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terça-feira, 6 de agosto de 2019

OLHARES

Passou a ser uma pastelaria-a-armar-ao-fino-ao-pingarelho.
Passados uns meses, faliu.
Agora é uma loja de trapos também a armar-ao-fino-ao-pingarelho.
A fotografia tem alguns meses.
Ainda será loja de trapos?
Abençoada especulação imobiliária.
Assim se dá cabo de uma cidade.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

NOTÍCIA TRISTE EM TEMPO DE NATAL



Gosto da voz dos livros.
Essas vozes encontro-as nas livrarias, livrarias mesmo.
Fujo da FNAC a sete pés, da Leya que outrora foi Barata, da Bertrand.
Em Março fecharam a Pó dos Livros.
Fiquei órfão.
Procurei alternativas.
Encontrei a Leituria, ali na Rua Dona Estefânia.
Com algumas limitações, é certo, mas uma livraria e a amabilidade do Victor a tentar arranjar os livros que lhe pedia.
Soube agora que fechou portas na véspera de Natal.
Vão para um novo espaço, a abrir em Fevereiro, na Rua José Estevão.
Como será?
Até lá, volto a ficar órfão e terei de percorrer as ruas dos bairros populares da cidade  em busca de alguma porta aberta que se assemelhe a uma livraria.
Dizem que em Londres, Paris, Madrid já não há livrarias antes armazéns onde se encontram livros inúteis que afirmam ter um público mas desconfio muito.
Só me falam em globalização, nas Amazons.
Mas onde a voz dos livros?
O cheiro dos livros?

quinta-feira, 19 de abril de 2018

MAIS UMA TRISTEZA SEM FIM


Aqui era a Livraria Pó dos Livros.

Fechou portas no dia 31 de Março.

Lisboa continua a destruir-se, história e histórias espezinhadas pela especulação imobiliária.

Como posso escrever sobre o fecho de uma livraria? De um café? De um cinema?

São dores que acabamos por chorar sozinhos.

Dificuldades quase inexplicáveis.

Fui um dos últimos espectadores, mas, ainda hoje, passados 5 anos, ainda não escrevi nada sobre o fim dos Cinemas King.

Em Fevereiro, Jaime Bulhosa, gerente da Pó dos Livros, escrevia no blogue da livraria:

«Setembro de 2007, abrimos as portas, e já nessa altura planava sobre nós o abutre. Nunca passava para cá da linha da porta. No entanto, rondava de perto, dava uma bicada, ou duas, nos nossos pés e ficava inquieto à espera que chegasse a hora fatal, grasnando num som surdo, como só os abutres sabem fazer: «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar».
Nós bem o tentámos enxotar para longe, mas ele voltava sempre. Olhava de viés, ao mesmo tempo que inspirava o ar, à procura de aromas de moribundo. Contudo, ainda não tinha chegado a nossa hora e, voou com notícias de defunto vindas de outras paragens.
Nos anos seguintes apareceu de novo, mas desta vez, acompanhado com mais amigos, urubus, corvos e outros necrófagos. Todos vestidos a rigor de plumas negras reluzentes, entoando já a marcha fúnebre de Chopim – tan, tan, taran–, «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Porém, ainda não tinha chegado a nossa hora e voaram, outra vez, com notícias de defunto vindas de outras paragens.
Escrevi este texto em Março de 2011 e já previa este fim. É verdade chegou a hora da livraria Pó dos Livros «celebrar o dia da liquidação total». No dia 31 de Março de 2018, mais esta livraria passará a ser uma mera recordação, um pedaço de pó na memória de poucos.
Mais tarde escreverei sobre as causas e razões. Farei também os devidos agradecimentos a quem sempre nos apoiou, porque percebe qual importância da existência  de uma rede de livrarias independentes em todas as nossas vilas e cidades.
Até breve».

À agência Lusa, Jaime Bulhosa explicou: 

«Os motivos são os mesmos de sempre, de todas as outras livrarias que já fecharam. Em primeiro lugar, rendas altíssimas que não permitem ao negócio dos livros sobreviver, depois uma concorrência que é completamente desleal, porque é impossível concorrer com as grandes cadeias, com os descontos que eles fazem, e com as margens que nós temos, portanto as livrarias independentes estão em extinção».

A Pó dos Livros definia-se como uma livraria de bairro, independente, alternativa, com livreiros experientes.

Abriu portas na Avenida Marquês de Tomar, transferiu-se, mais tarde, para a actual localização, no n.º 58A da Avenida Duque de Ávila, na esquina com a Conde de Valbom.

