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domingo, 1 de novembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


- Bem me disseram que na sedução é tudo uma questão de distância. Disseram-me que se deve traçar um círculo imaginário à volta de quem se pretende, e que nesse círculo a pessoa não deve entrar até que o outro quebre o círculo. Cinco passos de raio…
- Cinco, uma distância tão grande?
- Quatro – disse eu, Seis – disse quem me aconselhava.

Lídia Jorge em A Maçon

Legenda: pintura de Pierre-Auguste Renoir

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

OPUS NIGHT


Opus Dei?
Antes Opus Night que, por sinal, é um personagem dos contos de A Cavalo no Diabo do José Cardoso Pires
Gente que, eternamente, não se enxerga.
Esta gente vive nas trevas seculares.
Nem o reino dos céus os aguarda!
O texto encontrei-o no Horas Extraordinárias de Maria Rosário Pedreira:

A Idade Média já foi, mas parece que deixou rasto até hoje. Leio num jornal que existe um novo Index, uma lista negra de livros e autores banidos pela Opus Dei, que proíbe terminantemente os seus membros de os ler. Entre eles, está, evidentemente, Saramago e os seus Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim; mas, se pensava que eram só os livros que de algum modo provocam a Igreja católica a estar no rol, desengane-se, porque são mais de 30 000 os títulos dele constantes – e alguns são de pasmar, como O Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge. A Sociedade Portuguesa de Autores já repudiou a lista, no que ela tem de atentado à liberdade de expressão, e o mesmo fizeram os autores visados que acharam que a Opus Dei devia ter vergonha de nomear livros para a fogueira no século XXI. Porém, os especialistas em Direito defendem que, do ponto de vista legal, a lista é inatacável e que, por isso, o Estado não pode aplicar sanções. Mas imagine-se que a organização proibia os seus membros de ler Os Maias, que faz parte das metas curriculares e é de leitura obrigatória pelos alunos. Os jovens filhos de membros da Opus Dei prefeririam chumbar a desobedecer aos pais? Está tudo louco, digo eu.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


O Dia dos Prodígios

Lídia Jorge
Publicações Europa-América, Lisboa, Março de 1980

- Uma manhã. Oh, já o meu avô desse meu avô não saía a lavrar, nem a ver lavrar. E já a sua mulher dormia o grande sono.
Apareceu por aqui um soldado muito garbosos, de grandes bigodes, caindo de lado, assim como uma folha de parreira. Mais do que assim. Na cabeça um chapéu de penacho enfiado, e a dizer que vinha buscar o meu avô, Calcula, Esperancinha. Para ser julgado e castigado, porque tinha fundado uma povoação sem alvará real. Sem al va rá. Sabes o que fez o meu avô, Esperancinha? Quando percebeu que o soldado do cavalo vinha pedir contas por coisas passadas quarenta nos atrás? Olha Esperancinha. Alevantou-se da cadeira, assim, e disse que nunca tinha visto semelhante rei nas redondezas, e a existir, que nunca lhe tinha dado nada. Antes tirado. Dar? Nem a pontinha de um corno. Por isso, que se era rei, que reinasse na terra onde morava. Esse meu passado deveria ter sido o maior de toda a geração. Disse que ele próprio só tinha voz activa sobre as coisas e os lugares mantidos pela cavação dos seus braços. E dos bracinhos da sua gente. Vê tu. Oh Esperancinha.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Não há livro de instruções para salvar a vida: só a literatura se aproxima desse imenso livro.
Lídia Jorge
Legenda: pintura de Van Gogh.

domingo, 18 de maio de 2014

POSTAIS SEM SELO


Era assim também que terminava aquela segunda-feira, oito de Março, o dia em que fomos visitar o advogado Ernesto Salamida. Mais tarde eu haveria de saber que o acaso também envia mensagens, mas a maior parte das vezes são cifradas.

