Mostrar mensagens com a etiqueta José Gomes Ferreira Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Gomes Ferreira Livros. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Calçada do Sol

José Gomes Ferreira
Capa: Luís Duran
Moraes Editores, Lisboa, Setembro de 1983

Então, o meu pai principiou a levar-nos à Ópera do Coliseu e aos concertos do Teatro da República, hoje São Luís.
Quando nos portávamos mal durante a semana, castigava-nos com rigor de olhos acesos:
- No Domingo não vão ao concerto.
Mas pouco a pouco os olhos apagavam-se, contentes de tanto amarmos a música que ardia na inocência dos nossos corações.
E nunca cumprimos qualquer castigo, determinado pelo meu pai que nos perdoava sempre com ternura de haver tão belas melodias no mundo.

sábado, 26 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS



O Mundos dos Outros

José Gomes Ferreira
Capa: António Domingues
Colecção Os Livros das Três Abelhas nº 40
Publicações Europa-América, Lisboa, Junho de 1961

Cada qual agarra em mim a aparência que mais lhe convém. Há patetas que me julgam engraçadíssimo e outros que choram tédio mal envesgam a minha cara longa de gato pingado. Horrorizo meia dúzia de pessoas com a minha má-criação ao mesmo tempo que fascino outra dúzia com a amenidade de açúcar do meu temperamento. E depois de empolgar três ou quatro tolos com alguns discursos inteligentes, não me importo de exibir um solo de estupidez diante dum auditório de cretinos espertos. Nem me indigno quando aquele barrigudo me pergunta se persisto em ir todas as noites ao Estoril jogar roleta. Em compensação, outro, mais magro, imagina que deposito dinheiro nos bancos. E outro, ainda mais magricelas, prega-me sermões para me tirar da cabeça a ideia do suicídio.
Isto sem me referir aos que não desistem de louvar, na minha pessoa, o músico falhado, o ex-poeta do «Longe», o ex-advogado sem clientes, o tradutor de fitas, o ex-cônsul, o jogador de barra, o homem que mete o dedo no nariz ou o neurasténico dos nervos enrodilhados.
A única divergência entre mim e a nuvem é que o pobre farrapo de vapor de água desliza pelo céu desprendido e alheio à opinião dos olhos dos homens...Mas eu não.
Eu colaboro.
Consciente ou inconscientemente, adapto-me às opiniões provisórias dos outros. Entro nas mil comédias do ramerrão diário, sem me enganar nos papéis ou confundir personalidades.
Graças ao meu profundo talento de Proteu, nunca os palermas que me julgam tímido, assistiram a um rasgo de revolta da minha parte. Nem os que me consideram abaixo da craveira normal puderam arrepender-se do seu juízo a respeito da minha imbecilidade.
Sou sempre o que eles querem: bom, mau, epiléptico, rude, cínico, amargo, bêbado, terno, violento, filosofo, íntegro, puritano, devasso, pianista, sonâmbulo, tudo...
Só nunca fui uma coisa: eu próprio.
Mas esse é um dos muitos segredos que hei-de levar para a sepultura.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Gaveta de Nuvens

José Gomes Ferreira
Capa: Dorindo de Carvalho
Diabril Editora, Lisboa, Fevereiro de 1975

Mas voltemos aos dois mancebos convizinhos da montra. Afino a atenção e escuto-os no abstraimento de olhar para o outro lado… Discutem. Ou com mais propriedade: embirram um com o outro, enredados em labirintos de conversação inútil, a aquilatar por esta sentença que me entrou de súbito pelos ouvidos com grande embófia exclamativa de língua inventada:
- Pois eu gramo ler livros à brava!
Vou repetir para que todos saboreiam  bem. Gozem bem, sofram bem o espanto verbal e a beleza rítmica deste autêntico paradigma da linguagem das gerações mais recentes:
- EU CÁ GRAMO LER LIVROS À BRAVA!

domingo, 28 de abril de 2019

OLHAR AS CAPAS



Uma Sessão Por Página

José Gomes Ferreira
Organização literária: Teresa Barreto Borges e Nuno Sena
Direcção gráfica: Rita Azevedo Gomes
Cinemateca Portuguesa – Museu Do Cinema, Lisboa, Junho 2000