Tinha um nome bonito com origem numa passagem de A Sombra do Vento, de Carlos Ruis Zafón, sobre um cemitério de livros esquecidos, cheios de pó, que recordou a Jaime Bulhosa uma história com seu pai, em que este lhe explicou que os livros com pó são os mais importantes, por serem aqueles que resistiram ao tempo.

Não compro livros em grandes superfícies, não vou à FNAC, não entro na Barata, nem na Bertrand porque pertencem a essa coisa que dá pelo nome de grandes grupos livreiros.

A Pó dos Livros era o meu porta-aviões.

Se não tinham qualquer livro que eu pretendia, prontificavam-se para, no mais curto espaço de tempo, estar nas minhas mãos.

Agora, sinto-me perdido sem o afecto que a Pó dos Livros me propoercionava e invade-me uma desesperante tristeza fria,

Hoje vendem-se livros com uma displicência que me horroriza,

Terei que dar a volta ao texto.

Como dizia o meu avô onde não há uma saída, tem necessariamente de existir uma saída.

Vou á procura, vou à procura, de pequenas livrarias espalhadas pela cidade, não são muitas, é certo, para não sentir o tal arrepio que Jorge Silva Melo sentiu quando viu que uma pequena livraria abriu um dia em Campo de Ourique, mesmo perto da casa onde vive, mas não chegou a estar aberta um ano porque se enrolou a comprar livros nas fnacs, nas amazons.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

UMA TRISTEZA TÃO FRIA!...


Uma cidade pode medir-se, cheirar-se pelas suas livrarias.

Podemos lembrar Nova Iorque, Paris, Londres.

Mas também sabemos que nestas, tantas outras, cada vez há menos livrarias.

Lisboa tem agora uma quantidade incalculável de hotéis e hostels, o raio que os parta, e estão muitos mais a serem construídos.

Mas cada vez tem menos livrarias.

Há um mundo da minha cidade que estou, em cada dia, a perder.

Já não percorro a cidade como em outros tempos o fazia. Vão-me escapando coisas, causas várias, e isso entristece-me, mas é assim…

Sou capaz de tomar conhecimento, através dos jornais on-line, das coisas mais inúteis e disparatadas, acontecimentos de gentes que desconheço completamente e não me interessam para nada.

No entanto, apenas soube, através do blogue de Maria do Rosário Pedreira, de que a Livraria Aillaud e Lellos, na Rua do Carmo, fechou portas no passado mês de Dezembro.

A Amazon isto, aquilo e aqueloutro.

Mas eu gosto de olhar os livros, folhear os livros, cheirar os livros numa livraria.

A Aillaud terá sido a livraria que menos frequentei mas sinto um inexplicável sobressalto agora que sei que não volto a lá entrar.

A ganância do senhorio entendeu que livros não são negócio rentável e terá exigido uma renda incomportável aos donos da livraria.

Irá agora nascer mais uma daquelas lojas disparatas que em breve tempo fecham portas.

Por quantos diferentes negócios já passou o que foi a Livraria Portugal?

Legenda: esta fotografia da Aillaud e Lellos foi tirada em Janeiro de 2012, no mesmo dia em que tirei a da então Livraria Portugal. Tirei-a na convicção que também não iria durar muito.
Assim foi...

sábado, 28 de outubro de 2017

QUE OS LIVROS ESTEJAM CONVOSCO|


O livro A Cavalo do Diabo, do José Cardoso Pires, comprei-o na Livraria do Centro Comercial Arco-Íris, ao lado de outro centro comerciak, o Apolo70.
O Centro ainda existe, a livraria já não.
Entro numa livraria como a borboleta atraída pela luz.
Gostava muito desta livraria, onde era atendido por gente simpática, estava longe a chegada dos computadores, e que sabia o que é ser livreiro.
Como poetizou Manuel Alegre:

Há homens que são capazes
duma flor onde
as flores não nascem.
Outros abrem velhas portas
em velhas casas fechadas há muito
outros ainda despedaçam muros
acendem nas praças uma rosa de fogo.
Tu vendes livros  quer dizer
entregas a cada homem
teu coração dentro de cada livro.

As livrarias, aos poucos, têm vindo a desaparecer.
Lembro sempre o arrepio de Jorge Silva Melo quando viu fechar uma livraria em Campo de Ourique:
Numa crónica a que chamou Já Fechou a Livraria, incluída no seu Século Passado, conta que uma pequena livraria abriu um dia em Campo de Ourique mas não chegou a estar aberta um ano.«Por que não fui interlocutor solidário daquela senhora que efectivamente ousou e foi vencida? Por que hei-de perdoar-me a mim? Não foi isso mesmo o que eu disse àquele pequena livraria? Que não a queria? Que não me servia para nada? Que lhe prefiro a Internet e as fnacs? Se a pequena livraria fechou, fui também eu que a fechei».
Num ranking elaborado pelo jornal britânico The Telegraph, há duas livrarias portuguesas entre as 16 que o jornal considera como as mais bonitas do mundo.
Uma em Lisboa, a Ler Devagar, outra no Porto, a Lello & Irmão.

sábado, 6 de maio de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Tinha em mãos Alentejo Não tem Sombra, uma antologia de poesia contemporânea sobre o Alentejo, organizada por Eugénio de Andrade.

