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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

APONTAMENTO PARA UM EXERCÍCIO SOBRE STRAVINSKY


Tudo.

Ser tudo,
igual e diferente,
águia empalhada com bicos de veludo.

Desejo de voltar para trás,
repetir pó novo nas pegadas mortas,
Proteu dos tempos,
sempre o mesmo pêndulo de arame no coração,
sexo do princípio do mundo,
valsas nos serões de fantasmas dos palácios velhos,
tragédias gregas em latim francês de Cocteau,
êmbolos de fábricas de coisa nenhuma,
suor matemático de Bach,
gosto de saltar de costas,
latas de vento a baterem no muro,
ranger de portas…

Saudades de não poder inventar o futuro.

José Gomes Ferreira em Poesia IV

Legenda: Igor Stravinsky

segunda-feira, 25 de março de 2019

NUNCA ENCONTREI UM PÁSSARO MORTO NA FLORESTA


Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.

Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas…

Os pássaros quando morrem
caem no céu.

José Gomes Ferreira de Melodia em Poesia I

sexta-feira, 1 de março de 2019

VEM HOJE UM CHEIRO TÃO BOM


Vem hoje um cheiro tão bom lá de fora do mundo!
Um cheiro a esponsais de primavera
com deusas de astros na fronte
e enlaces de folhas de hera
no cabelo voado…

(Ah! se eu encontrasse a ponte
Que vai para o outro lado!)

José Gomes Ferreira em Poesia III

domingo, 17 de fevereiro de 2019

É TÃO FÁCIL DIZER...


É tão fácil dizer que saem dos olhos das mulheres andorinhas verdes
ou chamar à lua a caveira voada da flâmula dum navio pirata!

Mas a poesia - onde está?

A poesia que transforma de repente a música em lâmina
para romper a noite até à solidão dos archotes
que escurecem mais e mais
este abismo absurdo
sem astros de céu vivo
onde as pedras apodrecem
e as andorinhas verdes não saem dos olhos das mulheres?

Mas a outra poesia - onde está?

Essa esperança convicta
de teimar na certeza do nada
com explicações
de papoilas
e esqueletos a abraçarem-se
no amor final já sem sentido de bandeiras?

Sim. Onde está?

Que palavra abre
para além da luz secreta
que os dedos dos mortos acendem no perfume das flores?

Sim. Onde está?

- Poesia de rasgar pedras.
Poesia da solidão vencida.
Poesia das pombas assassinadas.
Poesia dos homens sem morte.

José Gomes Ferreira em Poesia III

quarta-feira, 6 de junho de 2018

COLECCIONADOR DE OLHOS


Coleccionador de olhos
-trago os bolsos cheios
de imagens esmagadas,
lágrimas incompletas,
desdéns já moles
e olhos verdes, azuis, castanhos, negros, berlindes,
bugalhos de fogueiras
-que oxalá não me incendeiem as algibeiras!

Faltam-me os teus

Mas quando ia apanhá-los,
voaram-te das órbitas
com duas asinhas pretas
a saltarem de mesa em mesa ...

Ah! Se eu tivesse trazido a minha rede de caçar
borboletas!

José Gomes Ferreira em Poesia III

sexta-feira, 16 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Antologia Poética

José Gomes Ferreira
Organização e Prefácio: Casimiro de Brito
Capa: Dorindo Carvalho
Colecção Antologias nº 1
Diabril, Lisboa, Novembro de 1975


Toda a gente me inveja
porque ando contigo nos braços…

Tu que pareces um perfume desenhado de mulher
vestida de pólen
e dois olhos que são dois instrumentos modernos
a auxiliarem a melodia do jazz…

Tu que rodopias, leve,
no desdobrar de seda
que paira neste vento de música
que só as pétalas entendem…

Tu que…
            (Ah! tu que me pesas nos braços
como se trouxesses um esqueleto de lágrimas
e uma bola de metal no coração
ferrugenta do meu remorso.)

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ACASO DE PALAVRAS E DE SOMBRAS


Acaso de palavras e de sombras,
de flores e de cismas
no desenlace do crepúsculo…

É de ti que sobe esta melodia
que me funde o coração
no entardecer de morcegos
da terra sem destino…

É do teu desarrumo
misturado de estrelas
que sobe esta canção
que me deixa nos olhos
dedadas de lágrimas…

Ah! e que me importa não compreender o mundo
se esta melodia
une no seu silêncio
a desesperança de tudo?

