O jornal
Público, hoje, não é um jornal democrático!
Como já sou
um tanto ou quanto velho, tive um professor, no 6º ano dos tempos da ditadura
salazarenta, lamentavelmente não lembro o nome, que dava essa coisa que se chamava Organização Política e Administrativa da Nação.
Ele dizia que
a liberdade é um valor inestimável mas que, pelos tempos que corriam, se devia
ter muito cuidado em relação às pessoas que enchiam a boca com a dita palavra , olhar, sempre, o campo em que se situavam.
Os mesmos
cuidados se deviam ter quando nos falavam de democracia.
Nas
entrelinhas do falar do professor de Organização Política, quem quis reteve o
que ele pretendia dizer.
O lembrete
serve para situar das razões porque digo que o Público não é um jornal
democrático.
O jornal
Público que começou por ser um jornal de referência, assim se manteve enquanto
o seu director foi Vicente Jorge Silva.
Quando para
director foi esse rapaz que se chama José Manuel Fernandes, o jornal entrou em
derrapagaem até se estatelar completamento ao comprido.
Esse tal rapaz,
hoje é director de um vómito on-line que se chama Observador e onde campeia
tudo o que é ultra-liberal e saudosistas diversos de Salazar/Caetano.
Por aqui me
fico.
Um dos
meus defeitos, é que nunca aprendi a ser sintético, apesar dos esforçados
ensinamentos de um professor de português, então no 2º ciclo, e desse lembro o nome: o professor
Sousa.
Um linotipista do tempo em que os jornais se
compunham a chumbo.
O cheiro a chumbo, a tinta, que emanava da
tipografia do Diário de Lisboa,
naquelas tardes de segundas-feiras quando, com o Mário Castrim, olhávamos a
prova de granel do Juvenil.
Aquele cheiro que ainda persistia quando
íamos beber o café na Brasileira.
Um certo romantismo, dizia então o Armindo.
E se ele sabia aplicar as palavras.
Legenda: fotografia Shorpy da
autoria de Jack Delano, linotipista doGreensboro Herald Journal, Georgia.
Ferreira
Fernandes e Catarina Carvalho pediram a demissão dos cargos que ocupavam na
direcção do Diário de Notícias e a administração aceitou o pedido.
Perspectiva-se o
accionamento da lay-off nos vários títulos que fazem parte da Global Média e os
directores entenderam que não tinham condições para continuar.
«A partir de amanhã, a edição em papel só sairá aos
domingos.
Nos restantes dias terá uma edição digital.
Dizem que é um passo em direcção ao futuro, um
futuro mais firme.
Na quinta-feira, na «Quadratura do Círculo» ,
José Pacheco Pereira disse: o Diário de Notícias acabou!
Ferreira
Fernandes não está nada de acordo e, hoje,
num texto bem esgalhado, explica a Pacheco Pereira o tal futuro mais firme.
Não serei tão taxativo como Pacheco Pereira, mas, face
a esta mudança, também tenho as minhas dúvidas.
O meu avô paterno, republicano histórico, odiava
o Diário de Notícias, como então se dizia, o jornal das sopeiras e só
lia O Século.
Segui-lhe as pisadas e, também, muito raramente
passei as mãos pelas suas páginas.
O Diário de Notícias apenas foi o meu jornal
enquanto os nomes de Luís Barros e José Saramago estiveram no cabeçalho do
jornal.
De Abril a Novembro de 1975: os dias dos dias.»
Nestes Dias
cruéis que vamos vivendo, é mais uma notícia triste.
Sim,
aproximam-se péssimos dias para o Diário de Notícias-on line que ainda
hoje destacava esta notícia:
«Choque de desemprego será o maior de que há registo
em Portugal.»
Péssimas e arrepiantes
notícias para todos os órgãos de informação, sejam da imprensa escrita, da rádio,
da televisão.
Sou de um tempo
em que o jornalismo era uma profissão respeitável, ler um jornal não era dar o
tempo por perdido, era um gesto importante. Também
não existiam on-lines e havia a necessidade de
olhar o que se passava no país e no mundo, mesmo sabendo que o lápis azul da
censura, frequentara as pilhas de jornais que se amontoavam, ainda não havia
quiosques, no ardina da esquina.
Existiam também
as entrelinhas que, magistralmente, alguns jornalistas sabiam utilizar, assim
fintando os-incultos-quase-analfabetos-coroneis-da-censura.
