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segunda-feira, 8 de junho de 2020
SALMO À MANHÃ
Telhas,
teclas.
O gato no telhado é o pianista.
Melhor: o organista.
Tubos dum órgão, chaminés,
fumegam botes e casas cor de rosa...
O gato arranha um salmo...
Como o Sr, Jourdain fazia prosa.
José Fernandes Fafe em Poesia Amável
quinta-feira, 14 de junho de 2018
POEMA
Estas palavras são a casa dum louco.
Anda lá dentro um
e a falar só…
Este papel branco é a luz calcárea
os cegos acordeonistas de Lisboa…
A minha casa fica na Manhã.
José Fernandes Fafe
em Poesia Amável
terça-feira, 27 de março de 2018
CARTAZ TURÍSTICO
Portugal
país de pirâmides
de sal
Podeis vê-las aqui, na Ribeira do tejo.
Desfilam à cabeça das mulheres
num faraónico cortejo
entre as fragatas e o cais.
Mas sal, Tejo e manhã
é luz demais: Cegamos.
Nasce um fosfeno de cristais.
Nasce o silêncio da Sedução.
É quando se ouve mais
o canto
da carregação.
José Fernandes Fafe
em Poesia Amável
Legenda: fotografia de Artur Pastor
Etiquetas:
Artur Pastor,
José Fernandes Fafe Poemas
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
JOSÉ FERNANDES FAFE (1927-2017)
Morreu JoséFernandes Fafe, escritor e diplomata.
Sofreu um AVC no
dia 1 de Fevereiro, depois de, na véspera, celebrar 91 anos.
Foi o primeiro
embaixador português em Cuba nomeado por Mário Soares, então ministro dos
Negócios Estrangeiros.
A propósito, ler
o texto que o embaixador Francisco Seixas da Costa escreveu no seu blogue Duas ou Três Coisas.
A produção
literária de José Fernandes Fafe inclui mais de duas dezenas de obras, de
poesia, teatro, romance e ensaio. Uma das suas obras mais conhecidas - Annie:
uma portuguesa na revolução cubana - centra-se na biografia de
Ana ("Annie") Silva Pais, a filha do último diretor da PIDE, Fernando
Silva Pais, que foi para Cuba em 1963 acompanhando o marido e se apaixonou pela
revolução cubana.
Um poema de José
Fernandes Fafe tirado de Poesia Amável:
Poente
Compreende-se tudo,
de repente:
São oito séculos a ver o Sol morrer
afogado no mar,
diàriamente.
Etiquetas:
José Fernandes Fafe,
José Fernandes Fafe Poemas,
Obituários
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
OLHAR AS CAPAS
Poesia Amável
José Fernandes Fafe
Prefácio: José
Gomes Ferreira
Colecção Poetas
de Hoje nº 11
Portugália
Editora, Lisboa, Outubro de 1963
Se não tivesse sido a esquadra americana, que fez esgotar a cerveja na
cidade, eu não teria ido à outra banda beber um fino… Não nos teríamos
encontrado, por conseguinte.
Mas, também, se o teu isqueiro não se tem avariado e a tua voz não fosse - até na adversidade! - manselinha (« - Por favor…» Nas comissuras dos lábios, tanto destino cruzado! - «Muito obrigado, Senhor…») sequer teria reparado em ti…
Qual é a explicação da tua voz? Herdaste-a de teus pais? De teus avós? De que Senhora Aónia és descendente?
«Poeta desempregado…» espalham para aí os teus. Mas se não fosse um poeta… quem te houvera de amar, ó minha feia? E empregado… como é que eu poderia, às quatro horas da tarde - numa quinta-feira - estar, digam-me lá, na outra banda?
Os marujos… e se eles eram cupidos… (crescidos, americanos, vestidos à marinheira…) que nos feriram com uma seta, teleguiada, certeira…
Mas, também, se o teu isqueiro não se tem avariado e a tua voz não fosse - até na adversidade! - manselinha (« - Por favor…» Nas comissuras dos lábios, tanto destino cruzado! - «Muito obrigado, Senhor…») sequer teria reparado em ti…
Qual é a explicação da tua voz? Herdaste-a de teus pais? De teus avós? De que Senhora Aónia és descendente?
«Poeta desempregado…» espalham para aí os teus. Mas se não fosse um poeta… quem te houvera de amar, ó minha feia? E empregado… como é que eu poderia, às quatro horas da tarde - numa quinta-feira - estar, digam-me lá, na outra banda?
Os marujos… e se eles eram cupidos… (crescidos, americanos, vestidos à marinheira…) que nos feriram com uma seta, teleguiada, certeira…
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Foram as manobras da NATO…
Foi um isqueiro empanado…
Foram as voltas do Mundo…
Foi uma loucura (dizem os amigos)
… que engendrou - cegamente - o nosso encontro em
Cacilhas.Foi um isqueiro empanado…
Foram as voltas do Mundo…
Foi uma loucura (dizem os amigos)
Coisa tão bela e absurda como o aparecimento do Homem!
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