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sexta-feira, 20 de março de 2020

PARTE-SE


Parte-se,
como uma ânfora desmedida,
o meu coração.
É Junho,
começam a abrir-se as flores da melancolia.

Desço os degraus da casa e da terra.
Fecho os olhos.
Por dentro da sua cor, 
por dentro da sua luz verde,
esses olhos partem para o mar,
quando o crepúsculo cai do outro lado
dos espelhos.

Parece que os girassóis se erguem na berma
das estradas.
Parece que as cegonha dormem.

Nem tu,
cujo rosto vi tantas vezes desenhar-se no
rosto da lua, me poderás salvar.

José Agostinho Baptista

Legenda: imagem Shorpy

segunda-feira, 11 de junho de 2018

CONTO


foi assim que me sentei neste porto e nestas pedras
ao fim da tarde
e vi anoitecer quando ao longe as luzes se acendiam
na outra margem do rio.

foi assim neste porto e nestas pedras que num tempo
de excessiva solidão escrevi as mais antigas elegias
do desespero.

é certo
que não podes conceber o fascínio dos lugares alucinantes
da memória
os circos pobres e os clowns da primeira alegria
o profundo esquecimento das cidades de província.

contudo
estou a ver-te aí
sentada
um pouco à direita das pequenas coisas
um livro a meio desde o inverno o azul demasiado das paredes
as janelas fechadas donde nunca mais pudeste ver o mar.

foi aqui
ao fim de uma tarde em junho         o sexto mês
foi nestas pedras e neste porto que ao longe eu vi
morrer a grande cidade envolta nas chamas do ocidente destruído.

José Agostinho Baptista em Deste Lugar Onde

segunda-feira, 19 de março de 2018

COMO PODERÁS ENTENDER?


lembro-me sobretudo desses dias.

depois do sol tu vinhas.

eram belas as túnicas de argel e as velhas botas espanholas que te
dera o último amante.

o john lennon gritava
                        give me some truth
                                                give me some truth
e tu rias
                        rias como em noites de festas pagãs.

hoje
sentado neste bar quinhentista e fluvial de um país sonâmbulo
a máquina de discos repetindo êxitos da década 60
os pequenos barcos do rio dirigem-se para oeste
enquanto os marinheiros do passado há muitas horas bebem aguardente.
TU

perdida nas vertiginosas danças bárbaras como antigamente
como poderás entender esses lugares de paixão
onde me sento e bebo
ouvindo as histórias da época prodigiosa?

José Agostinho Baptista em Deste Lado Onde

terça-feira, 11 de julho de 2017

DIEGO


Vi, escritos na relva, os mais belos poemas de uma vida.
Sob o clamor das vozes
ouvi a tua voz naquele bairro do sul distante,
buenos aires do perdido amor,
com as suas milongas,
com os seus punhais dolentes.

Tu não crescias.
Eras puro, com a beleza por dentro, essa terrível beleza
que arde no coração.

De muito longe vieram contigo o júbilo e as altas flores
da magia.
Tudo enlouquecia, de repente.
O mundo era um prado vertiginosos, com a demência à volta.
Em Junho, o sol explodia sobre as cabeças delirantes e eu
sei  que a morte chegava logo,
batendo à porta da tua noite.

Eu também parti no sonho do branco pó para onde partias
e, depois,
numa lágrima de imenso mar, disse-te adeus, apertando-te
secretamente na solidão dos meus dias.

Tudo passa tão depressa na estação do sol e, em setembro,
já corremos as cortinas dos salões,
regressando ao outono,
quando os cabelos adquirem a neve do tempo. Esquecemos.

Ave que cruzas a grande planície onde a saudade mata com
os seus ferros incandescentes
traz-me novas do meu amigo,
fala-me do vento que o viu nascer ao lado da morte da
alegria.
Agora, que é tarde, só te posso recordar,
aqui sentado na fria pedra dos lugares vazios.
Agora, és apenas um menino triste, abandonado pelas
mãos de deus.

José Agostinho Baptista, publicado na revista Ler nº 28, Outono 1994

sábado, 25 de junho de 2016

FIM


faz-se tarde
e eu deixei de esperar-te

todos os portos se fecham sobre mim
e a floresta adensa-se

nenhuma clareira se abre à passagem dos
animais e do homem antigo

são 4 horas na manhã de todos os relógios.