Recordo, não com
jornais, mas uma história da rádio, contada por Luis Flipe Costa:
Em 17 de Maio de
1967, Palma
Inácio realizou o assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz, o
que seria o primeiro acto político da LUAR. Obviamente a notícia foi proibida
pela censura, mas sabia-se, por portas travessas, o que tinha acontecido, e no
noticiário da uma da manhã do Rádio Clube Português, o jornalista Luís
Filipe Costa aproveitou a leitura do boletim meteorológico para concluir a sua
apresentação:
"Felizmente, há luar".
Baptista-Bastos,
Capitão de Médio Curso:
«Mais do que uma instituição pública, o jornal é uma
declaração de amor, um momento, e a sua arte reside justamente na virtude de
chegar na hora, na criação do contraponto entre o que permanece e o que vai
acontecendo.
A solidão do jornalista decorre da fraternidade por
ele jamais recusada, da responsabilidade por ele aceite como princípio ético,
da severidade imposta pelo comércio das ideias feito com outros homens. Mas a
solidão do jornalista é intermediária, porque reflecte uma época também
intermediária, onde o poder, a força e a riqueza têm menor importância do que a
ciência. Sendo acto, sonho, declaração de amor, o jornal é também uma ciência –
eis porque os tiranos temem o prestígio do jornal que vê claro e escreve vivo:
a felicidade apoia-se na verdade, a ilusão assenta na mentira.»
Nicolau Santos,
aqui:
«Hoje. Ao fundo, um homem sai de um gabinete. O
gabinete do chefe. Do ex-chefe. Do ex-chefe que ainda é chefe, ex é ele:
ex-empregado. Acaba de ser despedido. É um de um rol de muitos, um nome a mais
numa lista, uma fila a menos numa folha de cálculo. Sai calado, pelo espaço
aberto, outros olhos viram-se primeiro para ele, depois para baixo. Outro nome
é chamado, lá vai ele, o mesmo gabinete, o mesmo destino. Hoje a empresa não é
uma empresa, é um matadouro. Morrem empregos. Saiu nas notícias e tudo. É um
dia na vida.»
Faz-nos
companhia, uma velha e gloriosa canção dos Byrds: «Turn, Turn, Turn.»
Um tempo para
nascer, um tempo para morrer, um tempo, a canção não o diz mas escrevo eu, para
acreditar que não é possível viver sem jornais em papel, um aceno longo ao meu
pai que, no tempo da ditadura, foi jornalista, fechava o jornal madrugada fora
dentro, numa correria louca para não perder os comboios que levavam o jornal
para a província, hoje sabemos que os jornais cada vez estão mais pobres,
arrastam-se num amontoado reles de notícias inventadas pelas redes sociais,
copiadas pelos estagiários, em que se nota à vista desarmada que de há muito,
foram perdidos os princípios… e assim sendo…
1.
Donald Trump cumpriu com o que havia ameaçado. A sua Administração suspendeu o
financiamento à Organização Mundial da Saúde.
O Presidente dos Estados Unidos, país que é o maior doador da OMS, acusa esta
organização internacional de falhar decisões no momento adequado.
Richard Horton,
chefe de redacção da revista médica The Lancet:
«A decisão do presidente Trump de suspender o
financiamento à OMS é simplesmente isso - um crime contra a
humanidade. Todos os cientistas, todos os profissionais de saúde, todos os
cidadãos devem resistir e revoltarem-se contra esta terrível traição à
solidariedade social.»
2.
A China manteve
o surto de Covid-19 em segredo durante seis dias. A Associated
Press revelou o conteúdo de vários
documentos que indiciam que o vírus foi mantido em segredo da população durante
seis dias.
No dia 14 de
janeiro, altura em que foi detetado o primeiro caso de infeção pelo novo
coronavírus na Tailândia, o ministro da Comissão Nacional de Saúde da
China avisou vários responsáveis, entre eles o presidente, Xi Jinping, para o
possível cenário de pandemia através de uma videoconferência.
Mas o presidente
da China só alertou a população para a gravidade do vírus no dia 20 de Janeiro,
seis dias depois e nessa altura mais de 3000 mil pessoas já tinham sido
infectadas
3.
O número de
trabalhadores abrangidos pela medida de lay-off simplificado, lançada pelo
Governo para responder à pandemia de Covid-19, abrange actualmente já mais de
930 mil trabalhadores. O número de desempregados situa-se nos 353 mil.
