Mostrar mensagens com a etiqueta Luís de Camões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís de Camões. Mostrar todas as mensagens

sábado, 6 de abril de 2019

ELEGIA


Aquele mover d'olhos excelente,
aquele vivo espírito inflamado
do cristalino rosto transparente;
aquele gesto imoto e repousado,
que estando n'alma propriamente escrito,
não pode ser em verso trasladado;
aquele parecer que é infinito
para se compreender de engenho humano,
o qual ofendo em quanto tenho dito,
me inflama o coração dum doce engano,
m'enleva e engrandece a fantasia,
que não vi maior glória que meu dano.
Oh bem-aventurado seja o dia
em que tomei tão doce pensamento,
que de todos os outros me desvia!
E bem-aventurado o sofrimento
que soube ser capaz de tanta pena,
vendo que o foi da causa o entendimento!
Faça-me, quem me mata, o mel que ordena;
trate-me com enganos, desamores;
que então me salva, quando me condena.
E se de tão suaves disfavores
penando vive üa alma consumida,
oh! que doce penar! que doces dores!
E se üa condição endurecida
também me nega a morte por meu dano,
oh! que doce morrer! que doce vida!
E se me mostra um gesto brando e humano,
como que de meu mal culpada se acha,
oh! que doce mentir! que doce engano!
E se em querer-lhe tanto ponho tacha,
mostrando refrear o pensamento,
oh! que doce fingir! que doce cacha!
Assi que ponho já no sofrimento
a parte principal de minha glória,
tomando por milhor todo o tormento.
Se sinto tanto bem só na memória
de vos ver, linda Dama, vencedora,
que quero eu mais que ser vossa a vitória?
Se tanto vossa vista mais namora
quanto eu sou menos para merecer-vos,
que quero eu mais que ter-vos por Senhora ?
Se procede este bem de conhecer-vos
e consiste o vencerem ser vencido,
que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?
Se em meu proveito faz qualquer partido,
só; na vista duns olhos tão serenos,
que quero eu mais ganhar que ser perdido?
Se meus baixos espritos de pequenos,
ainda não merecem seu tormento,
que quero eu mais, que o mais não seja menos?
A causa, enfi, m'esforça o sofrimento,
porque, apesar do mal, que me resiste,
de todos os trabalhos me contento;
que a razão faz a pena alegre ou triste.

Luís de Camões

Legenda: pintura de Will Barnet

domingo, 31 de março de 2019

RELACIONADOS


Quando, em Outubro de 1965, a cidadã Ivone Maneiras teve conhecimento que Amália Rodrigues publicara um disco a cantar Luís de Camões, escreveu uma carta ao Director do Diário Popular.
A carta foi publicada na edição de 23 de Outubro de 1965:


O matutino aproveitou a carta para fazer um inquérito a algumas personalidades.
Passados todos estes anos, consigo compreender a posição do poeta mas não concordo com ela. Aliás, José Gomes Ferreira teve para com Luís Cília uma posição de desagrado com as músicas que Cília fez para poemas seus.
Um destes dias irei buscar essas amargas palavras de José Gomes Ferreira.
Este é o recorte do inquérito feito pelo Diário Popular:



A talhe de foice, e por mera curiosidade, publicamos uma carta patética de um colaborador de A Voz, jornal católico, monárquico e salazarista, sobre a lírica de Camões e a voz de Amália.
O recorte pertence à edição de 16 de Fevereiro de 1966:

sábado, 30 de março de 2019

AMÁLIA CANTA LUÍS DE CAMÕES


Há uma Amália antes e depois de Alain Oulman.

Não sou dado a grandes conhecimentos da matéria, mas se assim penso assim escrevo.

Quando, em Outubro de 1965, Alain Oulman musicou poemas de Camões para a voz de Amália, “Amália Canta Camões”, os intelectuais tiveram reacções diversas.

José Gomes Ferreira não concordou e respondeu assim ao Diário Popular:

Não estou disposto a ouvir. Não quero ouvir. Mas acho mal. Existem obras-primas da música portuguesa, como por exemplo, “Os Madrigais”, de Luís de Freitas Branco, inspiradas em poesias de Camões. Claro que também existiu a Engraxadoria Camões. Para cada um - seu paladar».

Se bem que tenha um número bem razoável de poemas seus musicados, José Gomes Ferreira nunca simpatizou com a ideia.

A excepção é o trabalho com Fernando Lopes Graça.

A tal ponto que, em 28 de Setembro de 1970, enviou à Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais a seguinte carta:

De regresso de férias, encontrei a vossa carta de 21 de Setembro de 1970 a que me apresso a responder, com os meus melhores cumprimentos.
O pedido de autorização ao sr. José António Matildes para musicar o meu poema de Poesia III, “Ó pinheiro verdadeiro” honra-me muito, mas infelizmente não posso conceder-lha por motivo de “princípios estéticos” pois discordo inteiramente da chamada música ligeira quando adaptada aos meus versos, escritos sem essa intenção.
Claro que esta recusa nada tem de pessoal. Peço-lhe até que explique ao Sr. José António Matildes que as canções e as baladas aparecidas recentemente na rádio e em discos com versos meus são todas clandestinas, feitas sem a minha autorização. Ao Sr. José António Matildes devo, pelo menos, essa delicadeza que muito me sensibilizou.
Em resumo: incito-o a fazer a música que lhe apetecer sem me pedir licença!»