Acabei por sair do cinema, triste, sonâmbulo, a invejar Douglas Fairbanks. Oh! quem me dera poder ser El Gaúcho, generosos e dominador, rei duma cidade em outro planeta. Como ele, esse homem moreno e espadachim! Porque um actor cinematográfico vive uma vida excepcional, em outro mundo, em outra realidade… Certo, quando posa diante da objectiva e ouve a voz do megafone, a vida deve afigurar-se-lhe, algumas vezes, cruel e pesada. Mas depois? Sim, depois? Toda a canseira terminou e ei-lo projectado num pano branco, chefe de ladrões, desenrolando um chicote, em pela orgia de sonho, em pura verdade inverosímil!
Eu por mim não desejo morrer sem ter sido protagonista num filme – sem me ter visto em diferente. Isto de viver sempre em realidade também cansa!

sexta-feira, 8 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Sabor das Trevas

José Gomes Ferreira
Capa: Gil Perdigão
Diabril Editora, Lisboa Novembro de 1976

- E agora? – inquiriu Tuninguém desorientada, com a pele bem junta a Nóseu para lhe ouvir bater a nudez do coração ardente.
Ambos falavam em surdina na escuridão, receosos de que as palavras ditas em tom mais alto perdessem o mistério.
- Agora vamos assistir a novo Recomeço.
Exclamação interrogativa perplexa:
- Já houve outros?
- Não é uma hipótese a excluir – adiantou Nóseu, inseguro. – A Terra é uma bola de naufrágios e não me custa admitir que no nosso planeta existam, enterrados, restos de civilizações mortas em que o Homem se foi aperfeiçoando através de catástrofes tremendas no tempo sem limites… Vamos porventura entrar nas últimas fases, justamente nas mais dramáticas e difíceis. As da construção da Sociedade Justa em que dominará a Fraternidade e a Justiça, derradeiros alvos da nossa missão neste pequenina e infinita nesga de estrelas e nebulosas que nos pertence por direito de luta de «primatas excedidos».
- Mas isso é uma utopia.

- Talvez. Mas…

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

OLHAR AS CAPAS


Derrota Pairante
9º Volume de Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2018

4 de Maio de 1970

O Zé Fafe (José Fernandes Fafe):
Não vejo qualquer saída para o socialismo no mundo ocidental onde o capitalismo já ganhou a partida… quanto aos partidos comunistas é visível que não querem fazer a revolução… Pretendem apenas durar.
O capitalismo ganhou a partida, provisoriamente – claro.

sábado, 28 de abril de 2018

OLHAR AS CAPAS


Relatório de Sombras ou a Memória das Palavras II

José Gomes Ferreira
Capa: Vitorino Martins
Moraes Editores, Lisboa, Setembro de 1980

Porque isso da velhice, se não me engano (naturalmente engano-me), não é propriamente o estado de liberdade ideal descrito por Platão. Por circunstâncias cuja descrição não vem ao caso, já comecei mesmo a fazer certas descobertas que me descoroçoaram.
Esta, por exemplo: os velhos perdem o prazer da solidão. Sofrem-na, resignados – o que é diferente. A alegria que ela tanto dá à gente nova, por riqueza interior, desvanece-se. Para os velhos – pelo menos para certos velhos – torna-se na antecâmara da morte, espécie de isolamento numa ilha de gelo que seca a imaginação e impede que se criem fantasmas novos. O recurso à ruminação do Passado – o efémero retorno – com para-se lá à felicidade da juventude, quando um moço se fecha à chave no quarto e apaga todas as luzes para pensar na bem-amada sem testemunhas, a sentir a fraternidade que é o supremo bem dos solitários.
Em resumo: os velhotes ainda se toleram e divertem quando são foleiros e irresponsáveis e principiam a perseguir as pequenas com graçolas tontas que elas ouvem com indulgência de assistir a um pôr-do-sol de cores incoerentes. Mas quando as artérias dos pobres bichos começam a petrificar, até apetece pedir a demissão de não sei quê.

sexta-feira, 16 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Antologia Poética

José Gomes Ferreira
Organização e Prefácio: Casimiro de Brito
Capa: Dorindo Carvalho
Colecção Antologias nº 1
Diabril, Lisboa, Novembro de 1975


Toda a gente me inveja
porque ando contigo nos braços…

Tu que pareces um perfume desenhado de mulher
vestida de pólen
e dois olhos que são dois instrumentos modernos
a auxiliarem a melodia do jazz…

Tu que rodopias, leve,
no desdobrar de seda
que paira neste vento de música
que só as pétalas entendem…

Tu que…
            (Ah! tu que me pesas nos braços
como se trouxesses um esqueleto de lágrimas
e uma bola de metal no coração
ferrugenta do meu remorso.)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Imitação dos Dias

