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segunda-feira, 19 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Corpo-Delito Na Sala De Espelhos

José Cardoso Pires
Prefácio: Eduardo Lourenço
Moraes Editores, Lisboa, Maio de 1980

Eu disse-lhe que ninguém ficava  igual ao que era depois de ter entrado aqui. E, veja, você já recusa a sua imagem. A imagem que nós queremos que fosse? É isso? E depois? Faz parte de todas as polícias corromper o corpo. Despersonalizar, destruir a identidade e a imagem pela corrupção do corpo. E a polícia também tem o seu corpo, com todos os vícios, os orgulhos e com toda a imagem que a fazem vencer. Aprendemos, sabemos técnicas que já vêm de longe… que até têm uma tradição cristã. Pelo menos foi o que nós os dois aprendemos na Faculdade. Indagatio veritatis, o tal capítulo da História que as pessoas fazem por esquecer. Mas que está lá. Com a assinatura dos papas e tudo. Indigatio veritatis, questio per tormentis… era assim.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Balada da Praia dos Cães

José Cardoso Pires
Capa. João Segurado
Edições «O Jornal», Lisboa, Novembro de 1982

Meia noite e meia. À saída do Condes, um Volkswagen da PSP à porta do Arcádia para despejar o capitão Maia Loureiro em sobretudo pêlo de camelo. Aquele de dia passeia-se pela cidade a comandar o trânsito com cara de mau e à noite esconde-se nas putas com cara pior. Lá mais para o espairecer vão chegar os Manos Tropelias que são condes de torre, cavalo e xeque-mate, e vai ser champanhe até vir o Dom Sebastião a cavalo marroquino. Andante, andante que um chefe de brigada contenta-se com chazinho para a sossega e já não vai nada mal.
O chá na Cervejaria Ribadouro; Isto não é uma cervejaria, é uma baía de cascas de tremoços com canecas à deriva. Chulos do Parque Mayer a atacarem o fastio na perna da boa santola, chauffeurs de praça a combinarem a sua bandeirada de jogo num casino clandestino para os lados de Arroios ou para Campolide que são bancas de entendidos por ode a polícia faz que não vê, Um galador de coristas a puxar fumaças à distância. A dona Lurdes, abortadeira. Mestres-de-obras a arrotar. Oh, senhores
Entre tanto desmazelo um chá e uma boa torrada sempre são outro asseio. Indispensáveis depois dum tecnicolor imperial, com czares e balalaicas e raspustines à bardalonga. Primeiros golos com o pão ensopado. Duas ou três frases da valsa do Tchaikovsky recordadas entre dentes.
Aí pelo meio da torrada chega o pintor Arnaldo que anda a cumprir a penitência de noivo da esfinge, aviando versos sociais ao domicílio. Faltava este. Não entra sequer: do alto do seu bem apessoado, luva e carnet na mão, declama a rima à porta e desanda. A nessa dos mestres-de-obras olha em redor a ver se percebe; pelo sim pelo não consulta mais umas lagostas.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

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O Render dos Heróis

José Cardoso Pires
Editora Arcádia, Lisboa, Janeiro de 1965
Maria Ricarda:
Temos tempo. Cada dia que passas corre a nosso favor. Em Lisboa… Sabe o que acontece em Lisboa? Eu digo-lhe: estão mais cansados do que nós? Os generais e os ministros desentendem-se, os Romas e os outros barões do dinheiro andam às turras…

Sentinela:
Pois sim, mas não largam o dinheiro…

Maria Ricarda:
Como não largam o medo que os atormenta.

Sentinela:
Nem nós a fome que sempre nos acompanhou. Fraca companhia, a fome.

Alexandre:

Depende. Se não fosse a fome, nunca o lobo vinha à estrada. Como diz o ditado: «O satisfeito dorme, o esfaimado labuta». Sabias?

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

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Cartilha do Marialva

José Cardoso Pires
Editora Ulisseia, Lisboa, Maio de 1966

Vê-se agora que já não são apenas as condenações libertinas e o liberalismo marialva. É o tempo - tempo histórico, medido nas formas científicas e concretas a que obriga a convivência das nações no mundo actual.
E esse tempo previram-no os libertinos de melhor fibra quando souberam retirar-se da cena, depois de terem feito triunfar o espírito citadino e de o reconhecerem inadaptável às sociedades do novo século. Previu-o Saint Just quando desafiou a lei provinciana ao anunciar que a felicidade era possível na Terra.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

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De Profundis, Valsa Lenta

José Cardoso Pires
Prefácio: João Lobo Antunes
Capa: Emília Abreu
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 1967


