No tempo em que os blogues eram interessantes, passava
algum tempo a lê-los.
Fiz gratificantes descobertas , muitos acabaram e, hoje,
os dedos das mãos dão para saber quantos blogues ainda me levam a uma leitura.
Essa coisa infantil, leviana, quiçá idiota, que dá pelo
nome de «Facebook» matou os blogues.
Porque um blogue dá trabalho, pouco ou muito, dá
trabalho, necessita de um outro tratamento, enquanto que o «Facebook» tem
aquela ligeireza que dispenso.
Quando digo que não tenho «Facebook», as pessoas lançam
um indignado: O quê? Não tens «facebook?»
Não lembro como entrei naquele largo, mas fiquei visita
pelas fotografias, pelas histórias, pelos dizeres, pelas ideias, pelo sossego,
pelo devagar dos dias, das gentes, coisas simples, aquelas coisas
insignificantes que nos emocionam até aos limites da ternura.
É do Largo da Memória que retiro este comovente A
Carreira da Saudade, texto de Joaquim Nascimento. A imagem também pertence ao
Largo da Memória:
«Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a
carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias pela EN 222 e
nos ligava à Vila, ao Comboio e ao Mundo, pela linha do Douro.
A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava nos Pereiros todas as manhãs,
pelas oito horas e trinta minutos, e regressava às quatro e meia da tarde,
depois de subir penosamente, curva-contra-curva, Pinhão, Bateiras, Casais,
Ervedoza, até ao planalto da Pesqueira, num esforço notável para a provecta
idade dos veículos que a firma Viúva Carneiro & Filhos, Ld.ª escolhia para
fazer este percurso diário e exigente.
À ida, chegava à Pesqueira um pouco depois das nove, para que as pessoas dos
Pereiros, do Vilarouco, do Vidigal e mesmo de freguesias mais afastadas da EN
222, como Valongo, Trevões e Vázeas, pudessem estar na Vila à hora de abertura
das repartições onde a burocracia as chamava, sempre com algum receio da sua
parte e quase nunca com qualquer proveito.
À vinda, passava outra vez pela Pesqueira, um pouco depois das três horas e ali
fazia uma curta espera. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira
constituía a actividade social mais importante da gente da Vila, podendo dizer-
se que o trabalho da parte da tarde só se iniciava depois de a carreira ter
passado, ou era interrompido durante esse período e não vestir a melhor roupa
para solenizar esse momento desqualificaria qualquer cidadão.
Neste curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas,
comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras,
bisbilhotando que pessoas tinham chegado e imaginando o destino da viagem das
que seguiam, assim alimentando o seu imaginário de moradores desta pequena vila
do interior, onde nada se passava desde os tempos do Senhor Marquês de Pombal e
da Real Companhia Velha.
Alguns grupos exibiam distintivos profissionais por si criados, como os
alfaiates que espetavam na lapela do seu casaco escuro uma agulha onde
enrolavam um bom pedaço de linha branca com as duas pontas a esvoaçar e, se
estou a ver, punham mesmo ao pescoço a fita métrica do ofício feita de linóleo
de cores berrantes.
A carreira da Meda também servia de relógio, nesse tempo em que os relógios
eram raros e não se usavam todos os dias. “Já passou a carreira?” equivalia a
perguntar “que horas são ?” e responder“ passou mesmo agora” era o mesmo que
dizer “são oito e meia” se era de manhã, ou “quase cinco horas” se era de
tarde, e dizer “hoje nem me dei conta de ter passado a carreira”, equivalia a
afirmar “andei tão absorvido que nem dei pelas horas terem passado”.
Em boa verdade, a maior parte das vezes nem se via passar a carreira, pois a
estrada velha, assim chamávamos à estrada nacional lá em cima, por
contraposição ao pequeno ramal finalmente aberto e a que chamávamos a estrada
nova, a estrada velha, dizia, não se avistava de todo o povo e, por isso, se
quiséssemos ser rigorosos, teríamos que dizer, ouvi passar a carreira, pois era
o ruído do seu cansado motor a arrancar para a paragem seguinte, na Horta, que
chegava cá em baixo e despertava os nossos sentidos.
A nós, os dos Pereiros, onde o tempo se calculava pelo Sol, sem grande rigor, a
carreira da Meda iniciou-nos no dever de cumprir um horário, pois toda a gente
aceitava a obrigação de estar a horas, pois “ a carreira não espera por nós,
nós é que temos que esperar por ela” , como responderia qualquer pessoa que
subisse mais cedo até à paragem, dois quilómetros mais acima, a quem observasse
“ainda é cedo, tens muito tempo” , e assim se aprendia, com naturalidade e os
meios ao dispor, o dever de pontualidade.
A carreira da Meda também cumpria com muito rigor o seu compromisso de
pontualidade com os passageiros e raramente terá chegado à paragem dos
Pereiros, depois da sua hora, a menos que fosse Inverno e a neve lhe tivesse
pregado alguma partida, e não consta que alguma vez tenha perdido, no Pinhão, o
combóio descendente, ou que tenha daí partido antes de ver instalados todos os
passageiros do combóio ascendente que a procuravam e isto constituía, ao fim e
ao cabo, a obrigação maior deste transporte colectivo de passageiros e bagagens
empilhadas no tejadilho, quando acabou o compartimento “J”.
Pela carreira da Meda se emigrou para o Brasil, para a África, para a França e
para a cidade grande, com o coração apertado pela saudade e pelo receio do
desconhecido e pela mesma carreira alguns regressaram um dia, umas vezes com a
felicidade estampada no rosto, outras vezes mal disfarçando nas suas rugas
cavadas as desilusões de uma vida, pois a sorte, contrariamente ao Sol quando
nasce, não é para todos.»