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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

OLHARES


Gosto do nome: «La Gondola».

O meu pai apreciava lá ir jantar nas noites de calor.

Ficávamos sentados nas mesas por debaixo das buganvílias, logo no lado esquerdo quando se entra a porta do chalé.

O edifício do restaurante situa-se numa das últimas vivendas que, noutros tempos, enchiam a Avenida de Berna, a Avenida da República.

O restaurante estava de portas abertas desde 1943.

Fecharam no dia 6 de Agosto por mor de uma permuta de terrenos entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Montepio Geral que ali vai construir a sua nova sede.

«La Gondola» não conseguiu entrar no capítulo do Programa Lojas com História da edilidade lisboeta.

Por aqueles lados, a Câmara quer que haja um enorme centro de escritórios e, para disfarçar o cimento, projectam um pedaço de jardim.

Dão-lhe o pomposo nome de renovação da Praça de Espanha.


Será mais um prego, grande, mesmo grande, espetado na identidade da cidade.


Recordo o último jantar que tivemos com o meu pai em «La Gondola».

Era Agosto e à mesa também estavam a Aida e o Miguel.

Abancámos na esplanada e por ali ficámos a derreter garrafas geladas de Ponte de Lima Branco. Lembro que o meu pai comeu pescadinhas fritas com arroz de pimentos.

Quanto aos comes dos restantes, a memória não responde.

Naquele tempo, e este jantar foi há mais de trinta anos, a cozinha de «La Gondola» era caseira, a preços nada exorbitantes.


Ainda os «chefs» não tinham aterrado para destruir a cozinha portuguesa e fazer as delícias (?) de uma série de gente a armar ao chico-rico-esperto, que não sabe o que é comida a saber a comida e faz de um de um almoço, de um jantar uma sequela de exibicionismo e fanfarronice.


Gente que só entendem a comida quando espetam na carta coisas como estas:

-          Cação da costa alentejana com crosta de queijo de Serpa e coentros sobre migas de feijão manteiga
-          - Osso buco de borrego do norte alentejano sobre ragout de batata e ervas finas
-          Tataki de atum marinado sobre tártaro de tomate com escabeche de legumes e seus sucos
-          Entrecosto de porco preto marinado servido com migada de batata e azeitonas de Moura
-          Figos da horta com creme de ovos perfumados com licor de Borba e amendoas torradas
-          Bacalhau confitado em azeite a 70º sobre rissotto de ameijoas com coentros e espargos verdes
-          Salmão fumado com molho de iogurte perfumado com poejos frescos e rosti de batata
-          Polvo assado no forno em vinho tinto alentejano com batatinhas novas e tomate assado
-          Frango do campo recheado com camarão e grelos de couve sobre talahrim com tomate xuxa e oregãos frescos
-          Pato laqueado e fumado e figos assados em Cabernet Sauvignon e crocante
-          Pregado com cerejas caramelizadas e presunto de porco preto
-          Carre de borrego em crosta de gengibre e molho de quatro especiarias

-          Creme de ervilhas com ovos de codorniz escalfados e azeite do chouriço


Naquele tempo, a cozinha do «La Gondola» era obra de gente autodidacta, sem frequência de escolas de hotelaria, mas que guardavam dentro de si os cheiros, os modos de fazer, de avós e mães, mantendo a qualidade, a simplicidade de fazer como padrão indesmentível.

Um restaurante à antiga, como dizia o meu pai.

Já em tempos recentes - mais de cinco anos? Talvez! - passei pela «La Gondola», era um tarde-pós-almoço de Janeiro, fria  e chuvosa, para tirar umas fotografias, antevendo  que «La Gondola» não permaneceria por muito mais tempo.

A ementa já não era bem como quando lá íamos com o meu pai.

Naquele dia, rezava assim:

Caril de gambas 20,50 euros
Bifinhos de vitela 19,50 euros
Linguine Nero Neptuno 18,50 euros
Sopa da Família 3,00 euros
Marquês de Borba Branco 16,50 euros
Quinta do Caleiro Reserva Douro 18,50 euros
Romã em ninho de casquinha de laranja 4,00 euros
Peras bêbadas 4,00 euros.