Janeiro de 1995, quinta‑feira. Em roupão e de cigarro apa‑ gado nos dedos, sentei‑me à mesa do pequeno‑almoço onde já estava a minha mulher com a Sylvie e o António que tinham chegado na véspera a Portugal. Acho que dei os bons‑ ‑dias e que, embora calmo, trazia uma palidez de cera. Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena de chá e fiquei. «Sinto­‑me mal, nunca me senti assim», murmurei numa fria tranquilidade. Silêncio brusco. Eu e a chávena debaixo dos meus olhos. De repente viro‑me para a minha mulher: «Como é que tu te chamas?» Pausa. «Eu? Edite.» Nova pausa. «E tu?» «Parece que é Cardoso Pires», respondi então.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

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E Agora, José?

José Cardoso Pires
Moraes Editores, Lisboa, Novembro de 1977

De resto quem te ouve? Quem dá crédito à tua liberdade? Vamos, fuma, José. Pensa bem esse cigarro. Mede e golpeia a memória, repisa nos teus avisos enquanto o cabelo te embranquece. Olha, é entardecer. E está tão claro.
A´, nesse espelho, há um não sei quê de pobre diabo no cidadão que te faz frente, aferrado a um orgulho pacato. Orgulho? Pior para ele, que pouco fez para mudar as coisas e muito para não se deixar mudar. Razão? Vigilância? Está bem, deixa-o dizer.
Deve andar nos cinquenta, mais ano, menos ano, e se calhar é por isso que te sonda com tamanha inclemência. Cinquentas, meio século de vislumbrada malícia de si mesmo e de nicotina. Cancro apalavrado, ai coitadinho. De quando em quando noto-lhe talvez um perpassar de ironia a traquinar-lhe no rosto, mas se o tem em luz breve e para mais magoada. Não dá sequer para temperar o ar endurecido que há nele e que provém mais do desalinho e do à-balda que doutra coisa. No resto, pouco a acrescentar. Visagem martelada, máscara prevenida, assimetrias de quem se talhou ao azar – e disse. Acta est fabula, se assim me posso exprimir.
É este o homem que te contempla. José. Que te fuma. Que te duvida.

sábado, 5 de setembro de 2015

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O Delfim

José Cardoso Pires
Capa: Sebastião Rodrigues
Moraes Editora, Lisboa, Maio de 1968

«Está assente, não se fala mais nos teus livros. Conheces a Pàzinha Soares?»
«Quem?», pergunto
«A Maria da Paz Soares. Uma que escreve. Todos os anos publica um livro de poemas e todos os anos muda de amante que é para manter os cornos do marido em forma. É público, não há quem não saiba.»
Agarro-me ao nome:
«Maria da Paz…»
«Conheces com certeza. Não há ninguém que não conheça essa cabra.» (Um momento: é aqui que Tomás Manuel irá jogar um dos seus passatempos favoritos, o da cabra e rédea curta). «Poesia de cama, » continua ele, «estás-me a perceber? Poesia para essas literatas das faculdades. Por isso é que se eu tivesse uma filha havia de ser feita para casar. Não acreditas? Olá. E ai dela se pusesse os cornos ao marido, que era o mesmo que mos pôr a mim. Positivamente. Para a cabra e a mulher, corda curta é que se quer.»

terça-feira, 18 de agosto de 2015

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O Anjo Ancorado

José Cardoso Pires
Estudo sobre o autor: Alexandre Pinheiro Torres
Editora Arcádia, Lisboa, Setembro de 1964

Daquele ponto era impossível ver-se o descampado porque a rua era torta, cheia de cotovelos. Mas via-se a taberna ou, pelo menos, parte da taberna donde se alargava uma vista que era o fim do mundo sobre o descampado, as falésias e o mar. No dia em que a Câmara se lembrasse de trazer electricidade para ali, uma boa esplanada havia de chamar muitos banhistas a São Romão. Se isso se desse, o taberneiro podia preparar-se para puxar os cordões à bolsa e comprar um rádio a prestações para que toda a gente pudesse seguir os relatos de futebol aos domingos. E comprava-o, qual era a dúvida? Seria até muito provável que a Companhia montasse um telefone na loja, um posto público às ordens de que m precisasse. Fazia falta e podia dar bom dinheiro num sítio tão isolado. Os banhistas de Lisboa ou das Caldas têm sempre muitos assuntos a tratar pelo telefone.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