Lídia Jorge em Os Memoráveis.

terça-feira, 29 de abril de 2014

OLHAR AS CAPAS


Os Memoráveis

Lídia Jorge
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2014

O cavaleiro fez um breve hiato no seu depoimento que tinha fatalmente de ser muito rápido, tendo em conta que não dispunha de mais do que de cinco minutos- Disse - «Ah! Deixem-me pensar. O momento mais importante?» El Campeador continuava a pensar - «Arnoldo, já lhe disse, segure bem esse animal. Pois eu estou aqui a pensar que o momento mais importante, aquele que mais esperanças me deu de que a revolução tinha pernas para andar, foi aquele que se seguiu à passagem do poder a um general que usava um caco de vidro no olho direito. Esse general, durante toda a noite e manhã do dia vinte e cinco, tinha ficado a fingir-se de morto, enfiado em casa, à espera do desenlace, para ver para onde caíam as cartas, mas duas horas depois de lhe termos passado o comando, ainda nem nos tinha visto o rosto, e logo ali começou a inaugurar o período do desmame revolucionário. O general fixava cada um de nós através daquela lente de vidro, como se a lente fosse um periscópio, e mandava apontar nomes e actos, dizendo que era sua intenção distribuir prebendas a quem tinha feito o golpe de Estado. Mas um de nós avançou e disse. Não queremos recompensa nenhuma. Não foi para isso, senhor general, que arriscámos as nossas vidas. Não queremos nada para nós. Este é um princípio sagrado. E tome cuidado connosco, general. Olhe que este dia ainda não terminou, a revolução ainda está na rua, os tanques ainda não regressaram aos quartéis, e os rapazes que têm as armas só vão precisar de dormir lá para o mês que vem. Falou assim quem estava ao meu lado. E pensando bem, esse foi o melhor momento daquela longa noite e daquele longo dia, aquele que justifica que amanhã eu possa dizer, durante as filmagens para O Herói do Mar, que passados trinta anos ainda existem tanques no meio da rua à espera do que possa acontecer. Basta um assobio no escuro, e zut…»

sábado, 16 de novembro de 2013

SARAMAGUEANDO


Colóquio no Centro Nacional de Cultura. Fizemos – a Lidia Jorge, o Cardoso Pires e eu – o melhor que sabíamos e podíamos, mas o público não quis ajudar: poucas perguntas, e nenhuma com interesse. Em certa altura faltou a luz, tiveram de acender velas. No fim, fomos jantar à Bénard: um bom jantar e uma conversa ainda melhor. Para não variar, quando nos despedimos, perguntámos uns aos outros: «Por que é que não nos vemos mais vezes.

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Vol. I

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

KAÚLZA E O PSEUDO MASSACRE


Em 1992, numa entrevista ao Dia, confrontado com o massacre de Wiryamu, Kaúlza de Arriaga, que na altura era comandante-chefe das Forças Armadas em Moçambique, afirmou que o massacre não passara de uma invenção, um «pseudo massacre».

O grave disto tudo é que os erros e os enganos, e as falsidades são feitos com a intenção de envolver pessoas que nada têm a ver com o caso num escndalo, num crime de genocídio. A ideia é essa. São, portanto, mentiras dolosas, de má-fé.

Foram feitos três inquéritos, dois dos quais da iniciativa de Kaúlza de Arriaga e todos chegaram à mesma conclusão: não há matéria criminal em Wiriyamu.

Na citada entrevista, Kaúlza lembra que «quando chegou o primeiro relatório, este terminava por dizer que realmente houve coisas em Wiriyamu» mas logo adianta que «em mais de dez mil operações realizadas em três anos, chegaram ao conhecimento do comandante-chefe apenas uns 20 casos de rumores e desmandos das tropas. E, desses, só três ou quatro foram enviados para tribunal».

Lídia Jorge, numa entrevista aquando da publicação do seu livro A Costa dos Murmúrios:

Nós não fomos os anjos por que queremos passar. Na altura, eu era professora de um liceu da Beira. Certa vez, um aluno disse-me que todas as pessoas da aldeia dele tinham morrido, que ele já não tinha família. Acho que os portugueses têm um problema: não querem confrontar-se com o próprio rosto. Nós somos a nossa própria forma, somos pessoas com o seu lado racista. E fomos colonialistas. O que não queremos é entender isso. Nós fomos violentos na guerra colonial.

Legenda. fotografia tirada do Expresso de 16 de Março de 1991.

