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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

PETER FONDA (1940-2019)


No dia 16 de Agosto morreu Peter Fonda. Tinha 79 anos.

Filho de Henry Fonda, irmão de Jane Fonda.

Borrifou-se em Hollywood, preferiu ser um independente, deixa para a História do Cinema «Eassy Rider», ao lado de Dennis Hopper, um filme que custou 342 mil euros e rendeu 36 milhões.

«Enquanto lamentamos a perda deste homem doce e encantador, também desejamos que todos celebrem o seu espírito indomável e o seu amor à vida. Em homenagem a Peter, por favor, façam um brinde à liberdade», pode ler-se num comunicado escrito pela família.

Luís Miguel Mira, numa das suas crónicas sobre a América escreve  sobre Easy Rider:

«Easy Rider” é, como se sabe, um marco da “Contracultura” americana dos anos 60/70 e um dos filmes que deu maior impulso ao surgimento de um novo tipo de cinema na América, aquilo a que Peter Hiskind chamou a “Nova Hollywood”.

 E é em Krotz Springs, no Louisiana, a muito poucas milhas da “Highway 61”, que acaba  “Easy Ryder”, naquela pavorosa cena final em que os dois “motards” interpretados por Peter Fonda e Dennis Hopper são mortos a tiro de caçadeira por um duo de inofensivos agricultores locais, “just to watch them die”, como na canção do  Johny Cash. E depois a câmara sobe até ao céu deixando ver os corpos deitados e a mota em chamas e aparece um rio que poderia ser o Mississippi, mas não é, enquanto Roger McGuin arranca lentamente com a “Ballad” que acompanha o genérico final:

“The river flows, it flows to the sea
Wherever that river goes, that’s where I want to be”

Uns dias antes, pouco antes de ter sido ele próprio morto à paulada pela calada da noite, o jovem advogado interpretado por Jack Niicholson, que bebia whiskey pelo gargalo em memória de D.H. Lawrence, já lhes tinha explicado, em conversa, porque razão eles iriam morrer:

“- Sabem, este costumava ser um país formidável. Não compreendo o que se passa…
- Acobardaram-se todos, é o que é. Nem num hotel de 2º…. num motel de 2ª conseguimos entrar. Acham que os vamos degolar ou coisa assim…Têm medo.
- Não têm medo de vocês, têm medo do que vocês representam.
- Só representamos quem precisa de cortar o cabelo…
- Não. O que vocês representam é a liberdade.
- E que mal tem a liberdade…? Ela é o mais importante.
- Ela é o mais importante, sim senhor, mas falar dela e vivê-la são duas coisas diferentes. Quer dizer, custa muito ser-se livre quando se é comprado e vendido no mercado. Mas nunca lhes digam que não são livres senão vão matar e mutilar só para provar que são. Vão falar convosco e falar convosco e falar convosco sobre liberdade individual. Mas quando veem um individuo livre, sentem medo…
- Mas isso não os põe a fugir assustados…
- Não. Torna-os perigosos…”

Se nenhum outro mérito tivesse, “Easy Rider” ficará sempre, para mim, como o filme premonitório do fim de um Sonho, o final de uma Utopia...Quase a acabar o filme já Peter Fonda tinha desabafado, com ar dolorido: “estragámos tudo…”.


O filme foi lançado em Julho de 1969. Em Agosto desse ano, Woodstock ficou célebre mas já não correu muito bem. Altamont, em Dezembro, foi um desastre… No ano anterior tinham sido assassinados Martin Luther King Jr e Robert Kennedy. A América tão depressa não voltaria a ser a mesma…»

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS


O último postal das férias da Cristina e do Miguel na Argentina e no Brasil.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


Leva-me os olhos, gaivota! E deixa-os cair lá longe naquela ilha sem rota…

José Gomes Ferreira em Poesia II

Legenda: fotografia de Luís Miguel Mira

segunda-feira, 29 de julho de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS


Corcovado.
Mais um postal enviado pela Cristina e pelo Miguel.

sábado, 27 de julho de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS


Outro postal da Argentina enviado pela Cristina e pelo Miguel.

terça-feira, 23 de julho de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS


No Verão passado, a Cristina e o Miguel foram passar férias para os Estados, Unidos.
Este ano, escolheram a Argentina e o Brasil.
Por aqui vão ficar esses postais,

quarta-feira, 5 de junho de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS



«Esperava mais de Nashville, que me desiludiu bastante…»

terça-feira, 4 de junho de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS



«Este postal é de New Orleans e nós andámos a passear neste barco antigo que aqui vês, com música ao vivo. Toda a cidade antiga é muito bonita.»

domingo, 2 de junho de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS


Outro postal da América.
Natchez-Under.The-Hill, Mississipi.
Diz o Miguel:
«O lugar mais bonito que vimos até agora nesta viagem.»

sábado, 1 de junho de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS


Mais um postal da América.
A Casa Museu de Scott e Zelda Fitzgerald em Montgomery, Alabama.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS


