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sábado, 26 de janeiro de 2019

TALVEZ PARA A SEARA, TALVEZ PARA O LISBOA...



28 de Agosto de 1970

O José Cardoso Pires telefonou-me. Quer um artigo meu para o Diário de Lisboa.
- O suplemento literário é muito mau e quero transformá-lo…
Estou de férias, pá. Vamos a ver se consigo arranjar coragem para isso.
Entretanto ele ia dizendo: O Carlos critica, critica, mas nunca me manda um artigo…

1 de Setembro de 1970

Morreu Mauriac. Dos seus romances sempre extraí esta visão: o cristianismo não era um produto da bondade dos homens, mas da sua maldade ingénita. Se os homens fossem bons não precisavam de Cristo.

2 de Setembro de 1970

Passei o dia a escrever um artigo, talvez para a Seara Nova, talvez para o Diário de Lisboa…
Cada vez escrevo com maior dificuldade.
Ainda bem.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

sábado, 19 de janeiro de 2019

NÓDOAS DE SOMBRA


27 de Agosto de 1970

Estava anunciado para ontem um Festival Pop, dedicado aos hippies nacionais que apareceram aos magotes no Estoril – sítio escolhido para a cerimónia.
Afinal, ao que parece, os promotores esqueceram-se de pedir autorização legal para a reunião, os rapazes vindos de longe desataram a protestar e a polícia de choque com cães e tudo, interveio à pancadaria sem poupar ninguém, brutalmente, como de costume.
Hoje O Século traz sete linhas sobre o caso. E nem uma palavra sobre a violência verdadeiramente brutal.
Portugal é um paraíso – porque escamoteia por sistema as nódoas de sombra.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

Legenda: sobre esta caso que José Gomes Ferreira refere, ver artigo do Blitz sobre os Festivais antes do 25 de Abril. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

MAIS PROFUNDO E VERDADEIRO


Deixar passar o tempo – como se a aproximação da Morte o tornasse mais profundo e verdadeiro…

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

sábado, 15 de dezembro de 2018

ESCANDALIZAR O MUNDO E A RELIGIÃO


6 de Julho de 1970

Contou-me o Graça que o Padre Mário, agora deportado em Macieira de Lixa, estava anteriormente no Lumiar. Foi o primeiro padre que vestiu «civilmente». Aprendeu um ofício (carpinteiro) e vivia numa barraca de lata como a maioria dos paroquianos do Lumiar. Isto com grave escândalo do Patriarcado que queria que el se instalasse numa casa a valer de pedra e cal. Também dava de comer a todos os que lhe batiam à porta com fome.
Resultado: a vida deste padre-operário era tão escandalosamente cristã que o Patriarcado se viu forçado a mandá-lo para longe para Macieira de Lixa, onde, pelo visto, teima em escandalizar o mundo e a religião.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

domingo, 2 de dezembro de 2018

DEMASIADOS LÁPIS!


2 de Julho de 1970

O João Gaspar Simões disse-me ontem pelo telefone que se vira obrigado a emendar algumas palavras na minha última crónica, para a gente de O Primeiro de Janeiro a deixar sair.
Que palavras?
Estas: tipa, macha, pernas, etc. (Incrível), consideradas impróprias por um energúmeno velhorro da redacção que as sublinhou com lápis vermelho.
Fiquei furioso. Duas censuras ( a oficial e a do velhorro paralítico cerebral) parecem-me cadeias demais para poder dançar!
Quanto à atitude de João Gaspar Simões – seria uma covardia escrever aqui o que não ousei dizer-lhe por delicadeza… Aliás, estou convencido de que da parte dele houve apenas camaradagem jornalística. Custava-lhe que eu perdesse os 400 paus do artigo – como me confessou.
Agradeci-lhe a camaradagem.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

Legenda: João Gaspar Simões

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A PREGUIÇA DAS PALAVRAS


26 de Junho de 1970

Escrevo cada vez com mais dificuldades - numa luta terrível contra a preguiça das palavras.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

domingo, 4 de novembro de 2018

GENTE NOVA PRESA


1 de Março de 1970

Ontem, o habitual serão dos sábados em casa do Fafe. Mastigações sonâmbulas de velhas coisas tristes desta pátria sonolenta.
                                                
                                                          *

Como me sinto magoado quando reparo que certas pessoas me tratam com um respeito que, em geral, os velhos não merecem.

