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terça-feira, 22 de outubro de 2019

ACABAR COM ESTA CONVERSA


Falas de contar-me a verdade e depois ameaças escrever por todo o lado no meu livro de poemas. Vamos acabar com esta conversa.
Manifestaste alguma curiosidade sobre se te amaria ou mataria em resposta a um dos teus gestos. Não sou um santo nem um assassino: não amo, mas também não mato. Faço amor e arranco as asas às moscas.

Leonard Cohen em A Chama

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


E nem tudo será vinho e rosas de agora até ao fim mas nunca, nunca mais voltará a ser tão escuro.

Leonard Cohen em A Chama

sábado, 7 de setembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Podia ter sido um milionário mas o dinheiro arruinou-me a vida.

Leonard Cohen em A Chama

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


O verdadeiro amor é o que acontece entre duas pessoas que já não precisam de se conhecer uma à outra.

Leonard Cohen em A Chama

OLHAR AS CAPAS


A Chama

Leonard Cohen
Prefácio:
Adam Cohen
Tradução: Inês Dias
Capa: Carlos César Vasconcelos
Relógio d’Água, Lisboa, Janeiro de 2019

EU NÃO SABIA

Sabia que era fraco
Sabia que eras forte
Não ousava ajoelhar-me
Onde não pertencia

E se quisesse tocar
A tua beleza com a mão
Vinham as bolhas e o sangue
Que eu entenderia

Rasgaste os teus joelhos
E a solidão revelou-se
Puxando este coração por nascer
De correntes que não cediam

Mas enfraquecida pelo esforço
Caíste sobre a minha alma
A alma ferida
Que a mente nega
Até a recompres

Já posso amar a tua beleza
Embora pareça de longe
Até o meu mundo neutro aceitar
Quão íntima tu és

Às vezes estou tão sozinho
Que não sei o que fazer
Trocava a minha reserva de tédio
Por uma dose de ti

Eu não sabia
Eu não sabia
Eu não sabia
Que precisavas tanto de mim

terça-feira, 28 de maio de 2019

ANNE


Agora que Anne se foi
embora que olhos comparar
ao sol da manhã?

Não que os comparasse
outrora mas comparo-os agora
que ela se foi embora

Leonard Cohen em Filhos da Neve

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

DIZENDO-ME: AQUI ESTOU!


Um dos livros herdados da biblioteca do meu pai, é um calhamaço, mais de 700 páginas, da Editorial Inquérito: A História das Religiões de Chantepie de la Saussaye.

Tinha os meus 17 anos, passei os olhos, apanhei o que consegui entender e, passados uns tempos, não lembro quanto tempo, comecei a ler o Albert Camus.

Quanto a religiões fiquei vacinado.

Respeito a fé, as crenças, tudo, de quem entenda a isso dedicar-se.

Gostaria que respeitassem o facto de não frequentar deuses, mas não acontece facilmente.

Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do respeito que tenho pela fé dos outros.

Sobre Deus há um poema dramático de António Rego Chaves:

Olhava o mar
As ondas
O último esgar
Dos afogados.

Dizia: não salvo.
Vejo e contemplo.
Como se fosse Deus.

Parto para outras citações:

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

Alberto Caeiro

Como será possível acreditar num Deus criador do Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, a existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote

Muitos não o perceberam: a grande acusação que José Saramago faz a Deus é Ele não existir, a não ser criado pelos homens.

José Manuel dos Santos

Alguns fundamentalistas católicos citam:

Deus não é silencioso. Nós é que somos surdos.

O que censuro ao cristianismo, é ser uma doutrina de injustiça.

Albert Camus

Um milhão de velas ardendo pela ajuda que nunca veio.

Leonard Cohen

não creio como eles creem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.

Marguerite Yourcenar

A Bíblia refere a pergunta de Jesus:

Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?

No livro Três Vezes Deus, de Ana Marques Gastão, António Rego Chaves, Armando da Silva Carvalho, a vez de António Rego Chaves chama-se A Morte de Deus.

São 24 poemas.

O primeiro foi atrás transcrito, os restantes irão surgindo.

domingo, 4 de dezembro de 2016

POEMA


Ouvi falar de um homem
que dizia palavras tão formosas
que só com pronunciar o seu nome
se lhe entregavam todas as mulheres.