Savannah, Georgia,
Este postal é da cidade que dizem ser a mais bonita de todos os Estados Unidos. Infelizmente tivemos de a percorrer debaixo de muita chuva.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS



O postal mostra Charleston na Carolina do Sul.
Escreve o Miguel:
«Mais um postaleco de uma cidade muito bonita. Existem aqui as mais bonitas casas coloniais do período antes da guerra civil.»

terça-feira, 28 de maio de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS


A Cristina e o Miguel, em Agosto do ano passado, estiveram de férias nos Estados Unidos. Trouxeram-me uma série de postais e outras recordações.
Comecei a apresentar o que tinha chegado mas, de repente, a minha vida sofreu um solavanco: tenho de prestar assistência à minha mãe: 97 anos e com Alzheimer.
É difícil, mas há que dar uma volta ao texto.
Principalmente, porque é lamentável não ter dado seguimento aos postais da América e não se pode pedir muito mais a Sammy.
Este postal é de St. Augustine na Florida.
O Miguel explica:
«Este postal da cidade mais antiga de todos os Estados Unidos. A primeira colónia espanhola, com a mais antiga escola feita de madeira.»

segunda-feira, 13 de maio de 2019

DORIS DAY (1922-2019)


Com 97 anos morreu Doris Day.
Intérprete de Que Sera, Sera, que aparece no filme de Alfred Hitchcock, O Homem que Sabia Demais, uma das canções da vida do meu pai, que também é a canção que a Aida cantava aos filhos e aos netos, e ainda a única canção que o Luís Miguel Mira se lembra de ouvir a mãe cantar:

«Curiosamente, é esta a única música que me lembro de ter ouvido tocada e cantada pela minha mãe, no seu belo piano Steinway & Sons. É provável que ela tocasse outras músicas (tocava, de certeza...), mas só me consigo lembrar dessa...

Ainda estávamos na nossa casa grande de Entrecampos, onde depois foi parar a Feira Popular. Quando saíamos dessa casa eu ia fazer 5 anos, pelo que estaríamos em 1958.

Com a mudança para uma casa mais pequena desapareceu o piano, que o meu pai mandou colocar num armazém da quinta de Moscavide, com a solene promessa de o ir buscar mais tarde, quando comprássemos uma nova moradia.

Uns anos depois a minha mãe, que continuava sem a sonhada moradia, foi dar com o piano meio destruído, cheio de teias de aranha, com gatos em cima e com as teclas de marfim retiradas.

E foi assim que a música desapareceu de minha casa, e do coração da minha mãe... Muitas décadas depois ainda me falava nisso, sempre com uma lágrimazita no canto do olho.

Se alguma vez fizer Cinema hei-de imaginar uma bela cena num salão enorme, com um grande piano de cauda colocado junto à janela e a mimha mãe a tocar. Os raios de luz a entrarem pela janela não lhe deixarão ver o rosto, mas ouvir-se-á a voz...

Que sera, sera...»



quinta-feira, 11 de abril de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Berlim.

Um respirar de arte, cultura antiguidade, sentir, sabe-se lá porquê, que estamos mesmo na Europa.

As Portas de Brandeburgo, o passar pelo Checkpoint Charlie, a procura do que foi o tal muro, a Aida para um alemão, mapa na mão, “por favor, muro de Berlim?” e só mais tarde, muito tarde mesmo,  encontraremos um pedaço de muro.


Billy Wilder’s Café-Bar, Sony Center, Potsdammer Strasse 21075 Berlin.

Ir a Roma e não ver o Papa?

Ir a Berlim e não entrar no «Wilder’s Bar»?

Coisas que se dizem.

Ver o Papa nunca iria, mas em Berlim, por Junho de 2005, uma manhã radiosa, entrámos porta dentro para uma cerveja, com dois dedos de espuma, ao balcão, e ficar a olhar as paredes. 

Sem apetecer sair dali.

A tentativa, vã tentativa, de encontrar o hotel, no outro lado de Berlim, que aparece no «Um, Dois, Três», maravilhoso, empolgante filme de Billy Wilder.

O Luís Miguel Mira bem tentou, deu voltas e voltas para localizar o hotel, e quando o Miguel não consegue, não vale a pena mais alguém fazer qualquer esforço.

O tal hotel que foi «Potemkine», também «Bismark» e, em tempo de Heil Hitler, se chamava «Goering».


O resto é lembrar a fabulosa sequência nesse tal hotel, cena antológica das muitas de Billy Wilder, em que Ingeborg se mostra esplendorosa e escultural, com aquele justinho vestido às bolinhas vermelhas, o filme é a preto e branco, mas terão de ser vermelhas as bolinhas, numa dança maluca, em cima da mesa cheia de champanhe, vodka e caviar, rodeada por um turba de bêbados, tão maluca a dança, o frenesim infernal, que o retrato de Krustchev baloiça e cai, revelando que escondia o retrato de Estaline.

quinta-feira, 28 de março de 2019

OLHARES


Não sou fã de Leitão Assado.