José Gomes Ferreira em Poesia II

Legenda: imagem Pinterest

terça-feira, 31 de outubro de 2017

RELACIONADOS


Contracapa de Recomeço Límpido.
O poema de José Gomes Ferreira é retirado de Poesia VI.
Refere o episódio do assalto ao paquete Santa Maria. Com estas palavras José Gomes Ferreira situa o episódio:
«O Galvão apoderou-se do paquete «Santa Maria». Baptizado de «Santa Liberdade» vagueia agora pelos mares numa missão de propaganda contra este Pedregal de Grilhetas.»

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

PORQUE É QUE ESTE SONHO ABSURDO


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!


Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.

José Gomes Ferreira em Poesia II

quarta-feira, 22 de junho de 2016

SER VELHO É UMA INJUSTIÇA


A medicina conseguiu que cada vez mais se prolongue as nossas vidas.

Mas a maioria dos idosos vive ao abandono, outros permanecem em hospitais a guardar que alguém os vá buscar.

Não são conhecidos registos de condenação por crimes contra idosos.

Os velhos enfrentam o azar de serem velhos.

São um estorvo.

A GNR identificou 43.322 idosos a viver sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade, um número que quase triplicou desde 2011, ano em que foi realizada a primeira operação "Censos Sénior".

Os cerca de 300 militares da GNR envolvidos na operação "Censos Sénior 2016", que decorreu entre 01 e 30 de Abril em todo o país, fizeram também, pela primeira vez, o levantamento das pessoas portadoras de deficiência, tendo sinalizado 600 pessoas.

Das 600 pessoas sinalizadas, 166 vivem sozinhas, 38 residem em locais isolados, 33 vivem sozinhas e isoladas. As restantes 363 situações não se enquadram nestas situações.

Os dados mostram que, entre 2015 e 2016, quase triplicaram (174%) as situações de idosos que foram sinalizados e reencaminhados para as entidades competentes, sobretudo de apoio social, para fazer o seu acompanhamento futuro.

Manhã de Chuva

Velhice… Sabor a desencanto
em que uns riem, muitos choram, outros vão à missa.
Eu ainda não, claro.

                                 Por enquanto
sinto apenas que ser velho é uma injustiça.

Paciência! Assim está escrito.
E agora espreito para a rua em que das árvores chovem
invernos  de folhas mortas… pingos de luz.

E eu aqui mais uma vez pronto a cumprir o rito
de fingir de jovem.

José Gomes Ferreira em A Poesia Continua

Legenda: fotografia de Herbert Maeder

domingo, 1 de maio de 2016

O MEU PRIMEIRO DE MAIO


Sozinho, sempre sozinho,
mesmo quando vou a teu lado.

De ti que constróis o rumor das cidades
e no campo, semeias, lavras,
e pisas
o sabor do vinho.

Sozinho, sempre sozinho.
aqui  vou a teu aldo
eu, o poeta, operário de palavras
- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -
instrumentos de pureza irreal
que tornam a Realidade
ainda mais real
e transformam os bairros de lata
em futuras cidades de cristal
num planeta de paisagens de prata
onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,
da brancura do linho
e das foices de gume doirado
cantarão um dia connosco a Internacional
- que eu continuarei a cantar sozinho,
sempre sozinho,
a  teu lado.

José Gomes Ferreira em O Diário, s/d


quarta-feira, 27 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Poesia Continua
Velas e Novas Circunstâncias

José Gomes Ferreira
Capa: Vitorino Martins
Obras Completas de José Gomes Ferreira nº 15
Moraes Editores, Lisboa, Maio de 1981

E foi para esta farsa
que se fez a revolução de Abril, capitães,
ao som das canções de Lopes-Graça? 

Foi para voltar à fúria dos cães,
ao suor triste das ceifeiras nas searas,
as espingardas que matam os filhos as mães
num arder de lágrimas na cara?

E, no entanto,
no princípio, todos ouvíamos uma Voz
a dizer-nos que a nossa terra poderia tornar-se num pomar
de misteriosos pomos. 

E nós,
todos nós, chegámos a pensar
que éramos maiores do que somos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

XLVI


                                          (Finjo que não vejo as mulheres que passam,
                                           mas  vejo)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...

