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quinta-feira, 26 de abril de 2018

OLHAR AS CAPAS


Poemas para a Revolução

José Carlos de Vasconcelos
Colecção Universidade do Povo nº 7
Capa: Dorindo de Carvalho
Diabril Editora, Lisboa, Julho de 1975

Acordo na Manhã de Abril

Acordo na manhã de Abril
acordo  na manhã de rosas
acordo e tenho uma face
- é mais do que um filho
É minha pátria que nasce

Acordo e tenho uma face
natural  à nossa medida
tão de terra e tão de povo
- é mais que uma nova vida
É uma vida num mundo novo

Acordo ma manhã de Abril
acordo na manhã de rosas
com a voz livre do meu país
- e berro sofro mordo canto
e choro choro de tão feliz

sábado, 25 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Homem na Cidade

Vários autores
Prefácio: Mário Sacramento
Capa: Luís Carrôlo
Colecção O Homem no Mundo nº 5
Prelo Editora, Lisboa, Julho 1968

Era ao cair da tarde – e havia mortos. Todos muito juntos, enlameados, compridos.
Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.
Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades. Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos. Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.«Se tu és João” – dizia para mim – és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.» E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal. Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora.
- Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
- Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
- Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

Pedro Alvim, crónica publicada no Diário de Lisboa, aquando das trágicas cheias de Novembro de 1967.

sexta-feira, 21 de março de 2014

OLHAR AS CAPAS


Corpo de Esperança

José Carlos de Vasconcelos
Cancioneiro Vértice, Coimbra, 1964

Proibir, podem. Ferir, podem também.
Matar, podem ainda.
Seguiremos mais cheios de glória,
e cada proibição será um alento,
cada ferimento uma canção,
cada morte uma vitória.

Proibir, podem. Ferir, podem também.
Matar, podem ainda.
Almas entrelaçadas nas outras almas,
mãos esmagadas nas outras mãos,
seremos donos de todos os povos
e senhores de toadas as estradas.

Proibir, podem. Ferir, podem também.
Matar, podem ainda.
Nenhum coração verdadeiramente
jovem se cerra.
E pelo seu sangue de amor e de terra
A luta continua, a esperança não finda.