Os pés deslocam-se rapidamente para uns tordos fritos, um cabritinho assado no forno, mas pouco ou nada por leitão assado.

Como um ou dois pedaços da parte das costelas e isso já é matéria suficiente para deitar abaixo uma garrafa de espumante… ou duas…

O Leitão Assado que se pratica na região da Bairrada já está generalizado por tudo o que é sítio.

Aconteceu o mesmo com o pão.

Qualquer baiúca, apetrechada com um forno forno eléctrico, diz-nos  que vende pão alentejano ou de Mafra, do que calhar e der jeito.

Quando os jogos de futebol eram às três da tarde, uma ida a Aveiro para ver o Benfica jogar com o Beira-Mar, ou a Coimbra para ver a Académica, metia sempre almoçarada na Bairrada. 

Percorremos grande parte desses restaurantes, mas na memória ficou um leitão assado no Virgílio, comido às dez e meia da manhã, com o reco a sair triunfalmente do forno.

Mas um dia o Carlos Garrudo chegou-se ao grupo-jantarista-das-últimas-sextas-feiras-de-cada-mês, e com aquela seriedade que o caracteriza, falou-nos, quase clandestino, da urgência em ir comer um leitão assado a uma casa em Sangalhos recomendada pelo seu amigo e vinicultor Luís Pato que, sempre que organiza reuniões para lançamento dos vinhos e espumantes que produz, manda vir o leitão assado dessa tal casa.

A casa chama-se Restaurante Mugasa e fica no Largo da Feira na aldeia da Fogueira, junto a Sangalhos.

De facto nunca comi leitão como o do Mugasa.

Guardei a excelência do bicho.

Mas a opinião minha não oferece grandes garantias porque, a abrir, declarei que não sou fã do leitão assado. O que já não acontece com o Luís Miguel Mira, o Carlos Garrudo, a Aida, a Cristina, a exigente Cristina, verdadeiros adeptos do Leitão assado, que ficaram extasiados.

No Mugassa os recos não têm mais de quatro quilos e são assados em brasas de sarmentos de vides.

A primeira ida ao Mugasa terá ocorrido nos primeiros anos do corrente século.


Um dia, ao folhear o suplemento Fugas do Público, 24 de Fevereiro de 2018, deparei com um artigo assinado por Pedro Garcias titulado  «O melhor leitão e os vinhos da Bairrada que enfeitiçam.»

Ao longo do texto, o autor identifica-se como um duriense enfeitiçado pela Bairrada e com um toque de honestidade adianta que «Uma boa parte do que se produz na Bairrada será sofrível. Mas o que é bom é mesmo bom.»

O melhor estava guardado para o final do texto:

«Quer saber onde se come o melhor leitão? No Mugasa, claro.»

 Escreveu Baudelaire, que a crítica deve ser parcial e apaixonada.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

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O poema de Vinicius de Moraes referido no texto do Luís Miguel Mira:

Os assassinos de Emmett
Chegaram sem avisar
Mascando cacos de vidro
Com suas caras de cal
Os assassinos de Emmett
Entraram sem dizer nada
Com seu hálito de couro
E seus olhos de punhal

Os assassinos de Emmett
Quando o viram ajoelhado
Descarregaram-lhe em cima
O fogo de suas armas
Enquanto justificada
A mulher faz um guisado
Para esperar o marido
Que a mando seu foi vingá-la


O ROSTO DE EMMETT TILL


Os assassinos de Emmett
Chegaram sem avisar
Mascando cacos de vidro
Com suas caras de cal

(Vinicius de Moraes – Blues para Emmett Louis Till)

Andar por uma estrada secundária e deserta no Mississippi profundo, numa tarde feia, cinzenta e chuvosa, é como caminhar por um cenário fantasmagórico onde, a todo o momento, um qualquer zombie se pode atravessar no nosso caminho e acenar com os braços, como quem nos pede ajuda…

Numa clareira à beira da estrada, na curva de um rio ou no arvoredo lá ao fundo, um negro pode ter sido espancado, deitado às águas ou pendurado no ramo mais alto de uma árvore…
  
Era bom que estivesse a exagerar, mas não estou…

Basta ouvir ou ler as declarações de quem viveu nestes sítios, há muitos anos atrás.
Toda a gente conhece alguém que um dia partiu de casa para não mais voltar… E os que tiveram a sorte de regressar vieram com as costas abertas a chicote, pernas e braços partidos e a cara feita num bolo…

Poucas dessas histórias viram a luz do dia.

Por vergonha ou medo de represálias, ficaram encerradas no interior da humilhação de quem sofreu na pele, ou na dor de quem viu partir, para sempre, os seus ente-queridos.

Mas a história que hoje vos vou contar viu a luz do dia. Muitos desejaram que não tivesse visto, mas viu…

Corria o ano de 1955 e Emmet Till era um rapaz de Chicago, de 14 anos e órfão de pai, que, como quase todos os anos, tinha vindo passar uns dias de férias em Agosto a casa do seu tio-avô Reverendo Moses Wright, no lugarejo de Money, no Mississippi.

