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terça-feira, 26 de maio de 2020

ATÉ ESSE MOMENTO



Lembrarás então o pai aqui sentado
A máquina de escrever no chão
Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos
Farás promessas que não vais cumprir
E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho
Iluminado pela luz do teu olhar
À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado
Um gelado presente do indicativo
E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio
Será talvez a memória das noites
O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir
Nos desenhos (nos cadernos escolares)
Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado
Não como pai mas como anónima pessoa
Surpresa a esperar no céu do outono

Terás nas tuas mãos um retrato
O voo das aves por cima da casa
Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos
Num momento ou talvez num lugar
Na tua idade como um portão aberto

José do Carmo Francisco

domingo, 27 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Desporto na Poesia Portuguesa

Pesquisa, selecção e notas: José do Carmo Francisco
Capa: António Carmo
Edição do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, Lisboa, Dezembro de 1989

Lamento dum Coração Espectador

Via primeiro num campo de pó – era o jogo
Tardes inteiras entre o rio e a estrada
As camisolas mesmo no Inverno eram fogo
Aos domingos os jogos eram «tudo ou nada».

Via depois num campo rodeado só de casas
Perto de fábricas numa vila da periferia
Pássaro pesado sem grande peso nas asas
Fugia da escola – para jogar na alegria.

Apanhado no preço do bilhete do «peão»
Finalmente viu o jogo num estádio relvado
Os olhos no campo – sem olhar a multidão
O regresso a casa como se fosse cansado.

Só lamenta agora que cada vez mais leis
Procurem marcar os golos judicialmente
Num futebol sem relva – só com papéis
Nos gabinetes longe do coração da gente.

Poema de José do Carmo Francisco

terça-feira, 9 de abril de 2019

BELÉM/PORTO BRANDÃO


Nas pequenas viagens pode haver a saudade das grandes rotas.
Sombras, soldados, frades, caravelas perdidas, um império.
Ao fim da tarde jovens de calções enchem o barco, trazem ruidosos leitores de cassetes, quase não falam, beijam-se para que todos saibam.
Transportam o sal do mar e vão chegar a casa muito tarde.
Alguém cuidará do jantar. Há, pelo menos essa certeza.

José do Carmo Francisco em Transporte Sentimental

sábado, 9 de junho de 2018

ELEVADOR DA GLÓRIA


Na mais profunda das confusões
Nas vozes alteradas dos turistas
A pedirem desculpa dos empurrões
Aos vulgares passageiros, aos jornalistas

A quem todos os dias te percorre
Quase sem dar pelo ângulo da subida
E em cada viagem também morre
Ou (pelo menos) deixa um pouco de vida

Às crianças com três anos de idade
Na voz hesitante dos seus pais
Perdida entre o apelo da verdade
E os gostos da poupança, naturais

A todos que comigo viajaram
E posso ter como testemunhas
E este fado comigo cantaram
Numa guitarra velha como as unhas

A todos direi; tomem nota por favor:
não há lugares sentados neste elevador.

José do Carmo Francisco em Transporte Sentimental

quarta-feira, 21 de março de 2018

GRAÇA/PRAZERES


Por aqui vivi outras manhãs
a caminho dum emprego pontual
arrepiado à porta da PIDE
duas vezes por dia todos os dias.

Mesmo ao domingo por aqui passava ou
para o cinema para o futebol
havia uma linha pela Rua Augusta
e ia até ao Rossio – só ao domingo.

Assembleias gerais na Voz do Operário
Alguns mortos queridos nos Prazeres
Eu próprio que morri aos poucos nesta linha
E até Fernando Pessoa tem uma paragem
porque a aldeia dos sinos da minha aldeia
é aqui e não como eu vi nos livros escolares
uma aldeia vulgar como o romantismo queria.

José do Carmo Francisco em Transporte Sentimental

Legenda: fotografia de Robert Blombáck

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Transporte Sentimental

José do Carmo Francisco
Capa: Ernesto Matos
Edição Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa 1999

Numa das curvas, a casa de Filomena: pequena concha para esta ostra humana
que me coube em sorte nas aulas de Inglês.
Trouxe de Londres um belo disco de Ian Mathews, não quis receber dinheiro
e não deu tempo para dizer obrigado.
Ainda hoje te procuro neste eléctrico; demorada viagem ao paraíso perdido
do teu interminável puzzle.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

PARA OS MEUS ALUNOS


Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos actos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,

gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,

saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vosso rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.

Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.
E os vosso rostos todos
hão-de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.

Victor Matos e Sá em Trabalho, antologia poética organizada por Armando Cerqueira, Joaquim Pessoa, José do carmo Francisco Edição do Sindicato dos Bancários, Lisboa s/d