4.
Os negros
números:
Portugal regista
599 mortos.
O número de vítimas mortais em França, subiu para 17.167, a Itália regista
21.465 mortos.
Em Espanha já
morreram 18.579 pessoas, na Grã-Bretanha 12.868 mortos, enquanto os Estados
Unidos chegaram ao número de 25.757 óbitos. Só em Nova Iorque já se registaram
7.905 mortes.
«Tradicionalmente, define-se o jornalismo como a
profissão, a arte ou a missão de dar conta da realidade. O que, convenhamos,
envolve uma humildade equívoca. O jornalismo é também um sistema de linguagens
que, conscientemente ou não, integra e contamina todas as componentes da dita
realidade, não poucas vezes transfigurando as suas formas de percepção e
verosimilhança. Desde meados da década de 1990, tudo isso passou a ser vivido,
e bem ou mal pensado, também através da Internet, prevalecendo a
ideia segundo a qual o mundo virtual seria tão só uma reconfiguração técnica do
mundo clássico (?) em que vivíamos ou julgávamos viver. Chegados aqui,
enfrentamos a mais gelada das evidências: a realidade integra o virtual. Como é
que uma profissão, uma arte ou uma missão consegue viver perante tão cruel
omnipresença?»
Legenda: João
César Monteiro no dia em que soube que o Diário de Lisboa ia deixar de se publicar a partir do dia 30 de Novembro de 1990.
Poesia, Peregrinação e Portugal – António Carlos Cortez
As Ficções de um Poeta – Jorge Vaz de Carvalho
Uma Correspondência Única (com Eugénio de Andrade) – Eugénio Lisboa
Divulgar um Escritor Plural – Luís Ricardo Duarte
Sena e Sophia, Dois Poetas no Princípio do Mundo – Luís Filipe Castro Mendes
Acho que havia muita intuição, mas sobretudo uma
atenção constante ao mundo para lá da superfície das coisas.
Sofreu muito com o exílio e com a sensação de nãp ser
reconhecido, mesmo depois de uma longa carreira académica,
As cartas servem-lhe para elaborar certas ideias que
depois dão origem a poemas, narrativas, ensaios ou críticas.
Uma das suas dimensões mais interessantes é a defesa
da liberdade, a fluidez de géneros, comunicando com leitores de todas as
idades, tendências, pertenças e opções.
Assim foi nascendo
em mim a paixão pela escrita. E comecei a enviar textos para os suplementos
juvenis do Diário de Lisboa, dirigido pelo Mário Castrim e do República. Alguns
foram mesmo publicados, quase todos sob pseudónimo, por influência – imagine-se
a presunção! – dos heterónimos de Fernando Pessoa. A certa altura, fui ao República
entregar um texto, e quem me recebeu foi o Pedro Foyos. Disse-me «venha daí
comigo, que estou com pressa» e eu fui atrás dele até às oficinas. Nunca antes
tinha estado numa tipografia e fiquei fascinado com aquilo. Era uma tipografia
tradicional, com as suas linotypes, a rotativa barulhenta… Ainda guardo, na
minha memória olfactiva, o cheiro intenso a tinta que impregnava o ar. Depois,
voltámos à redacção e, espreitando lá para dentro, vislumbrei velhas
secretárias de madeira, pejadas de jornais. Ouvia-se o matraquear de uma
máquina de escrever. Foram momentos importantes, porque, talvez tenha sido
então que, pela primeira vez na minha vida desejei ser jornalista.
Hoje, na visita
regular que faço à Loja Frenesi, o blogue onde o poeta e livreiro Paulo da
Costa Domingues, expões os livros que tem à venda, encontrei estas palavras:
«Há ainda uma questão que deve ser aqui lembrada: Em
finais dos anos 70 e início de 80 do século passado, o falecido Assis Pacheco,
ao serviço de O Jornal, alimentava uma coluna jornalística que ainda hoje
poderia servir de modelo a muito noticiário de publicação de livros. Chamava-se
«Bookcionário», e perdeu-se-lhe o rasto como se perde tudo neste mundo quando
os interessados se desinteressam, ou morrem, ou mudam de ramo. Nós, não
esquecemos. Nem essa simpática coluna, nem o seu intuito, nem o estilo. – Os
presentes verbetes de leitura, na nossa loja, em apoio das respectivas fichas
técnicas, tomaram daí a antiga inspiração.»