Como todos os rapazes da cidade que gostam de se exibir na província, Emmett era extrovertido e gabarolas. Uma tarde, após terem andado na apanha do algodão, ele e mais uns quantos amigos dirigiram-se a uma mercearia local (a Bryant’s Grocery) para comprarem alguns doces e beberem refrescos. À saída, num ato de pura exibição para os amigos, Emmett terá assobiado à empregada de serviço na mercearia, uma tal Carolyn Bryant, de 21 anos, mulher do proprietário da loja.




Assustados com o que viram e conhecedores das regras locais em que um negro não deve tomar a iniciativa de se dirigir a uma mulher branca que esteja sozinha, e muito menos enviar-lhe um piropo através de um assobio, os amigos de Emmett desataram a fugir para as suas casas, enquanto que este se dirigiu, calmamente, para casa do seu tio-avô, como se nada fosse.

Durante uns dias nada se passou, mas Carolyn Bryant fizera, entretanto, queixa do miúdo ao seu marido e este havia-lhe garantido que lhe iria dar uma lição de boas maneiras…

Quatro dias após o sucedido, o marido, Roy Bryant, e o seu meio-irmão, J. W. Milam, irromperam  pela casa do tio-avô de Emmett e levaram o miúdo à força, dizendo que lhe iriam dar apenas umas quantas  vergastadas, para ele aprender como é que se deve tratar uma mulher branca…

E agora vou abreviar, porque a história está bem contada em vários sítios na Internet e quero poupá-los aos pormenores mais horrorosos…

Dir-vos-ei, apenas, que o perigoso Emmet Till, de 14 anos, foi levado para um celeiro em Glendora e aí morto à pancada. O seu crânio foi esmagado, o seu rosto foi desfigurado a murro e com o tiro de uma caçadeira, e o que restou do seu corpo foi enfiado num saco, enrolado com arame farpado a um velho ventilador de 35 kg dum moinho de algodão, para fazer peso, e deitado ao rio Tallahatchie, vindo a ser descoberto por um pescador vários dias mais tarde.

O corpo do miúdo ficou irreconhecível e só pôde ser identificado porque ainda tinha num dedo um velho anel do seu pai, com as suas iniciais, que a mãe lhe tinha dado antes de partir para casa do seu tio-avô.

As autoridades locais fizeram pressão para o corpo fosse enterrado no Mississippi, o mais rapidamente possível, mas a mãe de Emmett opôs-se e conseguiu que ele fosse transferido para Chicago.

E mais…

Contrariando todos os conselhos que lhe tinham sido dados, bem como todas as pressões que tinha sofrido, mandou abrir o caixão para que todos pudessem ver bem o corpo despedaçado e o rosto desfigurado do seu filho. Jornalistas vieram, como vieram, também, milhares de pessoas durante quatro dias, para prestar ao rapaz uma última homenagem.

E Emmet Till tornou-se uma questão nacional.

Mas a história, infelizmente, não acaba aqui.

Os dois suspeitos foram presos e acusados.

E houve julgamento, claro está…

E rápido…

Naqueles tempos, nos Estados Unidos, havia sempre julgamento…

Uma palhaçada de julgamento!


   Contrariando todas as provas irrefutáveis que foram apresentadas pela acusação, um júri constituído apenas por brancos considerou os acusados “not guilty” dos crimes de rapto e assassinato. Foram necessários apenas 67 minutos para chegarem a essa conclusão.


Em boa verdade, o que é que esperavam…? De que valia a vida de um pobre rapaz de 14 anos, no Mississippi…? Como já não bastasse o incómodo de terem de simular um julgamento, ainda queriam que dois puros homens de raça branca fossem acusados e aprisionados…?

Mas, desculpem-me, a história ainda não acaba aqui…

Como nos EUA, após ter sido julgado e ilibado,  ninguém pode ser acusado duas vezes pelo mesmo crime, quatro meses depois do julgamento os acusados venderam a sua história à revista “Look” por quatro mil dólares (mil e quinhentos para cada um mais mil para o advogado…) e contaram, despudoradamente e com todos os pormenores, a forma como tinham efetuado o rapto e o assassinato do miúdo. O título do artigo – “The Shocking Story of an Approved Killing” – diz tudo…

Mas a história ainda não vai acabar aqui…

Após o funeral, a mãe de Emmet Till, Mamie Bradley, enviou um telegrama ao presidente Eisenhower solicitando a sua intervenção no sentido de repor a justiça no assassinato do seu filho. Não obteve qualquer resposta…

50 anos mais tarde alguns documentos do processo foram divulgados pelo FBI. Entre eles encontra-se uma Circular da Casa Branca redigida por um tal Max Rabb, Conselheiro de Eisenhower para as minorias, na qual se dizia que a mãe de Emmett Till era um mero instrumento dos comunistas e que “qualquer reconhecimento perante ela poderia ser utilizado em prol da causa comunista neste país…”.

