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domingo, 12 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS



Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE…

Uma em duas, duas em uma, como preferirem.

Carlos Paredes já há muito nos deixou, um homem do outro mundo, José Duarte dixit.

Nada passou a ser como era.

«Que saudades meu amigo
Das flores do teu jardim
Eu sentada num degrau
E tu esquecido de mim
Eram flores de fim de dia
Tinham gotas de luar
Que saudades meu amigo
Do teu jardim de encantar»

Y.K. Centeno

A TAP está em vias de, selvaticamente, deixar de ser nossa.

Só não se sabe quando.

Há uma boa dezena de anos, ou mais, disse-me o Hans-Martin, um amigo alemão, que de aviões e companhias de aviação percebe, que a TAP era das melhores companhias de aviação do mundo, só não disse que era a melhor porque, por difícil de validar, essas coisas não se dizem.


Por um aniversário, a TAP convidou Carlos Paredes para gravar um disco para ser distribuído pelos passageiros e feito da seguinte maneira: eu fiz dois temas dedicados exclusivamente à TAP - «Asas sobre o Mundo» e «Nas Asas do Saudade» - que depois misturei com outros já gravados, e fez-se um disco novo, um disco que eu tive o cuidado de relacionar com aspectos da vida nacional: as sua paisagens, etc.

José Duarte que o ouvia, acrescentou: «é a maneira de a tua música andar a voar por aí… »
Disse, então, Carlos Paredes, naquela humildade que se lhe conhecia:

«Tenho muita honra e devo à TAP imensos favores. Um deles é deixar levar no avião a guitarra junto a mim, porque se fosse para o porão podia sujeitar-se a ser furada…»


Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2013.

domingo, 22 de março de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

NUNCA CAMINHARÃO SOZINHOS

Foram os ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful Game.»

Vivem o jogo como ninguém.

Deslocam-se, enchem os estádios.

Avós, pais, filhos, netos, bisnetos: a família.

A festa.

Nem em tempo de Natal o dispensam.

Bem pelo contrário: exigem que haja jogos nesses dias.

Nos dias de transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família, do mais novo ao mais velho, foram ao futebol.

Uma das claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.

Tomaram como hino You’ll Necer Walk Aloneuma canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945 e que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King.

Mas seria com a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, que a canção se tornaria o hino do clube.

Hoje, outros clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.

Simplesmente  arrepiante.

Uma visita ao You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música norte-americana, bem como outros, que gravaram You'll Never Walk Alone.

Shirley Jones gravou-a para a banda sonora de Carousel, mas há versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Mahalia Jackson, Nina Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra Streisand, Andy Williams, Judy Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom Jones.

Também é possível encontrar uma versão dos Beatles.

Estas são as minhas escolhas.

A versão da Nina Simone é tocada ao piano.

Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.

Texto publicado em 24 de Maio de 2016







sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

OLHAR AS CAPAS



Histórias de Jazz

José Duarte
Capa: Pedro Martins
Abril/Controljornal/Edipresse, Lisboa, Novembro 2201

as histórias do jazz são todas iguais
quando o não são são muito pouco diferentes
mais um episódio ali uma data acolá
um acontecimento vivido uma correcção descoberta
jazz como filho da época das realidades económicas políticas vigentes
de como o jazz dos anos vinte de Armstrong foi diferente
do jazz dos anos trinta de ellington
do dos quarenta de parker
do free dos sessenta e dos noventa

sendo esta a primeira história de jazz escrita em português
sendo o jazz o que é em Portugal uma arte não popular
sem culpa própria que não seja ser linguagem musical estranha
porque vinda de outras origens culturais
esta história deve ser breve de iniciação
fatalmente com faltas
deve ser uma história para principiantes e para bisbilhoteiros
simples e clara que tente esclarecer e desfazer erros e confusões
uma pequena história
para que jazz conste

jazz não tem ainda um século mas por lá próximo anda
é uma música que tem vivido a uma velocidade grande
a cada década seu estilo
a cada estilo vários génios
é assim aliciante contar a sua história por estilos
cada passo estético em consonância com o acidentado correr do tempo
com avanços e recuos
a própria tecnologia se meteu com o jazz e ele com ela
rock cordas percussão afro-cubana colaboraram colaboram
jazz é a primeira música de fusão de variadas fusões
música de criação e consumo instantâneo
floresta de estilos em coabitação permanente

jazz afinal uma palavra que quer dizer nada
como João

lisboa junho 2000

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

AS VONTADES QUE ZÉ MÁRIO AJUDOU A MUDAR


Só alguém possuído de uma fina sensibilidade, decide colocar como faixa primeira do seu primeiro disco, o som da chegada de comboios na Gare d’Austerlitz, vozes, ranger de rodas nos carris, marcando vincadamente os que saíram de um país cinzento em busca de qualquer pedacinho de sol.