José Gomes Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1966

Os poetas só têm uma missão – se lhes quisermos assacar qualquer missão, do que muitas vezes duvido: cantarem.
Cantarem o Presente. Amarem o Presente. Insultarem o Presente. Viverem as paixões, as lutas, os amores, a porcaria, as molezas, as incoerências, o nada e o tudo do Presente.
O Presente, o Presente apenas, só o Presente!
Os raros que chegam ao Futuro são os que, mercê de um luminoso toque de génio, conseguem esticar o Presente até lá.
(«O Futuro? Mas o Futuro que não se fixa – e nada se fixa! – é sempre Passado!», murmura-me o exíguo filósofo que me acompanha sempre para me recordar os desesperos  óbvios. Tão óbvios que nem reparamos neles!)

terça-feira, 31 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Recomeço Límpido
No Centenário de José Gomes Ferreira

Vátios autores
Capa e Ilustrações: Acácio de Carvalho
Fotografia da capa: Nuno Calvet
Edição do Sector Intelectual do Porto do PCP, Porto, Junho de 2000

Sob o pseudónimo de Álvaro Gomes arredondava a conta ao fim do mês traduzindo legendas de filmes, findas que eram as suas tarefas como secretário do cinema Tivoli. Depois, ia aos amigos, amesendando-se em tertúlias que marcaram época e cunharam duas ou três gerações: no Café Chiado, no Café Bocage, no Café Martinho, no Café Monte Carlo. Eis alguns deles: Aquilino, Redol, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Manuel Mendes, Bento de Jesus Caraça, Augusto Abelaira, Manuel Azevedo, João José Cochofel, Fernando Lopes-Graça, Mário Dionísio. Tantos, tantos mais. Eu era um rapaz esgalgado e ávido, sentado junto deles, a escutá-los sem nada dizer: apenas a ouvi-los discretear sobre as coisas do mundo e o mundo das coisas. O homem que sou deve tudo o que é a esses homens probos, escrupulosos, vigilantes, que defendiam a integridade moral com uma veemência impositiva.

(Do texto de Baptista-Bastos)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Tempo Escandinavo

José Gomes Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Novembro de 1969

Mas ouvir da boca de uma Astrid qualquer de olhos de vidro azul que Portugal vivia em ditadura porque os portugueses não sabiam comer com decência feria-me até aos ossos, porque ninguém mais do que eu odiava a ditadura da minha terra – por injusta e imerecida. Para Astrid, porém vivíamos o destino perfeito de um povo vilmente escravo por vocação.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Livro das Insónias sem Mestre
8º Volume de Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2017

A CEUD que o Mário Soares opôs à CDE foi um fiasco – por falta de base popular e juventude. Os filhos dos aderentes da CEUD pertenciam quase todos à CDE que, como uma Boa Nova, se espalhou por colégios, liceus, universidades, lares de raparigas… Os próprios alunos das escolas primárias não escaparam ao sortilégio.
Só o meu neto Pedro José parecia indiferente.
- Ó Pedro: és da CDE?
- Não. Sou do Benfica…
- Porquê?
- Porque ganha quase sempre.
Apreciei o rigor deste quase.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Os Segredos de Lisboa

José Gomes Ferreira
Série de Ficção nº 5
Série a cargo de Alexandre Pinheiro Torres
Edições Tempo, Lisboa s/d

Quero ter a coragem pública de confessar (embora na verdade esta revelação nada interesse ao mundo) que, em certa altura da minha vida, receei sèriamente converter-me numa espécie de tipo popular lisboeta, perseguido nas ruas pelos garotos e pelas gargalhadas das pedras. Período terrível esse, de sonambulismo andante, em que o meu alheamento aproveitava todos os pretextos para calcorrear a cidade, de beco em beco, de lampião em lampião, de tombo em tomo, zaranza, sem rédeas, a esbofetear recordações e até, para extrema vergonha minha, a falar só!
Em resumo: foi apenas por último cerrar de dentes de vigilância que consegui o milagre de evitar o escárnio da perseguição («Eh! maluco! Eh! fala-tonto!») quiçá infalível se não escolhesse para essas vagabundagens as horas desertas da noite, quando o silêncio crepita mais vivo na solidão e sinto o desejo sedento de atravessar as paredes das casas com pés de espectro para andar, de quarto em quarto, de cubículo em cubículo, a espiar o sono secreto de todas as mulheres (sim, de todas) desde as costureirinhas de calças às damas elegantes do desdém dos chás das cinco.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Poesia Continua
Velas e Novas Circunstâncias

José Gomes Ferreira
Capa: Vitorino Martins
Obras Completas de José Gomes Ferreira nº 15
Moraes Editores, Lisboa, Maio de 1981

E foi para esta farsa
que se fez a revolução de Abril, capitães,
ao som das canções de Lopes-Graça? 