Era necessário, portanto, que o caso fosse esquecido o mais depressa possível, como chegou a pedir um jornal do Mississippi, o Jackson Daily News.
Mas o caso não foi esquecido…


William Faulkner, pouco avezo a manifestações públicas em situações desta natureza, escreveu um artigo violento e acusador num jornal local…
Um escritor negro do Mississippi, Jerry W. ward Jr., dedicou-lhe um poema, “Don’t Be Fourteen in Mississipi”, que pode ser lido na Net.

Vinicius de Moraes dedicou-lhe, também, um poema em 1962, “Blues para Emmett Louis Till”, que Toquinho musicou.  

Para terminar em beleza, a virgem ofendida, Carolyn Bryant, acabou por confessar em 2007 que tudo o que havia dito em tribunal acerca do comportamento de Emmet Till era mentira, e a única ofensa que o miúdo lhe tinha feito fora, efetivamente, o assobio…

Não só no âmbito da população negra, mas também junto de um público branco mais esclarecido, o “affaire” Emmet Till foi um escândalo que ajudou a perceber como era a vida e a justiça no Sul profundo, e gerou um movimento de condenação e solidariedade de grandes proporções, a nível nacional.

Poucos meses depois, a 1 de Dezembro de 1955, na cidade de Montgomery, Alabama, Rosa Parks recusou-se a ceder o seu lugar num autocarro a um branco, tendo sido presa. Com Emmet Till ainda na memória de todos, a reação a este ato iria marcar, para sempre, a história da luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, mas isso é história que vos contarei noutra oportunidade.


Como vos disse, o dia estava feio, chuvoso e cinzento quando cheguei a Money, no Mississippi, que é um lugarejo no meio de nenhures com meia-dúzia de casas nas redondezas.

O letreiro do “Mississippi Freedom Trail” não deixava qualquer dúvida. Era ali que se situava a Bryant’s Grocery e fora ali que tudo tinha começado.
Mas olhava-se à volta e não se via nada, a não ser uma velha bomba de gasolina que eu sabia muito bem que não era a mercearia que procurava, porque já a tinha visto em fotografias.

Bryan’s Grocery, nem vê-la…

Paul Theroux, no seu livro “Sul Profundo” que aqui há tempos mencionei, já nos tinha alertado.  A Bryant’s Grocery estava no topo da lista dos “Dez Mais Ameaçados Locais Históricos do Mississippi”, por duas razões: primeiro, porque do edifício inicial mais não restava do que algumas paredes em estado periclitante, cobertas por ervas e arbustos, naquilo a que ele próprio chamou “a estrutura mais fantasmagórica que vira em todas as minhas viagens pelo Sul”; em segundo, porque talvez que aos próprios habitantes locais interessasse mais deixar cair o que restava, para que essa má memória desaparecesse, para sempre, das suas vidas…
  
Lá muito perto, também as águas do rio Tallahatchie, para onde há sessenta e três anos atrás fora lançado o corpo de Emmett Till, corriam feias, tristes e silenciosas, como se também elas sentissem vergonha por se terem visto envolvidas nesta triste história…

Este texto já vai longo e peço-vos desculpa pelo incómodo.

Mas não vos quero deixar sem vos convidar ao visionamento de um pequeno filme de sete minutos que encontrei no YouTube.

Dir-me-ão que não há muita diferença entre aquilo que lá está dito e o que vos acabei de contar…

Mas existe uma diferença muito importante:  é que lá se vê o rosto de Emmet Till.
Também eu, tal como a sua mãe há sessenta e três anos atrás, fiz questão que vissem e fixassem bem esse rosto…

Num Mundo em geral, e numa Europa em particular, em que a xenofobia, a intolerância e o racismo avançam a passos de gigante, é cada vez mais importante vermos e não esquecermos o rosto de Emmett Till.

PS:
Como vos referi no texto, a história de Emmett Till está profusamente documentada na Net. O livro de Paul Theroux (págs 245 a 258) contém informações importantes, nomeadamente no que respeita ao Relatório do FBI de 2004, que não me lembro de ter visto em mais lado nenhum.

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

SONNY BOY WILLIAMSON



“He is gone, Sonny Boy is dead and gone
He is gone, Sonny Boy is dead and gone
Can’t nobody play harp the way he done
He is dead, he’s dead, I ain’t crying but I’m sad
He is dead, he’s dead, I ain’t crying but I’m sad
He made you feel good when he played and me feel sad
I’m so glad, I’m so glad, that is music is going on
I’m so glad, I’m so glad thar is music is going on
But I’m so sad, so sad, the greatest one is gone”
(Sonny Boy Williamson - Jack Bruce e Paul Jones)

Aí pelos meus 15/16 anos, quando não tinha aulas passava as tardes em casa do meu amigo João Pedro a jogar às cartas ou aos matraquilhos e a ouvir música.
Por vezes apareciam por lá outros colegas dele da Escola Alemã.  Lembro-me do Eduardo, do Guimarães e até o Herman José por lá passou…

Por essa altura, em que a nossa Religião era a chamada música popular de expressão britânica e a nossa Igreja o “Em Órbita”, o meu amigo João tinha em sua casa algumas preciosidades (Simon & Garfunkel, Tim Buckley,  Leonard Cohen, Tim Hardin, Donovan, Fairport Convention…) que tornavam essas tardes de lazer uma verdadeira delícia.