Havia também os que, a monte, saltavam fronteiras correndo todos os perigos.

Muitos encontraram a morte.

Miguel Torga, no seu Diário, lembra o aviltamento humano desses portugueses que se aventuraram e, na maior parte dos casos ficavam nas mãos de gente sem escrúpulos.
 
«- Entregas-me as peles em Moiros.
- A que horas?
-Às onze”»

As «peles», adianta Torga, eram os emigrantes clandestinos. 

Este álbum de José Mário Branco, é uma peça admirável.

Nas badanas do disco, escreveu José Duarte:
 
«primeiro em afirmações definitivas
num jornal cor de rosa
depois em cantigas do amigo dom dinis
a seguir com canções
em circuito concêntrico
por fim numa esplanada de paris
assim conheci josé mário branco
estamos perante um mural sonoro
do Portugal das últimas gerações
um mural onde as cores
são a mordacidade a caricatura
uma simbologia transparente
com tipos populares uma grande romaria
viva e em movimento
um mural onde os temas são a emigração
e o regresso
as guerras e os senhores
a juventude e as prendas
a esperança sem futuro
o medo e os fantasmas
o tempo e as novidade
tal como em perfilados de medo
a linha quebrada de sons electrónicos
é uma interferência uma ameaça
na arquitectura vertical e obstinada
do arranjo do medo
assim esta obra combate uma tradição
onde a palavra é o som mais inteligível
assim se encerra a fase confusa
da nova música portuguesa
assim se inaugura uma época nova
onde também cantar bem e compor melhor
serão condições a exigir a canção útil
da afinação da palavra
à desafinação das cordas
à percussão das peles e teclas
à imaginação nos arranjos
à criação melódica à vocalização justa
aqui o circo foi desmantelado
com todas as ferramentas do som»


sábado, 23 de fevereiro de 2019

ESTAS MÚSICAS


No arquivo da Shorty encontrei esta fotografia de Billie Holiday, captada, em Fevereiro de 1947, por William Gottlied no Downbeat Club, em Nova Iorque.
Claro que nem palavras, nem fotografias, alguma vez conseguiram captar a genialidade, a permanente angústia de Bilie Holiday e da raça negra.
Apenas quando lhe ouvimos as canções descobrimos essa angústia e muito mais.
Como escreve José Duarte no prefácio de Lady Sings de Blues:
«Tema que Billie escolhesse, ficava cantada para sempre, esgotado, e até, por vezes, com novo significado e e melhor melodia».
É o caso desta «Strange Fruit», um libelo contra os linchamentos da minoria negra nos Estados Unidos, uma canção de protesto mas, acima de tudo, um gesto de pura arte.
«Árvores do sul produzem uma fruta estranha, sangue nas folhas e sangue nas raízes, corpos negros balançando na brisa do sul».

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

QUOTIDIANOS


Ontem, domingo para esquecer.

Eleições autárquicas e futebol.

A CDU perdeu autarquias históricas, uma delas, Almada, por pouco mais de 200 votos!

O Benfica está a jogar miseravelmente.

Ontem voltou a escorregar no Funchal dando a clara indicação que o Penta Campeonato é já uma mera miragem.

Não tenho qualquer sabedoria se Eusébio da Silva Ferreira gostava de Jazz ou de música clássica.

Mas ei que, pelo menos, dois grandes nomes do jazz quiseram conhecer Eusébio.
Duke Ellington em 1966 e Dizzy Gillespie que aterrando em Lisboa para o Festival de Jaaz de Cascais, logo falou a José Duarte que queria conhecer Eusébio.