Nada a ver com «La Gondola» dos outros tempos.


Terá sido esta «La Gondola» dos tempos recentes., que neste Agosto findou.

Ficam as memórias.

Um destes dias, saberemos que o camartelo iniciou a destruição do lindíssimo chalé.

terça-feira, 13 de junho de 2017

SANTO ANTÓNIO


Trono de Santo António na Vila Berta.

LISBOA E DESFADOS


Construir a cidade e dá-la a toda gente.
Lisboa é uma cidade que vê com os pés. «andando pensa-se melhor do que sentado», diz o João Botelho
«O que há em Lisboa?» pergunta Bogart na tela da sala escura.
Lisboa de Cesário Verde, «nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia», Lisboa de José Gomes Ferreira, Lisboa do Armindo «decerto esta é a mais bela cidade de todas as cidades do mundo, e hoje toda a cidade me fala de ti», Lisboa de Eugénio de Andrade «alguém diz com lentidão: Lisboa, sabes…». Lisboa de António de Sousa «de mal te conhecer é que eu sofria, cidade clara em tuas sete colinas!», Lisboa «cidade branca» de Tanner. Ou Fernando Assis Pacheco: «se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa», Lisboa que «cheira aos cafés do Rossio, cheira a castanha assada se faz frio. A fruta madura quando é Verão». Lisboa de José  Cardoso Pires, «logo a abrir, pareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar», Lisboa de José Saramago, Lisboa de José Rodrigues Miguéis, Lisboa de Alexandre O’Neill «se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa»,  a «Lisboa menina e moça de Ary dos Santos», Lisboa de tanta e tanta gente, «chamar-te a ti Lisboa camarada e depois eu sei lá enlouquecer», para citar Joaquim Pessoa, lembrar Desfado da Ana Moura e, hoje, por aqui ficar.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

OLHARES


No meu tempo de miúdo isto era um arranha-céus: o arranha-céus do Areeiro e não tem mais de nove andares.

Existe um outro na Praça de Londres.

Também com os seus nove andares, mas com uma pequena diferença: albergava um dos mais conhecidos cafés da zona chique das Avenidas Novas, o Café Londres, traço do arquitecto Cassiano Branco, a sua ampla sala e o salão de jogos com mesas de bilhar.


Hoje, é um balcão do Novo Banco e começou por ser balcão do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, que nas noites de sexta-feira se transformava em posto de recepção da Santa Casa da Misericórdia para apostas fora de horas do Totobola e Toloto.

Do outro lado, na Avenida de Roma, havia a Pastelaria Capri e o Café Roma, onde hoje existe uma loja McDonalds e já na Praça de Londres, onde começa a Avenida Guerra Junqueiro, a Pastelaria Mexicana.


Anos mais tarde juntou-se-lhe o edifício que, no tempo da ditadura, albergou o Ministério das Corporações, inaugurado em Outubro de 1966 e que, após o 25 de Abril, passou a ser o Ministério do Trabalho.

A Lisboa das Avenidas Novas.

Era esta a Lisboa que Salazar queria mostrar.

Sim, porque havia outras Lisboas que Salazar queria que não fossem vistas.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Lisboa, a minha cidade já não existe, e se calhar, quase com 70 anos, já não tenho direito a tê-la. 

Jorge Silva Melo

Legenda: fotografia tirada do blogue Restos de Colecção

sábado, 8 de outubro de 2016

OLHARES


No nº 1 da Rua Particular, à Rua Frei Manuel Cenáculo, e fundado em Novembro de 1949, situava-se o Sport Lisboa e Oriental.
Não confundir com o COL - Clube Oriental de Lisboa.
Era um velho clube de bairro.

Aos sábados à noite, nas tardes de domingo, pelo fim do ano, pelo Carnaval, os bailaricos. 