Mas quando os amigalhaços do João lá estavam, a música era outra e, quase sempre, bastante mais “pesada”… Ten Years After, Canned Heat, Led Zeppelin e outras coisas do mesmo estilo que, na sua generalidade, eu já pouco apreciava.
No final dos anos 60 coincidiram por lá dois discos que eram ouvidos em permanência: “Super Session”, de Mike Bloomfield, Steve Stills e Al Kooper e “The Life Adventures of Mike Bloomfield & Al Kooper”. Que estes dois últimos não eram flor que se cheirasse vim eu a saber mais tarde, porque foram precisamente eles os comparsas de Bob Dylan naquela célebre noite de Newport em Julho de 1965, de que ainda no outro dia vos falei.

Como vos disse, as músicas desses dois discos eram ouvidas em sessões contínuas, sobretudo “Season of the Witch”, do primeiro, que durava mais de 10 minutos e cujos solos de guitarra de Mike Bloomfield e de orgão de Al Kooper me deixavam os cabelos em pé (na altura tinha muitos…). Se “Season” já não fazia parte das minhas músicas favoritas do Donovan, esta versão era pura e simplesmente intragável para os meus ouvidos de então.

Mas o segundo disco tinha uma música com uma batida muito agradável, que se chamava “Sonny Boy Williamson”, de que conseguia gostar.  O problema era que a tal batida era de muito curta duração em comparação com os intermináveis solos a que aqueles dois, mais o Carlinhos Santana, invariavelmente se dedicavam. Em todo o caso, bem melhor do que a versão original de Paul Jones, que só vim a conhecer alguns anos mais tarde.




Durante tardes a fio aqueles “Fritzs” da Escola Alemã estendiam-se ao comprido no sofá, fumavam uma reles imitação de charro com erva plantada na “marquise” das traseiras e fingiam que partiam numa longa viagem…! E por cada três “Season of the Witch” eu só tinha direito a um “Sonny Boy Williamson”, injustiça que aguentei com grande espírito de compreensão e de camaradagem. E quanto a charros, estou como o outro: fumei mas não inalei…!

Dava para perceber que era um músico, mas eu estava então longe de saber quem era esse tal de Sonny Boy Williamson.

Naquele tempo não havia Net nem livros à mão de semear. O stock das discotecas era muito limitado, e o acesso à informação demorado e complicado. Já se podia mandar vir livros e discos do estrangeiro (a saudosa “Tandy’s Records”…!) mas demorava uma eternidade e, que diabo, conhecer Sonny Boy Williamson não era, para mim, uma prioridade…!

E só muitos anos mais tarde vim a saber quem ele era. E mais: que não havia apenas um, mas dois Sonny Boys Williamsons…

O primeiro, John Lee Williamson de seu nome verdadeiro, era oriundo do Tennessee, fez quase toda a sua carreira em Chicago e era um exímio tocador de harmónica. Morreu assassinado em 1948 e ficou na História por ser o autor de “Good Morning Little School Girl”, que muito anos mais tarde chegaria a ser gravada pelos Grateful Dead e pelos Ten Years After.

O segundo rapinou o nome ao primeiro ainda em vida dele, e era um malandro de Glendora, no Mississippi, de nome Alex “Rice” Miller que aprendeu a tocar harmónica muito cedo e também muito cedo se meteu à estrada, tocando onde calhava e com quem calhava (chegou a tocar com Robert Johnson, Big Joe Williams e Elmore James …..), inicialmente com o nome de “Little Boy Blue”.


A partir de 1941 teve um programa de rádio em Helena, no Arkansas, onde se começou a apresentar sob o nome de Sonny Boy Williamson. No final dessa década viveu em West Memphis com a irmã e o cunhado, o célebre Howlin’ Wolf, que depois acompanhou para Chicago em meados dos anos 50, vindo a alcançar aí grande popularidade como vocalista e tocador de harmónica, junto de uma população maioritariamente negra.  

Mas o seu pico de celebridade teve-o nos anos 60, quando passou largas temporadas na Europa e se tornou, juntamente com Muddy Waters, B. B. King, John Lee Hooker e tantos outros, um dos grandes ídolos da geração de músicos ingleses que haveria de estar na origem do Rock-Blues e que incluía nomes como Eric Clapton, John Mayall, Steve Winwood, Eric Burdon, Jack Bruce, Ginger Baker,  Long John Baldry, Jimmy Page, Jeff Beck, Georgie Fame, Chris Farlowe, Manfred Mann, Paul Jones ou Alexis Korner, para já não falar em Brian Jones, Keith Richards e Mick Jagger, na altura também totalmente devotados ao Blues (como se sabe, o próprio nome “Rolling Stones” foi retirado de uma música de Muddy Waters).