(Continua)

domingo, 17 de junho de 2012

OLHAR AS CAPAS


O Vento Assobiando nas Gruas

Lídia Jorge
Capa de Henrique Cayate
Publicações Dom Quixote, Lisboa Outubro 2002

Não sejas estúpida, Milene, quando necessário, uma pessoa deve socorrer-se das palavras dos outros. Pois para que servem as palavras dos outros senão para nos servirmos delas?... Vendo bem, nem uma única palavra que pronunciamos é nossa. Alguém as criou antes de nós… Nada nos pertence…
Era como se João Paulo ainda estivesse a entrar pela porta do living-room da avó Regina, como se estivesse a aproximar-se da mesa e a dizer, naquele instante – Ouviste, Milene? Ouviste bem? Nada nos pertence. Nós é que temos a mania…

quinta-feira, 14 de junho de 2012

UM PUNHO GIGANTE ERGUIDO


Do interior do longo casarão, ninguém respondia. A chaminé de tijolo vermelho erguia-se acima das telhas com um punho parado. A imagem dum punho gigante erguido, saído duma realidade decadente como era a fábrica, desafiando alguma coisa que não se via mas deveria permanecer no ar como uma ameaça. Uma torre de segurança, a segurança própria do diamante.

Lídia Jorge em O Vento Assobiando nas Gruas, Publicações Dom Quixote, Lisboa Outubro 2002.

Legenda: chaminé vista das Portas do Sol em Lisboa

terça-feira, 8 de maio de 2012

SARAMAGUEANDO


Com a prontidão costumada, a Wikipédia diz-nos que o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores é atribuído desde 1982 e visa consagrar uma obra de ficção de autor português, publicada no ano anterior à atribuição do prémio.

Começou com o valor de 750 contos, em 1990 passou para 2.000 contos e actualmente, o vencedor recebe 15.000 euros.

No início de 2005 recebeu a designação de Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas).

Apenas em 1993, com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o prémio da Associação Portuguesa de Escritores, é atribuído a José Saramago.

Mas antes de se chegar lá, passeemos um pouco pela história do prémio, mais concretamente, pelo ano da primeira atribuição, bem como o do ano de 1984.

José Gomes Ferreira dizia que a arte não se premeia, persegue-se.

Não gosto de prémios.

Premiar obriga a uma escolha, uma escolha que tem diversos cordelinhos a envolvê-la: amizades, ódios, invejas, gostos, tendências, conciliábulos, boatos, especulações, política.

Até hoje, muitos o foram, mas não é possível, francamente, existir unanimidade.

Na revista do Expresso de 1 de Abril de 1983, Regina Louro, reportava uma antevisão do prémio.

Título da peça: Grande Prémio para um escritor: quem será, será…

Na próxima quarta-feira haverá em Portugal um escritor feliz. Feliz e abonado. Terá ganho o Grande Prémio da Associação de Escritores, e o mesmo é dizer: o maior galardão literário existente entre nós.

O ano de 1982 dera uma safra de bons romances, se bem que no balanço publicado pelo Diário de Notícias, João Gaspar Simões chamou-lhe “o balanço impressionista de um ano pouco impressionante” e o balanço de Maria Lúcia Lepecki, no Expresso, deixa vincado que “não são numerosos os livros absolutamente invulgares, mas muitos são francamente bons”.

O júri, os nomes só viriam a ser conhecidos no dia da atribuição do prémio, debruçou-se sobre uma trintena de livros, onde se encontravam: Café República de Álvaro Guerra, Ora Esguardae de Olga Gonçalves, Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo de Teolinda Gersão, O Inventário de Ana de Maria Isabel Barreno, O Número dos Vivos de Hélia Correia, A Manta Religiosa de Nuno Júdice, Explicação dos Pássaros de António Lobo Antunes, Passeios do Sonhador Solitário, O Bosque Harmonioso de Augusto Abelaira, O Cais das Merendas de Lídia Jorge, Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires, Rio Triste de Fernando Namora, Memorial do Convento de José Saramago.

Em Abril de 1983, apenas tinha lido as obras de Cardoso Pires, de Saramago, de Teolinda Gersão, de Abelaira, de Hélia Correia, de Lídia Jorge.

