Pela publicidade
dos anos 60 andaram, entre muitos outros, Luís de Sttau Monteiro, Vasco da
Costa Marques, Alves Redol, José Cardoso Pires, Alberto Ferreira, Álvaro
Guerra, Cipriano Dourado.
Ary, nos anos 60,
inventa:
Cerveja
Sagres, a sede que se deseja.
Para a Wollmark:
Minha lã, meu
amor.
Também:
Knorr é
naturalmente melhor.
Para o Grémio
Nacional dos Seguradores:
Mais seguro,
mais futuro.
Para o Banco
Pinto & Sotto Mayor:
Deposite
confiança no futuro.
Numa reunião para
encontrar um slogan para o Halazon, um spray oral, Ary, durante a
mesma, mostrou um perfeito desprendimento, está em toda a parte menos
ali.
Mas quase no
final da reunião rabisca num papel:
Halazon, a
melhor invenção depois do beijo!
Legenda: cartaz
tirado de Ary dos Santos; O Homem, o Poeta, o Publicitário.
O tempo de
excepção que nos impuseram obriga-nos a ficar em casa.
Apesar de tudo,
alguns velhos ainda apareceram na Alameda para as suas jogatanas de sueca.
Amanhã, o olho
vivo das autoridades, já não lhes permitirão esse gozo de tempo livre.
Ficarão em casa
a ver televisão, provavelmente a implicar com quem lhes está próximo.
Continuo como
ontem:a apanhar papéis, pedaços
de livros, músicas…
Nesta clausura,
lembrei-me de uns versos que Ruy Belo colocou no seu poema Ácidos e Óxidos:
«Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fieis? Sentamo-nos aqui como quem nasce.»
O resto é uma
lindíssima canção do José Afonso para um poema do José Carlos Ary dos Santos.
Uma cidade de
outros tempos negros que vivemos e a que conseguimos dar a volta.
Demorou tempo... mas conseguimos!
1.
A fábrica da Mitsubishi Fuso Truck Europe vai suspender a
partir de segunda-feira, a produção automóvel no Tramagal, em Abrantes, para
prevenir a expansão do Covid-19.
Esta paragem tem a duração de duas semanas e manter-se-á
até dia 5 de Abril, disseram aos trabalhadores.
2.
A TAP vai reduzir temporariamente a sua operação, «uma
decisão que é tomada após os sucessivos anúncios de restrições, como principal
medida de contenção da Covid-19, por parte de vários estados das geografias em
que a companhia portuguesa opera», explicou a transportadora, através de
comunicado.
3.
Com a grande maioria dos campeonatos europeus em suspenso
devido à pandemia de Covid-19, a Bielorrússia apresenta-se como uma excepção.
O presidente Aleksandr Lukashenko deixou as seguintes
recomendações:
«É importante lavar
as mãos, comer a horas certas. Eu não tenho por hábito beber álcool, mas o
vodka não serve só para lavar as mãos. Bebam vodka, uns 100 mililitros por dia
deve ser o suficiente para matar o vírus!», começou por explicar.
Façam uma sauna,
seca. Os chineses dizem que o vírus morre a 60 graus».
4.
Soube-se hoje que a especulação com produtos necessários
à protecção das pessoas: luvas, máscaras, luvas, gel desinfectante e álcool
puro, atingiu já a barbárie.
Estabelecimentos venderam um simples frasco de álcool de
250 ml por cinco euros.
Antes do surto custavam perto de um euro
5.
As autoridades italianas actualizaram, hoje, os números
relativos ao novo Coronavírus.
Com 3405 vítimas mortais a Itália é, agora, o país com
mais mortes registadas.
Antes do balanço desta quinta-feira, a China era o país
com mais mortes confirmadas.
A Espanha regista 767 mortes e 17.147 infectados
Portugal regista 4 mortes e 785 infectados.
No Mundo já morreram 9.970 pessoas e 241.021 infectados.
6.
Tragicamente ficámos a saber que o mundo não estava
preparado para uma pandemia como esta.
7.
Ler é uma tarefa diária. Podem estar certos que não dói.
Se é uma tarefa quotidiana, não há necessidade de
existirem livros para férias,
para fins-de-semana, para dias difíceis.
Não há mesmo.
Mas fiquem-se com esta frase, de um certo optimismo, deixada porMontesquieu: «Não há desgosto que uma boa hora de leitura não me tenha consulado»,
enquanto vou à estante buscar a minha velhinha edição de Robinson Crusoé , de Daniel Defoe, da velha Biblioteca dos Rapazes
publicada pela Portugália Editora com a narração das estranhas e surpreendentes
aventuras de Robinson Crusoé e onde podemos encontrar a provação extrema da
solidão.
«Robinson salva a
vida a um índio; dá-lhe o nome de sexta-feira.»
8.
Os comentadores e jornalistas de direita realçaram a
postura de estado e grandiloquência do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa. O
melhor de todo o seu tempo de presidência.