Foi para voltar à fúria dos cães,
ao suor triste das ceifeiras nas searas,
as espingardas que matam os filhos as mães
num arder de lágrimas na cara?

E, no entanto,
no princípio, todos ouvíamos uma Voz
a dizer-nos que a nossa terra poderia tornar-se num pomar
de misteriosos pomos. 

E nós,
todos nós, chegámos a pensar
que éramos maiores do que somos.

domingo, 20 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Mundo Desabitado

José Gomes Ferreira
Desenhos de Júlio Pomar
Estúdios Cor, Lisboa, Natal de 1966

E assim, nestes exercícios de simular vida, chegou o tão ansiado 24 de Dezembro (no fundo talvez para mim indesejada). Nevava geladamente, acoçando os retardatários que saíam pressurosos das lojas de mimos e brinquedos - últimas peças da fabulosa máquina que ia pôr-se em marcha para triturara todos os sentimentos, há séculos considerados indignos desses dias solenes.
Pelo rodar das seis horas, de fato novo e gravata pomposa, encaminhei-me açodado para a Pensão de Froken Betten onde, no àtriozinho formado no patamar por um guarda-vento de vidro fosco, procedi, com vagar de rito, à cerimónia de extrair as galochas dos sapatos e pendurara o sobretudo. Mas mal assomei à porta da sala, um desencanto tenebrosos sufocou-me de luto e desilusão. Liv não estava. Nem a maioria dos hóspedes. Apenas o engenheiro Nielsen, curvo, magricelas e canhestro, Froken Betten, com a sua gordura clara e olhos de azul nítido, Sigrid, criada velha com o esqueleto marcado na pele, uma moça de 16 anos a soltar gargalhadas tontas e algumas crianças com brilho de ouro nos cabelos-
-Glaedlig Jul! Feliz Natal! – gritaram em chusma.

domingo, 30 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Memória Possível
6º Volume dos Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote. Lisboa, Janeiro de 2013

Novo encontro com Judite de Carvalho no dentista.
- Não traz o cabelo penteado da mesma maneira!... – observou o dentista.
- Pois não. Como não gosto da minha cara e não posso mudá-la, mudo de penteado.
Procurei uma frase amável para lhe dizer, mas não a encontrei – malogro que ela infelizmente percebeu.
E no entanto bastaria dizer-lhe que, por mais que mudasse de rosto, nunca arranjaria outro mais inteligente.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Irreal Quotidiano

José Gomes Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Junho de 1971


Aqui há anos concebi um Tratado e Defensão da Verdadeira Arte de Falar Sòzinho onde tencionava apresentar vários truques e manhas para os faladores solitários se defenderem do ridículo e da vergonha da mofa pública quando sentissem a necessidade de tirar cá para fora, dos respectivos alçapões, os fantasmas das conversas.

sábado, 16 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS



Continuação do Sol
5º Volume dos Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 2010

O João Sem Medo é talvez o meu melhor livro. Escrito com gozo gratuito, sem grandes planos condutores, todo engendrado na inconsciência da liberdade plena. Exactamente como se constrói um poema dentro das palavras.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Laboratório de Cinzas
4º Volume dos Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 2004

14 de Abril de 1968

Chego a Lisboa de Albarraque e encontro um postal muito circunspecto (Ex.mo Senhor Dr. José Gomes Ferreira) do Luiz Pacheco a pedir-me 50 escudos.
«Encontro-me numa fase em que não me repugna pedir porque o meu caso é daqueles que, talvez, a tempo, um empurrãozinho me liberte da cadeia (outra vez), ou do hospício, ou da fome. Tenho outro livro ente mãos, Exercícios de Estilo, título larapiado ao Queneau.»
Notícias dum homem, com talento literário, que se suicidou – para agradar à lama própria.

domingo, 26 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Ponte Inquieta
3º Volume de Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 2000

13 de Setembro de 1967

Miguel Torga discursou ontem na Universidade de Coimbra num colóquio comemorativo da Abolição da Pena de Morte em Portugal. Não li a comunicação e ignoro até se os jornais a publicam na íntegra.
Oxalá Torga, com a costumada coragem dos escritores que aceitam essas missões, não se tenha esquecido de protestar contra o que hoje tanto nos desonra diante de nós mesmos: as medidas de segurança e as torturas policiais.
Sem isso para que serviria o discurso? Para dourar um momento?
Não se pode ser nada, quando o solo debaixo dos pés é um coágulo informe sorvido por outros corpos sociais dominantes de que os que governam são apenas lacaios.