No lote dos favoritos estavam Saramago, Cardoso Pires e Namora.

Volto ao artigo de Regina Louro:

É claro que eu poderia confessar que já sei, a uma semana de distância, quem é que vai ganhar. Ninguém me prenderia por isso, ao que suponho, e até talvez aumentasse a minha reputação jornalística.

No dia 6 de Abril de 1983 ficava a saber-se que, por unanimidade do júri, José Cardoso Pires era o primeiro galardoado com o prémio da Associação Portuguesa de Escritores.

O júri era composto por Jacinto Prado Coelho, Maria da Glória Padrão, Maria Lúcia Lepecki, Óscar Lopes, Álvaro Salema.

Quando o prémio foi anunciado, José Cardoso Pires, estava sentado na plateia do Apolo 70 a deliciar-se com o filme de Francis Ford Copolla Do Fundo do Coração.

Perguntaram-lhe, pouco depois, o que ia fazer com o dinheiro:

Vou pagar impostos atrasados e algumas dívidas pessoais.

Clara Ferreira Alves no JL:

Dizia-se a meia voz e pelos cantos habituais que o júri zaragateava, barafustava, gritava e discutia com veemência os méritos dos principais candidatos à paternidade da que seria considerada a melhor obra de ficção de 1982.

Olham-se os nomes que constituíam o júri, e muito dificilmente, tanto quanto deles se conhecia, se entende a unanimidade.

Suspeito que sou, a minha escolha recaía em José Saramago, mas também gosto do livro do Cardoso Pires.

Como lá trás se diz sobre o raio das escolhas: amizades, ódios, invejas, gostos, tendências, conciliábulos, boatos, especulações, política.

Final de Balada da Praia dos Cães:

É então que vê passar as três jaulas rolantes vindas não se sabe donde. De longe. Certamente da auto-estrada do norte, Avenida do Aeroporto abaixo, atravessando a cidade. São três transportes de circo, gradeados mas sem feras, que avançam de madrugada. Dentro deles viajam os tratadores com um ar estúpido, ensonado. Desfilam pelas ruas desertas, sentados no chão, pernas para fora, caras entre grades.
Elias deixa de cantar. Durante o resto do caminho pensa nos tratadores enjaulados a atravessarem a noite sobre rodas: o que mais impressiona é que pareciam vaguera sem destino.
                   
                     Passagens de zarzuela e trechos avulsos entoados pelo chefe de brigada
               Elias Santana durante o seu passeio nocturno:
                      - La Violetera   
                      - O Último Couplet
                      - Carmen, de Bizet
                      -  Oh, Sole Mio
                      - Os Sinos Corneville.)
          

quarta-feira, 28 de março de 2012

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Mais um velho bilhete da CARRIS que estava a fazer de marca num livro que, por mera curiosidade,pode dizer-se que é Notícia da Cidade Silvestre da Lídia Jorge.
Como isto anda tudo ligado, o bilhete serve de pretexto para publicar um poema do Pedro Tamem:

 Transporte Colectivo

Estatelam-se as estátuas; abre-se a morte
como um jacinto novo à chuva da manhã.
Aai, porém, a tarde vai-se ao mais profundo
e cai longe de nós. Agora vem ao Leme
a perfeita figura entretecida de água
e fogo. Agarra-nos de perto e somo dela.

Se alguma janela aberta o incomoda
peça ao condutor que feche.

Agora os ventos calmos; já não correm,
antes poisados velam, interligam
de A a Z o tímpano das coisas.
Descoberta, revela-se a memória:
Se uma janela fechada o incomoda
O Condutor,  pedindo-lhe, abrirá.

Pedro Tamem do livro Poemas a Isto em Tábua das Matérias. 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

SARAMAGUEANDO



A escritora Lídia Jorge, ao pequeno discurso que, no sábado, proferiu, aquando do lançamento á terra das cinzas de José Saramago, chamou  Palavras para Ti.

