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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

NATAL... NA PROVÍNCIA NEVA


Recordação de neve na cidade:
às vezes os meus dedos procuravam
um conforto de infância ameaçada.

Nos bolsos esgarçados o cotão,
os restos de ternura nunca dada:
sempre se me fez longe o coração.

E o consolo perfeito, sem idade,
das coisas que há por dentro da lembrança;
recordação de neve na cidade:
foi antes do terror, da esperança.

Seja sempre quem sou esta distância
que muda em mim as coisas conseguidas
em dedos que procuram da infância
cotão, ternura, restos de outras vidas.

Luís Filipe Castro Mendes. Poema tirado da Antologia Natal… Natais

terça-feira, 6 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Nunca o vento da indiferença
me abrirá as mãos. 

Luís Filipe Castro Mendes

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Para a solidão nascemos. Outras vozes
nos chamam e invocam, outros corpos
se perfilam radiosos contra a noite.
Nós não somos daqui. Num intervalo
de campanhas esquecidas nos dizemos,
abrindo o coração aos de passagem.
Mas quando a manhã chega nós partimos,
mais livre o coração, longa a viagem.

Luís Filipe Castro Mendes

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

domingo, 10 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Procuro apenas o som nítido de uma voz, entre todas as coisas que deixei perder.
Procuro.

Luís Filipe Castro Mendes

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

UM POETA NA CULTURA


Depois da inqualificável atitude de João Soares, prometendo umas bofetadas a dois comentadores do Público, outro caminho não lhe restava senão pedir a demissão, o governo tem novo Ministro da Cultura: Luís Filipe Castro Mendes.

João Soares foi um enorme erro de casting, qual elefante em loja de porcelanas.

Luís Filipe Castro Medes  é um homem culto, um homem de bom senso, alguém que, como disse João César Monteiro de um secretário de estado da cultura, sabe distinguir uma vaca de um boi.

O novo ministro tem etiqueta, aqui, no Cais.

João Soares não tem.

sábado, 26 de março de 2016

QUOTIDIANOS


Se o navio afunda
a solução é atirar ao mar os passageiros.

E quando estivermos todos no fundo mar com o navio,
ainda que, mortos, não o possamos saber,
teremos então finalmente conseguido
atingir o ponto luminoso do equilíbrio.

Luís Filipe Castro Mendes, poema colocado por Nicolau Santos na sua coluna Cem Por Cento no Expresso.

Legenda: pintura de Júlio Pomar

terça-feira, 26 de agosto de 2014

UM DIA INVENTADO


Os meus amigos perdem comboios. Adiam viagens, mudam de rota à última hora, apanham boleias inesperadas. Os meus amigos às vezes perdem aviões. Pagam taxas suplementares e multas, pagam ataques de ansiedade. Os despertadores funcionam mal nas casas dos meus amigos.
Juan devia ter chegado a Santa Apolónia às duas da tarde. Lembrei-me disso quando, na livraria que eu e os doentes do ambulatório do Júlio de Matos frequentamos com displicência, vi "Os Dias Inventados" de Luís Filipe Castro Mendes. Lembrei-me de ir esperar Juan ao comboio, lembrei-me que Juan devia conhecer Luís.
Quando Juan telefonou ("Perdi o comboio. Se calhar já não me calha ir") achei normal, mas fiquei a olhar para o livro de Luís que não era meu. O Luís tão embrulhadinho, em cima de uma secretária cheia de lixo, à espera de ninguém. O Luís, o doce poeta, o nosso homem em Budapeste, envolvido no papel "bordeaux" da Castil. O Luís não devia ficar assim fechado com os dias de sol bonitinhos da pátria, em Budapeste outra coisa, outra coisa será. Acabei por roubar o Luís a Juan e foi muito bom.

A firme paixão cega fui atado
e com meus males preenchi cadernos.
eu dava-te os cadernos, enlevado
de paixão: mortas aulas, frios invernos.

Mais tarde vi teu nome no jornal:
fugias do país, Revolução!
Quando depois voltaste a Portugal
não quisestes lembrar-te da paixão

que num mover de olhos acenderas
e me levara a copiar Herberto
para esconder seus versos na carteira
de onde podia ver-te de mais perto.

O amor estava em visita, sem demora.
Alguém chamou por ti e foste embora

Luís Filipe Castro Mendes
"Os Dias Inventados"
Gótica

Ana Sá Lopes em Glória Fácil

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.