Encontrei agora um outro: «40 Anos de Servidão» do Jorge de Sena.

Invariavelmente, cada ida a um cinema, que tivesse livraria contígua, tinha direito a visita e estou para garantir que não terá existido nenhuma ida que não tivesse saído com livro debaixo do braço.

No Apolo 70, havia uma estupenda sala de cinema e sobrava um problema: para além de livraria, tinha discoteca, que era um sítio onde se compravam discos, na altura, de vinil.

Dado o apertadíssimo orçamento caseiro existia pormenores ginásticos.

No canto superior direito, o livreiro, a lápis, colocou o preço do livro: 400$00.
Hoje, qualquer coisa como 2 euros.

Tempos bons, apesar do resto.

Uma noite, não tenho o registo da data, a Simone de Oliveira disse num programa de televisão que Lisboa, nos anos sessenta era mais bela do que nos tempos que então corriam.

Mário Castrim, na sua coluna de crítica no semanário Tal & Qual, disse-lhe que estava enganada.

«Era uma cidade medonha. Monstruosa. Os embarques dos soldados para África.

Uma cidade paranóica.

Calada. Amordaçada. Sitiada, Vigiada.

Um gatilho esperava a luz a cada esquina. E não só a luz.

O medo toldava todos os mirantes sobre o Tejo.

Está enganada, Simone. Nos anos sessenta, Lisboa era uma cidade muito feia.

Não vá em cantigas».

sexta-feira, 4 de março de 2016

OLHARES


Londres, 1930.
A biblioteca que anda.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

MARCELO AINDA NÃO COMEÇOU E JÁ SE NOTA


Vai um Presidente e, para mais, um ainda não em funções resolver este magno problema: vão os portugueses continuar a ler livros em papel? Não vai (o Presidente resolver) e vão (os portugueses continuar a ler livros em papel). Dito isto, é bom saber que Marcelo Rebelo de Sousa, na tarde de sábado, entrou numa livraria em agonia e comprou 300 livros. A livraria chama-se Ulmeiro, fica em Benfica, e é daquelas onde os livros não se expõem, procuram-se, ao acaso nas estantes, sobre as mesas e sobre o chão, talvez só não sobre a cadeira onde pontifica o gato Santiago. A Ulmeiro teve uma época, a minha geração sabe, e a Ulmeiro continua a ser mais um, entre mil e há mil anos, lugar onde se encontram livros. Os livros de papel serão ainda por muito tempo lidos e quando deixarem de o ser não será porque o Fahrenheit 451, a temperatura a que o papel arde, os levará mas porque serão lidos em tablets e outros suportes. Entretanto, é importante que numa tarde chuvosa e a 10º Celsius, um Presidente entre numa livraria e encomende livros. Um dia, há muitos anos, José Ribeiro, o dono da Ulmeiro, disse-me o seu sonho: editar em português Paradiso, do cubano José Lezama Lima. Continua não editado. De Paradiso, Julio Cortázar escreveu: "Devemos lê-lo entregando-nos ao que chamamos destino, assim como entramos no avião sem dar conta da cor dos olhos ou do estado do fígado do piloto." Boa viagem, espero que a tenhamos todos com Marcelo.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias de ontem.

Legenda: fotografia da Câmara Municipal de Lisboa

domingo, 14 de fevereiro de 2016

À VOLTA DOS EDITORES


Podemos não concordar com as ideias políticas, e outras, de Marcelo Rebelo de Sousa, mas sabemos que é um homem culto, um académico que gosta de livros, que gosta de futebol.

Bem ao contrário da múmia que ainda se passeia por Belém.

O editor José Antunes Ribeiro, dono da Ulmeiro, a histórica livraria da Avenida do Uruguai em Benfica, atravessa momentos difíceis e, ontem, o futuro Presidente da República foi dar um abraço de solidariedade ao José Antunes Ribeiro.

A Ulmeiro, em tempos de ditadura, também depois do 25 de Abril, sempre cumpriu uma missão fundamental: publicar livros que outros editores, por medo-fosse-do-que-fosse, recusaram colocar nas mãos dos leitores.

Assim de repente, lembro-me de As Armas Estão Em Boas Mãos do Capitão Fernandes.

