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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Cadernos Despertar - I

Eduardo Olímpio, José Carlos Ary dos Santos, José Jorge Letria, José Vultos Sequeira, Luís Maçarico, Manuel Branco, Miguel Serrano, Orlando César
Prefácio: Miguel Serrano
Capa: Miguel Eduardo
Publicação não periódica
Edição dos Autores, Lisboa, Junho de 1982

Soneto de Cabeceira

Em mim próprio me gasto e me desgasto
em mim próprio me vergo e desgoverno
de mim próprio varrasco me vergasto
quando pretendo ser perfeito ou terno.

De mim, que eu tanto gosto me desgosto:
sempre que rasgo as teias do inferno
revejo a aranha de viscoso rosto
comendo a mosca do meu sono eterno.

De mim me desencanto e desagravo
De mim me distancio e me separo
Cada vez mais humilde e mais altivo.

É esta a luta que camigo travo:
se o dia de amanhã fôr dia claro
morro cem vezes para ficar vivo.

(José Carlos Ary dos Santos)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


As Portas Que Abril Abriu

José Carlos Ary dos Santos
Ilustrações: António Pimentel
Editorial Comunicação, Lisboa, Novembro de 1975

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

quinta-feira, 9 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Ary dos Santos, O Homem, O Poeta, O Publicitário

Alberto Bemfeita
Prefácio: José Casanova
Editorial Caminho, Lisboa, Agosto de 2003

Desde a sua saída em 1969 da SUIÇO-PORTUGUÊS, até 1970, data em que começa a trabalhar com a agência ESPIRAL, Ary dos Santos continuou a colaborar com várias agências, mas é na ESPIRAL que trabalhará a tempo inteiro e que virá a ter uma das suas mais frutuosas actividades como publicitário.
Continua Bento Gomes: «Conheço o Ary dos Santos quando vem trabalhar connosco. Era um intuitivo, com um dom de palavra notável, e dispunha daquele toque mágico capaz de construir um bom slogan e com isso resolver uma campanha. Não sendo um homem de marketing era suficientemente inteligente para perceber que as coisas estavam a mudar. É a meu ver, o homem que faz a transição da maneira como se trabalhava antigamente para uma forma moderna, mais actuante e mais coordenada.

sábado, 7 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Vinte Anos de Poesia

José Carlos Ary dos Santos
Círculo de Leitores, Lisboa, maio de 1984

Desespero

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS



Fotos-Grafias

José Carlos Ary dos Santos
Fotografias de Nuno Calvet
Capa: Cidália de Brito Pressler, Lisboa s/d

Auto-Retrato

Poeta    é certo    mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido á portuguesa    mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toiicnho e talento    ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos    uma folha de hortelã
que é verde    como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate    disparate
palavrão de machão no escaparate
porém    morrendo aos poucos de ternura.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Insofrimento in Sofrimento

José Carlos Ary dos Santos
Edição do Autor, Lisboa, Março de 1969

É preciso dizer-se o que acontece
no meu país de sal
há gente que arrefece      que arrefece
de sol a sol
de mal a mal.
É preciso dizer-se o que acontece
no meu país de sal.

Passando o Tejo       para além da ponte
que não nos liga a nada
só se vê horizonte
horizonte
e tristeza queimada.

É preciso dizer-se o que se passa
no meu país de treva:
uma fome tão grande que trespassa
o ventre de quem a leva.
É preciso dizer-se o que se passa
no meu país de treva:
mal finda a noite       escurece logo o dia
e uma espessa energia
feita de pus no sangue
de lama na barriga
nasce da terra exangue e inimiga

É o vapor da sede       é o calor do medo.
a cama do ganhão
a casca do sobredo.
É o suor com pão que se come em segredo.

É preciso dizer-se o que nos dão
no meu país de boa lavra
aonde um homem morre como um cão
à míngua de palavra:

Por cada tronco desnudado       um lado
do nosso orgulho ferido
e por cada sobreiro despojado
um homem esfomeado e mal parido.

Ah não, filhos da mãe!
Ah não, filhos da terra!
Os enjeitados também vão à guerra.

sábado, 7 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Adereços, Endereços

José Carlos Ary dos Santos
Colecção Poesia e Verdade
Guimarães Editores, Lisboa  Abril 1969

 Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de ser
contra a maneira do tempo
esta maneira de ver
o que o tempo tem
Aristóteles diria
entre dois golos de chá
que o melhor ainda seria
deixar o tempo onde está
pô-lo de perto no tema
e de parte na poesia
para manter o poema
dentro da ordem do dia.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só.
Ele sabia que o poeta
depois de tudo inventado
depois de tudo previsto
de tudo vistoriado
teria de fazer isto
para não continuar
o que já estava acabado
teria de ser presente
não futuro antecipado
não profeta não vidente
mas aço bem temperado
cachorro ferrando o dente
na canela do passado
adaga cravando a ponta
no coração do sentido
palavra osso furando
pele de cão perseguido.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de riso
que é a mais original
forma de se ter juízo
e ser poeta actual.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
também diria antes só
do que mal acompanhado
antes morto emparedado
em muro de pedra e cal
aonde não entre bicho
que não seja essencial
à evasão da palavra
deste silêncio mortal.

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.