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terça-feira, 19 de maio de 2020

POSTAIS SEM SELO


Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei.

José Mário Branco

domingo, 22 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS

No findar do dia de hoje, fui no encalço de um muito velho recorte de um texto que o Mário Castrim deixou numa das suas críticas de televisão que, diariamente, publicava no Diário de Lisboa.

Contas muito por alto, Mário Castrim, enquanto crítico, passou 70 mil horas frente ao televisor.


Ainda morava frente à estação da Carris, perto do Calvário, trabalhava noite dentro, deixava a crítica no puxador da porta, ao lado do saco do pão, e era ali que o motorista do Diário de Lisboa ia busca-la às 7 da manhã.

José Mário Branco faz-nos hoje companhia: «Ser Solidário»



«Ser solidário assim p'ralém da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

De como aqui chegar não é mister
Contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção

Ser solidário, sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime

De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
No ventre das canções sabedoria

Ser solidário assim pr'além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

Ser solidário assim pr'além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

De como aqui chegar não é mister
Contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção

Ser solidário, sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime

De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
No ventre das canções sabedoria

Ser solidário assim pr'além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz»

1.

As autoridades portuguesas iniciaram uma operação de repatriamento de mais de 1300 passageiros que chegaram, este domingo, a Lisboa num navio de cruzeiro, dos quais 27 portugueses, no âmbito das medidas de combate à Covid-19.

2.

Um lar, numa terra junto a Vila Nova de Famalicã, tem 33 utentes, 18 trabalhadores. Destes, oito acusaram teste positivo de Covi-19. Os restantes encontram-se de quarentena.

3.

Covid-19 mata, em média, 33 italianos a cada hora que passa.

Não se realizam serviços funerários. São camiões militares que fazem o transporte dos corpos que ficam em regime de espera.

Em Itália há 59.138 pessoas infectados e já se registaram 5.476 mortes.

4,

Notícias provenientes de Madrid dão conta de que morre uma pessoa, vítima do Covi-19, de 15 em 15 minutos.

Os mais velhos estão a ser privados de acesso a ventiladores.

A Espanha regista 28.573 infectados e 1.725 mortos.

5.

Portugal regista 1.600 pessoas infectadas e 14 mortos.

Já se registaram 14.611 mortes em todo o mundo.

6.

De repente, as cidades tornaram-se desertas, tornaram-se cidades fantasmas, cidades invisíveis.


Italo Calvino escreveu As Cidades Invisíveis e guardou para o seu final estas palavras:

«Diz: - Tudo é inútil, se o último local de desembarque tiver de ser a cidade infernal, e é lá no fundo que, numa espiral cada vez mais apertada, nos chupar a corrente.

E Polo: - O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.»

sábado, 7 de dezembro de 2019

Ei-LOS QUE PARTEM!



… em 1963, José Mário Branco, chamado para a tropa, decide fugir para França. Conta Helena Pato que, para lá de uma muda de roupa e de algum dinheiro, levava apenas um livro: a Poesia III, de José Gomes Ferreira.

Luís Miguel Queirós no Público

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora

José Mário Branco em FMI

Legenda: pintura de Vilhelm Hammershoi

UMA GOTA NO OCEANO DO GRANDE CAMINHO


O funeral de José Mário Branco parte esta tarde, pelas 17,30 horas, do Salão Nobre da Voz do Operário para o cemitério do Alto de São João onde o corpo será cremado.

«Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.»
                                          
José Mário Branco em FMI

Legenda: pintura de Winslow Homer

AS VONTADES QUE ZÉ MÁRIO AJUDOU A MUDAR


Só alguém possuído de uma fina sensibilidade, decide colocar como faixa primeira do seu primeiro disco, o som da chegada de comboios na Gare d’Austerlitz, vozes, ranger de rodas nos carris, marcando vincadamente os que saíram de um país cinzento em busca de qualquer pedacinho de sol.

Havia também os que, a monte, saltavam fronteiras correndo todos os perigos.

Muitos encontraram a morte.

Miguel Torga, no seu Diário, lembra o aviltamento humano desses portugueses que se aventuraram e, na maior parte dos casos ficavam nas mãos de gente sem escrúpulos.
 