O relato do que se passa no comportamento dos homens encontramo-lo
todos os dias, em todos os jornais: na crónica do crime, nos telexes do
estrangeiro, na política nacional, na reportagem desportiva, cada repórter, com
a sua verdade e com o grande propósito de ser eficiente em a transmitir – em
colocar um anónimo tijolo na casa que se vai erguendo. Mais do que uma
instituição pública, o jornal é uma declaração de amor, um momento, e a sua
arte reside justamente na virtude de chegar na hora, na criação do contraponto
entre o que permanece e o que vai acontecendo.
A solidão do jornalista decorre da fraternidade por ele jamais
recusada, da responsabilidade por ele aceite como princípio ético, da
severidade imposta pelo comércio das ideias feito com outros homens. Mas a
solidão do jornalista é intermediária, porque reflecte uma época também
intermediária, onde o poder, a força e a riqueza têm menor importância do que a
ciência. Sendo acto, sonho, declaração de amor, o jornal é também uma ciência –
eis porque os tiranos temem o prestígio do jornal que vê claro e escreve vivo:
a felicidade apoia-se na verdade, a ilusão assenta na mentira.
Em busca de leitores
e audiências, o vale tudo já há muito invadiu jornais e televisões.
Esta capa do Público de domingo 13 de Janeiro é,
simplesmente, miserável.
Ao nível do melhor jornalismo de sargeta que por aí
pulula, no mesmo dia em que, também em 1ª página, anuncia o regresso desse
comentador de triste figura que dá pelo nome de António Barreto.
Lê-se que Cristina
Ferreira tem «Portugal a seus pés».
Onde vais jornalismo
de referência que dizias que eras?
O Dudu, no café da
Dona Luzia, diz que a dita personagem é «pobre
de boa».
O Goucha, na TVI,
convida um nazi para dizer alarvidades.
A idade que teria
José Saramago se ainda caminhasse por aqui.
Ambos nasceram no
mesmo dia, no mesmo ano, 16 de Novembro de 1922 , «ele às 14 horas (mas não muito viáveis numa declaração rural), eu às
14 e 35 minutos (declaração rigorosa de meu Pai contabilista), em sítios mais
ou menos vizinhos, ele numa aldeia cerca da Golegã, eu, como se sabe, nos
Estaus da cidade de Tomar.»
José Prudêncio,
professor de Filosofia, investigou as cartas astrológicas de ambos, teve
conversas com os dois intelectuais e escreveu sobre o assunto, um interessante
livro: Um Céu e Dois Caminhos.
Ontem, o Público noticiou a morte de José-Augusto
França.
Como Mark Twain,
Augusto França poderia dizer:
«Parece-me que as
notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas».
Todos temos a morte
anunciada mas é exigível que se morra pelo próprio pé e não empurrado, para a
dita cuja, pelo mau jornalismo.
A explicação da
Direcção editorial do matutino:
«O PÚBLICO falhou
no que não pode nunca falhar
A equipa do PÚBLICO tem um conjunto consistente de explicações para o
erro que nos levou a noticiar o falecimento de José-Augusto França. Tem o rasto
de uma informação que chegou à redacção e tem uma fonte credível e com rosto
(que nomeamos no momento em que corrigimos a primeira notícia) que a validou.
Mas essa explicação não passa disso mesmo: de uma explicação. Que não basta
para justificar a gravidade do nosso erro. As fontes que ouvimos, mesmo que
credíveis, não eram suficientes. E não tomámos a devida consciência que
notícias sensíveis como estas, que afectam gravemente a intimidade e os
direitos de pessoas concretas e das suas famílias, exigem cuidados redobrados.
O PÚBLICO errou e, manda a nossa forma transparente de estar, a
Direcção Editorial assume o erro por inteiro. Vai ser necessário rever
procedimentos para garantir que não haverá repetições.
Para lá destas necessárias explicações e do indispensável pedido de
desculpas aos leitores, resta-nos ainda uma palavra especial para José-Augusto
França e para a sua família. É dada aqui com este reconhecimento e será dada de
forma pessoal pela nossa equipa.»
A nota pontual de
Ferreira Fernandes publicada, hoje, no Diário
de Notícias:
«Um jornal, que não este, anunciou ontem a morte de José-Augusto
França. Logo, outros jornais portugueses, incluindo este, publicaram a citada
morte. Ora, José-Augusto França, de 95 anos, está vivo. O primeiro dos jornais
a publicar-lhe a morte será talvez o único a ter uma razão plausível para o
erro cometido - talvez um seu jornalista tenha recebido notícias que julgou
fidedignas. Talvez tenha sido vítima de uma brincadeira de mau gosto. Talvez,
não sei... Porém, todos os outros jornais, incluindo o DN, não têm desculpa nenhuma.
Desses, incluindo o DN, sabe-se, sem margem para dúvidas, porque
publicaram a falsa notícia: porque outro jornal já o fizera, os outros
apressaram-se a segui-lo. Apressaram o push - aviso para os telemóveis e
computadores dos leitores - pois um segundo de atraso diminuiria os cliques de
leitura. Um push é útil porque permite aos nossos leitores terem rapidamente o
alerta de uma notícia. Mas um push falso é uma arma letal: informa mal o leitor
e desvaloriza o nome do jornal.
E há, como neste caso, outra consequência mais grave: a falsa notícia
gratuitamente incomodou um homem, os seus familiares e os seus amigos. De
notícias de mortes apressadas está a história do jornalismo cheia, algumas
entraram na lenda e, com o passar do tempo, até fazem sorrir. Mas quando a
razão do erro bebe numa prática que destapa as fraquezas do jornalismo atual -
os seus meios limitados, as suas redações curtas e a pressão pelo imediatismo -
o melhor é tomar a sério a gravidade. O push é importante, mas mais importantes
são as pessoas.
E outra coisa: o push mandado por um jornal é um assunto editorial, de
jornalistas, que têm uma relação com a informação que vai para lá da eficácia.
O jornalista serve a verdade e só. Conselhos de técnicos da rapidez e de
aumento de tráfego são bons de ouvir porque devemos lidar bem com a tecnologia.
Tal como os jornalistas devem agradecer aos técnicos de ontem que lhes deram
teclados QWERT para escreverem as notícias. Mas tal como aos técnicos de ontem
não lhes era permitido insinuar que numa dada notícia se devia bater mais vezes
na letra Q do que na letra R, um jornalista de hoje não deve permitir outra
razão, além do jornalismo, que lhe apresse o push. Ponto.
Estava a reler O Prazer de Matarde Fredric Brwon para
colocar um pedaço de prosa com que habitualmente fazemos em Olhar as Capas.
É uma manhã quente de
sábado e Sam Evans, repórter do Herald,
está, na redacção do jornal, às voltas com um moscardo que lhe está a estragar
a paz serenado não fazer nada, porque
nada havia para fazer.
Lembrei-me de
imediato de Harry James, num 78 rotações por minuto que o meu pai amiúde punha
a rodar, com o Voo do Moscardo, um interlúdio para orquestra composto por Rimsky-Korsakov.
O trompetista Harry James era um
dos clássicos do meu pai, que gostava de big bands e, essencialmente, de
trompetistas.
Mais abaixo ouvirão o
Harry James e eu acrescento mais um pouco da prosa de Fredric Brown, no exacto
momento em que Sam é chamado ao gabinete de Ed, o editor do Herald. Porque o
que se segue me fez lembrar o jornalismo de sarjeta que é o Correio da Manhã, o português e todos os
que se encontram espalhados pelo mundo:
«Sentei-me na cadeira em frente da secretária, e aguardei que
levantasse a vista, esperando intimamente que o não fizesse. Mas fez. Disse:
- Um rapaz sofreu um acidente mortal na «montanha-russa», em Whitewater
Beach. Quero uma história com interesse humano que o retrate como um estupendo
moço, que diga como os pais estão inconsoláveis, et etecetera e tal… enfim esse
género de coisas. Puxa ao choradinho de que o público gosta. Bem sabes o que
quero dizer.
A partir de amanhã, a
edição em papel só sairá aos domingos.
Nos restantes dias
terá uma edição digital.
Dizem que é um passo em direcção ao futuro, um futuro
mais firme.
Na quinta-feira, na «Quadratura do Círculo» , José Pacheco
Pereira disse: o Diário de Notícias
acabou!
Ferreira Fernandes não está nada de acordo e, hoje, num texto bem esgalhado, explica a Pacheco
Pereira o tal futuro mais firme.
Não serei tão
taxativo como Pacheco Pereira, mas, face a esta mudança, também tenho as minhas dúvidas.