São estas as palavras:

Pediu-me Pilar del Río que dissesse umas palavras para ti nesta ocasião. Em seu nome, digo-te que ela deitará as cinzas do teu corpo à terra, e nós, teus amigos, testemunharemos este momento do teu percurso, acompanhando o seu gesto, e agradecendo à vida termos vivido contigo. Agradecendo termos sido teus contemporâneos, e podermos falar sobre ti de viva voz, sobre aquilo que continua a ser a tua vida.

Sim. Dentro de instantes, Pilar, a tua mulher, irá deitar parte do que sobejou do teu corpo ao chão, mas todos nós que aqui estamos sabemos que ao mesmo tempo que te deitamos na terra, não te deixamos na terra, nós todos levantamos-te do chão. Nós, teus amigos, teus leitores, teus companheiros, toda esta cidade, levantamos-te do chão neste momento. E o mesmo sucederá no futuro, cada vez que abrirmos os teus livros e lermos as tuas palavras, e imaginarmos as figuras que tu mesmo imaginaste. E entrarmos nas tuas razões, e nos teus combates, sobretudo, no edifício magnífico da língua escrita que tu inventaste. Cada vez que acontecer, seja onde for, e em que idioma for que sejas lido, em qualquer parte da terra que seja, tu não serás as tuas cinzas que irão ser depositadas neste jardim, à sombra duma oliveira. Serás sim, os milhares de páginas que escreveste sobre a Utopia e o desconcerto e o concerto do mundo. Sobre os vivos, os mortos, Deus, os reis e os pobres, o elefante e o Cristo. Um mundo acrescentado ao Mundo. E por isso, quando Pilar del Río colocar as tuas cinzas da tua matéria física na terra, só ficaremos tristes por pensar em como o teu corpo foi inteiro, e termos saudades dele.

De resto, nós queremos que este momento seja alegre. Que tu sejas seiva desta cidade, lugar de paragem dos apressados, banco onde se sentam os cansados, casa onde se façam leituras, que neste canto em frente ao Tejo tu sejas uma história na História, e a partir daqui, que a paisagem se mantenha azul e o mundo se faça mais próspero e mais justo, como tu tanto sonhaste, que tu sejas parte de tudo isso, e que a tudo isso que aqui fica estendido se chame tua alma.

Quanto a nós, enquanto formos vivos e pudermos recordar-te, recordar-te-emos com se estivesses entre nós. Nós próprios não temos outra eternidade para te dar.

Tenho dito.


Legenda: fotografia de Aida Santos

domingo, 19 de junho de 2011

SARAMAGUEANDO




Simplicidade, dignidade.

Nada mais é necessário para assinalar as coisas importantes.

Às 11,30 horas de ontem, ao som dos tambores dos “Toca a Rufar”, Pilar del Rio depositou as cinzas de José Saramago debaixo da oliveira que veio da Azinhaga do Ribatejo, Violante Saramago , colocou “Palavras para José Saramago” , textos que foram escritos sobre o escritor português nos dias da sua morte. António Costa, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, colocou depois terra de Lanzarote junto à oliveira e ao banco de jardim feito de mármore de Pêro Pinheiro.

O professor e cantor lírico Jorge Vaz de Carvalho leu “Palavras para Uma Cidade” texto de Saramago que homenageia Lisboa.

A escritora Lídia Jorge falou da amizade e da obra de José Saramago.

Com breves palavras, António Costa encerrou a cerimónia.

Estiveram presentes cerda de 300 pessoas.

Poucos? Muitos?

Só faz falta quem está!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A IMPORTÃNCIA DAS COISAS SIMPLES


Quotidianos. Gostos. A importância das coisas simples. Os gestos. As pessoas.

Lídia Jorge, numa entrevista ao “Expresso” disse que “ir para um café e ficar a ver as pessoas a comerem bolos e a beberem sumos dá-me alegria.”

Gonçalo M. Tavares, também no "Expresso":

“Gosto de estar num café a observar as pessoas.”

Joseph Mitchel, correspondente dos bairros ingleses do "The Herald Tribune” (1936):

“Embora nunca beba nada mais forte do que uma gasosa “Moxie”, vou muitas vezes ao “Dick’s” só para observar a vida, um tema que me interessa profundamente desde a infância.”

Legenda: ilustração de Edward Hopper