José Agostinho Baptista em deste lado onde

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 28 de maio de 2016

JANEIRO 74


toda a noite eu podia ouvir os comboios
e sabia que as grandes fomes estavam a chegar.

todas as palavras eram já estranhas
e era tempo de partir --

uma extrema solidão marcava a minha vida.

nunca fora tão insuportável a tua morte
nem tão longínquos os pequenos barcos do rio.

as minhas mãos cheiram fortemente a tabaco.
frenéticas e magras
dir-se-iam que esperam o teu regresso ou o sol
ou a tua cabeça serena.

nada poderá valer-nos.

tarda a Imensa Revolução
e os belos pensamentos ardem em nossas cabeças
afinal tão infantis.

em 1974 eu podia ouvir os comboios toda a noite.

da janela aberta de um 4.º andar suburbano
sob um céu pardo de inverno
eu avançava possuído de terror na minha insónia.

abandonara os poemas e as comovedoras histórias da Galileia.

por vezes bebia demasiado
dava longos passeios e gostava de futebol.

toda a noite eu ouvia os comboios seguirem para o norte e
para o sul
e sabia que as grandes fomes estavam a chegar.

José Agostinho Baptista em deste lado onde

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

DESTE LADO ONDE



outrora foi aqui uma casa,
neste lado onde, nos anos da destruição, as mulheres sós
cantaram com voz doce,
o pão das primaveres breves.
outrora aqui foi a casa e uma terra de paixão,
quando era a ceifa,
neste lado onde, num outubro de silêncio, regressámos
para morrer,
malditos e quase nus;
era um lugar de fascínio este, verde e terrível nos
invernos violentos,
quando os exércitos regressavam dos continentes
desolados, depois do extermínio.
quem canta agora, à volta da casa que havia,
quase na margem sem nome,
quem canta entre as árvores estéreis,
onde a vida se despede?
mais além começa a estrada,
a que se alonga através da poeira vermelha,
a estrada que vai para longe,
onde nunca chegaremos.
já partiram um dia as embarcações guerreiras, as mulheres do trigo em
setembro
os viajantes enlouquecidos.
há muito que o vento deixou de varrer a encosta,
inclinando as vinhas, as urzes, os frutos e a solidão do
caminhante do meio-dia;
era então o vento seco, nem sempre frio, o vento estrangeiro
que não vinha do norte, mas do sul,
algures na planície antiga.
outrora aqui foi a casa, o vale sereno de antes da destruição,
quando todos partiram para as incendiadas terras do mundo
enquanto, deste lado, numa estação de silêncio, os homens
que fomos,
vencidos e calmos,
regressamos para morrer.

José Agostinho Baptista  deste lado onde

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A MARIA C.


longo tempo permaneceste a ocidente.

à tua volta erguiam-se as treze colinas de Y. e as
belas cidades incendiadas

dissera-me o último viajante que era frequente
encontrar-te
triste     meia louca e triste
nas horas do crepúsculo
e que mais tarde partias para norte   aí
onde começam os grandes frios       os grandes frios.

sei que adormeceste em camas de mobília antiga
o teu quarto era azul    laranja
desordenado como as manhãs da ilha
erguido sobre os altos rochedos –

mas nada destruiu o teu hálito a cidra e a vinhos
ainda puros

talvez fosse esse apenas o mistério que durante
alguns invernos tanto perturbou as populações do litoral.

não sei todavia
se guardas ainda o nome do amigo que não conhecemos e a
8 de OUTUBRO MORRIA EM LA PAZ.

LEMBRAS-TE?

entretanto alguma coisa se passou que ultrapassa a
excessiva solidão do poema.

podia falar-te     por fim
                da casa onde acaba o rio
com as flores amarelas    e raras
                que havias de trazer dos países distantes.

PORÉM

que noite ainda poderá quebrar o silêncio da ilha?