O meu avô paterno,
republicano histórico, odiava o Diário de
Notícias, como então se dizia, o jornal das sopeiras e só lia O Século.
Segui-lhe as pisadas
e, também, muito raramente passei as mãos pelas suas páginas.
O Diário de Notícias apenas foi o meu jornal
enquanto os nomes de Luís Barros e José Saramago estiveram no cabeçalho do
jornal.
De Abril a Novembro de 1975: os dias dos dias. Como escreveu José Saramago no prefácio a Os Apontamentos:
«É esse o tempo em que os trabalhadores do Diário de Notícias, na sua
grande maioria activa e participante, avançam para a realização de um objectivo
que naquela casa, até aí, havria de ter parecido impossível, mesmo em horas de
fantasia louca: pôr o jornal ao serviço das classes trabalhadoras, ao serviço
do proletariado industrial e agrícola, ao serviço do socialismo, para tudo
dizer em uma palavra»
Durante os tempos da
censura salazarista/marcelista, vários foram os esquemas utilizados pelos
jornalistas para driblarem os coronéis-censores.
Um deles era «escrever
nas entrelinhas» e, por vezes, a burrice/analfabetismo dos censores não entendiam
a mensagem que navegava por essas entrelinhas.
Em 1973, Eduardo
Valente da Fonseca, jornalista do República
desde 1965, conseguiu convencer direcção e chefias do jornal a publicar uma
brincadeira, com alguns riscos, é certo, no suplemento Fim de Semana, servindo-se dos signos astrológicos.
Tudo o que se publicava
no jornal tinha de ir à censura, excepto as palavras cruzadas, os números da
lotaria, o movimento das marés, os discursos anedóticos do presidente Tomás e
os horóscopos.
Semanalmente, com humor e inteligência o Eduardo Valente da
Fonseca lançava directas e indirectas à situação política, e não só.
Quando os coronéis conseguiram
descobrir as subtilezas do Eduardo, exigiram que o Horóscopo também passasse a
ir à censura.
Mas foi sol de pouca
dura.
Faltavam poucas semanas
para que acontecesse o 25 de Abril.
Em Maio de 1998 a
Campo das Letras editou esses Horóscopos de Delfos.
Alguns dos textos são
de difícil entendimento porque datados, e apenas os que viveram aqueles conturbados
tempos, se apercebe da subtileza do humor e da acutilância militante da escrita
ímpar de Eduardo.
Aqueles repórteres em directo são o pior que
nos pode acontecer enquanto olhamos o pequeno écran.
E há milhares que não despregam os olhos e
que exigem o «must» do escabroso.
Os «shares» exigem sangue e que esse sangue
dure o maior tempo possível.
Ana Sousa Dias, hoje no Diário de Notícias, dá-nos a ler um brilhante texto de opinião sobre o jornalismo que se pratica
hoje em dia:
«Um dos meus heróis chama-se Ricardo
Espírito Santo. No dia 25 de janeiro de 2004, ele dirigia a transmissão do jogo
Guimarães-Benfica e tirou do ar, num ápice, o rosto de Miklós Fehér no instante
em que o coração do jogador húngaro parou. A última imagem que tivemos dele foi
um sorriso aberto. Ricardo fez, antes e depois, centenas de transmissões de
futebol, um trabalho normal na vida profissional dele, que está recheada de
muitos outros, no desporto como noutras áreas. Eu não o conhecia mas para mim
aquele momento definiu-o. Mais tarde ficámos amigos e pude confessar-lhe o meu
profundo respeito por aquele gesto instantâneo. Para ele, tinha sido uma reação
normal, óbvia.
Todos os dias tomamos decisões - o que vou
vestir, viro para a esquerda ou para a direita, o que faço para o jantar -,
escolhas banais. As grandes decisões são outra coisa: mesmo quando parecem
tomadas rapidamente, têm por trás um lastro que é a nossa vida inteira,
incluindo as nossas hesitações e indecisões. Ricardo não decidiu por acaso
evitar que o mundo visse em direto a morte de Fehér. Ele é assim, deontologicamente
irrepreensível.
