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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

PARA SOPHIA


Gosto da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, principalmente os poemas onde entram a Grécia e o mar, mas não daquela feliz maneira com que gosto de outros poetas aqui da casa.

Sophia faria ontem 100 anos.

Luís Eme, no seu excelente Largo da Memória, dedicou-lhe um poema.

Um poema bonito, simples, e sabemos como a simplicidade é tão difícil.  

«O mar azul e branco
torna-se mais expansivo,
e tocante,
depois de sentir
a luminosidade,
o perfume
e o encanto
das tuas palavras...»

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

domingo, 8 de setembro de 2019

A CARREIRA DA SAUDADE


No tempo em que os blogues eram interessantes, passava algum tempo a lê-los.

Fiz gratificantes descobertas , muitos acabaram e, hoje, os dedos das mãos dão para saber quantos blogues ainda me levam a uma leitura.

Essa coisa infantil, leviana, quiçá idiota, que dá pelo nome de «Facebook» matou os blogues.

Porque um blogue dá trabalho, pouco ou muito, dá trabalho, necessita de um outro tratamento, enquanto que o «Facebook» tem aquela ligeireza que dispenso.

Quando digo que não tenho «Facebook», as pessoas lançam um indignado: O quê? Não tens «facebook?»

O intróito serve para falar de O Largo da Memória, blogue que frequento há uns bons 10 anos.

Não lembro como entrei naquele largo, mas fiquei visita pelas fotografias, pelas histórias, pelos dizeres, pelas ideias, pelo sossego, pelo devagar dos dias, das gentes, coisas simples, aquelas coisas insignificantes que nos emocionam até aos limites da ternura.

É do Largo da Memória que retiro este comovente A Carreira da Saudade, texto de Joaquim Nascimento. A imagem também pertence ao Largo da Memória:

«Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias pela EN 222 e nos ligava à Vila, ao Comboio e ao Mundo, pela linha do Douro.
A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava nos Pereiros todas as manhãs, pelas oito horas e trinta minutos, e regressava às quatro e meia da tarde, depois de subir penosamente, curva-contra-curva, Pinhão, Bateiras, Casais, Ervedoza, até ao planalto da Pesqueira, num esforço notável para a provecta idade dos veículos que a firma Viúva Carneiro & Filhos, Ld.ª escolhia para fazer este percurso diário e exigente.
À ida, chegava à Pesqueira um pouco depois das nove, para que as pessoas dos Pereiros, do Vilarouco, do Vidigal e mesmo de freguesias mais afastadas da EN 222, como Valongo, Trevões e Vázeas, pudessem estar na Vila à hora de abertura das repartições onde a burocracia as chamava, sempre com algum receio da sua parte e quase nunca com qualquer proveito.
À vinda, passava outra vez pela Pesqueira, um pouco depois das três horas e ali fazia uma curta espera. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira constituía a actividade social mais importante da gente da Vila, podendo dizer- se que o trabalho da parte da tarde só se iniciava depois de a carreira ter passado, ou era interrompido durante esse período e não vestir a melhor roupa para solenizar esse momento desqualificaria qualquer cidadão.
Neste curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas, comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras, bisbilhotando que pessoas tinham chegado e imaginando o destino da viagem das que seguiam, assim alimentando o seu imaginário de moradores desta pequena vila do interior, onde nada se passava desde os tempos do Senhor Marquês de Pombal e da Real Companhia Velha.
Alguns grupos exibiam distintivos profissionais por si criados, como os alfaiates que espetavam na lapela do seu casaco escuro uma agulha onde enrolavam um bom pedaço de linha branca com as duas pontas a esvoaçar e, se estou a ver, punham mesmo ao pescoço a fita métrica do ofício feita de linóleo de cores berrantes.
A carreira da Meda também servia de relógio, nesse tempo em que os relógios eram raros e não se usavam todos os dias. “Já passou a carreira?” equivalia a perguntar “que horas são ?” e responder“ passou mesmo agora” era o mesmo que dizer “são oito e meia” se era de manhã, ou “quase cinco horas” se era de tarde, e dizer “hoje nem me dei conta de ter passado a carreira”, equivalia a afirmar “andei tão absorvido que nem dei pelas horas terem passado”.
Em boa verdade, a maior parte das vezes nem se via passar a carreira, pois a estrada velha, assim chamávamos à estrada nacional lá em cima, por contraposição ao pequeno ramal finalmente aberto e a que chamávamos a estrada nova, a estrada velha, dizia, não se avistava de todo o povo e, por isso, se quiséssemos ser rigorosos, teríamos que dizer, ouvi passar a carreira, pois era o ruído do seu cansado motor a arrancar para a paragem seguinte, na Horta, que chegava cá em baixo e despertava os nossos sentidos.
A nós, os dos Pereiros, onde o tempo se calculava pelo Sol, sem grande rigor, a carreira da Meda iniciou-nos no dever de cumprir um horário, pois toda a gente aceitava a obrigação de estar a horas, pois “ a carreira não espera por nós, nós é que temos que esperar por ela” , como responderia qualquer pessoa que subisse mais cedo até à paragem, dois quilómetros mais acima, a quem observasse “ainda é cedo, tens muito tempo” , e assim se aprendia, com naturalidade e os meios ao dispor, o dever de pontualidade.
A carreira da Meda também cumpria com muito rigor o seu compromisso de pontualidade com os passageiros e raramente terá chegado à paragem dos Pereiros, depois da sua hora, a menos que fosse Inverno e a neve lhe tivesse pregado alguma partida, e não consta que alguma vez tenha perdido, no Pinhão, o combóio descendente, ou que tenha daí partido antes de ver instalados todos os passageiros do combóio ascendente que a procuravam e isto constituía, ao fim e ao cabo, a obrigação maior deste transporte colectivo de passageiros e bagagens empilhadas no tejadilho, quando acabou o compartimento “J”.
Pela carreira da Meda se emigrou para o Brasil, para a África, para a França e para a cidade grande, com o coração apertado pela saudade e pelo receio do desconhecido e pela mesma carreira alguns regressaram um dia, umas vezes com a felicidade estampada no rosto, outras vezes mal disfarçando nas suas rugas cavadas as desilusões de uma vida, pois a sorte, contrariamente ao Sol quando nasce, não é para todos.»