Se fico mudo junto ao teu corpo
enquanto o silêncio floresce como tumores nos teus lábios
é porque ouço um homem subindo a escada
e clarear a voz fora da porta

Leonad Cohen em Filhosda Neve

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

MARAVILHOSA VERSÃO




O cantor canadiano Rufus McGarrigle Wainwright, em Junho deste ano, reuniu na Hearn Generating Station, em Ontário, 1500 pessoas, mais o grupo Choir!Choir!Choir, numa homenagem a Leonard Cohen.
Escolheu Hallelujah, possivelmente a canção de Cohen com mais versões.
O resultado é arrepiante e Cohen achou-a maravilhosa e divulgou-a a através do Facebook.

sábado, 12 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


A minha editora fica muito contente sempre que apareço com um disco novo. Conseguem vendê-lo sem grande esforço. Tenho conseguido satisfazer um certo princípio, de não ir para o trabalho por causa do salário, mas de ser pago para fazer este trabalho.


Leonard Cohen 

EH ISSO NÃO SÃO MANEIRAS DE DIZER ADEUS!


Se nos quisermos agarrar às margens da filosofia, dir-nos-ão que alguém preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida.

Com olhos brandos de mágoa, Leonard Cohen, reservou para um disco a sua despedida.

You Want It Darker foi gravado, no estúdio caseiro, em circunstâncias de enorme dor física, segundo seu filho Adam Cohen, mas que, mesmo cheio de dores, uma ou outra vez, não o impediu de ir para junto das colunas de som, e dançar até ao fim de tudo.

Se tu és o dealer, eu estou fora do jogo, se tu és o curandeiro. eu estou arrumado e miserável.

Estou pronto my lord.

Albert Camus odiava este mundo em que estamos reduzidos a Deus.

 A relação de Cohen com Deus, sempre considerou a religião  como seu  hobby favorito, será talvez uma das vertentes mais enigmáticas da sua vida e que resumiu canhestramente:

Qualquer coisa, catolicismo romano, budismo, LSD, sou a favor de tudo o que funcionar.

Cohen lamentou o fantasma em que tornou deus.

Sabendo que entre os dois apenas um era real, não hesitou em concluir que o verdadeiro era ele: Leonard Norman Cohen.

E arrancou com uma guitarra, um maço de cigarros, uma garrafa de tinto  Pommerey 1934, que as raparigas, essas, hão-de juntar-se pelo caminho.

Se a ganãncia da sua agente Kelley Lynch não lhe tivesse roubado cinco milhões de dólares, as poupanças de uma vida, e o tivesse deixado ás portas da miséria, e, por isso, aos 70 anos, o obrigasse a vir á tona, regressar à estrada e aos discos para refazer a vida, talvez Cohen se tivesse mantido cercado pelas religiões, as suas constantes e rebuscadas leituras e interpretações sobre o tal deus.

Ainda que em meados de Outubro, num encontro com amigos no consulado do Canadá em Los Angeles, tenha reconhecido que talvez tivesse exagerado no estar pronto para ir para o outro lado da rua, e entre gargalhadas tivesse dito: pretendo viver para sempre, sabia-se que o fim não tardava.

Não se vive para sempre.

Ficam as canções, que essas sim se estenderão por todas as eternidades.

Quando a Academia Sueca deu o Nobel da Literatura a Bob Dylan, muitos disseram e escreveram que , já que a Academia entendeu dar uma volta à concepção do Prémio como reconhecimento do valor literário da escrita ligada à música”,  Leonard Cohen também ficaria bem na galeria.

Ou melhor?


Leonard Cohen foi enterrado, numa cerimónia discreta e privada, em Montreal, como era seu desejo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Não é assim tão difícil dizer adeus. Sem dúvida, o espírito sangra um pouco, mas se não fazes um risco fundo no cabelo, ninguém se dará conta. E certamente que o ego se ressente como um dente ante o açúcar, quando aceita, por fim, essa estranha perfeição, mas, mesmo assim, as despedidas far-se-ão, e não desde tão longe como poderias crer. Estamos sós aqui, trepando pelos reflexos brilhantes da raquítica escada de mão que cedeu sob os teus pés. As nossas botas nos degraus imitam o ruído de uma metralhadora. Olha: um sorriso numa caveira. O ano passado pensávamos que isso se via apenas na boca dos hipócritas.