Tudo começara em Novembro de 71, quando Dizzy tocou em Portugal pela primeira vez no I Festival de Cascais, o histórico. Dias antes, em Varsóvia, o trompetista pedira-me para conhecer, em Lisboa, a Pantera Negra, a Black Pearl, está-se mesmo a ver: Eusébio.
Dezanove anos depois, o encontro teria de se repetir e agora por sugestão dos três.
No hotel mostrei-lhe as fotografais de 71, nada de cabelos brancos, uma filha do Eusébio com três anos, fotos para a posteridade, ao colo de Sonny Stitt, outro notável do jazz já desaparecido, e ainda fotos no relvado da Luz a assistirmos a um Portugal-Bélgica e onde Eusébio jogou mal, diz ele.

E para grande escândalo de José Gomes Ferreira, tal como conta num dos seus Dias Comuns, o violinista Igor Oistrakh, baldou-se a una soirée artística em casa da marquesa do Cadaval para ir ver o Eusébio.


 O incomparável violinista soviético David Oistrakh está em Lisboa. E ontem, depois de um concerto triunfal no Império, foi convidado para uma recepção em casa da Marquesa do Cadaval.
O russo porém recusou e preferiu ir assistir a um desafio de futebol em que jogava o Eusébio – hoje o português mais conhecido em todo o mundo pela maneira como joga à bola.
- O Choskatovich ainda gosta mais de futebol do que eu – confidenciou o genial violinista não sei a quem.

Legensa; Eusébio e Duke Ellington em 1966.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O TEMPO A VOLTAR PARA TRÁS


Entretanto, um viking meu amigo, que, como qualquer viking que se preze, é muito grande e dinamarquês, usa suspensórios largos e farta cabeleira da idade branca, ofereceu-me um relógio que trabalha com o tempo a voltar para trás e das duas uma: ou se aprende a ler o tempo assim, o que é fácil ou se usa o tal espelho, outro, para descodificar as horas, os minutos e até os segundos que o relógio de Arhus dá.
Bent, eu naturalmente chamo-lhe Big Bent, ofereceu outro relógio igualzinho ao glorioso British-Bar, ali, ao Cais do Sodré.

José Duarte em Cinco Minutos de Jazz

sábado, 18 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


Resta só dizer que me fez lembrar, quando imitava o inglês das letras que não sabia, aqueles vocalistas das sociedades recreativas dos anos 50, ao som dos quais apanhei tampas, aprendi a dançar e bebia dois de branco no bufete. E agora, senhoras e senhores, variedades!...

José Duarte


Legenda: fotografia encontrada no blogue Conta-me Como Era

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Pão Com Manteiga

Bernardo Brito e Cunha – Carlos Cruz – Eduarda Ferreira – José Duarte – Mário Zambujal – Orlando Neves
Capa: Luís Trindade
Edição Pão Com Manteiga, Lisboa 1980

Era uma vez uma árvore que dava bolachas. Nada menos do que bolachas, que apareciam penduradas na ponta de fios transparentes, quase iguais aos fios de pesca.
As bolachas tinham uns furos que davam perfeitamente para os fios as segurarem bem. Portanto, era fácil. Vistas bem as coisas, uma árvore das bolachas é uma árvore como as outras, só que dá bolachas.
Ora, quem possuía esta árvore era um homem que, a pouco e pouco, se foi apercebendo do valor que tinha ali no quintal. Por isso, começou a apensar fazer negócio, organizando o seu marketing, como agora muito bem se diz nas esferas que percebem do assunto. Quase a propósito de esferas, convém dizer que as bolachas eram de formato redondo, talvez para não destoarem muito de maçãs, laranjas e outras frutas da época. Colheita após colheita, (e a produção não era pequena), o homem foi aumentando o volume do negócio. Tinha tudo organizado, operacional, como também se diz agora e muito bem, caixinhas normalizadas para a exportação, quando a árvore começou, de um dia para o outro, a dar bolachas quadradas. Um problema bicudo. Para saber onde estava o nó do problema e evitar a conversão de todo o seu comércio de bolachas, o homem escavou para saber qual era o mal da raiz. E descobriu então: a raiz quadrada era o problema.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

SAUDADES DA RÁDIO


A rádio está associada à minha vida.

Quando havia programas de autor e a ditadura das «play-list» não tinha entrado portas adentro.