sexta-feira, 24 de maio de 2019

DA MEMÓRIA DE UM LARGO E DOS FUMOS QUE DEIXOU DE FREQUENTAR...


Na meia dúzia de blogues em que, com mais assiduidade, vai viajando, há um que frequenta desde tempos bem recuados: o Largo da Memória de Luís Eme, jornalista, escritor e guardador das margens do Tejo.

Começou pelo agrado das fotografias e acabou a gostar do que lá por se escrevia.

Quando fumava cachimbo, cigarrilhas e charutos, gostou de ter lido no Largo esta pérola. 

Não por picuinhice, mas por um certo rigor, lamenta ter perdido a data em que foi escrita:

«Nunca tinha ouvido um elogio tão forte e sentido, a um não fumador activo, pelos frequentadores do seu escritório.

Embora ele nunca fumasse, nunca proibiu ninguém de fumar no seu espaço de trabalho e local de abrigo e de escrita, nem mesmo depois das proibições oficiais e da "publicidade assassina" nos maços de cigarro.


Depois de escutar os amigos, quase sem jeito, desculpou-se que sempre gostou do cheiro do tabaco.


Mas do que ele gosta muito, muito mais do que do cheiro do tabaco, é da liberdade.»

Esse inebriante cheiro da liberdade.

Os fumos, os gins...

Rigorosas instruções médicas, não lhe permitem fumar o cachimbo, as cigarrilhas, os charutos. 

Tem dias, não muitos, em que não consegue resistir…

O Gainsbourg tem uma canção em que diz que Deus é um fumador de Havanos e o Eça de Queiroz em AIlustre Casa de Ramires tem esta tirada:

«Mas reparando que escolhera um charuto, distraidamente o trincara:
- Oh! Perdão, minha senhora… ia fumar sem saber se V. Exª…
Ela saudou descendo as longas pestanas:
- O cavalheiro pode fumar; o Sanches não fuma, mas eu até aprecio o cheiro»

O cheiro do charuto incomodava a mulher de Groucho Marx.
Um dia disse-lhe:
- Ou eu os charutos!...
- Então ficamos bons amigos!