Como a situação financeira da livraria há muito se arrasta, o aumento da renda criou maiores dificuldades, o António Ribeiro, através do facebook, tem vindo a fazer leilão de livros, dos cerca de 200.000 que estão pelas prateleiras, pacientemente organizados por Lúcia, sua mulher.

Pela livraria também se passeia o gato Salvador, terna companhia do Zé Ribeiro e da mulher.

À agência Lusa, contou:

Sou de origem camponesa, não tenho muito esse feitio de estender a mão. Não gosto, não está no meu caráter. Há pessoal que me tem dito ‘fazemos isto e aquilo’. Eu jamais aceitaria qualquer coisa do estilo de esmola. A única coisa que estamos disponíveis é para vender barato. Isso não me importo, para ajudar a resolver o problema”, contou.
Um puto que nasceu numa aldeia onde não se lia, como era o meu caso, numa casa onde não havia livros, com pais analfabetos, que descobriu as bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian e uma professora primária, que teve uma influência enorme, optando por vir para Lisboa para ser livreiro-editor.

Às quintas-feiras almoçava com o António Lobo Antunes, tal como conta o escritor, no 3º volume das suas Crónicas, um pedacinho de história que há muito anda para ser Postal ou Quotidianos:

E às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o subúrbio do subúrbio, depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a gente acha feia e eu acho lindo.

Numa visita à Ulmeiro, perguntei como iam os almoços.

Já quase não se realizam. O António está um chato levado do diabo.

A Ulmeiro fica no nº 13-A da Avenida do Uruguai, ex-libris do bairro de Benfica.

Estão por lá livros importantíssimos, que já não se encontram em parte alguma, a preços que são quase um escândalo de baixo custo.

Merece uma visita.

Passar por lá para ajudar a manter aquele espaço aberto.

É sempre tarde quando se chora.

Quando as livrarias fecham, os cinemas fecham, saltam as lágrimas de crocodilo.

E é sempre tarde, quando se chora.

Legenda: fotografia da Câmara Municipal de Lisboa

sábado, 20 de julho de 2013

MEMÓRIAS QUE SE DESFAZEM


Há mortes anunciadas.

Mais tarde, ou mais cedo, sabemos que vão acontecer.


Mais uma livraria vai fechar portas no Chiado.

Em Janeiro do ano passado fechou a Livraria Portugal.

Soube-se, agora, que a Livraria Sá da Costa, na Rua Garrett, que assinalava este ano o centenário da sua fundação, vai fechar as portas na próxima segunda-feira. Foi declarada insolvente pelo Tribunal de Comércio de Lisboa já que uma assembleia de credores rejeitou um plano de viabilização da empresa apresentado a 2 de Julho. Assim sendo foi decretada a liquidação total, que implicará a venda de todo o património da livraria e a extinção da empresa.

Para além de livraria, a Sá da Costa era também uma editora de clássicos.

Foi graças à Sá da Costa que pude adquirir, em 1972, três volumes dos Ensaios de António Sérgio que me faltavam. Acabaria  por comprar todos os ensaios do Sérgio publicados pela Sá da Costa, porque era uma edição muito cuidada, orientada por Castelo Branco Chaves, Vitorino Magalhães Godinho, Rui Grácio, Joel Serrão e organizada por Idalina Sá da Costa e Augusto Abelaira.


Mas quem é que hoje lê António Sérgio?

Quem é que hoje frequenta livrarias?

Num local bonito onde se vendiam livros, passaremos, certamente, a ver um espaço para venda de trapos e bugigangas.

Chamam-lhe globalização, ou lá o que é.

A última vez que estive na Sá da Costa foi, em Outubro do ano passado, no lançamento  do Para Já, Para Já do Vitor Silva Tavares.

E assim, a minha Lisboa vai desaparecendo aos poucos.

Estas coisas doem que se farta.

Poderia ir, hoje, subir o Chiado para tirar o último boneco à Sá da Costa.

Falta-me coragem, o que lhe quiserem chamar.

Escreveu Graham Greene que a nossa vida é mais feita pelos livros que lemos do que pelas pessoas que conhecemos.

Foi em livrarias que comprei a esmagadora maioria dos meus livros.

Livrarias como a Sá da Costa.

Se não sabes despedir-te diz que já voltas.

Legenda: Vitor Silva Tavares, à conversa, na Sá da Costa, por ocasião do lançamento de Para Já, Para Já. Para Já, Para Já

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O MUNDO DO LIVRO


Para encerrar o ciclo do largo que é uma rua, onde se falou de Os Anarquistas e a Barateira, fica a fotografia de O Mundo do Livro.
Muitas vezes ali entrei, mas apenas para olhar a beleza da casa.
O que por lá se vende não acompanha os cordões da minha bolsa.