Nos primeiros meses de 1980, joâo David Nunes ainda podia dizer:

Acho que alguma da Rádio que já se vai fazendo, neste momento, em Portugal, não nos deixa muito envergonhados em relação à Rádio que se faz lá fora.

Há dias, morreu Jaime Fernandes, um dos homens dessa rádio de autor.

Numa entrevista ao Jornal de Notícias, Janeiro de 2011, José Duarte falava de um dos seus programas de assinalável êxito na rádio: A Menina Dança?

Fui convidado por Jaime Fernandes. Trabalhávamos na Rádio Comercial. Tinha eu escrito um texto para "O Jornal" sobre Irving Berlin, grande compositor norte-americano". Jaime Fernandes gostou e ficou admirado de meu saber sobre aquela música. Convidou-me para fazer um programa sobre "standards". Inventei então "a menina dança?" que é um programa semanal dedicado a grandes nomes vocais da música norte-americana e a grandes compositores do "American Song Book".

O texto que se segue julgo pertencer a uma qualquer crítica ou sinopse do programa:

Tudo acontece num salão de uma sociedade recreativa. É um baile ao som de canções. Como as canções devem ser: cheias de «swing», a puxar o pé para a dança. Ouvem-se os «crooners» ou  - Bing Crosby, Dean Martin, Tony Bennett – uns mais apaixonados, outros menos, ouvem-se outras vozes que fizeram as músicas da América. Ouve-se Sinatra e as suas histórias. Aos domingos à noite, quando a Menina encontra o seu par, são as grandes orquestras que se vocam, num qualquer baile de despedida; e são as histórias à margem do tempo que se relatam. O programa realizado por José Duarte podia ser o cenário para os «Dias da Rádio» de Woody Allen. Mas não é. No que diz respeito a rádio, vai mais longe.


«A Menina Dança» oferece um dos mais eficazes exercícios do uso da linguagem radiofónica: diálogos a uma voz definem cenários; afastam e atraem. Informam. E fzem com que a menina, de facto, exista. Ela é a personagem que ganha forma, a cada instante. Do desconhecimento da música passa ao espanto; e deste, ao saborear da descoberta. Mas isso não lhe basta: a Menina «trova s voltas», comanda o jogo e, às vezes, transforma num inferno a vida do seu par: a Menina torce um pé, a Menina pinta o cabelo de louro. A Menina é a Gata Borralheira que parte à meia-noite, abandonando o seu par.

A menina, mais as suas danças, deixaram-nos a 30 de Dezembro de 2012.

Não vivíamos para ouvir rádio. Somente para melhorar essa vida.

terça-feira, 24 de maio de 2016

NUNCA CAMINHARÃO SOZINHOS


 Foram os ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful Game.»

Vivem o jogo como ninguém.

Deslocam-se, enchem os estádios.

Avós, pais, filhos, netos, bisnetos: a família.

A festa.

Nem em tempo de Natal o dispensam.

Bem pelo contrário: exigem que haja jogos nesses dias.

Nos dias de transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família, do mais novo ao mais velho, foi ao futebol.

Uma das claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.

Tomaram como hino You’ll Necer Walk Alone, uma canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945 e que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King.

Mas seria com a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, que a canção se tornaria o hino do clube.

Hoje, outros clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.

Simplesmente  arrepiante.

Uma visita ao You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música norte-americana, bem como outros, que gravaram You'll Never Walk Alone.

Shirley Jones gravou-a para a banda sonora de Carousel, mas há versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Mahalia Jackson, Nina Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra Streisand, Andy Williams, Judy Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom Jones.

Também é possível encontrar uma versão dos Beatles.

Estas são as minhas escolhas.

A versão da Nina Simone é tocada ao piano.

Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, o obrigaram a pagar excesso de bagagem.

                                         

                                          

                                          


                                          

                                          

terça-feira, 1 de março de 2016

RAY CHARLES



Este disco terá sido, para muitos, o ficarmos a saber da existência deste extraordinário cantor.

Os tempos eram de pouquíssima divulgação do muito que em música, literatura, cinema, qualquer arte que acontecia além-fronteiras.