Mesmo que lá esteja, bem escarrapachada, esta pérola de
nacionalismo salazarento:
«Nascemos antes de muitos outros. Existiremos ainda,
quando eles já tiverem deixado de ser o que eram e como eram».
Certa gente pode deixar a aldeia, vir estudar para a
grande cidade, dar doutor ou engenheiro, mas a aldeia nunca lhes sai da mente.
9.
Vamos continuar a viver o estado de emergência ontem
decretado pelo Presidente da República.
Subsistem as dúvidas se uma situação destas era mesmo
necessária.
Amanhã o conselho de ministros vai debruçar-se sobre as
medidas, para estes tempos perigosos, de apoio às empresas e aos trabalhadores.
O trabalhador em
trânsito, bem acompanhado, na sua pausa de almoço.
Os camaradas
ficaram a tratar da colocação das marmitas, neste tempo, que não consegui saber
qual é, mas é antigo, ainda se levava marmita para o trabalho, a aquecer sobre
as brasas, ele foi buscar os líquidos e sabe, de sabedoria certa, que, como
disse o poeta, a «Cerveja Sagres é uma sede que se deseja».
Legenda:
fotografia tirada do álbum «Alfama», texto de Gerrit Komrij, fotografias
de Hans Roels e Serge Vermeir.
A Confeitaria Vitória, sita na Rua Dona Estefânia, frente
ao busto de Neptuno que para ali foi depois de ter estado na Praça do Chile,
Luiz Pacheco dixit, é uma das mais antigas de Lisboa.
Nos anos 60/70 faziam das melhores Broas Castelar que alguma
vez comi, hoje não é tanto assim.
Do lado esquerdo de quem entra, tem colocada esta placa
que informa os clientes que servem Cerveja Sagres abaixo de 0ºC.
Gosto de Cerveja Sagres.
Um gosto que já vem de muito longe no tempo, cimentado
quando José Carlos Ary dos Santos esgalhou aquele lindíssimo e inebriante slogan
publicitário - «Cerveja Sagres: a sede que se deseja.»
E muitos anos antes de saber que a Sagres seria o «sponsor» do
Glorioso.
Tudo razões fortes para só beber Sagres.
Mas, no fundo no fundo, é mesmo por uma questão de gosto.
Entramos hoje em mais
uma entrevista de Luiz Pacheco que, como as restantes, se encontram
antologiadas em O Crocodilo Que Voa.
O enfoque recai na
entrevista feita por João Paulo Cotrim e publicada na revista Ler, Verão de 1995.
Na esmagadora da
maioria das entrevistas feitas ao Pacheco, lá aparecia a perguntinha de como é
que ele se inscrevera no Partido Comunista Português.
As respostas do
Pacheco têm variantes mas a base é apenas uma: o funeral do José Carlos Ary dos
Santos.
«Pois é, mas eu também só entrei para o partido quando me apareceu uma
hérnia. Nessa altura, mandei um recado ao José Casanova: «Psst! Quero entrar
para o partido como extrema-unção.» Isto não obriga a nada, nem aqui há uma
esperança revolucionária. É porque é giro, um gajo morre e vai lá com a
bandeira no caixão. É que eu tinha visto o enterro do Ary dos Santos a subir a
Morais Soares, com eles aos gritos – Ary, amigo, o partido está contigo! – e
pendei: «Isto é o que me convém, porra! Pagam-me o enterro, pagam-me o caixão e
levo a bandeira que me deixa aconchegado. Sabe, é que eu sou um gajo muito
friorento.»
Lisboa é uma
cidade que vê com os pés. «andando pensa-se melhor do que sentado», diz o João
Botelho
«O que há em
Lisboa?» pergunta Bogart na tela da sala escura.
Lisboa de
Cesário Verde, «nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal
melancolia», Lisboa de José Gomes Ferreira, Lisboa do Armindo «decerto esta é a
mais bela cidade de todas as cidades do mundo, e hoje toda a cidade me fala de
ti», Lisboa de Eugénio de Andrade «alguém diz com lentidão: Lisboa, sabes…».
Lisboa de António de Sousa «de mal te conhecer é que eu sofria, cidade clara em
tuas sete colinas!», Lisboa «cidade branca» de Tanner. Ou Fernando Assis
Pacheco: «se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa», Lisboa que «cheira aos
cafés do Rossio, cheira a castanha assada se faz frio. A fruta madura quando é
Verão». Lisboa de José Cardoso Pires,
«logo a abrir, pareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar»,
Lisboa de José Saramago, Lisboa de José Rodrigues Miguéis, Lisboa de Alexandre
O’Neill «se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa», a «Lisboa menina e moça de Ary dos Santos»,
Lisboa de tanta e tanta gente, «chamar-te a ti Lisboa camarada e depois eu sei
lá enlouquecer», para citar Joaquim Pessoa, lembrar Desfado da Ana Moura e,
hoje, por aqui ficar.