A BARATEIRA


Quando tirei a fotografia ao tasco Os Anarquistas, subi o largo, que é uma rua, e fui dar uma vista de olhos à Barateira.

Ainda estava de portas abertas.

Não tenho memória de ter entrado na Barateira e sair de mãos a abanar.

Havia sempre uma pechincha.

Admito que gentes, com outras exigências, não encontrassem na Barateira o que andavam à procura: livros, revistas, o que que fosse que a livros e documentos dissesse respeito.

Um silêncio de claustro, pegar num livro e olhar os pedacinhos de pó que se desprendiam.

Por mim, sempre que procurava qualquer livro que já não apanhava nas livrarias, dirigia-me à Barateira e… voilá!

Depois de sair da Barateira, eram uns míseros passinhos, passava a Academia dos Amadores de Música do velho Graça e fazia questão de aportar ao balcão da Trindade.

Nada mais estimulante que beber uns fininhos a olhar a lindíssima azulejaria daquela catedral.

A Barateira fechou portas o ano passado.

A Trindade ainda não.

Mas os passos já não são os mesmos, os sabores também não.

Escaninhos da memória, que, piorar um pouco as coisas, já não é o que era.

É assim que envelhecemos…

terça-feira, 2 de outubro de 2012

AONDE REGRESSAMOS ENTÃO?


Até há poucos meses, aqui era a Livraria Portugal.

Naquelas salas respirava-se história, cultura, ficaram conversas.

Agora está por lá algo que dá pelo nome de Eric Kayser.

Vista, do outro lado do passeio, parece-me qualquer coisa a armar ao fino: padaria, cafetaria, confeitaria, sei lá mais o quê…

Tirada a fotografia, já na carruagem do Metro, a caminho de casa, alguém, via telemóvel, contava a outro alguém que:

-Vê lá tu: lembras-te da X, que começou a comprar no gourmet do El Corte Inglês, passou para o Continente, vai agora no Minipreço e não tardará vai aparecer na Sopa dos Pobres dos Anjos?

- ?

- Essa mesmo!

Entretanto cheguei à estação onde tinha de sair.

Confesso que não sei muito bem dos motivos do relato deste episódio.

Sei, apenas, que me sinto desconfortável.

Ali, onde era a Livraria Portugal, está uma coisa que dá elo nome de Eric Kayser.

A memória como último refúgio.

domingo, 29 de abril de 2012

JANELA DO DIA



Por norma os fins-de-semana são dias parcos em notícias, os políticos, os fala-barato, vão arejar e, apenas ficam as outras notícias, normalmente mortes, outras tragédias, por vezes, um acontecimento feliz.
É um tempo propício para colocar à janela o que, nos últimos dias, fui lendo pela concorrência.

1.

Na abertura da Feira do Livro de Lisboa, não foi apenas a comitiva oficial que passeou pelo parque, trocando cumprimentos com os passantes. Também os trabalhadores das livrarias Bulhosa, do Grupo Civilização, e da Europa-América marcaram presença, com panfletos que explicavam aos visitantes da Feira o que se passa nos seus locais de trabalho (salários em atraso, subsídios por pagar, total instabilidade laboral). Nessa altura, um dos trabalhadores da Bulhosa deu uma entrevista à SIC, falando sobre a sua situação laboral e a dos seus colegas; três dias depois, foi suspenso, como se pode ler na notícia do Expresso:

A administração da Bulhosa Livreiros suspendeu hoje de manhã Rui Roque, o trabalhador que surgiu, na reportagem da SIC, a denunciar a atual situação de salários em atraso na empresa, no âmbito da ação de protesto que decorreu durante a abertura da Feira do Livro de Lisboa.

“Hoje a administração decidiu suspender-me porque acha que não reúno condições para trabalhar na empresa”, contou ao Expresso Rui Roque.

O Expresso tentou obter esclarecimentos da Bulhosa Livreiros, do grupo Civilização, mas não conseguiu mais do que uma declaração. “A empresa não comenta questões internas relacionadas com os seus funcionários”, leu o assessor de imprensa, acrescentando: “A Bulhosa Livreiros pauta-se pelo respeito escrupuloso pelos direitos legais dos trabalhadores, designadamente o direito à manifestação”.

Na comunicação do processo disciplinar que enviou ao funcionário, a administração refere, especificamente, que a decisão ocorre na sequência do conhecimento do comportamento do trabalhador no dia 24 de Abril de 2012, data da manifestação conjunta de trabalhadores da Bulhosa Livreiros e da Europa-América, organizada com o Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal CESP), para denúncia dos salários em atraso nas duas empresas.

Sara Figueiredo Costa no Cadeirão Voltaire

2.

Era miúda na altura, não percebi a correria, o medo, a alegria súbita. Depois sim, e na verdade o vinte e cinco de abril deu-me a possibilidade de ser refilona ainda muito jovem, de não aceitar as coisas como elas são mas como devem ser. Ao ver na televisão as imagens antigas, percebo como a data se transformou em história distante, matéria escolar, porém não sinto nostalgia. E quando dizem que os ideais do vinte e cinco de abril não se cumpriram, não compreendo. Uma revolução é necessária para dar cabo de qualquer coisa, acabar com uma ditadura, por exemplo; é uma resposta violenta e curta, deve ficar por aí. É mais importante, e também mais difícil, o que vem depois e se prolonga: reconstruirmos o nosso dia a dia, assumirmos a responsabilidade de pensar e agir em conjunto, darmos às nossas palavras e aos nossos gestos um sentido justo — isso não muda o mundo, mas eu mudo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

JANELA DO DIA


Por norma os fins-de-semana são dias parcos em notícias, os políticos os fala-barato, vão arejar e, apenas ficam as outras notícias, normalmente mortes outras tragédias, por vezes, um acontecimento feliz.
É um tempo propício para colocar à janela o que, nos últimos dias fui lendo pela concorrência.
Sara Figueiredo Costa, no seu Cadeirão Voltaire, faz uma bonita evocação, sobre o fecho da Livraria Portugal:

Nunca vi Natália Correia ao vivo, mas tenho dela uma imagem muito nítida, de cigarro na ponta de uma enorme boquilha, cabelo armado e os gestos fulgurantes a pontuarem uma fala segura e sonora. Encostada ao balcão da Livraria Portugal, Natália Correia perorava sobre a poesia portuguesa, enquanto os clientes da casa, muitos deles escritores, ouviam e rebatiam, ou fingiam não ouvir. É uma memória muito definida, tão definida que não é minha, apesar de integrar sem risco de falsidade maior do que tantas outras o meu acervo pessoal de memórias. É uma memória da minha mãe, que eu ouvi tantas vezes e que imaginei com tanta dedicação que passou a ser minha. E era uma memória da minha avó, caixa na Livraria Portugal durante muitos anos. Na verdade, a Livraria Portugal, onde só entrei mais tarde, quando comecei a vir para Lisboa sozinha (é uma espécie de ritual de passagem suburbano, vir a Lisboa de modo independente), forneceu-me muitas memórias como esta, episódios a que não assisti mas que se colaram ao meu imaginário sem nenhuma diferença relativamente àquilo que se consideram memórias realmente experimentadas: Vergílio Ferreira escolhendo livros na estante, David Mourão-Ferreira parando para respirar, entre livros, o sossego que não lhe dariam as suas muitas pretendentes, os recados que se deixavam, a minha tia trabalhando durante um tempo no andar de cima, aquele que tem as janelas para a rua, os livros que pediam à minha avó para esconder debaixo do balcão, não fosse a PIDE aparecer para os apreender, e que mais tarde eram passados a outra pessoa, a minha mãe, miúda, a espreitar as novidades, abrindo os livros com todo o cuidado e lendo de uma ponta à outra os volumes que não podia comprar, as discussões que por vezes estalavam entre gente das letras, umas vezes motivadas por barricadas estético-literárias, outras por histórias de cama mal contadas. Quando eu comecei a ir à Livraria Portugal já nada disto era assim, claro. A minha avó estava reformada, a minha tia trabalhava noutro sítio e a minha mãe já podia comprar alguns livros; Natália Correia aparecia na televisão, num programa chamado Mátria, David Mourão-Ferreira aparecia com o seu cachimbo na mercearia de uma aldeia onde eu também crescia, e a PIDE, felizmente, já tinha acabado há muito, entre tanques cobertos de gente e cravos que também hão-de ter passado pela Rua do Carmo. Agora, setenta anos depois de abrir as portas, a Livraria Portugal vai ter de fechá-las. A notícia vem em vários jornais, nomeadamente no i, onde António Machado, funcionário da livraria há 40 anos, explica que a situação é “insustentável com as grandes alterações no mercado livreiro, a quebra das vendas e a insuficiência de meios para pagar as despesas”. E diz mais: “Os livros vendem-se hoje em todo o lado: nas grandes superfícies, na internet, nos correios, a preços e com condições que não podemos acompanhar“. Suponho que isto seja o progresso, o mundo a funcionar, o inevitável e blá, blá, blá. Pela minha parte, estou muito triste.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

SARAMAGUEANDO


A Livraria Portugal, de portas abertas há setenta anos, a funcionar na Rua do Carmo, no Chiado,  junto ao elevador de Santa Justa,  vai encerrar.