As razões são várias para que assim acontecesse, mas cite-se, como principal, a censura de Salazar, uma censura que, ao mínimo sinal de algo de progressista, fazia desabar o lápis azul de coronéis analfabetos.

José Duarte, rapaz que não deixava créditos por mãos alheias, soube que Ray Charles iria dar, em Paris, o seu primeiro concerto europeu.

Sabia de cor as canções de Ray Charles e até as dançava.

Tinha exame marcado do curso de Economia para esses dias, borrifou-se no dito porque Ray Charles era fortíssimo chamamento, e, no fundo, já sabia que não queria ser económico-canudado, e voou para Paris.

Ele entrou em palco guiado por uma loura alta, nova, esguia, que o levou e, no fim, o trouxe do piano para os bastidores: Foi desde então que os seus óculos escuros nunca mais me saíram dos olhos. Já tive vários parecidos. Onde é que ele os compra? De tartaruga! Autênticos alçapões de escuridão, onde eu me escondia. Que bom!...
Na band debitavam alguns dos seus melhores companheiros musicais de sempre: Leroy Cooper e David Newman entre os saxofonistas, o lendário Dicki Wells entre os trombones, uma histórica scção de trompetes com Philippe Gilbeau, Wallace Davenport, Marcus Belgrave e John Hunt. Uma das quatro Raelettes era já Margie Hendrix.

Jorge Sena dedicou um poema a Ray Charles.
                                                                                                                                                         
Tem a data de 15 de Março de 1964 e é retirado de Sequências, livro póstumo.

Faz parte da antologia de Jazz na Poesia em Língua Portuguesa organizada por José Duarte e Ricardo António Alves:

Cego e negro, quem mais americano?
Com drogas, mulheres e pederastas,
a esposa e os filhos, rouco e gutural
canta em grasnidos suaves pelo mundo
a doce escravidão do dólar e da vida.

Na voz, há o sangue de presidentes assassinados,
as bofetadas e o chicote, os desembarques
de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança
para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,
e o plasma sanguíneo com etiquetas de black e white
por causa das confusões.
E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,
de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,
e a música do povo eleito por Jeová e por Calvino
para instituir o Fundo Monetário dos bancos e dos louros,
a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?

Os corais melosos e castrados titirilam contracantos
ao canto que ele canta em sábias agonias
aprendidas pelos avós ao peso do algodão.
É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,
nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,
nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,
nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,
e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.
E é negro por fora como isso por dentro.

Cego negro, uivando ricamente
(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)
sob a chuva de dólares e drogas
as dores da vida ao som da bateria,
quem mais americano?

Jorge Sena

Uma outra de José Duarte, a propósito de Ray:

Muito se modificou o estilo de Betty Carter desde os tempos dos seus êxitos com Ray Charles e até anteriores, fins dos anos 50!
«Baby It’s Cold Outside» com Ray, está na História da Música. 


                                                                                                                                                           

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Aprender jazz é como aprender a falar.
Aprende-se vai-se aprendendo.
Balbucia-se, imita-se, copia-se.
O vocabulário vai chegando, a gramática também.

José Duarte em Cinco Minutos de Jazz

Legenda: pintura de Robert McGinnis

BRIO PORTUGUÊS


Longos e penosos têm sido os passos dos divulgadores de jazz em Portugal.

A incompreensível adversidade para tudo o que é diferente, é sempre uma conquista difícil, a maior parte das vezes impossível.

Ao longo dos 50 anos de Cinco Minutos de Jazz, José Duarte recebeu imensas cartas, postais, a insultá-lo de tudo e mais alguma coisa.

Eram racistas, nazis que defendiam o império.

No seu primeiro livro, João na Terra do Jaze, José Duarte reproduz uma dessas cartas:

Passo a ler-vos um postal que recebi hoje.
Endereço: Exmo. Sr. Director de Rádio Renascença (escritórios e Estúdios)
Remetente: Exmos. Snrs. Correios
Rogo o Vosso auxílio na defesa da Música Portuguesa e repúdio do infame e anti-Português-Jazz-batuque.
Agradece o vosso Daniel Luiz Sampaio
Texto: Venho pedir a V.Ex. que Rádio Renascença não colabore com os idiotas propagandistas do Jazz-Batuque, pois além de ser um género de música bárbara e subversiva de pretos americanos, é também um género de Música-Batuque, anti-Portuguesa, fora da índole e do sentir do nosso Povo, poi somos um Povo Latino. Os idiotas do Jazz-Batuque tudo têm feito para corromper o Povo Português, mas até hoje, só têm conseguido arrastar parte de alguma desvairada juventude, sem brio português, para um género de Música, anti-Portuguesa, sem brio português, para um género de Música, anti-portuguesa que os pretos insurrectos praticam há mais de 100 anos na América, mas que as pessoas sem dignidade pela verdade e pela sua condição de portugueses, teimam em afirmar que o Jazz-Batuque é Música do nosso tempo. Os idiotas, que tal afirmam, são gente de baixa mentalidade e de alma negra incapaz de apreciar e sentir a beleza da Música verdadeira e digna do género humano.
Exmo. Sr. Director, peço-lhe a Vossa ajuda na defesa da nossa Música e dos Músicos portugueses.
Muito grato lhe fica o Vosso, Daniel Luiz Sampaio.
O postal não traz a morada do remetente.

                                                                                 Novembro de 1972

domingo, 21 de fevereiro de 2016

CINCO MINUTOS DE JAZZ



Quando se fala de jazz em Portugal, há uma fronteira a balizar: antes e depois de Vilas-Boas.

Seguem-se, então, os outros, como Raul Calado ou José Duarte.

Há 50 anos, João Martins, um radialista de excelência, apanhando José Duarte a jantar em casa de Raul Duarte desafiou-o a realizar uma rubrica de jazz na sua 23ª Hora, que se transmitia na Rádio Renascença.

A pergunta que se seguiu foi se não podia ser mais do que cinco minutos.
Que não, apenas cinco minutos.

No dia 21 de Fevereiro, ouvia-se uma faixa do álbum de Lou Donaldson, Lou’s Blues, e o José Duarte a marcar 1, 2, 3, 4, Cinco Minutos de Jazz, o mais antigo programa da rádio portuguesa.

há cinquenta comecei com o «cinco» e com milhares de «cinco» acabarei.
se hoje fosse convidado para realizar um programa de rádio de
jazz
resposta seria sim se:
chamar-se-ia o «jazz, esse desconhecido»

Andou depois pela Rádio Comercial, os companheiros diziam que o Zé Duarte era a melhor orelha branca da Europa, assim como Vinicius se dizia o branco mais negro do Brasil, passou pela Antena 2 e agora estaciona na Antena 1

Ao Expresso, José Duarte disse: sinto que fico na história como o Vila-Lobos.

Assim seja!


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poezz, Jazz na Poesia em Língua Portuguesa

José Duarte e Ricardo António Alves
Apresentação e Notas: Ricardo António Alves
Comentários: José Duarte
Edição Almedina, Lisboa, Maio de 2004

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O CENTENÁRIO DE FRANK SINATRA


Segundo volume deSinatra 100 Anos,  com que o Público assinala os 100 anos de Frank Sinatra.
Testos de Patrícia Reis e Inês Pedrosa.

José Duarte aborda os anos de Frank na Capitol: a maturidade.


Do texto de José Duarte:

São raros se é que existem os ouvintes que sabem ouvir e que não gostam de ouvir Sinatra quer homens até mulheres como se justificarão os nossos contras? que ele era da Mafia – por ser italo-n-americano não comento eu nasci no Bairro alto – o relatório secreto da FNI apresenta Sinatra como simpático com a esquerda relatório McCarthy – por ter ido a Cuba  centro de diversões dos n-a longe dos tempos de Fidel & Che na ditadura de Batista que Salazar hospedou nas ilhas portuguesas no atlântico num certo fim de tarde
Ninguém `vista vi passeando-se no aeroporto de Lisboa o ditador e Seixas o agente Pide que mais batia e mandava estava eu a trabalhar na TAP sozinhos eu a guiar um pesado e potente jeep!...