«- Entregas-me as peles em Moiros.
- A que horas?
-Às onze”»

As «peles», adianta Torga, eram os emigrantes clandestinos. 

Este álbum de José Mário Branco, é uma peça admirável.

Nas badanas do disco, escreveu José Duarte:
 
«primeiro em afirmações definitivas
num jornal cor de rosa
depois em cantigas do amigo dom dinis
a seguir com canções
em circuito concêntrico
por fim numa esplanada de paris
assim conheci josé mário branco
estamos perante um mural sonoro
do Portugal das últimas gerações
um mural onde as cores
são a mordacidade a caricatura
uma simbologia transparente
com tipos populares uma grande romaria
viva e em movimento
um mural onde os temas são a emigração
e o regresso
as guerras e os senhores
a juventude e as prendas
a esperança sem futuro
o medo e os fantasmas
o tempo e as novidade
tal como em perfilados de medo
a linha quebrada de sons electrónicos
é uma interferência uma ameaça
na arquitectura vertical e obstinada
do arranjo do medo
assim esta obra combate uma tradição
onde a palavra é o som mais inteligível
assim se encerra a fase confusa
da nova música portuguesa
assim se inaugura uma época nova
onde também cantar bem e compor melhor
serão condições a exigir a canção útil
da afinação da palavra
à desafinação das cordas
à percussão das peles e teclas
à imaginação nos arranjos
à criação melódica à vocalização justa
aqui o circo foi desmantelado
com todas as ferramentas do som»


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Capa do Público de 20 de Novembro de 2019.

Como o Vitor Dias  costuma dizer:

«Coisas em que o «Público» dá cartas.»

SER SOLIDÁRIO


Ser solidário assim pr'além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

De como aqui chegar não é mister
Contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção

Ser solidário, sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime

De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
No ventre das canções sabedoria

Ser solidário assim pr'além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

José Mário Branco

Legenda: fotografia de Alma Lavenson

terça-feira, 19 de novembro de 2019

JOSÉ MÁRIO BRANCO (1942-2019)


Morreu o José Mário Branco.

Há palavras para falar desta morte?

O João César Monteiro, que arrancou daqui com um cigarro na beiça e sem dever nada a ninguém, deixou escrito que a morte é silenciosa e nada tinha a dizer sobre o assunto.



A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro…

domingo, 9 de setembro de 2018

ETECETERA


Na passada sexta-feira abriu, nos jardins do Palácio de Cristal, a Feira do Livro de Porto que fechará stands no dia 23 de Setembro.

Nas muitas iniciativas dos organizadores da feira, consta a atribuição da Tília  que este ano homenageia José Mário Branco, um dos maiores nomes da Música Portuguesa.

José Mário Branco junta-se, como recebedor da tília, a Mário Cláudio, Vasco Graça-Moura, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner Andresen.

José Mário Branco editou recentemente um duplo álbum de inéditos, datados de 1967 a 1999, quebrando um silêncio de vários anos.


ZECA

À boleia de José Mário Branco cabe trazer o registo de um triste episódio em que se viu envolvido o nome de José Afonso.

A incontrolável vaidade pessoal de José Jorge Letria, músico e cantor menor e hoje presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, levou-o a declarar o compromisso de que os restos mortais de José Afonso deveriam ser transladados para o Panteão Nacional :

«É este o tributo e é esta homenagem que Portugal deve a quem como mais ninguém o soube cantar em nome dos valores da liberdade, da democracia, da cultura e da cidadania», lê-se no comunicado. Assumimdo a Sociedade Portuuesa de Autores assume publicamente o compromisso de lutar por este legítimo e inadiável ato de consagração que deverá coincidir com os 90 anos do nascimento [de José Afonso] e com os 45 anos do 25 de Abril.»

José Jorge Letra gosta de dizer que andou de braço dado com o Zeca mas, se verdade isso é, podemos dizer que não aprendeu NADA!

De imediato, os herdeiros de José Afonso, que ficaram surpreendidos com a proposta, rejeitaram a transladação dos restos mortais de José Afonso para o Panteão Nacional:

«José Afonso rejeitou em vida as condecorações oficiais que lhe haviam sido propostas. Foi, a seu pedido, enterrado em campa rasa e sem cerimónias oficiais, em total coerência com a sua vida e pensamento. Por isso, apesar da meritória intenção que inspira a proposta, é a sua vontade que deve ser respeitada.»