Legenda: Edward G. Robinson no filme Key Largo, um delicioso filme negro de John Huston

sábado, 18 de fevereiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Paraíso Triste

Maria João Martins
Capa: Luís Eme
Colecção Memória de Lisboa
Veja, Lisboa, 1994

Vivia-se de cócoras – o riso era uma indecência e o amor uma extravagância. A vida, qualquer coisa que, de repente, se descobria ter desperdiçado enquanto fora tempo. Nessa noite, no entanto, Lisboa festeja, como uma louca sem noção do tempo, do espaço ou das circunstâncias, o duplo centenário. Vive-se a última oportunidade para visitar essa obra-prima da arquitectura para ver e deitar fora que é a Exposição do Mundo Português, em Belém. Centenas de lisboetas não perdem tempo e tratam de se extasiar com o simulacro de Império erguido à beira-Tejo, para maior glória do Estado Novo.

terça-feira, 17 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Terra dos Homens

Antoine de Saint-Exupéry
Tradução Nuno Lobo Salgueiro
Capa: Luís Eme
Veja, Lisboa 1995

Num mundo onde a vida vai tão naturalmente ao encontro da vida, onde as flores se unem às flores até no próprio leito do vento, onde o cisne conhece todos os cisnes, só os homens constroem a sua solidão.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

NÃO SENTIA A FALTA DE UM CAMINHO DE FERRO


Quando se vive no interior normalmente sente-se falta do mar... sente-se falta do que está mais distante.
 Ele não, sentia falta de um caminho de ferro, de ver chegar e partir comboios que deixavam e levavam pessoas, e também dos outros de mercadorias, que demoravam uma eternidade a passar. Sabia porque contara uma vez as carruagens, quando foi à cidade grande, enquanto esperava pela composição que o traria de regresso a casa. A automotora puxava nada mais nada menos que 36 carruagens...
 Quando olhava para trás, não tinha dúvidas que tinha sido um rapaz estranho, demasiado curioso por tudo o que o rodeava. Devia ser por isso que era bom a  fazer perguntas que incomodavam os adultos, quase sempre por não terem respostas...
 Hoje quando volta ao lugar onde cresceu, sorri quando pensa nas coisas que pensava que lhe faltavam na infância, especialmente as respostas que nunca recebeu dos adultos...

 Luís Eme no Largo da Memória

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A VIDA COMO UM COMBOIO


Foi então que desabafou que a vida era um comboio, que passava por muitas estações, dando-nos todas as oportunidades de entrarmos, de sairmos, ou de simplesmente ficarmos por ali, a ver as carruagens a passar.

Luís Eme em Largo da Memória

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

À CONVERSA


Perguntaram-lhe:

A tragédia humana dos ídolos é o que mais resulta como filme?

Respondeu:

 No caso do Belarmino era de tudo mais a riqueza humana que ele tinha.
Se pensar no Vitor Baptista, é uma espécie de Belarmino no futebol. Eles não são a preto e branco, têm muitas "nuances". Eventualmente, ele explorou, mas foi mais explorado que explorador. E tinha tudo contra ele, o semianalfabetismo, a miséria. A favor, só a cara e um talento para o boxe fora de série. Se olharmos para o Eusébio, ele ficou aquém do que devia.
É acusado de muitas coisas, mas nós devemos-lhe muito mais do que ele nos deve a nós. Devemos-lhe quase tudo e pagámos-lhe pouco.

Fernando Lopes, entrevista de Luís Eme no Record, Março 1992

quarta-feira, 4 de julho de 2012

NO PRÓXIMO VERÃO, UMA ÚLTIMA VEZ!


Mais uma bonita evocação encontrada no blogue O Largo da Memória do jornalista e escritor Luís Eme:

«Quando chegar o Verão havemos de voltar ao rio, de manhã cedinho, para comermos pêssegos maduros, ainda húmidos do orvalho da manhã, ou então escolheremos o fim da tarde para regarmos a horta, só para sentirmos o cheiro da terra molhada.
Os pêssegos do rio são os melhores pêssegos do Mundo e para o confirmar basta tactear-lhes a pele, de seguida abri-los com cuidado para que não se perca uma gota sequer do seu suco e só depois trincá-los, para apreciarmos em toda a plenitude o seu cheiro e o seu sabor.
Lindos por fora na sua pele rosada que qualquer mulher gostaria de imitar - pele de pêssego com se diz de uma pele jovem - lindos por dentro no carmim da sua concha, cujo negativo o caroço imprimiu, os pêssegos do rio foram criados para saciar bocas gulosas, mais do que estômagos famintos, e foram estes pêssegos que eu procurei sempre de cada vez que comi pêssegos ao longo da minha vida, mas raramente os terei voltado a encontrar.
Os pêssegos melhores do Mundo são os pêssegos do rio Torto, mas posso garantir que, dentre eles, os melhores são os pêssegos da avó Maria, no rio do Gato, um trecho do mesmo rio, que o rio da minha terra é um rio de muitos nomes, à medida que passa por nós ou nós por ele, nas curvas do seu destino.
Parecidos com os pêssegos da Avó Maria só as maçãs do José Francisco que ele trazia do Oeste, para oferecer à Fernanda, a nossa e não a outra, nem enormes, nem pintadas, mas que, na modéstia do seu tamanho, enchiam logo todo o espaço à sua volta com o gosto antigo da maçãs de cheiro.
Vamos então ao rio apanhar pêssegos, enquanto o orvalho da manhã os conserva frescos, e assim os teremos no mais vivo da sua cor, no mais intenso do seu perfume, no mais requintado do seu sabor!
Vamos a pé, pelo caminho velho, à ida pelos seus atalhos, pois é a descer e todos os santos ajudam, à vinda, mais devagar, por cada uma das suas curvas que ainda havemos de reconhecer, apesar de o mato ter feito um enorme esforço para apagá-las.
Quando chegarmos, uma ligeira brisa há-de agitar a folha espessa dos salgueiros, um marantéu que é o mais lindo de todos pássaros, há-de cantar num dos seus ramos mais altos, enquanto debica a primeira refeição do dia e o feno das margens há-de cheirar à roupa lavada que, na véspera, ali esteve a corar. Se tivermos sorte, esquadras de libelinhas hão-de voar ao rés-da-água e com elas vamos espreitar o fundo do rio, de calhaus rolados e água pura.
No próximo Verão havemos de voltar ao rio, para nos emocionarmos com a sorte dos pessegueiros que já ninguém cultiva e para lamentarmos que tenha desaparecido das vargens o cheiro fecundo da terra regada.
No próximo verão, uma última vez!»

domingo, 13 de maio de 2012

JANELA DO DIA


Por norma os fins-de-semana são dias parcos em notícias, os políticos, os fala-barato, vão arejar e, apenas ficam as outras notícias, normalmente mortes, outras tragédias, por vezes, um acontecimento feliz.
É um tempo propício para colocar à janela o que, nos últimos dias, fui lendo pela concorrência.
Luis Eme, no seu blogue Largo da Memória, de que somos visita regular, coloca, sobre a blogosfera uma questão curiosa.

Chamou-lhe Constatações…

Mas antes de reproduzir o texto, dizer o seguinte:

Há semanas atrás, recebemos uma mensagem em que alguém  dizia que éramos uns tipos porreiros, mas tínhamos poucos comentários e se, quiséssemos mais visitantes, e mais comentários, qualquer coisa como mil visitantes por dia, era só utilizar os serviços do endereço que vinha junto.

Qualquer coisa como os bilhetes de claque para os espectáculos do antigamente.

O meu pai costumava dizer que até de cascas de alho se poderia fazer um negócio... e a blogosfera  proporciona os mais diversos negócios.

Gunter Eich, poema alemão, escreveu:

Em Salónica conheço alguém que me lê. E em Bad Nauheim. Já são dois.

Eduardo Valente da Fonseca, poeta português, escreveu:

Supõe-se que todo o livro tem, pelo menos dois leitores: o que escreve e o revisor de provas. Mas calro, que é apenas uma suposição.

Não queremos ir mais longe.

A imagem, com que o Luís Eme ilustrou Constatações..., é um óleo de Ton Bouchier:

Noto que nos últimos dois meses o número de visitas ao "Largo" duplicou, das mais de duas centenas, passou para as mais de quatro.

O mais curioso é que o número de comentários tem diminuído.

Para mim a essência dos blogues são os seus comentadores. Os visitantes que passam sem deixar rasto, apenas contam para a estatística...