O alinhamento dos 2 CDs:



sábado, 12 de dezembro de 2015

PARA SINATRA


Nunca lhe escrevi

Não sei se se justifica, mas o que é certo é que nunca fui capaz de o fazer e sempre achei escusado. Só no Porto tentei falar consigo mas como, à última hora, decidiu sair do concerto directamente para o seu avião, para ir dormir a Espanha, a minha carta, as minhas perguntas ficaram debaixo da porta da sua suite.
Não ficaram, fui lá busca-las com a ajuda de um recepcionista do hotel, conivente, entrega-las ao baterista da sua orquestra que no bar do hotel se me dirigiu, reconhecendo-me da televisão portuguesa, do jazz!

Prometeu-me que lhas entregaria, que lhe era fácil.


Em bateristas acredito sempre…
Sim, Porto, a cidade que deu nome ao vinho, há-o branco ou não, seco ou não, pode beber-se muito, sempre em pequenas quantidades, sempre straight, no chaser, como «o nosso amigo» Daniel’s dever ser consumido.
A propósito, estive muitas vezes sentado no seu lugar favorito, no Jilly’s Bar de Nova Iorque, a ver assim o mundo como o via dali sentado. Claro que era uma etapa da peregrinação que gostava de cumprir, claro que era.
(…)
Que época inesquecível deveria ter sido aquela quando actuava com o seu gang favorito, Lawford, Dino, Sammy… Eram vocês que escreviam as piadas?
Dino era genial.


Que divertido deve estar a ser agora o Inferno com vocês de novo juntos!...
A pianista Marian McPartland, lembra-se dela?, ainda por cá anda com 78, disse recentemente para a imprensa norte-americana que muitos, muitos milhares de mulheres por este mundo fora tiveram casos de amor consigo, sem mesmo você saber!...
É uma bonita afirmação que lhe não deve «resvalar na couraça da sua indiferença»…
Acho que a mulher que melhor lhe ficou foi Ms. Novak a quando de Pal Joey, o filme, apesar de Rita estar presente. 


Aliás o próprio filme lhe assenta como uma luva, tal como «High Society». È assim que o imaginava na vida real. Aquela cena antológica com Bing Crosby, cantando e beberricando naquele cosy room! Inesquecível! Big Bing tinha um swing discreto, um estilo grandiosos, não tinha?
(…)
A peça que gravou e que acho ser uma definitiva, perfeita obra-prima é «The One I Love Belongs To Somebody Else» para a sua Reprise com um arranjo de Billy May, no LP ou CD «Sinatra Swings». Repetir sempre de maneira diferente as medidas era prática sua, até numa pequena faix de 3 minutos agora em «The One» ultrapassa tudo o que se julgaria possível, substituindo palavras, acrescentando um pequeno it,


mudando pois sentidos, notável cantar «change it» a seguir a «the world will never change»… A autêntica Enciclopédia de swing que são aqueles escassos minutos de Voz com Música, que fácil que parece afinal ser, que difícil apenas repetir ao fim de milhares de audições.
(…)
O Mundo sem si teria sido pior de ouvir e viver.
Parabéns pela sua entrada defeituosa, que insistiu em deixar ficar, alegando que tudo se devera ao espanto pelo superior comportamento sonoro da orquestra de Basie no primeiro Reprise que gravou com ela.
(…)



Fui na véspera e vim no dia seguinte, certa vez a Nova Iorque, assistir a um concerto onde cantou com Ella Fitzgerald e a orquestra de Count Basie e, à socapa, gravei todod o concerto com um gravadorzeco ao colo.
Pura atitude de especialista em transe.
Não a guardo, a gravação, não sei onde a pus, perdi-a.
O espectáculo começou com a big band, depois entrou ela, Ella, a seguir cantou você e o grand finale com todos!
Memorável.


Nos em Portugal conhecemo-lo mal como cantor. Temos, os que têm, muitos discos seus, mas nada sabemos de como era o seu look nos anos 30 e 40, nada dos programas de tv onde colaborou ou de que foi autor, nada da época Shore, essa maravilhosa Dinah Shore, nada das suas actuações com o famoso grupo de amigos, artistas, que tanto se divertiam ao divertir os outros.
A Portugal ia não vindo e já não veio em nenhum dos seus esplendores, só no da glória.
Sempre gostei das suas amizades, com mafiosos em particular, o conceito de gang unido, auto-ptotector, atrai-me, embora seja incapaz de o aplicar.
Shame on me!
(…)