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O Hóspede de Job

José Cardoso Pires
Editora Arcádia, Lisboa, Maio de 1965

Espalmada em córregos secos, numa terra de barro e areão que encarquilha ao sol; rasgados os campos pela estrada longa de asfalto ou por baforadas ronceiras de comboio – assim, no despontar da charneca, fica Cercal Novo: um clarim, uma igreja abraçada ao quartel, meia dúzia de casas ao correr da estrada, e principalmente um silvo, um delicado traço de fumo a alastrar sobre a planície:
«Uuuuu…»
«Comboio de Évora», dizem os militares nas casernas.
«Comboio de Évora», diz-se na cadeia, na enfermaria e na Casa do Soldado. «Comboio de Évora, comboio dos correcços e de quem vai de licença.»
E ao balcão das vendas alguém canta:

Lá vai o comboio, lá vai
Lá vai ele a assobiar…

terça-feira, 24 de junho de 2014

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Alexandra Alpha

José Cardoso Pires
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa. Abril de 1997

«Lamentável», repetia ele com o enojado do olhar, em resposta a qualquer coisa que acabava de ser dita. Tinha pelas costas um poster da Ars Planetarium afixado na parede, com uma lua salpicada de crateras que ficava mesmo a condizer com a cara dele, pensou Alexandra, mas Amadeu Gruyère é que jamais, mas jamais, saberia reconhecer isso. Agora tirava da sua bolsa a tiracolo o último número da Communications e preparava-se para mergulhar nele. Queria esquecer o lamentável desta coisa, deste país onde todo o idiota aventurava opiniões. Principalmente desde que o Barthes andava em visita a Lisboa, não havia bicho-careta que não emitisse o seu zumbido.
Alexandra: «Isto não é um país, é um sítio mal frequentado.»

segunda-feira, 14 de abril de 2014

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Dinossauro Excelentíssimo

José Cardoso Pires
Ilustrado por João Abel Manta
Capa de João Abel Manta
Editora Arcádia, Lisboa Maio 1972

De facto, não há muito tempo existiu no Reino do Mexilhão um imperador que na ânsia de purificar as palavras acabou por ficar entrevado com a paralisia da mentira. Ainda lá está, dizem. E não é homem nem estátua porque a ele, sim, roubaram-lhe a morte. Não faz parte deste nosso mundo nem daquele para onde costumam ir os cadáveres, embora cheire terrivelmente, Quando muito é isso, um cheiro. Um fio de peste a alastrar por todas as vilas do império.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

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O Burro-Em-Pé

José Cardoso Pires
Capa: Júlio Pomar
Círculo de Leitores, Lisboa Novembro de 1979

E foi o que aconteceu aos conquistadores do mato, traficantes e outros que tais, quando, depois de muito esfolar, viram a vida deles a andar para trás.
Tinham saído das berças da fome em tempos que já lá iam e, tocados pela necessidade, atravessaram o mar em demanda do igualmente esfomeado, que era preto e que, tanto quanto sonhavam, andava a pé descalço por cima de cascalhos e ouro e diamantes sem dar por isso. Depois, como as coisas não fossem tal e qual, não se desconcertaram e desataram a fabricar negócios de abater o preto à paulada, peneirar e vender farinha de pau-santo, e assim foram crescendo e engordando.
O pior é que de tanto bater, o pau abriu faísca e pegou fogo ao mato – tinha que ser. Os traficantes, conquistadores e outros que tais levaram a mal. Ah, sim?, ameaçaram Pois então o fogo paga-se com fogo, e por dá cá aquela palha puseram-se a despejar tiros, empurrando para longe o incêndio – pensavam eles. Estiveram meses e ano, entretidos a espalhar lume quando numa volta do destino o vento começou a mudar. Aí, ao sentirem as chamas a virarem o dente, alto lá: deram sebo às botas e que se lixe, disseram, ardeu a tenda. Pegaram na saquinha dos diamantes e bateram a asa, rumo ao velho ninho, Portugal.
Enquanto o diabo esfregou um olho já eles tinham pulado por cima do mapa-mundo e da África que lá estava desenhada como coração pousado no oceano.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