O Diário de
Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava,
no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na
publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: Natália Correia,
Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram
acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».
Também figuravam
como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado
de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de
Melo e Castro.
Segundo a
acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a
decência, a moralidade pública e os bons costumes.»
Como patronos
dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e
António de Sousa.
Eram inúmeras as
testemunhas de defesa.
O julgamento só
aconteceria em Março de 1970.
E, segundo o Diário
de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que
foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a
40 escudos diários.
E Luiz Pacheco
volta a ser notícia:
«Dado a sua precária situação económica o tribunal
dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»
A poesia ofendia
o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.
Mas quem assim
pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam
pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.
Um Portugal governado
por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente
desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia por Fátima
«apareceu» a três pastorinhos.
Pela publicidade
dos anos 60 andaram, entre muitos outros, Luís de Sttau Monteiro, Vasco da
Costa Marques, Alves Redol, José Cardoso Pires, Alberto Ferreira, Álvaro
Guerra, Cipriano Dourado.
Ary, nos anos
60, inventa:
Cerveja Sagres, a sede que se deseja.
Para a Wollmark:
Minha lã, meu amor.
Também:
Knorr é naturalmente melhor.
Para o Grémio
Nacional dos Seguradores:
Mais seguro, mais futuro.
Para o Banco
Pinto & Sotto Mayor:
Deposite confiança no futuro.
Numa reunião
para encontrar um slogan para o Halazon, um spray oral, Ary,
durante a mesma, mostrou um perfeito desprendimento, está em toda a parte
menos ali.
Mas quase no
final da reunião rabisca num papel:
Halazon, a melhor invenção depois do beijo!
Legenda: cartaz
tirado de Ary dos Santos; O Homem, o Poeta, o Publicitário.
O livro Fotos-Grafias de José Carlos Ary dos Santos foi proibido pela Censura. Este, é o ofício do Comando-Geral da Polícia de Segurança Pública a solicitar aos coronéis da Censura o que se lhe oferecia dizer quanto à venda do livro.
Este disco da Tonicha, com poemas de Ary dos Santos e música de Pedro Osório, foi comprado no Boteco. Não está nas melhores condições, mas é um documento histórico.
Nos tempos da ditadura salazarista, nomes consagrados da intelectualidade,
fizeram da publicidade um modo de arredondar os escassos ordenados que
usufruíam.
Por lá andaram, entre outros, Alves Redol, Orlando da Costa, Carlos
Eurico da Costa, Mário Henrique Leiria, Luís Sttau Monteiro, José Cardoso
Pires, Bernardo Santareno, José Carlos Ary dos Santos e Alexandre O’Neill.
Ary dos Santos e O’ Neill terão sido dos mais imaginativos.
Numa entrevista, O’Neill explicou-se:
Ser «copy-writer» é uma actividade engraçada pelo lado
da invenção de «slogans», por exemplo. Só é chata quando o cliente não percebe
as nossas intenções e acha que está tudo mal. O jeito para o jogo de palavras,
trocadilhos, etc., vive comigo há muito tempo e tem-me prejudicado
razoavelmente na poesia, embora agora já esteja melhorzinho. Eu descobri a
publicidade através do cinema publicitário. Propus uma vez a alguém (por
brincadeira, claro) que oferecesse um «slogan» ao Metropolitano de Lisboa. O
«slogan» era: «Vá de metro, Satanás!» Esta brincadeira ia-me custando o
emprego. Mas também fiz um, a sério, que foi muito conhecido e ainda hoje é
usado (que pena não o ter registado!): «Há mar e mar / há ir e voltar.» Os
bêbados pegaram logo nele, o que é uma verdadeira consagração: «Há bar e bar /
Há ir e voltar…»
Mas naquele tempo, muito poucos estavam preparados para as ousadias,
quer de Ary, quer de O’Neill e alguns dos slogans acabaram por ficar no papel.
Alguns slogans de Alexandre O’Neill:
Há mar e mar, há ir e voltar (Para o Instituto
de Socorros a Náufragos).
Com colchões Lusospuma não se dá só uma (censurado, aparentemente pelo proprietário
da fábrica.)
Bosh é Brom acabou por ficar
Bosh é Bom.
Gazcidla na cozinha é um descanso, virou Gazcidla, o gás da cidade.
Parker preenche em silêncio o seu papel
A Segurança Volta Sempre (Para a Rodoviária Nacional).
Ruy Belo no seu livro de ensaios Na Senda da Poesia destaca
um outro slogan de O’Neil:
Estruturalistas de todo o mundo, congregai-vos.
António Alçada Baptista em Pesca à Linha conta que o Há
mar há ir e voltar tinha uma outra versão que não foi utilizada: Passe
um Verão desafogado.
Alexandre O’Neill votava no Partido Socialista e inventou um slogan, também não utilizado: