Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Veiga Leitão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Veiga Leitão. Mostrar todas as mensagens

sábado, 7 de setembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 7


Direcção literária: Egito Gonçalves, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Desenhos: Domingos Pinho
Porto, Março de 1960

Soneto

Sonetos garantidos por dois anos.
E é muito já, leitor que mos compraste
Para encontrar a alma, que trocaste
Por rádios, frigoríficos, enganos ...
Essa tristeza sobre pernas faz-te
Temeroso e cruel e tonto e traste.
Nem pior nem melhor que outros fulanos,
Não vês a Bomba e crês nos marcianos   ...
E é para ti que escrevo, é para ti
Que um verso lanço — O mão! — como o destino,
e nele ponho mesura, desatino,
Rasgo, invenção, lugar-comum, protesto?
Antes para soldado ou para resto,
Escroto de velho, ronco de suíno ...

Alexandre O’ Neill

quinta-feira, 22 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 3

Direcção literária: Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Xilogravuras: Altino Maia
Porto, Dezembro de 1957

Aos Homens Que Virão
Trad. M.D.E.

Nós, que haveis de entender, no futuro, o trabalho
como o doce sabor da desejada festa,
quando ele for para vós arte, paixão, vitória,
- quando o poeta vê no seu próprio poema –

pensai, então, em nós com carinhosa estima;
em nós que, trabalhando como bestas de carga,
entregues a tarefas monótonas, iguais,
deixamos que a tristeza marcasse o nosso olhar.

Ah!, como vós – sabei – nós amamos a vida
e, apesar disso, deste inferno, não quisemos
chorar lágrimas vãs, deixar morrer a esperança.

Ah, sim! Profundamente amamos a alegria,
como vós – as pequenas e grandes alegrias
de que a maior foi abrir-vos o caminho.

Poema de Guillevic

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Sonhar a Terra Livre e Insubmissa

Egito Gonçalves/Luís Veiga Leitão/Papiniano Carlos
Desenho de Augusto Gomes, Vinheta de José Rodrigues
Capa: Armando Alves
Colecção Duas Horas de Leitura nº 16
Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973

Caminhos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
               caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniqüidade
                caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
                caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.                                                      
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
                 caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas

                 caminhemos serenos.

Papiniano Carlos

domingo, 10 de dezembro de 2017

LUÍS VEIGA LEITÃO


Veiga Leitão, meu querido, tão nortenhos
nós somos no fim dos anos cinquenta!
À sucapa vamos beber uns tintos
e tu preocupas-te por eu ser ainda
um catraio do liceu de Vila Real.
Mostrava-te versos ruidosos que acolhias
e felizmente dizias que não eram ainda
poesia. Depois, noutras visitas,
a cavaqueira passa p’ra lá do Marão,
limite nessa altura das angústias
dos meus voos. Noite de pedra era o tempo,
como o título do teu livro. Tanta ternura
 cumplicidade, entre dois covilhetes
e algumas taças de branco para rebater.

Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PAPINIANO CARLOS (1918-2012)


Tinha 94 anos.

Nasceu em Lourenço Marque mas desde muito novo veio para o Porto onde cimentou uma grande amizade e companheirismo com a intelectualidade democrática da cidade, principalmente com os poetas Luís Veiga Leitão e Egito Gonçalves, ambos já falecidos.

Conheço-o de poemas dispersos em antologias e publicações como Notícias do Bloqueio e Cadernos do Meio-Dia.

Da poesia de Papiniano Carlos, disse a escritora Luísa DaCosta:

Servido por uma linguagem directa em que as palavras têm a pureza da significação primeira, a poesia de Papiniano Carlos, forma encontrada para um conteúdo de dor e de sonho.

Em dias tristes como este, nada como deixar os seus poemas.

Caminhos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniqüidade
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,

já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
caminhemos serenos.



Os Ciclistas

Com um surdo rumor de escavadora
ressoa no subsolo a tua voz.
Muitos tapam os ouvidos delicados.
Outros escondem-se para a não ouvir.
E outros estremecem de pavor.
Mas, rápidos, os ciclistas pedalam
na bruma dos subúrbios ao teu encontro.
Rosto baixo, mãos no guiador, pés
bem firmes nos pedais, geram
o movimento, o ritmo alado
das máquinas frágeis que cavalgam
ao amanhecer. Perpassam como espectros
sob a bruma e juntam-se, confluem,
avançam como um rio poderoso
sobre a cidade adormecida.
Os ciclistas. Os que erguem os andaimes
E fazem girar os fusos dos teares.
Os que movem as gruas. Os que transportam
O dinamite nas mãos calosas.
Os que não sabem envelhecer de tédio
à mesa do café nem vivem de mercadejar
preservativos, palavras, casas pré-fabricadas.
Os que não sonham morrer em glória
como jovens deuses trespassados na batalha.
Os que não hão-de apodrecer, como muitos de nós,
roídos de lepra e desespero.

Esses merecem bem a tua voz, Orfeu.

Legenda: estes poemas de Papiniano Carlos são retirados da antologia Sonhar a Terra Livre e Insubmissa, que também contém poemas de Egito Gonçalves e Luís Veiga Leitão, Editorial Inova, Porto Fevereiro de 1973 

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PRIMUS INTER PARES


Há no Porto um café onde se pensa. Há no Porto um café onde se escreve. Há no Porto um café onde se discute. Há no Porto um café onde se é intelectual pelo preço acessível, a qualquer bolsa, de meia de leite e torrada bijou.
Tem um ar recatado, simples: o aspecto, doce e calmo, de um domingo de Novembro. Mas não se iludam, amigos: confesso que este café me preocupa e intimida. Que me suam as mãos, quando lá entro. Que me sinto mesquinho e sem valia, quando me atrevo a mergulhar na mansuetude quase líquida da sala.
Nesse
café do Porto, os intelectuais contam-se pelo número de clientes. Há-os verdadeiros e de pacotilha, circunspectos e irreverentes, académicos e revolucionários. Há-os de todas as escolas e matizes, novos, velhos, morenos, bexiguentos, altos, ínfimos, com rendosas conezias ou dificuldades de dinheiro. Escrevem, pintam, dissertam, analisam, definem. Sobretudo definem, quer dizer: classificam de acordo com a morfologia conveniente, etiquetam, intitulam, fossilizam. É um café virado do avesso, onde as janelas dão para o íntimo da pequenez das coisas: só por se estar olhando a rua através das cortinas ondulantes, a rua e o seu sentido hieroglífico tornam-se perigosamente inexistentes. Depois, quando se vem, de novo, para a alegria do sol, é indispensável e urgente reinventar a rua sem limites até ao mais inútil e inofensivo dos disfarces. E para quê, afinal?
Pois, senhores, é bem fácil a resposta: para que, à mesma hora do mesmo dia igual, qualquer cliente possa fechar os olhos à presença do mundo, pensando, discutindo, escrevendo. E registe-se, para uso dos iletrados irrecuperáveis, e nosso próprio conforto espiritual, que isto de latim é uma bela coisa.

Daniel Filipe em “Discurso Sobre a Cidade” Sagitário, Porto 1957


Legenda: são lindíssimos os cafés do Porto. Alguns ainda resistem.
Segundo o jornalista Germano Silva, o café que Daniel Filipe invoca nesta crónica, é o Café Rialto, que já não existe. Ficava na Praça D. João I  e uma das tertúlias reunia o Daniel Filipe, o Egito Gonçalves, o Papiniano Carlos, o Luís Veiga Leitão, o António Rebordão Navarro, às vezes o José Augusto Seabra. Mantinham na altura uma colecção de poesia: Notícias do Bloqueio.
Andei à procura de uma fotografia do Rialto, mas não encontrei.
A que ilustra o texto é do Café Majestic, um ex-libris da cidade.