Esta conversa vem a propósito de uma outra conversa, com um dos meus amigos, que abandonou a blogosfera há quase um ano. Ele recebia mais de mil visitas diárias, mas os comentários eram uma raridade, o que o deixava aborrecido e ajudou a que abandonasse este espaço virtual.

Claro que não estou a pensar em abandonar a blogosfera, mas que este fenómeno é estranho, lá isso é. Vêm os visitantes, vão embora os comentadores... 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

JANELA DO DIA


Por norma os fins-de-semana são dias parcos em notícias, os políticos os fala-barato, vão arejar e, apenas ficam as outras notícias, normalmente mortes outras tragédias, por vezes, um acontecimento feliz.
É um tempo propício para colocar à janela o que, nos últimos dias fui lendo pela concorrência.

1.

A atracção que sinto pelas casas abandonadas é uma coisa que vem da infância e que nunca perdi.

Há pelo menos meia dúzia de palacetes abandonados, que gostava imenso de conhecer por dentro. Ás vezes quando passo perto deles, apetece-me saltar os muros e entrar por ali a dentro, descobrir os mistérios que aquelas paredes encerram, olhar os tectos (alguns ainda devem ser bonitos...), subir as escadas e depois espreitar pelas suas janelas...

Normalmente só entro nestes locais misteriosos, quando as portas estão abertas. E faço muitas perguntas, mesmo sabendo que as paredes permanecem silenciosas.

Luís Eme em Largo da Memória

2.




Manchete do Público para entrevista com a ministra da Agricultura, Assunção Cristas, que ainda nem devia ter nascido no tempo em que a destruição da Reforma Agrária deixou milhares de hectares de latifúndio abandonados.

Vitor Dias em O Tempo das Cerejas 2

Legenda: a imagem é um óleo é de Alain Gazier tirado do Largo da Memória

sábado, 14 de janeiro de 2012

JANELA DO DIA


Por norma os fins-de-semana são dias parcos em notícias, os políticos os fala-barato, vão arejar e, apenas ficam as outras notícias, normalmente mortes outras tragédias, por vezes, um acontecimento feliz.
É um tempo propício para colocar à janela o que, nos últimos dias fui lendo pela concorrência.

1.

Há dias que me irrita de uma forma menos latente, a estranheza que está dentro de mim, aquela coisa que se esconde por detrás de tudo, até do espelho.

Já nem sei se me incomoda ter voltado a viver o tempo das dúvidas e incertezas. Na meninice também era um pouco assim, embora obtivesse mais respostas e partisse para outra pergunta, afastando-me da "terra das incertezas".

É por isso que me pergunto muitas vezes: «porquê esta busca pela sabedoria e conhecimento, se isso isso só nos torna mais infelizes, só faz com que nos esqueçamos de nós e das pequenas coisas que nos dão prazer?»

Só pode ser mesmo porque sim...

O óleo é de Iman Maleki

Luís Eme no Largo da Memória.

2.

As nomeações para a EDP são um mimo. Catroga, Cardona, Teixeira Pinto, Rocha Vieira, Braga de Macedo... isto não é uma lista de órgãos societários, é a lista de agradecimentos de Passos Coelho. O impudor é tão óbvio nas nomeações políticas que nem se repara que até o antigo patrão de Passos, Ilídio Pinho, foi contratado.
Passos reincide na fórmula tenebrosa da Caixa Geral de Depósitos, reforçando a dose: dois cavaquistas (Catroga e Rocha Vieira), dois passistas (Braga e Teixeira Pinto) e um CDS (Celeste Cardona, a mulher mais polivalente de Portugal, já foi ministra, banqueira e agora será conselheira na Energia).

Duas linhas para Ilídio Pinho: é um grande empresário, está ligado ao Oriente e não precisa deste cargo para nada. Precisam talvez as suas empresas. E é pouco recomendável ver metido nisto o accionista e membro dos órgãos da Fomentivest, onde trabalhava Passos Coelho. O próprio devia sabê-lo - e não aceitar.

Alexandre Soares dos Santos, citado pelo Arrastão

3.

O ordenado de Eduardo Catroga equivale a 7 anos de ordenado mínimo. O valor de mercado do senhor não sei, mas deduzo que o mesmo só possa ser avaliado se tiver um chorrilho de ofertas para trabalhar aqui e ali. Será o caso? Duvido muito.