Esta é uma notícia que dói. Dói porque é mais uma machadada na vida da cidade,  em particular na sua vida cultural.

Os motivos avançados são os do costume: uma boa fatia de leitores deixaram de frequentar as livrarias, passaram a comprar livros na internet, nas grandes superfícies, na Fnac que, digo eu, não é uma livraria, apenas uma outra qualquer grande superfície que vende livros, com a mesma displicência com que vende pilhas para transístores.

A Livraria Portugal chegou a empregar 50 trabalhadores, hoje tem uma dezena, que, segundo os proprietários, receberá as respectivas indemnizações.

Possivelmente irá lugar a mais uma agência bancária, ou uma loja de trapos. Livraria, com toda a certeza, não será.

Foi na Livraria Portugal que comprei, entre tantos outros livros, Os Poemas Possíveis de José Saramago.
 aNesse dia, ao meu lado o peta António Manuel couto Viera sobraçava alguns livros e entre pude ver o livro de Saramago. Era Setembro de 1966 a findar, e lá fora chovia.

Quantas livrarias, em Lisboa já vi fecharem as portas?

Cada uma que fecha, leva-me para aquela ambiência criada pela escritora norte-americana, Helen Hanff, no seu livro 84, Charing Cross Road  em que revela a correspondência que manteve, ao longo de vinte anos, de continente a continente, com os empregados de uma livraria dessa mítica rua londrina.

Nunca li o livro de Helen Haniff, mas vi a adaptação que David Hugh James realizou.

O filme em português chama-se A Rua do Adeus tem interpretação de Anthony Hopkins e Anne Brancoft e dele transborda uma imensa ternura e amor pelos livros, uma livraria, uma porta com um sininho que chocalha cada vez que entra um cliente e que é o único ruído, para além do folhear das páginas dos livros, que rompe o silêncio daquele santuário.

A notícia do encerramento da Livraria Portugal magoa e deixa profundas marcas.

Aos poucos, as livrarias vão morrendo.

Nós, um pouco com elas.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

MEMÓRIAS

Pelo menos uma vez por semana, ao cair da tarde, saia da Agência e ia até à “Livaria Anglo-Americana” ali ao Cais do Sodré, no mesmo lado da fronteira do "British-Bar" e do "English-Bar". 

No local da livraria, foi a Pastelaria Caneças,  está hoje, com o mesmo nome, uma boutique de pão.

Alguém já contou a história por aqui.

Quando se gosta de livros, se encontra um empregado de livraria que sabe o que é um livro, que ainda por cima é escritor, a felicidade é a palavra que se encontra para definir o enquadramento.

Antes de Abril o Eduardo guardava-me, de imediato, os livros que ele cheirava que iriam ficar fora do mercado.

Por um findar de tarde, era Verão, fui até à Anglo-Americana para saber dos últimos livros saídos. O Eduardo estava à conversa com o Altino Tojal, sim esse o dos Putos. 

Corridos os taipais fomos até ao British-Bar. 

Palavra puxa palavra, copo puxa copo, já eram mais que horas de jantar. 

Sabia que por casa o jantar seria uma salada de feijão frade, com muita cebola, pickles e atum Tenório. 

Era só juntar mais umas latas e corremos a apanhar o 35.

O vinho era Arruda, tinto, a janela aberta bebia o calor na noite cálida, assim como lembrando o Eça, a Aida conversava com o Eduardo, ambos, desde muito jovens, empregados de balcão o Eduardo de livros, a Aida de corte e costura.

Entretanto, chegara o Garrudo, já não sei bem para o quê, e a conversa ainda mais se eternizou. Escolher e falar de coisas simples, aquelas coisas insignificantes que nos emocionam até aos limites da ternura.

Noite adiantada, o outro dia era dia de trabalho. O Garrudo ofereceu-se para boleias. 

O Altino Tojal quis ficar no Cais do Sodré e fomos levar o Eduardo a Manique, uma aldeia ali para os lados de Alcabibeche, onde há carreiras de camionetas, raparigas, que acabaram por dar um livro
.
Pela manhã, na Agência, recebo telefonema do Eduardo para passar pela livraria.

Da conversa da véspera do Eduardo com a Aida, tinha nascido um poema. Escrito num bocado de cartão, a marcador vermelho, o Eduardo pediu-me que o entregasse à Aida.

Durante muitos anos assim ficou na parede da casa.

O tempo fez desaparecer as palavras, escritas a marcador vermelho, do Eduardo Olímpio. Mas a o poema está aqui:

AMIGA

Quem sorri assim fecha a janela
Que o Sol não é preciso
Na mesa há uma toalha de ternura
E no copo no talher o teu sorriso.