Essa gente veio a estar na origem de bandas famosas (Yardbirds, Spencer Davis Group, Cream, The Blues Incorported, Manfred Mann, The Bluesbreakers, Rolling Stones, Led Zeppelin, etc). E essas bandas não só divulgavam, através de novas interpretações, os velhos blues do antigamente, como convidavam esses bluesmen para tocarem com elas e, muitas vezes, abrirem os concertos onde eram a principal atracção. Ainda hoje Bill Wyman afirma (vd. documentário “The Life of Riley”, sobre B. B. King, que tem vindo a passar nos Telecines) que a tournée que os Stones fizeram com B. B. em 1969 terá sido a melhor de sempre da banda.

Essas bandas britânicas tiveram, por outro lado, um sucesso muito grande no outro lado do Atlântico junto de um público jovem branco (a british invasion não foram apenas os Beatles…), que em grande parte desconhecia a existência dessa música e desses músicos negros.


No documentário de Richard Pearce “The Road to Memphis” (desculpem-me o excesso de citações, mas não posso estar aqui a dar palpites sem citar as minhas fontes…), é comovente ver B.B. King a contar como ele e a sua banda, que raramente tocavam para brancos,  chegaram ao Fillmore (East ou West, já não me lembro…) para dar um espetáculo e viram bichas enormes de malta branca e ficaram a olhar uns para os outros, convencidos que se tinham enganado no local…  


A divida desses velhos bluesmen para com esta geração inglesa é enorme, tal como o próprio B. B. King, uma vez mais, o reconheceu noutra ocasião:


“Se não tivessem sido os músicos britânicos, muitos de nós, músicos negros da América, continuaríamos a passar muito mal, tal como passávamos antes. Graças a eles abriram-se portas que nunca imaginei que se abrissem na minha vida” (B. B. King in documentário “Red, White and Blues”, de Mike Figgis)

Tudo isto faz parte da História do Blues e Sony Boy cavalgou essa onda de popularidade.

Gravou com os Yardbirds e com os Animals, fez diversas “tournées” pela Europa com os “American Folk Blues Festival”, que era um conjunto de músicos de blues, folk blues e rhythm & blues que punham em cena a sua música em espetáculos ao vivo.
Sonny Boy Williamson II, como agora é conhecido, era um figurão (ou, se preferirem, a “colorfull character”, como lhe chama a placa do “Blues Trail” na sua terra natal…) e pode ser visto  no YouTube, apresentando-se em palco impecavelmente vestido, de chapéu de coco na cabeça e chapéu de chuva na mão, para além da mala onde transportava todos os seus instrumentos. Era um verdadeiro “one man show” e uma das suas especialidades era engolir meia harmónica e tocá-la assim mesmo, sem a ajuda das mãos.

Mas era conflituoso e com tendência para se meter em alhadas, o que terá apressado o seu regresso à Pátria em finais de 1964.  Retomou em Helena, no Arkansas, ao seu antigo trabalho de animador radiofónico, para pouco depois, em 1965, morrer de um ataque cardíaco em pleno sono.

Em Helena não me lembro de ter visto nada que guardasse a sua memória.    
Mas Glendora, sua terra natal, não se esqueceu dele… Acolhe o visitante com um bonito cartaz de boas-vindas em seu nome e dedica um pequeno museu à sua memória, paredes meias com o de Emmett Till.  Bem pobre e feinho, por sinal, como feio é quase tudo o que vi em Glendora, um dos lugares mais miseráveis que visitei em todo o Mississippi.


Saí de Glendora  em direção a Money, localidade onde foi barbaramente assassinado Emmett Till, como vos contarei no próximo texto. Mas tive saudades do meu amigo João e dos nossos  tempos de adolescência, e também muita pena de não ter no carro nem  “Season of the Witch” nem “Sonny Boy Williamson”, que naquele preciso momento me teriam sabido muito bem ir a ouvir pelo caminho…

PS:

Não o disse na altura própria e agora não quero sobrecarregar o texto, mas “Sonny Boy Williamson” foi uma homenagem ao músico por ocasião da sua morte, composta por Jack Bruce e Paul Jones e interpretada por este último em 1967, como B-Side de “I’ve Been a Bad, Bad Boy”, música do filme “Privilege”, de Peter Watkins.
Paul Jones passa, aliás, por ser o maior “otário” da História da Música Rock, porque parece ter recusado ser o vocalista da banda que viria a dar origem aos “Stones”. Mick Jagger agradeceu…

PS2:

Não obstante o meu tom jocoso, Mike Bloomfield e Al Kooper foram figuras muito importantes do blues revival americano dos anos 60/70, na esteia dos seus colegas ingleses. De Kooper guardo um excelente disco na minha coleção: “Easy Does It”, que tem a melhor cover que conheço de “I Got a Woman”, do Ray Charles.   

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

SUL PROFUNDO


Sabendo que me encontrava a preparar uma viagem prolongada pelo Sul dos Estados Unidos, o meu amigo e vizinho Jorge Barata Preto aconselhou-me a leitura deste Sul Profundo”, de Paul Theroux.