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A Cavalo no Diabo

José Cardoso Pires
Publicações Dom Quixote, Lisboa Novembro de 1994

Entre a Praça do Chile, e os bilhares da Cervejaria Portugália, na Avenida Almirante Reis, é que os pequenos corsários da Lisboa-Leste daquele tempo comentavam à meia-boca os seus golpes nas galdérias da má-vida. Designavam-se a si mesmos por “imperadores” (“imperadores do Chile”) porque era a partir da Praça do Chile que iniciavam a descida à cidade nocturna, vindos de Arroios, do Alto do Pina ou das azinhagas da Picheleira.
Vestiam à castigador segundo o figurino dos gangsters dos filmes da série C e assobiavam os swings do Glenn Miller que era o Strauss daquela época, traduzido pela Orquestra Casanova, a dos bailes mais selectos dos clubes populares. Foi numa dessas sessões recreativas que conheci o escultor Lagoa Henriques muito tímido e curioso, a ver passar os leões.
Desdenhosos e de sobrancelha levantada, nunca vi imperadores mais receosos do que aqueles. Avaliavam à distância os bares do Cais Sodré ou as mariposas da Avenida que era onde faziam lei os chulos de protocolo com a polícia. Bordejavam o Intendente em aproximações comedidas; espreitavam por entre o fumo, mediam o clima. À falta de melhor, iam abater desgraçadinhas para os bailes de banjo e rifa a prémio ou tentavam o Salão das Manas Pretas, que era todo em tangos a galope de viúvas a arfar. Mas aí só em caso de desespero porque as matronas à solta buliam de desconfiança e não davam o menor amparo a quem lhes olhasse para os ouros. Ir ali era ir aos pobres, como dizia o Sami do Alto do Pina que, numa volta à Gardel, ficou sem uma medalha de prata que lhe dava muita fé.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

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Lisboa Livro de Bordo

José Cardoso Pires
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote/Expo 98, Lisboa, 1997

A última Vista da Cidade será uma cortina de gaivotas enfurecidas a levantarem‑se entre mim e o Tejo.

Na altura estarei, ou estou ainda, sentado num café‑snack do Terreiro do Paço junto ao cais dos cacilheiros, com uma larga vidraça a separar‑me do rio. Café Atinel, que nome mais estúpido. Olho as mesas vazias e pergunto‑me por que razão é que um sítio assim, tão privilegiado, consegue estar desconhecido. Por mim não quero outra coisa: barcos que chegam, barcos que partem, gente de entrar e sair a servir‑se ao balcão, e eu sentado em cima do Tejo.

Tal como estou tenho a cidade pelas costas. Comércio, multidão, Europa, fica tudo para trás. Lá as pessoas andam todas a perguntar as horas umas às outras, enquanto que neste reduto para aqui esquecido sabe‑se do correr do dia pelo mudar da cor do Tejo, e não me digam que não é uma felicidade estar‑se assim, à mesa sobre as águas, com gaivotas a saírem‑nos de baixo dos pés e a passarem‑nos a dois palmos dos olhos num bailado de gritaria.

Tempo bom, o desta solidão. Tempo melhor ainda, lembram os eméritos de biblioteca num ulissiponês de fazer inveja, quando se via a olho a nu o Promontório da Lua por toda essa costa além. Tempo, dizem, em que nas margens da Outra Banda havia areias que escorriam ouro (Marco Terêncio fala disso) e pastagens celestes onde as éguas emprenhavam pelo vento. Tempo de poeiras luminosas e lágrimas lunares. E de pérolas. E de tritões. Tritões cantadores como aquele que consta da Descrição da Cidade de Lisboa de Damião de Góis.

"Noutros tempos, longos tempos, havia em Lisboa uma sereia..." Conheço uns versos de Robert Desnos que começam desta maneira mas é melhor ficar por aqui porque o Tejo não é de fábula nem de poema e corre sem nostalgias. E Lisboa a mesma coisa, disso podemos estar nós bem seguros. Só que, com o saber dos séculos e os sinais de muito mundo que a perfazem, sugere várias leituras, e daí que a cada visitante sua Lisboa, como tantas vezes se ouve dizer.

Daí também que nós, os que somos dela, lhe estejamos tão errantes na paixão. Um dia pode acontecer que, sentados como agora sobre o rio, a tentemos ler pela voz dos outros e então ainda nos sentiremos mais errantes, mais incertos. Entre uma Lisboa de Tirso de Molina, saudada como a “oitava maravilha”, e a Lisboa de Fielding, o genial, que a amaldiçoou como um pesadelo leproso, correm águas insondáveis. Beckford viveu-a em palácio, Sade inventou-a num cárcere de rancores. “Lisboa oferece uma apreciável variedade de escolhas para um nobre suicídio”, escreveu um dos grandes narradores dela, Antonio Tabucchi. Vozes, tudo vozes. Olhares. Memorações.

Quando por fim fechamos a página onde líamos a cidade, descobrimos que a vidraça do café está toldada por uma dança de gaivotas em turbilhão e que não há Tejo. Que desapareceu por trás duma desordem de asas e já não é prenúncio de oceano.
Então, ternamente, confiadamente, reconhecemo-nos ainda mais ancorados à cidade que nos viu partir.