E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonâmbulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.

José Gomes Ferreira em Poesia III

Legenda: pintura de Pablo Picasso

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

LÁPIDE


Mozart morreu. E no meio da tempestade
de neve e abandono,
dois gatos-pingados
de rendas de luto
e vénias de minuete
lançaram o caixão
na vala comum,
a assobiar.
Todo o planeta
passou a ser a cova viva de Mozart.

José Gomes Ferreira, Poesia IV, Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1970

quinta-feira, 5 de junho de 2014

FALLA

Um anjo cigano
inventou um instrumento novo
- viola de sol e nevoeiro
com cordas de nervos de touro.

Para o tocar
é preciso ouvir missa primeiro.

José Gomes Ferreira, Poesia IV, Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1970


Dança do Fofo de Manuel de Falla

sábado, 31 de maio de 2014

E FOI PARA ESTA FARSA...


E foi para esta farsa 
que se fez a revolução de Abril, capitães,
ao som das canções de Lopes-Graça?
Foi para voltar à fúria dos cães,
ao suor triste das ceifeiras nas searas,
as espingardas que matam os filhos as mães
num arder de lágrimas na cara?
E, no entanto,
no princípio, todos ouvíamos uma Voz
a dizer-nos que a nossa terra poderia tornar-se num pomar
de misteriosos pomos.
E nós,
todos nós, chegámos a pensar
que éramos maiores do que somos.


José Gomes Ferreira em A Poesia Continua.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

NUNCA USEI RELÓGIO. O TEMPO NUNCA COUBE NUM RELÓGIO


As grandes descobertas
surgem
com a naturalidade de continuarem incertas
— ilhas  sólidas no nevoeiro.

Por exemplo:
o tempo sou eu.
Apenas eu.
Uma espécie de relógio
com pele.
pés doridos do gelo.
a mão que empurrou a porta.
acendeu a luz eléctrica.
lançou lenha na fornalha
—  e agora aqui estou estendido no divã
à espera de quê?

Dos passos que nunca ouvi
instantes de outro tempo
sem manhã
nas cinzas do relógio em ti.

José Gomes Ferreira em Poesia VI, Diabril Editora, Fevereiro de 1976

domingo, 23 de março de 2014

OLHAR AS CAPAS


Poesia VI

José Gomes Ferreira
Capa: Dorindo de carvalho
Diabril Editora, Lisboa, Fevereiro de 1976

                                       (Em frente construía-se um prédio. Hora do
                                        Almoço dos operários.)

De ouvido na terra, o homem dorme a sesta
perto  da fogueira do almoço sob a cal do andaime.
Escuta outra labareda longe, talvez onde se ocultam
os  sonhos dos alçapões dos dias.

Crepita devagar na cal da Terra
que constrói as cidades e devora os segredos dos mortos e das minas

Então começou a chover de propósito para apagar a fogueira do almoço

enquanto o terror do lume subterrâneo se aproxima.

Não durmas, homem. Acorda!

Prepara-te para erguer um mundo de fogo

e não catedrais de cinza.

terça-feira, 18 de março de 2014

POR DISCIPLINA DE CEMITÉRIO


(Primeiro intervalo em S. Carlos. Sorrimos uns para os outros.
«Então como está?» «Há muito que não o via!»... Musgo. Teias de
aranha nos ouvidos. Fascismo de «smoking». Passo pelos
corredores escondido atrás de mim.)


Disseram-lhes
que estavam vivos
por disciplina de cemitério.
E todos acreditaram
já com os pés em ângulos rectos. 

Mas vivos que são?
Mortos incompletos.

José Gomes Ferreira, Poesia IV, Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1970

segunda-feira, 10 de março de 2014

OLHAR AS CAPAS


Poesia V

José Gomes Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa s/d

A palavra Revolução.

Encontrei-a anónima nos olhos os pobres,
nas barricadas dos livros,
no ódio à palavra guilhotina
— sim, havemos de arrombar as portas que só nós vemos nos muros.

A palavra Revolução.

Encontrei-a no salto fértil da morte para o sonho,
na manhã arrancada com mãos de sangue da noite,
na sensação de que tudo nos sai dos dedos
— até a dinamite do luar.


Encontrei-a
na esperança dos homens
a construírem novos segredos
com lágrimas e areia
— para a palavra Deus decifrar.