 José Agostinho Baptista em deste lado onde


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Deste Lado Onde

José Agostinho Baptista
Capa: Dorindo de Carvalho
Colecção Cadernos Peninsulares/Nova Série/ Literatura nº 11
 Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 1976

é sobretudo em noites como esta que me lembro de erika

revejoa-a então ao anoitecerr num pequeno quarto da da cidade
sentada ao piano as mãos excessivamente brancas tocando chopin
foi assim durante o outono de 70.
por diversas vezes nesses meses de de absoluta depressão pensei
dedicar-lhe um poema uma primitiva elegia em memória dos
companheiros mortos ao serviço da pátria

nunca fui capaz.

acabava invariavelmente por oferecer-lhe poncha por amar o seu
corpo desabrigado por falar exaustivamente sobre a ilha que
a luz ensombrecida das manhãs se aproximava de lisboa.
ERIKA;
passados dois anos havias de ver o meu novo rosto a nova casa os
poemas desordenados o meu corpo burguês em decomposição -
o que pode fazer de um homem um país!
nunca pensei em dar-lhe notícias.
nunca uma palavra de erika veio estremecer estas noites de 72.
sei porém que hoje erika é a streap-teaser mais aplaudida e o seu
corpo o mais desejado pelos marines em saigon.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

VERÃO


Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó.
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs.
as claras nuvens noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas,
os rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.



Legenda: Brigitte Bardot em E Deus Criou a Mulher de Roger Vadim, 1956

domingo, 30 de dezembro de 2012

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI



Se por cá ainda andasse, o Sr. Francisco de Freitas Santos, meu pai e o meu ouvinte mais inteligente, fazia hoje 100 anos e estaria agora à mesa, a contar histórias, a despejar garrafas de tinto e com uma ponta de melancolia pelos milhares de cigarros Unic que fumou.
Reverter o olhar para antigamente e saber que por muito que pudesse dizer, as palavras não chegavam, a memória sufocava em hiatos de quem um dia teve a mania que essa memória seria de elefante.
Este disco do Domenico Modugno foi comprado pelo meu pai, Discoteca Universal, 26 de Julho de 1967 e custou cinquenta e cinco escudos.
As suas constantes caminhadas em busca de versões de La Mamma.
Acontece que o EP do Modugno tem uma canção que se chama Stasera Pago Io e que o meu pai logo

elegeu como uma das suas favoritas.
A canção em si e o gosto que ele tinha em pagar o petisco, os copos.
De certeza certa, apenas sei de me ter deixado pagar os copos e o resto, em duas ocasiões: quando os meus filhos nasceram.
Quando outros dizem as coisas melhor do que digo, não é difícil, desço pela esquerda  baixa e dou entrada ao José Agostinho Baptista:

EVOCAÇÃO
Que fazer com esta saudade,
como trazer hoje para junto de mim os
barcos que passavam noutros tempos,
ao largo de outra cidade,
quando me sentava sem palavras,
sem violinos,
e bebia sem fim,
como hei-de dizer-te, pai, que não levei as tuas
cinzas no fundo do coração,
que não pedi aos músicos do sonho para
tocarem a mais bela marcha fúnebre,
no campo santo das ilhas aonde não
regressei.
Tenho medo, tenho frio.
Dói, oh, como dói
a  noite que se aproxima, sem um abraço,
sem um amigo,

sem um punhal que rasgasse para
sempre este corpo imóvel,
com todas as sua janelas fechadas onde
já não vem cantar o melro dos teus
ninhos, pai,
onde só as ervas da amargura sobem
os muros,
e definitivamente só,
entro neste túnel eterno, sem uma luz ao
fundo.



sábado, 19 de novembro de 2011

SOLIDÃO



Estou só.
Levo à boca as minhas mãos, as mesmas
que levaram à boca o pão antigo,
o trigo das mães.
Tenho os lábios secos, sem beijos,
sem frutos, sem nada.
E os nossos corpos já não se unem como
outrora,
junto às estações,
quando chegavam os comboios tristes.

José Agostinho Baptista 

Legenda: fotografia de Edouard Boubat

quinta-feira, 5 de maio de 2011

VOZ


Vindo do oeste, ao fim da tarde,
era quase branco o pássaro que pousava
naquele jardim,
na árvore do pai.
E então, como quem esquece as razões de uma
profunda mágoa,
eu podia adormecer serenamente,
ouvindo a sua voz nos ramos da cerejeira,
chamando devagar.

José Agostinho Baptista

Legenda: “Natureza morta com prato de cerejas”, pintura de Paul Cézanne