Leonard Cohen em Filhos da Neve

PERGUNTO-ME SE O MEU IRMÃO


Pergunto-me se o meu irmão chegará a ler isto alguma vez. Sem dúvida que o repudiaria, espero que com gentileza, diria talvez que o mar é todas as coisas que eu disse, máquinas de sonhar, um olho de cristal, tudo isso, mas embora seja verdade é melhor conservar estas coisas em segredo. Agora poderia dizer-lhe algo que nunca soube quando vivíamos juntos. Que é um luxo esse de se deixarem coisas no tinteiro, um luxo de que muito poucos podem disfrutar. Os filhos do vento e da água não precisam de se esmerar acerca daquilo que o seu sangue conhece, mas quantos podem controlar essa economia, e quantos mais se vêem obrigados a arranhar e escavar o mundo de mil diferentes maneiras, apenas para estabelecer a mínima conexão entre as suas vidas. Os heróis e os semi-heróis, os meninos ungidos aspirando pelas constelações que os esperam, esses podem desdenhosamente não implorar ao mundo horizontal com palavras e metáforas organizadas, mas eu careço do seu equilíbrio; como tantos outros, eu não aspiro a nada, não estou a ponto de ascender à minha glória, de modo que devo mover-me torpemente entre as minhas amarras, devo negociar o amor que vou alcançar, fora da minha breve história particular não haverá paixão que me revele, ninguém em particular me reclamou, de modo que me devo dedicar à confusa política do general e gritar aos deuses para demonstrar a sua irrealidade, tal como o meu irmão e eu quando embaciávamos os vidros das janelas com o nosso bafo, para que pudéssemos desenhar neles com os nossos dedos. Ele desenhava perfis, para os quais eu desenhava complicados olhos, e ninguém te pede que decidas qual dos nossos esforços foi mais significativo.

Leonard Cohen em Filhos da Neve

FAMOUS BLUE COAT


Este é um desenho que Leonard Cohen deixou no disco Famous Blue Rain Coat, em que Jennifer Warnes interpreta canções de Leonard Cohen.

Numa das faixas, ambos fazem dueto em Joan of Arc.


Agora as chamas seguem Joana d’Arc
enquanto cavalga na escuridão.
Não há lua
para brilhar na sua couraça.
Não há homem
para a levar através desta noite de fumo.

Ela disse: «Estou cansada da guerra.
Quero a espécie de trabalho que tinha antes.
Um vestido de noiva,
qualquer coisa branca,
Para cobrir o meu saciado desejo.»

«Estou contente
por te ouvir falar assim.
Sabes que todos os dias te observava
enquanto ias cavalgando.
Qualquer coisa em mim anseia
por uma tão fria e solitária heroína.?

«E quem és tu?», disse ela
para o outro do outro lado do fumo.
«Quem? Eu sou o fogo.» Respondeu ele.
«E amo a tua solidão.
E amo o teu orgulho»

«Então a chama gela o teu corpo.
Vou dar-te o meu, para abraçares.»
Dizendo isto, ela avançou,
para ser a sua única e incomparável noiva.

No mais fundo do seu coração ardente
tomou o pó de Joana d’Arc.
E por cima dos convidados da boda
espalhou as cinzas do seu vestido de noiva

Foi para o mais fundo do seu coração ardente
que levou o pó de Joana d’Arc.
Então ela percebeu claramente.
Se ele era fogo, então,
ela deveria ser lenha.

Eu vi-a contorcer-se.
Eu vi-a gritar.
Eu vi a glória no seu olhar.
Eu próprio anseio pelo amor e pela luz.
Mas deverão vir assim?
Ele tão cruel, ela tão brilhante?

A tradução de Joana d’Arc é de José Alfredo Marques e é tirada de 59 Canções de Amor e Ódio.


SEMPRE QUIS SER...