                                                          *

Estão presas masi de sessenta pessoas que entraram na última manifestação contra a Guerra Colonial. Gente nova. Rapazes e raparigas.


José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

sábado, 27 de outubro de 2018

VEJA-ME ESSE PROBLEMA NO SEU MORAIS


Encontrei ontem o Carlos que reescreveu Os Pequenos Burgueses em dois meses e meio.
- Ficou um livro realmente diferente… E tão diferente que penso em mudar-lhe o título. Qualquer coisa deste género: Os Pequenos Burgueses e Outras Personagens.
Aqui levantou-se-lhe o eterno problema. Personagem é masculino ou feminino? Como toda a gente sabe os puristas afirmam que é feminino. «O personagem» é um horrendo galicismo.
- Mas a mim soa-me muito mal «outras personagens»!
Você é capaz de me ver esse problema no seu Morais?
À noite telefonei-lhe e li-lhe duas abonações clássicas constantes do maorai (uma de Manuel Bernardes e outra de Francisco Manuel e Melo) que justificam o emprego de personagem no masculino.
O Carlos respirou feliz ao telefone,

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

Legenda: pormenor da página do Dicionário de Morais para a entrada «personagem», problema que Carlos de Oliveira pediu a José Gomes Ferreira para lhe resolver.

sábado, 20 de outubro de 2018

PARA APURAMENTO DAS SUAS RESPONSABILIDADES


25 de Fevereiro de 1970

Eis como a Direcção Geral de Segurança, novo avatar da PIDE, explica, com o confucionismo habitual, a prisão do Zenha! Vale a pena arquivar esta parte da nota para sorrirmos no futuro do que tanto agora nos indigna (além do mais dista-se da primeira prisão com alarde do tempo do Marcelo).
«Simultaneamente com a distribuição dos panfletos pretende a Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa efectuar, na quarta-feira 18, um colóquio subordinado ao tema “Política Colonial”, também com o anunciado propósito de apoio ao terrorismo, colóquio que foi proibido pela autoridade competente.
Como figura principal deste colóquio destacava-se o advogado Francisco Salgado Zenha, que, apesar da proibição na Faculdade de Direito, se dirigiu para a cantina da Cidade Universitária para o realizar, em desobediência às ordens da PSP e resolvendo, depois, adiá-lo para quinta, 19, às 17 horas.
Perante a atitude tomada por aquele advogado foi o mesmo detido para apuramento das suas responsabilidades quanto à acusação de desobediência à autoridade e de participação em acção colectiva destinada a excitar a opinião pública no sentido de promover a separação das parcelas do território português da Mãe-Pátria.»
Tudo isto, misturado, no resto da nota, com grupos marxistas-leninistas para complicar.


José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

Legenda: Francisco Salgado Zenha

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

PURAMENTE POPULAR


23 de Fevereiro de 1970

Em Alcântara, prisão de estudantes quando faziam propaganda do recenseamento.
- São um protesto muito mal escrito da CDE a respeito destas prisões – disse o Júlio Salgado.
Mal escrito? Ainda bem! – comentei eu. – Talvez seja de origem puramente popular – o que é óptimo.
Embirro com os protestos dos doutores – com estilo.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

sábado, 29 de setembro de 2018

AGRAVOS À MORAL


19 de Fevereiro de 1970

Está marcado para breve o julgamento dos organizadores e editores da Antologia Poética, a Natália Correia e um tal Melo, baixinho de pêra pendurada que dá pela alcunha de Idiotovich por usar um solene gorro de peles à russa.
O julgamento vem em péssima altura porque o nosso medievo Ministro do Interior publicou, há dois ou três dias, uma nota em que incita os cidadãos a denunciarem às autoridades puritanas do reino todos os agravos que considerem pornográficos e atentórios da moral pública e privada.
Também as Censuras Cinematográfica e Teatral voltaram, por ordem dele, à severa faina anterior de cortar a torto e a direito o torto e o direito.
Entretanto, a farsa da liberalização continua a fingir-se nos jornais e nos discursos transmitidos pela Emissora.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

sábado, 22 de setembro de 2018

DOIS SERES


2 de Fevereiro de 1970

Em mim existiram sempre dois seres. Um, desgrenhado, e outro que quer penteá-lo, paciente. 