A trupe habitual da casa era Jacinto e os seus Gaúchos, violas e banjos.
Boleros, slows, músicas de amarrotar corações.
Grandes bailaricos que, como dizia a avó do António Lobo Antunes, eram uma antecâmara do Inferno.
O Sport Lisboa e Oriental chegou a ter uma equipa de Hóquei em Patins.
O meu primo Bernardino jogava a guarda-redes,
Na porta das instalações um letreiro: PARA ALUGAR.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

OLHARES


Aqui era o Quebra-Bilhas.

José Quitério, num artigo no Expresso, escrevia:

O Quebra Bilhas mantém muito do seu encanto de outras idades. O largo portão verde, fronteiro ao plácido plátano, abre para o primeiro compartimento, onde, a par da cozinha, se conserva felizmente um daqueles belos balcões das tabernas antigas, todo corrido e de mármore, e duas largas mesas . Outra sala, mais convencionalmente a refeiçoar, oferece uma simplicidade airosa revestida de artefactos de sabor caseiro. Grande, grande é o quintal-esplanada, de chão empedrado, abrigado por generosos toldos de parreiras e árvores de forte porte, local único e riqueza inestimável para o tempo ameno, daqueles recantos que parecem terem sido feitos, e são eleitos, para os prazeres da mesa, da bebida e do convívio.

Foi em Abril de 2006 que o Quebra-Bilhas, sito na Rua do Campo Grande nº 312, e um dos mais antigos restaurantes de Lisboa, data de 1793, fechou portas.

O proprietário é o Centro Cultural do Campo Grande, sediado no palacete contíguo ao restaurante do número 321, uma instituição da Opus Dei, que, até hoje, não soube, ou não quis, dar-lhe um destino. 


A festa de despedida de solteiro do Cândido.

Lembro-me que estava uma noite maravilhosa de Junho de há muitos anos, talvez 30, o petisco foi no quintal paradisíaco do Quebra-Bilhas, e a noite acabou na Feira Popular, que já não existe, a jogar matraquilhos, para além de outras aventuras.

Lá muito mais para trás, quando miúdo, depois dos jogos do Benfica no Campo Grande, a velha estância de madeira, ia com o meu avô ao Quebra Bilhas comer sandes de presunto. O meu avô bebia um copinho de vinho branco e para mim era uma gasosa, mas mesmo gasosa, da Pizões Moura, com o castelinho em rótulo azul. 

O rótulo vermelho era para a água mineral que ainda hoje existe.

Diga-se, no entanto, que a ida ao Quebra Bilhas depois da jogatana, só acontecia se o Benfica ganhava.

Nem o empate dava para a sandes e a gasosa.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

DA VIDA MARÍTIMA DE LISBOA


Os habitantes de Lisboa, tirando os que vivem do mar, quase não sabem da sua vida marítima de grande porto. Poucas são as janelas da cidade abertas para o estuário imenso e maravilhoso. Quando muito, os lisboetas vão até ao Terreiro do paço nas noites calmas de Verão, mas ignoram tudo da vida do rio: os pescadores à linha da ponta do Cais do Sodré; as lentas fragatas que deslizam carregadas de fardos, de sacos, ou de barris, com a sua grande vela, tantas vezes rubra como um grito; as embarcações em repouso, onde fumega um fogareiro com a caldeirada; a descarga do peixe para a Ribeira, com a agitação do povoléu varino; os trabalhos da estiva nos cais onde acostam os cargueiros e os grandes paquetes luxuosos, com o ranger dos guindastes e dos guinchos; o movimento do desembarque de turistas nos cais da Rocha ou de Alcântara; a chegada ou partida dos navios portugueses das carreiras de África; os preparativos dos bacalhoeiros em véspera de partida para os bancos da Terra Nova; as reparações dos vapores nas docas secas e a construção de novos navios nos estaleiros, com o seu martelar metálico; a faina constante dos rebocadores e gasolinas, como gaivotas à roda dos grandes vapores – todo esse fervilhar ruidoso e colorido que é o espectáculo mais curioso de Lisboa.

José Osório de Oliveira na revista Panorama, início dos anos 50.