O mesmo respeito mantenho pelo realizador de
um programa de entrevistas que tive na RTP2, Rui Nunes. Se o entrevistado se
comovia demasiado, se lhe tremia a voz ou os olhos ficavam em lágrimas, ele
retirava-lhe de imediato o grande plano do rosto, numa atitude de profundo
respeito. Bem sei que há quem goste de fazer exatamente o contrário e até há
quem force essas situações de lágrimas. Até há aquela clássica cena das
lágrimas falsas do jornalista interpretado por William Hurt em Edição Especial
(Broadcast News, 1987, realizado por James L. Brooks), desmascaradas por Holly
Hunter.
Na quarta-feira passada, também eu dei por
mim pasmada em frente da televisão a ver imagens do areal de São João da
Caparica. Passados estes dias, agradeço à RTP por ter sido o único canal de
televisão que não ficou horas especado num lugar onde aconteceu uma tragédia
mas onde, passado pouco tempo, já não havia nada para mostrar em direto. Havia
reportagem para fazer, para depois editar, mas não era necessário ficar em
direto. E muito menos a entrevistar, para ocupar o tempo, crianças que tinham
acabado de testemunhar a morte de duas pessoas. Vi pelo menos duas crianças a
quem foram pedidos pormenores do acidente.
Tive sorte, não vi o momento em que o pai de
Sofia quis falar para o microfone da TVI24. Posso imaginar - e dizem-me que foi
evidente - o embaraço e o pudor da repórter. Se estava decidido manter o
direto, devia haver alguém na régie a dirigir a emissão com sangue-frio e
preocupação ética, alguém que decidisse parar a cena de imediato. Não é apenas
bom senso: há regras para isto, nós jornalistas temos um código deontológico
que é claro a este respeito.
Nos antípodas do episódio Fehér tenho na
memória um dos momentos em que senti maior vergonha alheia. Foi durante as
longuíssimas horas em que, no dia 4 de março de 2001, houve os mais absurdos
diretos de televisão: o acidente de Entre-os-Rios. Não acontecia absolutamente
nada. De vez em quando, mergulhadores faziam buscas no leito lamacento e
caudaloso de um Douro que escoava águas de muitas chuvas, mas cada vez se
tornava mais óbvio que não iria aparecer nada. Soube-se mais tarde que morreram
ali 59 pessoas, dentro de um autocarro e de três carros que atravessavam a
Ponte Hintze Ribeiro quando um dos pilares ruiu. Nada mais havia para ver,
porque a violência das águas tinha arrastado tudo em direção ao mar.
Tal como no areal da Caparica, também havia
jornalistas a entrevistar pessoas que por ali andavam. Na maioria, eram
familiares, amigos, vizinhos dos que tinham desaparecido. Sei, porque fiz
perguntas depois, que os repórteres no local recebiam da chefia ordens
constantes para mostrar "sangue", maneira de dizer que era preciso
agarrar os espetadores com algum pormenor escabroso. E foi então que uma
repórter anunciou: "Vamos falar com um menino que costumava ir às
excursões com os avós mas desta vez foi substituído por um irmão." A
pergunta nunca me sairá da cabeça: "Tiveste pena de não ir na
excursão?"
Quando dou aulas, refiro sempre este exemplo
como o cúmulo do que não deve ser feito. Está lá tudo: a entrevista a uma
criança sobre uma tragédia, a insistência num direto sem sentido, a exploração
descabelada do voyeurismo básico que todos temos um pouco em nós. E a estupidez
da pergunta, claro.
Podermos ver em tempo real algo que está a
acontecer é um feito extraordinário que a tecnologia nos dá. Mas um direto de
informação não é uma câmara de vigilância à espera de que alguma coisa
aconteça.»
Este é o recorte de
uma notícia publicada na última página do Expresso
de 28 de Abril.
Lida a notícia não
consegui entender do porquê do título.
Acresce que a notícia
é um conjunto de disparates, de ignorância crassa, donde ressalta a afirmação
de que Salazar recusou encontrar-se com Paulo VI depois de o Papa, ter recebido
os representantes dos movimentos de libertação das então colónias portuguesas.
Que Salazar
encontrou-se com Paulo VI prova-o a fotografia retirada do nº 1046 de 20 de
Maio de 1967 do Notícias de Portugal
que funcionava como boletim semanal de propaganda da ditadura, editado pelo SNI
– Secretariado Nacional da Informação.
Paulo VI recebeu
Salazar, durante quinze, numa pequena sala da Casa dos Retiros de Nossa Senhora
do Rosário e, segundo o repórter oficial, foi um encontro «muito efectuoso».