SLB


Sabe-se que o mundo do futebol é uma podridão generalizada.

Razão tinha o escritor Mário de Carvalho quando, há longo tempo, disse numa entrevista que «a maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola e meter na cadeia essa pardalada.»

José Pacheco Pereira no Público:

«O interessante e pouco surpreendente exercício de contenção de danos que sucessões de adeptos do Benfica, célebres, consagrados, eminentes juristas, e homens que só eles sabem quem são, fazem, com a cumplicidade activa da comunicação social reduzida a esta miséria, tem como objectivo dizer que, se houve ilegalidades, elas foram de um homem ou dois e não atingem o clube, nem essa coisa contraditória nos seus termos, chamada a “verdade desportiva”. Isto porque uma das sanções previstas, em absoluta teoria e em absoluta impossibilidade prática, inclui a proibição do clube jogar por uns meses e anos, ou ser despromovido para uma divisão inferior. A tese é que nenhum jogo foi ganho ou perdido, a célebre “verdade desportiva”, por causa de uma malfeitoria de espionagem ilegal ao sistema judicial e a várias bases de dados públicas, para obter informações sobre processos judiciais e dados sobre árbitros.
A questão é muito simples: na história da corrupção em Portugal há quatro componentes, três de cima, e uma de baixo. Completam-se como peças de um jogo, neste caso o jogo do nosso atávico atraso nacional. Nacional, português, nosso, que todos nós pagamos para alguns receberem. As três de cima são as dos grandes: a corrupção na política, nos negócios e no futebol, profundamente interligadas. A de baixo, é a pequena corrupção do dia a dia, que os portugueses praticam como quem respira e que, entre outras coisas, gera o pano de fundo para toda a corrupção, nem que seja pela fragilíssima condenação de ilegalidades quando são parecidas com as que os de baixo praticam. São tudo valentões contra a corrupção, no café e nas caixas de comentários e Facebooks, mas depois, como se vê no futebol, fecham os olhos tão forte que até dói.»

A FECHAR

«Lembrei-me de pedir a João Semedo que me contasse como tinha ido viver para o porto. Ele sorriu com a pergunta, deve ter coçado a cabeça no seu gesto típico e a resposta foi algo como: “o Partido precisava de gente no Porto” –m o Partido era então, o PCP – “e eu fui para o Porto”. Não havia na sua voz qualquer laivo de distanciamento em relação às razões dessa decisão, pelo contrário. João Semedo tornou-se profundamente um portuense e um homem que vivia a cidade do porto. Ter ido para o porto por militância partidária e cívica – uma coisa que hoje não se faz e quase ninguém imaginaria fazer – era provavelmente para ele a melhor razão para se ter tornado portuense».

Rui Tavares, artigo na morte de João Semedo, publicado no Público.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Ser solidário, assim pr’além da vida, por dentro da distância percorrida, fazer de cada perda uma raiz e improvavelmente ser feliz.

José Mário Branco

sábado, 27 de maio de 2017

QUOTIDIANOS


E onde é que nós íamos mesmo na conversa? Ah, é verdade! No mudar de vida, na prevenção de que, agora, como na canção que já soube de cor. «há sempre qualquer coisa que está para acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber…»

João Gobern em Boca Doce

quinta-feira, 21 de abril de 2016

ABRIL


Abril.

Margem de Certa Maneira

Eh Companheiro!
Música de José Mário Branco
Letra de Sérgio Godinho



Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
Estas paredes me tolhem
os passos que quero dar
uma é feita de granito
não se pode rebentar
outra de vidro rachado
p'ras duas pernas cortar

Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Só tem medo desses muros
quem tem muros no pensar
todos sabemos do pássaro
cá dentro a qu'rer voar
se o pensamento for livre
todos vamos libertar

Eh! Companheiro eu falo
eu falo do coração
Já me acostumei à cor
desta negra solidão
já o preto que vai bem
já o branco ainda não
não sei quando vem o vento
pra me levar de avião

Eh! Companheiro respondo
respondo do coração
ser sozinho não é sina
nem de rato de porão
faz também soprar o vento
não esperes o tufão
põe sementes do teu peito
nos bolsos do teu irmão

Eh! Companheiro vou falar
vou falar do meu parecer
Vira o vento muda a sorte
toda a vida ouvi dizer
soprou muita ventania
não vi a sorte crescer
meu destino e sempre o mesmo
desde moço até morrer

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou p'ra responder
Sorte assim não cresce a toa
como urtiga por colher
cresce nas vinhas do povo
leva tempo a amadur'cer
quando mudar seu destino
está ao alcance de um viver

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
De toda a parte me chamam
não sei p'ra onde me virar
uns que trazem fechadura
com portas para espreitar
outros que em nome da paz
não me deixam nem olhar

Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Portas assim foram feitas
p'ra se abrir de par em par
não confundas duas coisas
cada paz em seu lugar
pela paz que nos recusam
muito temos de lutar.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

ABRIL


Outra vez Abril
Já lá vão 42 anos.
Parece que foi ontem.
E tanta coisa aconteceu.
Por este mês, vou mostrar algumas capas dos discos que, aqui pela casa, eram tocadas antes da sonhada madrugada.
25 de Abril sempre!


Lado 1

Abertura – Gare d’Austerlitz - Cantiga para pedir dois tostões - Cantiga do Fogo e da Guerra - O Charlatão – Queixa das Jovens Almas Censuradas

Lado 2

Nevoeiro  – Mariazinha – Casa Comigo Marta  – Perfilados de Medo – Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Queixa das Jovens Almas Censuradas

Poema de Natália Correia
Música de José Mário Branco


Queixa das Almas Jovens Censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céul
evado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Encontrei este anúncio dentro do Alta Fidelidade do Nick Hornby.
As coisas que um gajo vai guardando.
Não faço a mínima ideia do que seja Soupirs d'Amour.
Nunca vi nenhuma.
Mas tem uma certa piada venderem-se cassettes para ouvir em reuniões de amigos e para dar cabo de noites solitárias.
O que se inventa!
O recorte é do Jornal Novo de 24 de Novembro de 1975, véspera do tal dia que matou os sonhos a muita gente - houve alguém que se enganou tal como canta o Zé Mário Branco


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

ESTRAGARAM A TUA FESTA, PÁ!


Eu Vim de Longe, Eu Vou Pr'a Longe

Letra e Música de José Mário Branco

Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de maio começou
Eu olhei para ti
Então eu entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha n´outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p´ra´qui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p´ra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não exitei
E os hinos cantei
Foram frutos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

Quando a nossa festa s´estragou
E o mês de novembro se vingou
Eu olhei p´ra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi p´ra esta força que apontou

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

QUANDO NÃO HÁ NADA A PERDER...


Sobre a vitória do Siryza na Grécia, lembrei-me de dois versos da Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos do álbum Os Sobreviventes (1971) do Sérgio Godinho:

                                        como um rio de fúria no peito feito tormenta 
                                        quando não há nada a perder no que se tenta?

A letra é de Sérgio Godinho, a música de José Mário Branco.

Ai o meu pobre filho, que rico que é 
ai o meu rico filho, que pobre que é
Nascidos do mesmo ventre
Um vive de joelhos pró outro passar à frente
E esta velha mãe para aqui já no sol poente
Um dia há muito tempo, vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
Seguiram pela estrada fora
Um voltou-se para trás, disse adeus que me vou embora
Voltaremos trazendo connosco a vitória
De que vitória falas, disse eu então
Da que faz um escravo do teu irmão?
Ou duma outra que rebenta
como um rio de fúria no peito feito tormenta
quando não há nada a perder no que se tenta?
Passaram muitos anos sem mais saber
nem por onde passavam, nem se por ter
criado os dois no mesmo chão
eram ainda irmãos, partilhavam ainda o pão
E o silêncio enchia de morte o meu coração
Depois vieram novas que o que vivia
da miséria do outro, se enriquecia
Não foi para isto que andei
dias que foram longos e noites que não contei
a lutar pra ter a justiça como lei
Às vezes rogo pragas de os ver assim
Sinto assim uma faca dentro de mim
Sei que estou velha e doente
Mas para ver o mundo girar de modo diferente
Ainda sei gritar, e arreganhar o dente
Estou quase a ir embora, mas deixo aqui
duas palavras pra um filho que perdi
Não quero dar-te conselhos

Mas se é teu próprio irmão que te faz viver de joelhos
Doa a quem doer, faz o que tens a fazer




Tanto o Sérgio como o Zé Mário interpretam a Cantiga da Velha Mãe e dos seus Dois Filhos.