Legenda: fotografia de Artur Pastor

terça-feira, 27 de setembro de 2016

DO BAÚ DOS POSTAIS

Vista da Praça do Comércio de há muitos anos.
O Tejo ainda com fragatas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

OLHARES


O presidente da Câmara de Lisboa, anunciou que, ao fim de dez anos de lamentável abandono, a Estação Sul e Sueste, obra de Cottinelli Telmo, vai dar lugar a um terminal turístico que deverá estar concluído no final do próximo ano.
Durante anos e anos Lisboa não usufruiu dos privilégios da sua zona ribeirinha.

Os motivos são vários e o principal obstáculo centrava-se no facto de a quase totalidade do espaço ribeirinho ser pertença da Administração do Porto de Lisboa.
A Estação Sul e Sueste, até aqui, encontrava-se nas mãos da CP.

Foi aqui, na Estação Sul e Sueste que, em miúdo, apanhava os barcos a vapor com destino ao Barreiro para visitar um tio meu que, trabalhador da CUF, vivia no Lavradio – uma longa viagem.

Foi também aqui que, em Junho de 1967, iniciei o percurso da minha incorporação no serviço militar, apanhando o comboio- correio que do Barreiro me levou até Tavira – uma outra longa viagem.

O comboio, viagem em carruagem de 3ª classe, bancos de suma-pau, saiu perto da meia-noite, «paragem em todas as estações e apeadeiros», e chegou a Tavira às sete e meia da manhã. 

sábado, 17 de setembro de 2016

OLHARES


Meditação frente ao Tejo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

OLHARES


Alfama.
A torre da Igreja de Santo Estevão em fundo.

domingo, 4 de setembro de 2016

QUOTIDIANOS



Era um dos passeios favoritos dos lisboetas nos meados do século XX: ir, até à Portela ver as chegadas e as partidas dos aviões.

domingo, 21 de agosto de 2016

DO BAÚ DOS POSTAIS


Lisboa.
Largo do Carmo em outros tempos.

sábado, 2 de julho de 2016

QUOTIDIANOS


Antes disso, vivia - e isto foi importante para mim - num quarto andar da Rua das Janelas Verdes, com o Tejo defronte - o Tejo como era na altura. O Tejo com movimento, com navios de carga, com fragatas, tudo. Passei do Tejo com movimento para as Avenidas Novas, que era uma coisa chata. Isso de ver o Tejo fez-me muita falta e talvez esteja na origem da minha mania de fazer bonecos. Essa falta de um espectáculo permanente talvez me tenha levado, por hipótese, a desenhar.

Júlio Pomar

quinta-feira, 30 de junho de 2016

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Junho chega ao fim: o mês de todas as festas.
Seria bonito que Portugal, logo à noite, conseguisse passar às meias-finais do Euro.
Seria o continuar da festa.

domingo, 12 de junho de 2016

CHEIRA A LISBOA





Lisboa.
Noite de Santo António.

ALTO DO PINA É QUE É!





Marcha do Alto do Pina.
Arrancaram há instantes para irem desfilar na Avenida com total confiança de que a vitória, mais uma vez, lhes sorrirá.

terça-feira, 10 de maio de 2016

A LISBOA DE GEDEÃO


Venda de hortaliça na Rua Augusta (Abril de 1976).

Fotografia e legenda de António Gedeão em Memória de Lisboa.

sábado, 7 de maio de 2016

OLHARES


Se há jardim de Lisboa que me dê gosto maior é o do Príncipe Real. Primeiro, por causa da árvore-mãe que tem ao centro, baixinha e de ventre antigo, e de ramagem tão extensa que dá abrigo a meio mundo. Depois, porque o conheci rodeado de poetas, uns em verso, outros em prosa: O’Neill morou-lhe quase em frente, na Rua da Escola Politécnica, Vieira de Almeida mesmo ao lado. Ruy Cinatti na Rua da Palmeira e Agostinho da Silva na Travessa do Abarracamento de Peniche, que é um recanto pacífico para meditar.

José Cardoso Pires em A Cavalo no Diabo

Legenda: João César Monteiro no jardim do Príncipe Real, fotograma do seu filme Vai e Vem