Talvez até para contrariar um tipo de reacciionarismo encapotado, tanto eu gosto de «Strangers in the Night» e muito eu gosto de «My Way», com o seu climax bem preparado e a sua verdade em forma provinciana, mas verdade, para quem tem coragem de o reconhecer.
Admito que, para tal, seja precisa idade cronológica e mental.
Um problema semelhante ao que se defronta com Roberto Carlos, o cantor.
(…)
Não esquecerei o seu comportamento cívico quando e quando não era preciso em relação à raça negra norte-americana, que é uma raça definida, com cultura própria. Comportamento exemplar. Lembro a camaradagem com Sammy Davis Jr., a 


solidariedade com Joe Louis, a sua reacção quando Sarah Vaughan foi vítima de racismo e como tal não convidada para uma festa em Beverly Hills. Gostei da sua natural, provocadora coragem de ter organizado em sua casa uma festa para Sarah e ter convidado quem convidou.
(…)
Todo o seu universo musical está nos primeiros discos LP para a Capitol - «Swing Easy, «Swingin’ Lovers» e «Wee Small Hours».
Os próprios termos dos títulos são a temática de toda a sua obra: swing, lovers e aquelas malvadas horas das madrugadas onde a palavra de ordem você imortalizou: one for my Baby and one more for the road,
(…)
Quando soube que tinha morrido estava um dia
dramaticamente belo. No Gerês.

Julho 1998

José Duarte em Cinco Minutos de Jazz 

CHEGA...


Conta-se que Sammy Davis no princípio da sua carreira e no final dos seus espectáculos, com uma multidão de admiradores lá fora, manifestou a Sinatra, que o apadrinhava, a sua grande apreensão em relação aos autógrafos. Não sabia escrever. Sinatra disse-lhe o que só um Sinatra poderia dizer: «Não faz mal! Faz uns gatafunhos! Chega…»

Josè Duarte em Jazzé e Outras Músicas.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O CENTENÁRIO DE FRANK SINATRA


Tal como anunciado, saiu hoje o 1º volume da edição com que o Público assinala os 100 anos do nascimento de Francis Albert Sinatra.

A música balança nas gravações da Columbia (1943/1952), A Voz Columbia Enquanto Jovem.

Os textos de José Duarte e João Gobern têm aquele toque de quem sabe e gosta do que fala.

Se é dos que dizem que por isto, por aquilo, por aqueloutro não gosta de Frank Sinatra, apanhe esta oportunidade.


Há comboios que não se podem perder!

Sim, Frank andou com muitas más companhias, a Mafia prestou-lhe favores, pediu favores à Mafia para ajudar outros, John Kennedy incluído, outras coisas, mas: who cares?

As canções de Sinatra têm sempre qualquer coisa que nos leva a ouvi-las.

Até os silêncios, tal como escreve José Duarte.

Ou, como dos maus filmes, dizia João Bénard da Costa: têm sempre qualquer coisa que merece perder tempo com eles.


 As canções de Sinatra são, como se disse da Coca-Cola:

Primeiro estranha-se, depois entranha-se.


Soltas do que escreveu José Duarte:

… o maior – não gosto – o Melhor cantor porque a melhor voz e a genial combinação entra as duas..

Sinatra morreu com qualidades e defeitos tal qual eu e vossemecê.


Soltas do que escreveu João Gobern:

No epitáfio inscrito na sua pedra tumular, pode ler-se: “O melhor está para vir”.

Nos anos finais, Sinatra dedicou-se à pintura, escolhendo os palhaços como um dos seus temas favoritos. Perante esta fixação, Tina, a sua filha mais nova, não deixou de dizer o seguinte: “São auto-retratos. Porque o meu pai é um homem que nunca cresceu e que, sempre que pôde, fugiu às responsabilidades. Umas vezes com graça, outras nem por isso…

Os mistérios, esses, ele deixou para uma vida no olho do falcão. Foi como foi. E só nos resta imaginar o que os alinhamentos cósmicos teriam alterado se ele tivesse correspondido positivamente à proposta que lhe foi endereçada por um dos seus directores de orquestra – a de mudar o apelido artístico para Satin. Mas cetim, quando se pode ter seda? Poder, podia, mas não era… Não, que diabo! Não podia de todo. Em Sinatra não se mexe – toca-se, isso sim. E sempre que possível