Tentei as duas versões, mas só encontrei a do José Mário Branco que faz parte do álbum Margem de Certa Maneira (1972).


domingo, 14 de setembro de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO


Por dever patriótico, aceitaram a missão de administrarem o Banco Novo oriundo do Banco Mau.

Não fica claro porque, em escassos dias, o patriotismo se esvai, e batem com a porta.

Gostaríamos de salientar que não saímos em conflito com ninguém, mas apenas porque as circunstâncias alteraram profundamente a natureza do desafio com base no qual aceitáramos esta missão em meados de Julho.

 Como diria o Zé Mário Branco, houve aqui alguém que se enganou.

O que torto nasce, tarde ou cedo se endireita, diz a populaça, essa rapaziada-suspeita-do-costume, que - mais uma vez! - irá pagar a factura ocasionada pelos disparates, as incompetências, os oportunismos das mais diversas, e  importantes gentes do reino.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

AUTO DE BUSCA E APREENSÃO



DIRECÇÂO GERAL DE SEGURANÇA

AUTO DE BUSCA E APREENSÃO


Aos sete dias do mês de Fevereiro do ano de mil novecentos e setenta e três, nesta Discoteca “SASSETTI e Companhia Limitada”, sita na Avenida Visconde de Valmor, número vinte. Letra B, desta cidade de Lisboa, estando presente o agente Manuel Garrido Ribeiro, comigo António Joaquim Gomes da Rocha, agente servindo de escrivão, ambos da Direcção-Gereal de Segurança e acompanhados da legal representante da referida discoteca, Maria Isabel de Oliveira Rodrigues de Sousa, em cumprimento de ordem superior, foi feira uma busca a fim de apreender livros, documentos, valores ou objectos de interesse para matéria de autos.
E. finda ela, foi encontrado o seguinte: seis exemplares do disco intitulado “ATÉ AO PESCOÇO”, da autoria de José Jorge Letria: três exemplares do disco intitulado “CHANTS DE LA REVOLUTION CUBAINE”, três exemplares do disco intitulado “MARGEM DE CERTA MANEIRA”, da autoria de José Mário Branco; e três exemplares do disco intitulado “LENINE ET LES CHANSONS”, os quais foram apreendidos e transportados para a sede da Direcção-Geral de Segurança.
E para constar se lavrou o presente auto, que depois de lido em voz alta todos acharam conforme, ratificaram e vão assinar comigo agente servindo de escrivão que o manuscrevi.

Manuel Garrido Ribeiro
Maria Isabel de Oliveira Rodrigues de Sousa
António Joaquim Gomes da Rocha

Em A Política de Informação no Regime Fascista, Comissão do Livro Negro sobre o fascismo, Lisboa Abril 1980.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

MORTO E ENTERRADO!



Há uma canção do José Mário Branco, Nevoeiro, do seu álbum Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades, que no final diz assim:

Voltou no seu veleiro
nevoeiro
leme nem gageiro
num lençol amortalhado
Vou ao cais do terreiro
nevoeiro
pra ficar bem certeiro
 de que é morto e enterrado.

Assim foi.
Américo Tomás morreu no dia 18 de Setembro de 1987 e foi enterrado na manhã do dia seguinte.

Morto e enterrado.

Alfredo Barroso:

Por uma vez, ele que tanto gostava de "coincidências felizes", foi vítima de uma coincidência infeliz. Salazar designara-o candidato da União Nacional no dia 25 de Abril de 1958, durante uma reunião do seu habitual "conselho privado". Exactamente 16 anos depois, o dia 25 de Abril foi-lhe aziago. Exilado no Brasil durante quatro anos Pôde regressar a Portugal em 1978. Morreu em Lisboa, com 92 anos, 13 anos depois do 25 de Abril. Nas suas memórias escreveu, sem o saber o melhor epitáfio: Falhei sem dúvida no sábio conceito que afirma ser a palavra de prata e o silêncio de ouro"!