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume IX       

sábado, 15 de setembro de 2018

DOS FIXES DOS VELHOS TEMPOS


A 1 de Fevereiro de 1970, José Gomes Ferreira inicia o 9º volume dos seus Dias Comuns que subtitulou como «Derrota Pairante»:

Inicio este novo Diário com o pressentimento da Derrota das Ilusões da Clássica Oposição Democrática, agora definitivamente batida – sente-se no ar, no cansaço das gerações recentes, nos bocejos dos velhotes -, náufragos da 1ª República. Aliás serão talvez os adeptos das concepções mais próximas do Regime implantado em 1910 os primeiros a baixar as armas, esperançados numa Salvadora Solução marcelista. Embora os tecnocratas progressivos acudam, com mais entusiasmo, a preencher os  lugares por que há muito suspiravam e julgavam merecer.
Felizmente surge, também, com dureza implacável, uma nova oposição caldeira fervente de socialismos ainda imprecisos…
Mas a vitória socialista vem distante… por enquanto só é visível a Derrota… A Derrota Pairante… dos que vão receber prémios ao Secretariado… Dos que aceitam este ou aquele lugar por «motivos técnicos»… Sei lá!
Ficarão apenas meia dúzia dos fixes dos velhos tempos, tal como ainda hoje existem monárquicos do Partido Regenerador e Sebastianistas do Sapateiro saulo Inicio este novo Diário com o pressentimento da Derrota das Ilusões da Clássica Oposição Democrática, agora definitivamente batida – sente-se no ar
Ou não, claro. Eu não. Eu adiro à nova Oposição. À da caldeira.
Ontem, durante a reunião-jantar em casa do Fafe (fez anos) – onde se acotovelavam várias gerações oposicionistas -, reparei que o tema central das conversas portuguesas continua a ser a polícia, a Cadeia, as atrocidades da PIDE, a forma como foram presas, etc., etc.
Já começam todos a sentir saudades desses belos tempos da Cadeia.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns IX Volume

Legenda: Maria Velho da Costa, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Baptista-Bastos, José Gomes Ferreira («Sou um revolucionário romântico») e Alexandre Cabral, na Livraria Moraes, no lançamento do 1º volume da «Poesia Militante», Novembro de 1977.

LEITURAS


Nada melhor que, nas Leituras que, vamos, por aqui, reproduzindo, seja José Gomes Ferreira, a ocupar o lugar que foi de Mário Dionísio com a sua Autobiografia.

Dos Dias Comuns estão publicados 9 volumes.

1º Volume: Outubro de 1990
2º Volume: Setembro de 1998
3º Volume: Maio de 2000
4º Volume: Maio de 2004
5º Volume: Novembro de 2010
6º Volume: Janeiro de 2013
7º Volume: Março de 2015
8º Volume: Fevereiro de 2017
9º Volume: Março de 2018

Nove volumes publicados em 29 anos.

Mas agora nasceu-me uma leve esperança: a Leya está a publicar um volume por ano. Continuará assim? Se assim for, é provável que ainda consiga ler todos os Dias Comuns.

É provável…

Creio ter lido que são 20 o número de volumes que constituem os Dias Comuns. Vamos no nono volume. A um por ano chegaríamos ao ano de 2019 e eu teria, então, 84 anos.

Não sei bem como lá chegarei, mas não deixaria de ser bonito.

A ver vamos, como diria o velho cego.

Os Dias Comuns começam em Outubro de 1965 e vêm registando registam a memória de um Portugal amordaçado que alguns – não são assim tão poucos!... – querem que se esqueça.

Personagens como José Gomes Ferreira são, hoje, muito difíceis de encontrar. É quase tudo gente morta.
José Gomes Ferreira é um memorialista militante mas, aos poucos, os últimos volumes não acompanham o glamour dos primeiros, mas é sempre uma prosa que se lê com agrado.

A 26 de Junho de 1970 escreve:

«Escrevo cada vez com mais dificuldades – numa luta terrível contra a preguiça das palavras.»