Agradeci a sugestão, dizendo-lhe que desconhecia o autor, o que pouco depois vim a verificar não ser verdade, já que tinha lido anteriormente o seu “A Arte da Viagem”, também editado em Portugal pela Quetzal, embora não tivesse fixado o nome do autor.

Foi-me muito útil a leitura deste livro, embora ele nada tenha a ver com qualquer tipo de “leitura de viagens” tradicional, como inicialmente pensei. Theroux tem uma abordagem algures a meio caminho entre a de um sociólogo, um antropólogo e a de um economista social.

Afasta claramente tudo quanto seja “turístico” ou “cultural” e chega a ser exasperante vê-lo chegar a um determinado lugar e dizer, como o faz por diversas vezes, qualquer coisa deste tipo: “Abundam nesta cidade casas e lugares muito interessantes para se verem, mas a mim não é isso que me interessa…”

Paul Theroux efetuou três viagens ao “Deep South”, cada uma com cerca de três meses de duração.

Chegava a um lugar com um ou dois nomes que lhe haviam sido indicados como referências, e cada um desses contactos lhe passava, por sua vez,  mais dois ou três, e assim sucessivamente até possuir uma rede já bastante alargada de pessoas com quem falar, algumas das quais voltava a visitar em viagens ulteriores.

Por norma chegava a um sítio e instalava-se durante vários dias. Falava com gerentes de motel, barbeiros, empregados dos correios, empregados de bar e de restaurantes, representantes das Igrejas locais e membros de associações não governamentais de apoio às comunidades.  Gostava, particularmente, de visitar feiras de vendas de armamento pois, dizia, é um dos melhores sítios para nos apercebermos das características de personalidade do americano médio do Sul.

Quando acabei de ler o livro registei de imediato, no próprio livro, as principais conclusões que dele tinha retirado. Como ando há já uns tempos a falar convosco acerca desta região, pareceu-me útil passar-vos também estas “sínteses de leitura”, no preciso estado em que se encontram, isto é, sem qualquer reformulação ou desenvolvimento posterior.

Aqui vai, então:

1) 20% da população sulista vive abaixo do patamar da pobreza. Há zonas mais pobres do que as piores regiões encontradas pelo autor em Africa ou na Ásia;

2) O Governo Federal tem demonstrado pouca preocupação pelo Sul. Apoia mais facilmente outras regiões carenciadas por esse Mundo fora. O mesmo se diga de Organizações não Governamentais tipo Fundação Bill Clinton, oriundo do Sul e pelo qual o autor não parece nutrir grande simpatia;

3) Como principais motivos da pobreza do Sul o autor indica a mecanização da agricultura, que atira a mão-de-obra agrícola para o desemprego, e a fuga de muitas empresas industriais para outras regiões do Globo de MDO mais barata e menores impostos (Ex: Médio Oriente, México, etc);


4) Existem muitas ONGs de carácter não lucrativo que ajudam as populações a suprir algumas necessidades básicas, nomeadamente no que respeita à Saúde e à Alimentação (Ex: recuperação de casas degradadas, construção de novas casas, etc;

5)  Ao contrário da ideia que muitas vezes se tem de que o americano é individualista e autocentrado, parecem existir fortes laços de solidariedade social na sociedade sulista;

6) A Religião continua a ser muito importante e a Igreja constitui um forte fator de integração e coesão social;

7) Continuam a existir muitas formas de segregação na sociedade sulista e, em muitos lugares, o Ku Klux Klan permanece ativo e bem visível…;

8) Os relatos do autor ajudam a perceber a vitória de Trump nas eleições de 2017;

9) Curiosamente, nada é dito nem comentado no que respeita à governação de Obama, tendo o livro sido escrito nas vésperas da sua reeleição.

Et voilá!   O livro não me deu espaço para mais…

Acabei por não registar três coisas que achei curiosas e que agora vos conto.

Uma é que Paul Theroux faz no início do livro uma citação das “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, o que me parece interessantíssimo para um autor americano a escrever na América.

Outra é que o autor realça a extrema simpatia e disponibilidade da maior parte das pessoas que encontrou, as quais muitas vezes tomavam a iniciativa de se dirigiam a ele para o ajudarem sem que nada lhes tivesse sido pedido. Isso posso corroborar, porque passei por essa boa experiência várias vezes, nesta e em anteriores viagens.

A última, mais ao estilo de fait-divers, é que o autor conta que quase todos os motéis de estrada que encontrou ao longo da sua viagem são propriedades de indianos de nome Patel… 

Mas isso não tive a possibilidade de comprovar.

Moteis de estrada, verdadeiros moteis de estrada é coisa que a minha Querida Companheira de viagem certamente se recusaria a frequentar, com medo de ser violada por um índio das cavernas, disfarçado de Donadl Trump…! Comigo a assistir em primeira fila, amordaçado e atado a uma cadeira…!

É o que acontece quando se abusa da Netflix…

Texto de Luís Miguel Mira