Patrícia Reis no Delito de Opinião

quinta-feira, 7 de julho de 2011

COMPANHIA DE TEATRO DE ALMADA


O sonho meu, como o de tanta gente, era que um teatro tivesse tanta gente como um Benfica-Sporting, e nem era preciso tanta. Mas estas coisas acontecem porque desde putos jogamos, à bola rua, - ainda se joga à bola nas ruas? – e criámos esse gosto.

Joaquim Benite é um homem de teatro.

Conheci-o ainda ele era um jovem repórter de “O Século”.

Como morava perto da casa dos meus pais, amiúde, acontecia apanharmos o último eléctrico para a Graça. Descíamos ao fundo da Heliodoro Salgado, subíamos a rua e entre tantas outras conversas, o teatro entrava sempre. Terá sido das primeiras pessoas a quem ouvi dizer que o teatro existia para ser representado e que entre ler uma peça e vê-la nas tábuas de um palco, há como aquela diferença entre beber um café e beber um nescafé porque o teatro tem que ter aquela vivacidade que só o actor e um palco emprestam ao texto.

Fiquei feliz lançou e alicerçou o “Grupo de Teatro de Campolide” ali, entre o Restaurante “Valenciana” e a “Pastelaria A Pastorinha” ícones do bairro de Campolide.

Mais velho que o mundo: quem gosta verdadeiramente do que faz , tarde ou cedo alcança o sonho.

O sonho hoje chama-se “Companhia do Teatro de Almada”.

De 4 a 18 de Julho realiza-se o 28º Festival de Almada, que se encontra entre os melhores festivais que se realizam pelo mundo.

Mais informações aqui

“Não sei se Joaquim Benite foi um jornalista que se transformou em encenador, ou se foi um homem de teatro que andou escondido, demasiado tempo, no lado quase invisível das notícias que escreveu para os jornais e revistas onde trabalhou.
Mas isso não é o mais importante, pelo menos se pensarmos que Almada conhece muito melhor o homem do teatro - cujo contributo artístico, como encenador e director da Companhia de Teatro de Almada, tem sido fundamental para o desenvolvimento da Arte de Talma na nossa cidade -, que o homem dos jornais.”

Luís Eme em O Casario do Ginjal”

segunda-feira, 25 de abril de 2011

SEGUNDA-FEIRA DE PASCOELA


Fiquem com esta bonita evocação, tirada do Blog “Largo da Memória” do jornalista e escritor Luís Me:

“Volto de novo à terra, Doiro acima de comboio, a carreira à minha espera no largo da estação, para me levar até ao planalto, a fiel carreira da Meda que, às dezasseis e trinta, me deixará nos Pereiros.
À chegada será Primavera clara ou quase e eu seria capaz de reconhece-la em qualquer parte do Mundo, pelo perfume das amendoeiras em flor, pelo chilrear dos pássaros, pelo zumbido das abelhas, pela cheiro a terra lavrada, pela simbiose perfeita entre estes cheiros, sons e cores.
Do forno comunitário já sobe o cheiro do pão e, na mesa, a minha mãe tem prontos todos os seus mimos, bola de carne, folar, biscoitos, com que vou matar saudades e fome, logo ao subir da escada.
- Um beijo à avó, minha filha. Olhe como a sua neta está linda, minha mãe !
Amanhã cedo vou à missa como todos os meus conterrâneos, vestirei uma opa vermelha para pegar no pálio na procissão e, com voz afinada, cantarei aleluia, aleluia, respondendo às invocações do Abade Celestino, no salmo em que anuncia à Mãe a ressurreição do Filho, afinal o mais sublime desejo de qualquer mãe que há três dias tenha perdido o seu.
À tarde sairá o compasso que vou receber em nossa casa, na companhia de quem quiser entrar para partilhar alegrias, trocar mimos, comungar afectos!
Os sinos repicarão toda a tarde e eu, pelo jeito de tocar, vou identificar quem toca e prestarei homenagem a quem consegue transformar em sinfonia duas notas repetidas, dlim dlão, dlim, dlão.
Vem daí, João, homem de Deus. Como pediste, as mimosas que conhecemos por acácias, estarão em flor, terás na mesa uma bola de azeite e uma regueifa fresquinha, e, se prometeres que vais, vou rogar a música de Custóias para dar brilho à nossa Páscoa!”