Pela casa dois pardais tentam voar
Voam penas/alegrias no corredor:
- Voem pardalitos, voem, voem
Que as paredes desta casa são de amor.

E um dia hei-de ir mercar ao teu balcão
(Nem seja somente em fantasia)
Um casaco de sol em jaquetão,
Já-que-tão me tocaste de harmonia.


Eduardo Olímpio

(16.09.81)

A fotografia que, em cima, ilustra estas memórias, tirou-a o Luís Pinheiro de Almeida, num daqueles dias rigorosos de Fevereiro deste ano. Mr. Ié-Ié garantiu que, para tirar a fotografia ao paquete Aida ancorado na Rocha de Conde d’ Óbidos, correu sérios riscos de vida. 


Mas prometeu que, quando o paquete voltar a Lisboa, fará uma fotografia mais aprimorada.

Coloco, também, a capa de um dos livros do Eduardo Olímpio, precisamente A Menina da Carreira de Manique.


Um livro ternurento de que o Mário Castrim disse ser uma armadilha de encantamento de que poucos livros conhecem o segredo”, e o Júlio Conrado: “ao que o Eduardo Olímpio chama mini-crónicas chamo eu pérolas da literatura portuguesa. E assumo a inteira responsabilidade daquilo que escrevo., ou o Jorge Listopad: Lê-se, e o português canta. Através das coisas, das falas, do tempo. Sem falso lirismo, sem literatice. É possível que passasse por entre os “grandes” despercebido? Que não tivesse encontrado os leitores que merecia e merece?.

(1) “A Menina da Carreira de Manique”, Eduardo Olímpio, capa H.Mourato, “Edições Maria da Fonte”, Lisboa 1978

terça-feira, 23 de março de 2010

MONOS E LIVROS


No dia em que contribuímos para que as médias-pequenas livrarias morressem, ficámos dependentes de colossos, como a FNAC, cujo único objectivo é o lucro a qualquer preço.

Jorge Silva Melo, numa crónica a que chamou “Já Fechou a Livraria”, incluída no seu “Século Passado”, conta que uma pequena livraria abriu um dia em Campo de Ourique mas não chegou a estar aberta um ano.“Por que não fui interlocutor solidário daquela senhora que efectivamente ousou e foi vencida? Por que hei-de perdoar-me a mim? Não foi isso mesmo o que eu disse àquele pequena livraria? Que não a queria? Que não me servia para nada? Que lhe prefiro a Internet e as fnacs? Se a pequena livraria fechou, fui também eu que a fechei".

O Orson Welles dizia que, no tempo das grandes superfícies, chegará o dia em que iremos ter saudades do merceeiro da nossa rua.

Há dias soube-se que a “Leya” guilhotinou milhares de livros. Na discussão e indignação que se gerou, Maria Teresa Horta lamentou a destruição pela Bertrand Editora, do seu livro “A Paixão Segundo Constança H” que ela julgava esgotado.

Neste país que não lê, publicam-se demasiados livros, quarenta por dia, ao que dizem e a maior parte é lixo.

Há livros que chegam a estar apenas duas a três semanas nas livrarias, mas como não têm procura são devolvidos.

As livrarias, principalmente as grandes superfícies, tornaram-se meros entrepostos de novidades e apenas estão interessados naqueles que se vendam bem . Estão neste caso os livros "escritos" por um qualquer futebolista, um qualquer treinador de futebol, um qualquer pivot de televisão, um qualquer político,um qualquer vendedor de banha-de-cobra, não importa o que dizem, se têm ou não qualidade.
Estes são os livros que não regressam aos armazéns da editora. Ficam semanas e semanas nos tops.

Leio em “A Bola”, que acaba de sair “Os Mandamentos de Jesus” escrito por Rui Pedro Brás.

Ao que diz a notícia, o livro conta as origens humildes do treinador Jorge Jesus, as suas histórias e fala também de tácticas.

Não terei qualquer dúvida que se amanhã entrar numa livraria encontrarei montanhas de “Os Mandamentos de Jesus”, que dado todo o vento que sopra em redor do clube e do treinador, se vão vender desalmadamente.

Nessa mesma livraria se perguntar por um livro, por exemplo, de Carlos de Oliveira, ou José Gomes Ferreira, a resposta é um “não temos” e como não querem chatices, adiantam logo que está esgotado.

Não está esgotado, encontra-se, apenas, a apodrecer num qualquer armazém dos subúrbios. Passados os prazos legais serão guilhotinados.

É este o triste destino a que os amantes dos livros estão condenados quando, numa livraria, procuram um livro que não esteja anunciado na TV, que não tenha sido bolsado por uma qualquer arvela do “jet-set”.