram no cabeçalho do jornal.

De Abril a Novembro de 1975: os dias dos dias.

Como escreveu José Saramago no prefácio a Os Apontamentos:

«É esse o tempo em que os trabalhadores do Diário de Notícias, na sua grande maioria activa e participante, avançam para a realização de um objectivo que naquela casa, até aí, havria de ter parecido impossível, mesmo em horas de fantasia louca: pôr o jornal ao serviço das classes trabalhadoras, ao serviço do proletariado industrial e agrícola, ao serviço do socialismo, para tudo dizer em uma palavra»

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

RELACIONADOS


Durante os tempos da censura salazarista/marcelista, vários foram os esquemas utilizados pelos jornalistas para driblarem os coronéis-censores.

Um deles era «escrever nas entrelinhas» e, por vezes, a burrice/analfabetismo dos censores não entendiam a mensagem que navegava por essas entrelinhas.

Em 1973, Eduardo Valente da Fonseca, jornalista do República desde 1965, conseguiu convencer direcção e chefias do jornal a publicar uma brincadeira, com alguns riscos, é certo, no suplemento Fim de Semana, servindo-se dos signos astrológicos.


Tudo o que se publicava no jornal tinha de ir à censura, excepto as palavras cruzadas, os números da lotaria, o movimento das marés, os discursos anedóticos do presidente Tomás e os horóscopos.

Semanalmente, com  humor e inteligência o Eduardo Valente da Fonseca lançava directas e indirectas à situação política, e não só.

Quando os coronéis conseguiram descobrir as subtilezas do Eduardo, exigiram que o Horóscopo também passasse a ir à censura.

Mas foi sol de pouca dura.

Faltavam poucas semanas para que acontecesse o 25 de Abril.

Em Maio de 1998 a Campo das Letras editou esses Horóscopos de Delfos.

Alguns dos textos são de difícil entendimento porque datados, e apenas os que viveram aqueles conturbados tempos, se apercebe da subtileza do humor e da acutilância militante da escrita ímpar de Eduardo.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


O jornalismo, tal como o conhecemos, está a acabar: E isso não é uma boa notícia para as democracias.

Nicolau Santos no Expresso

Legenda: pintura de Claude Monet

domingo, 6 de agosto de 2017

DO SORRISO DE FEHÉR


As televisões tornaram-se macabras.
Praticam um jornalismo miserável, de sarjeta.
Aqueles repórteres em directo são o pior que nos pode acontecer enquanto olhamos o pequeno écran.
E há milhares que não despregam os olhos e que exigem o «must» do escabroso.
Os «shares» exigem sangue e que esse sangue dure o maior tempo possível.
Ana Sousa Dias, hoje no Diário de Notícias, dá-nos a ler um brilhante texto de opinião sobre o jornalismo que se pratica hoje em dia:

«Um dos meus heróis chama-se Ricardo Espírito Santo. No dia 25 de janeiro de 2004, ele dirigia a transmissão do jogo Guimarães-Benfica e tirou do ar, num ápice, o rosto de Miklós Fehér no instante em que o coração do jogador húngaro parou. A última imagem que tivemos dele foi um sorriso aberto. Ricardo fez, antes e depois, centenas de transmissões de futebol, um trabalho normal na vida profissional dele, que está recheada de muitos outros, no desporto como noutras áreas. Eu não o conhecia mas para mim aquele momento definiu-o. Mais tarde ficámos amigos e pude confessar-lhe o meu profundo respeito por aquele gesto instantâneo. Para ele, tinha sido uma reação normal, óbvia.
Todos os dias tomamos decisões - o que vou vestir, viro para a esquerda ou para a direita, o que faço para o jantar -, escolhas banais. As grandes decisões são outra coisa: mesmo quando parecem tomadas rapidamente, têm por trás um lastro que é a nossa vida inteira, incluindo as nossas hesitações e indecisões. Ricardo não decidiu por acaso evitar que o mundo visse em direto a morte de Fehér. Ele é assim, deontologicamente irrepreensível.
O mesmo respeito mantenho pelo realizador de um programa de entrevistas que tive na RTP2, Rui Nunes. Se o entrevistado se comovia demasiado, se lhe tremia a voz ou os olhos ficavam em lágrimas, ele retirava-lhe de imediato o grande plano do rosto, numa atitude de profundo respeito. Bem sei que há quem goste de fazer exatamente o contrário e até há quem force essas situações de lágrimas. Até há aquela clássica cena das lágrimas falsas do jornalista interpretado por William Hurt em Edição Especial (Broadcast News, 1987, realizado por James L. Brooks), desmascaradas por Holly Hunter.
Na quarta-feira passada, também eu dei por mim pasmada em frente da televisão a ver imagens do areal de São João da Caparica. Passados estes dias, agradeço à RTP por ter sido o único canal de televisão que não ficou horas especado num lugar onde aconteceu uma tragédia mas onde, passado pouco tempo, já não havia nada para mostrar em direto. Havia reportagem para fazer, para depois editar, mas não era necessário ficar em direto. E muito menos a entrevistar, para ocupar o tempo, crianças que tinham acabado de testemunhar a morte de duas pessoas. Vi pelo menos duas crianças a quem foram pedidos pormenores do acidente.
Tive sorte, não vi o momento em que o pai de Sofia quis falar para o microfone da TVI24. Posso imaginar - e dizem-me que foi evidente - o embaraço e o pudor da repórter. Se estava decidido manter o direto, devia haver alguém na régie a dirigir a emissão com sangue-frio e preocupação ética, alguém que decidisse parar a cena de imediato. Não é apenas bom senso: há regras para isto, nós jornalistas temos um código deontológico que é claro a este respeito.
Nos antípodas do episódio Fehér tenho na memória um dos momentos em que senti maior vergonha alheia. Foi durante as longuíssimas horas em que, no dia 4 de março de 2001, houve os mais absurdos diretos de televisão: o acidente de Entre-os-Rios. Não acontecia absolutamente nada. De vez em quando, mergulhadores faziam buscas no leito lamacento e caudaloso de um Douro que escoava águas de muitas chuvas, mas cada vez se tornava mais óbvio que não iria aparecer nada. Soube-se mais tarde que morreram ali 59 pessoas, dentro de um autocarro e de três carros que atravessavam a Ponte Hintze Ribeiro quando um dos pilares ruiu. Nada mais havia para ver, porque a violência das águas tinha arrastado tudo em direção ao mar.
Tal como no areal da Caparica, também havia jornalistas a entrevistar pessoas que por ali andavam. Na maioria, eram familiares, amigos, vizinhos dos que tinham desaparecido. Sei, porque fiz perguntas depois, que os repórteres no local recebiam da chefia ordens constantes para mostrar "sangue", maneira de dizer que era preciso agarrar os espetadores com algum pormenor escabroso. E foi então que uma repórter anunciou: "Vamos falar com um menino que costumava ir às excursões com os avós mas desta vez foi substituído por um irmão." A pergunta nunca me sairá da cabeça: "Tiveste pena de não ir na excursão?"
Quando dou aulas, refiro sempre este exemplo como o cúmulo do que não deve ser feito. Está lá tudo: a entrevista a uma criança sobre uma tragédia, a insistência num direto sem sentido, a exploração descabelada do voyeurismo básico que todos temos um pouco em nós. E a estupidez da pergunta, claro.
Podermos ver em tempo real algo que está a acontecer é um feito extraordinário que a tecnologia nos dá. Mas um direto de informação não é uma câmara de vigilância à espera de que alguma coisa aconteça.»

domingo, 7 de maio de 2017

A IGNORÂNCIA À SOLTA!

Este é o recorte de uma notícia publicada na última página do Expresso de 28 de Abril.

Lida a notícia não consegui entender do porquê do título.

Acresce que a notícia é um conjunto de disparates, de ignorância crassa, donde ressalta a afirmação de que Salazar recusou encontrar-se com Paulo VI depois de o Papa, ter recebido os representantes dos movimentos de libertação das então colónias portuguesas.

Que Salazar encontrou-se com Paulo VI prova-o a fotografia retirada do nº 1046 de 20 de Maio de 1967 do Notícias de Portugal que funcionava como boletim semanal de propaganda da ditadura, editado pelo SNI – Secretariado Nacional da Informação.


Paulo VI recebeu Salazar, durante quinze, numa pequena sala da Casa dos Retiros de Nossa Senhora do Rosário e, segundo o repórter oficial, foi um encontro «muito efectuoso».

Quanto à visita de Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos ao Vaticano no dia 1 de Julho de 1970, já era Primeiro-Ministro Marcelo Caetano e Salazar aguardaria mais 27 dias para que chegasse a sua morte física.

Houve, realmente, um contencioso entre Salazar e o Papa Paulo VI, mas ocorreu por causa da visita que, em Outubro de 1964, o Papa, por ocasião do Congresso Eucarístico Mundial, realizou à União Indiana.

Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros, em conferência de imprensa, no 21 de Outubro de 1964, disse aos jornalistas:

Temos de considerar a visita do Papa Paulo VI a Bombaim como um agravo gratuito, no duplo sentido e que é inútil e de que é injusto, praticado pelo Chefe do Catolicismo em relação a uma Nação católica.

Salazar exigiu que o Cardeal Cerejeira expressasse ao Vaticano que considerava essa visita um ultraje à nação portuguesa, três anos depois de depois de a União Indiana, Dezembro de 1964, ter retirado a soberania portuguesa a Goa, Damão e Diu.

As televisões são o que são, os jornais acompanham-nas freneticamente.

É estranho que num auto intitulado jornal de referência, não haja um qualquer editor que tenha lida a peça e, face a erros tão crassos, não tenha carregado de imediato na tecla «delete».

O problema é que, nos tempos que correm, as redacções dos órgãos de comunicação social encheram-se de estagiários licenciados em Comunicação Social que não lêem, não estudam e vivem em alegre ignorância.

 Será que existirá a humildade para uma declaração simples: «O Expresso errou»!

Esperarei sentado.

sábado, 19 de novembro de 2016

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


O Diário de Notícias continua a publicar-se, mas abandona o lindíssimo edifício no cimo da Avenida da Liberdade, traço de Pardal Monteiro.

O jornal muda-se para uma das Torres de Lisboa, junto à 2ª Circular.

O edifício será destinado a habitação e serviços e manterá a fachada.


Este edifício é uma imagem que guardo desde miúdo quando com o meu avô íamos, nos domingos-sem-Benfica, passear para o Parque Eduardo VII.

As vezes que fui à loja do rés-do-chão, comprar números atrasados, por causa de algum artigo publicado no suplemento literário.

O meu avô, republicano histórico, benfiquista e anti-clerical, nunca leu o Diário de Notícias, o jornal das sopeiras, como então, por causa dos anúncios de oferta e procura de emprego, se dizia.

Lia O Século e o República.

Segui passos idênticos e, por uma só vez, o Diário de Notícias foi o meu jornal: de 9  de Abril a 25 de Novembro de 1975,  sub-directoria de José Saramago:

A história do Diário de Notícias é uma das histórias mais mal contadas deste país. E eu vou conta-la, tentendo que, finalmente, passe a ser bem contada. Mas sem grande esperança disso. Estamos em 75, sou director adjunto, Luís de barros está de férias, sou eu quem conduz o jornal. (Há que dizer que até essa altura alguns jornalistas tinham sido despedidos. Curiosamente sem nunca o director-adjunto ter tido qualquer intervenção nesse aspecto.) Uma tarde entram-me pelo gabinete três ou quatro jornalistas (não me lembro quem)). Traziam um papel assinado por trinta jornalistas (e não só jornalistas), no qual se discordava da orientação do jornal. Para denúncia e protesto, exigia-se a publicação desse papel na edição do dia seguinte. Li, disse que não estava de acordo, nem me parecia que tivessem razão (“vivemos no tempo que vivemos, o jornal tem esta linha, está ao lado da Revolução”). Acrescentei: “Não vou dizer que isso não se publica, lembro-vos só de que nesta casa há uma entidade que está acima da direcção e de certo modo também acima da administração e que se chama Conselho Geral de Trabalhadores (era o tempo em que estas coisas existiam). Vou, portanto chamar os responsáveis do CGT para que o Conselho reúna hoje e se acharem que isto deve ser publicado, será publicado”. Foram-se embora, chamei os responsáveis do CGT, contei-lhes o que se passava e pedi-lhes que convocassem toda a gente para a meia-noite. A essa hora chamam-me, lá a cima, já estava toda a gente, eu vou, levo o papel, lei-o, dou a minha opinião (o que era normal), e desço para o meu gabinete à espera das conclusões do debate. Em que não participei. Quando aquilo terminou, os mesmos responsáveis do CGT vêm-me comunicar que se tinha decidido suspender os não já trinta (porque tinham passado a ser 23) e recomendado à administração que lhes instaurasse processos disciplinares. Este foi o crime praticado pelo director-adjunto do Diário de Notícias, José Saramago.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


Uma análise recente, do Laboratório de Ciências da Comunicação do ISCTE, concluiu:


O PSD tem 11 espaços de comentários fixos, o PS tem sete, o BE tem quatro, o CDS-PP tem três, o PCP e o Livre/Tempo de Avançar têm um cada,