Quanto à visita de
Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos ao Vaticano no dia 1 de
Julho de 1970, já era Primeiro-Ministro Marcelo Caetano e Salazar aguardaria
mais 27 dias para que chegasse a sua morte física.
Houve, realmente, um
contencioso entre Salazar e o Papa Paulo VI, mas ocorreu por causa da visita
que, em Outubro de 1964, o Papa, por ocasião do Congresso Eucarístico Mundial,
realizou à União Indiana.
Franco Nogueira, ministro
dos Negócios Estrangeiros, em conferência de imprensa, no 21 de Outubro de 1964,
disse aos jornalistas:
Temos de considerar a visita do Papa Paulo VI a Bombaim como um agravo
gratuito, no duplo sentido e que é inútil e de que é injusto, praticado pelo
Chefe do Catolicismo em relação a uma Nação católica.
Salazar exigiu que o
Cardeal Cerejeira expressasse ao Vaticano que considerava essa visita um
ultraje à nação portuguesa, três anos depois de depois de a União Indiana, Dezembro
de 1964, ter retirado a soberania portuguesa a Goa, Damão e Diu.
As televisões são o
que são, os jornais acompanham-nas freneticamente.
É estranho que num
auto intitulado jornal de referência, não haja um qualquer editor que tenha
lida a peça e, face a erros tão crassos, não tenha carregado de imediato na
tecla «delete».
O problema é que, nos
tempos que correm, as redacções dos órgãos de comunicação social encheram-se de
estagiários licenciados em Comunicação Social que não lêem, não estudam e vivem
em alegre ignorância.
Será que existirá a humildade para uma
declaração simples: «O Expresso errou»!
Este edifício é
uma imagem que guardo desde miúdo quando com o meu avô íamos, nos domingos-sem-Benfica,
passear para o Parque Eduardo VII.
As vezes que fui
à loja do rés-do-chão, comprar números atrasados, por causa de algum artigo publicado
no suplemento literário.
O meu avô,
republicano histórico, benfiquista e anti-clerical, nunca leu o Diário de
Notícias, o jornal das sopeiras, como então, por causa dos anúncios de
oferta e procura de emprego, se dizia.
Lia O Século
e o República.
Segui passos
idênticos e, por uma só vez, o Diário de Notícias foi o meu jornal: de 9 de Abril a 25 de Novembro de 1975, sub-directoria de José Saramago:
A história do Diário de Notícias é uma das histórias mais mal contadas deste país.
E eu vou conta-la, tentendo que, finalmente, passe a ser bem contada. Mas sem
grande esperança disso. Estamos em 75, sou director adjunto, Luís de barros
está de férias, sou eu quem conduz o jornal. (Há que dizer que até essa altura
alguns jornalistas tinham sido despedidos. Curiosamente sem nunca o
director-adjunto ter tido qualquer intervenção nesse aspecto.) Uma tarde
entram-me pelo gabinete três ou quatro jornalistas (não me lembro quem)).
Traziam um papel assinado por trinta jornalistas (e não só jornalistas), no
qual se discordava da orientação do jornal. Para denúncia e protesto, exigia-se
a publicação desse papel na edição do dia seguinte. Li, disse que não estava de
acordo, nem me parecia que tivessem razão (“vivemos no tempo que vivemos, o
jornal tem esta linha, está ao lado da Revolução”). Acrescentei: “Não vou dizer
que isso não se publica, lembro-vos só de que nesta casa há uma entidade que
está acima da direcção e de certo modo também acima da administração e que se
chama Conselho Geral de Trabalhadores (era o tempo em que estas coisas
existiam). Vou, portanto chamar os responsáveis do CGT para que o Conselho
reúna hoje e se acharem que isto deve ser publicado, será publicado”. Foram-se
embora, chamei os responsáveis do CGT, contei-lhes o que se passava e pedi-lhes
que convocassem toda a gente para a meia-noite. A essa hora chamam-me, lá a
cima, já estava toda a gente, eu vou, levo o papel, lei-o, dou a minha opinião
(o que era normal), e desço para o meu gabinete à espera das conclusões do
debate. Em que não participei. Quando aquilo terminou, os mesmos responsáveis
do CGT vêm-me comunicar que se tinha decidido suspender os não já trinta
(porque tinham passado a ser 23) e recomendado à administração que lhes
instaurasse processos disciplinares. Este foi o crime praticado pelo
director-adjunto do Diário de Notícias, José Saramago.