Sempre quis ser amado pelo Partido Comunista e pela Santa Madre Igreja. Queria viver numa canção folk, como o Joe Hill. Queria chorar pelas pessoas inocentes que a minha bomba deixaria necessariamente estropiadas. Queria agradecer ao velho camponês que nos daria de comer na nossa fuga. Queria usar a minha manga vazia arregaçada até cima, ver as pessoas sorrir quando eu fizesse a continência com a mão errada. Queria ser contra os ricos, mesmo que alguns deles conhecessem Dante; momentos antes da derrocada um deles ficaria a saber que também eu conhecia Dante. Queria que levassem o meu busto pelas ruas de Pequim, com um poema escrito no meu ombro. Queria poder sorrir aos dogmas, e apesar de tudo deixar que estes me distorcessem a personalidade. Queria defrontar as máquinas da Broadway. Queria que a Quinta Avenida recordasse os atalhos índios que por lá passavam. Queria sair de uma cidade mineira com maus modos e convicções incutidos por um tio ateu e bêbedo, ovelha negra da família. Queria atravessar a América num comboio blindado, ser o único branco aceite pelos negros na convenção. Queria ir a cocktails de metralhadora ao ombro. Queria dizer a uma velha namorada escandalizada pelos meus métodos que as revoluções não se fazem nos buffets, que não podemos ser selectivos, e ver o seu vestido de noite prateado molhar-se no sítio da cona. Queria lutar contra o golpe de estado da polícia secreta, mas de dentro do partido. Queria que uma velha a quem morreram os filhos se lembrasse de mim nas suas orações, numa igreja de adobe, e que os filhos me garantissem que o fizera. Queria persignar-me quando ouvisse palavrões. Queria ser tolerante para com os vestígios de paganismo numa festa de aldeia, condenando a Cúria. Queria envolver-me em negócios obscuros de imobiliário, ser o agente de um bilionário sem nome e sem idade. Queria escrever bem dos Judeus. Queria ser alvejado entre os Bascos por transportar a eucaristia para o campo da batalha contra Franco. Queria pregar sobre o casamento com a indiscutível autoridade de uma virgem, espreitando os pêlos negros das pernas das noivas. Queria escrever um manifesto contra o controlo de natalidade num inglês muito claro, um panfleto que se vendesse nas salas de espera, ilustrado a duas cores com desenhos de estrelas cadentes e da eternidade. Queria proibir a dança durante uns tempos. Queria ser um padre drogado que gravasse um disco para a Folkways. Queria ser deportado por razões políticas. Acabo de descobrir que o cardeal... recebeu um avultado suborno de uma revista feminina, fui alvo de propostas desonestas por parte do meu confessor, vi os camponeses serem traídos por razões necessárias, mas os sinos tocam esta noite, outra noite no mundo de Deus, e há muitos que precisam de alimento, muitos joelhos ansiosos por se vergarem, subo os degraus gastos enrolado na velha pele de arminho.

Leonard Cohen em Belos Vencidos

LEONARD COHEN (1934-2016)


Dias tristes… terrivelmente tristes…

Há sempre uma estranha amargura quando a morte, de quem tanto gostamos, nos salta fria e cortante.

Leonard Cohen morreu.

Estou pronto para morrer, my Lord, deixou estampado no último disco editado em Outubro: You Want It Darker.

Espero que não seja demasiado desconfortável, disse a um jornalista do The New Yorker.

Quando soube que a sua musa, Marianne, tinha morrido, escreveu-lhe uma carta:

domingo, 6 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Um pessimista é alguém que está à espera que chova. Enquanto eu já estou encharcado até aos ossos.

Leonard Cohen


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 15 de outubro de 2016

LOUVOR E DECEPÇÃO À VOLTA DO NOBEL



A atribuição do Nobel de Literatura a Bob Dylan provocou em Portugal reacções tão desencontradas como significativas.

O Nobel é o principal prémio literário internacional. Mas nem por isso deixa de estar confinado ao horizonte da Academia Sueca, por mais que esta tente alargá-lo, encomendando traduções de autores das mais variadas línguas e geografias.

Além disso, se colocarmos num prato da balança os escritores que receberam o Nobel e resistiram à passagem dos anos, e no outro os grandes romancistas que nunca o receberam, de Conrad, Proust e Virginia Woolf a J. L. Borges, é bem provável que o equilíbrio se rompa a favor destes últimos.

E ainda claro que há uma ou duas dezenas de escritores que poderiam receber o prémio este ano, de Javier Marías a Cormac McCarthy, e que, mesmo entre os poetas de canções, haveria alternativas como Leonard Cohen e Chico Buarque.

Mas parece que a Academia Sueca está decidida a inovar, desiludida talvez com a inexistência de grandes romances na última década. Isso explica escolhas inesperadas como foram no seu tempo a de Churchill, a da primeira mulher a receber o Nobel (Selma Lagerlöf) ou os textos jornalísticos de Svetlana Alexievich.

Até por isso as reacções são significativas. Abstraindo do «paternalismo» e visão conspirativa do crítico e escritor Bruno Vieira Amaral, que afirma que a Academia atirou o prémio à cabeça e que Bob Dylan não merecia tal gesto, houve dois tipos de reacções.

A dos poetas e críticos ligados à música, de Miguel Esteves Cardoso a Pedro Mexia, que se mostraram favoráveis ou até entusiasmados.

E, no pólo oposto, a de alguns editores, críticos e escritores, que tinham na sua lista de expectativas nomes que iam de Philip Roth a Murakami, e tiveram reacções perplexas ou desfavoráveis.

Há editores que condicionam o seu catálogo à procura dos nobelizáveis e que estão cada vez mais condenados a uma desilusão anual em Outubro
.
E o mesmo sucede com certos autores que a meio da vida vão acomodando a escrita à procura de um prémio que afinal só traz uma fama anual, uma viagem invernosa a Estocolmo, vendas não muito acrescentadas e solicitações, capazes de perturbar a mais fecunda das imaginações.
Foi assim que tivemos Alice Vieira a acusar esta atribuição do Nobel de desvirtuamento e a indicar Murakami como alternativa, e os habituais defensores de Pynchon.

Recorde-se que, quando o Nobel foi atribuído em 2013 a Alice Munro, a escritora Inês Pedrosa «denunciou» o facto de o prémio ser atribuído a uma simples contista (o que não impede que o seu último livro seja de contos e que sublinhe agora a importância deste género literário).

Ou seja, há ainda muitos críticos e autores ligados ao perfil que durante décadas serviu de referência à Academia Sueca e que Javier Marías resumiu no seu artigo «Não tão Memoráveis»:

«O escritor “conhecido” e popular terá além disso de (…) proclamar que apoia os oprimidos do mundo; ser um pouco perseguido no seu país (ou, à falta disso, dizer que o é); clamar muito no deserto e ser voz estridente das consciências adormecidas; deverá ser solene ou um pouco sombrio, a amargura nunca é de mais; a sua obra deve reflectir a miséria do homem contemporâneo, ou a fragilidade do homem contemporâneo, ou o desconcerto do homem contemporâneo, ou o seu egoísmo, ou o seu sofrimento, ou a sua maldade, ou a sua desorientação (em qualquer caso, algo negativo do homem contemporâneo, ou melhor, um lugar-comum a todas as contemporaneidades); por último, não deve falar muito de literatura nem ter qualquer sentido de humor.»

De qualquer modo, em favor de Bob Dylan pode dizer-se que com a sua obra musical, literária e pictórica será um dos vencedores do Nobel a perdurar. Levou o melhor da poesia à música das suas canções, absorvendo influências que vão desde Walt Whitman a Ashbery, passando por Allen Ginsberg e outros autores da Beat Generation. Nas suas letras criou personagens que nada devem às de obras de narrativa ficcional. E as suas crónicas inacabadas constituem uma referência de literatura autobiográfica.

P. S. Declaração de interesses. A Relógio D’Água publicou em 2006 uma ampla antologia da poesia de Bob Dylan (Canções 1962-2001).

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Foi como dar uma medalha ao monte Evereste por ser a montanha mais alta do mundo.

Leonard Cohen sobre o Nobel de Dylan.

sábado, 1 de outubro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Eu eduquei as minhas filhas a ensinar-lhes que deviam desconfiar de quem não gostasse de Leonard Cohen...! 

Luís Miguel Mira