Em contraste, é interessante ir buscar o exemplo de António Gedeão que, nas suas memórias, escreve que muito deve a Manuel Freire e às músicas que fez para poemas seus: «Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

RELACIONADOS


O poema Meu Limão de Amargura faz parte de um dos mais brilhantes trabalhos da discografia portuguesa.

AMÁLIA CANTA POETAS DE LÍNGUA PORTUGUESA NA MÚSICA DE ALAIN OULMAN

Os poetas:
Cecília Meireles
David Mourão-Ferreira
Manuel Alegre
Luís de Camões
António de Sousa
Alexandre O’Neill
Pedro Homem de Melo
José Carlos Ary dos Santos

Música:
Alain Oulman

Gravado nas noites de 7 e 8 de Janeiro de 1969.

Editado em Março de 1970.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

ENCHA UMA CHÁVENA E PONHA-A NA MINHA FRENTE


Numa destas noites Fernando Pessoa bateulhe à porta, não aparece sempre que é preciso, mas estava a ser preciso quando aparece, a alguém, Grande ausência, julguei que nunca mais o tornaria a ver, isto disse-lhe Ricardo Reis, Tenho saído pouco, perco-me facilmente, como uma velhinha desmemoriada, ainda o que me salva é conservar o tino da estátua do Camões, a partir daí consigo orientar-me, Oxalá não venham a tirá-la, com a febre que deu agora em quem decide dessas coisas, basta ver o que está a acontecer na Avenida da Liberdade, uma completa razia, Nunca mais passei por lá, não sei nada, Tiraram, ou estão para tirar, a estátua do Pinheiro Chagas, e a de um José Luís Monteiro que não sei quem tenha sido, Nem eu, mas o Pinheiro Chagas é bem feito, Cale-se, que você não sabe para o que está guardado, A mim nunca me levantarão estátuas, só se não tiverem vergonha, eu não sou homem para estátuas, Estou de acordo consigo, não deve haver nada mais triste que ter uma estátua no seu destino. Façam-nas a militares e políticos, eles gostam, nós somos apenas homens de palavras, e as palavras não podem ser postas em bronze ou pedra, são só palavras, e basta, Veja o Camões, onde estão as palavras dele, Por isso fizeram um peralta de corte, Um D’Artagnan, De espada ao lado qualquer boneco fica bem, eu nem sequer sei que cara é a minha, Não se zangue, pode ser que escape à maldição, e se não escapar, como o Rigoletto, sempre lhe restará a esperança de que um dia lhe deitem o monumento abaixo, como ao Pinheiro Chagas, transferem-no para um sítio tranquilo, ou guardam-no num depósito, está sempre a acontecer, olhe que até há quem exija a retirada do Chiado, Também o Chiado, que mal lhes fez e Chiado, Que foi chocarreiro, desbocado, nada próprio do lugar elegante onde o puseram, Pelo contrário, o Chiado não podia estar em melhor sítio, não é possível imaginar um Camões sem um Chiado, estão muito bem assim, ainda por cima viveram no mesmo século, se houver alguma coisa a corrigir é a posição em que puseram o frade, devia estar virado para o épico, com a mão estendida, não como quem pede, mas como quem oferece e dá, Camões não tem nada a receber de Chiado, Diga antes que não estando Camões vivo, não lho podemos perguntar, você nem imagina as coisas de que Camões precisaria. Ricardo Reis foi à cozinha aquecer um café, voltou ao escritório, foi sentar-se diante de Fernando Pessoa, disse, Faz-me sempre impressão não lhe poder oferecer um café, Encha uma chávena e ponha-a na minha frente, fica a fazer-lhe companhia enquanto bebe, Não consigo habituar-me à ideia de que você não existe, Olhe que passaram sete meses, quanto basta para começar uma vida, mas disso sabe você mais do que eu, é médico.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

SARAMAGUEANDO


Damião de Góis: Sem dúvida são melhores os caminhos rectos, mas esses não os há na vida das nações nem nos interesses dos paços e dinastias. A vossa obra será publicada, Luiz Vaz, mas só quando, claramente a balança pender para um lado ou para outro.
Luís de Camões: Porém o livro não será diferente do que é.
Damião de Góis: A diferença estará nos olhos que o lerem. E a parte que ficar vencedora fará que seja o livro lido com os olhos que mais lhe convierem.
Diogo do Couto: E a parte vencida, que fará?
Damião de Góis: Ficará esperando a sua vez de ler e fazer doutra maneira.
Luís de Camões: Eu sei o que escrevi.
Damião de Góis: Sabereis, não o duvido. Mas também eu sabia o que escrevera na segunda parte do meu livro Sobre a fé, costumes e religião dos Etíopes, e não cuidei que tivesse o santo Ofício motivos para determinar que ele fosse apreendido na alfândega de Lisboa.

José Saramago em Que Farei Com Este Livro?

No dizer de Eugénio de Andrade «de Camões, em pura verdade, muito pouco sabemos. Nasceu pobre, viveu pobre, morreu mais pobre ainda.»

A partir daqui cada um que se sirva.

No caso de José Saramago serviu-se muito bem e com Que Farei Com este Livro? constrói, inventa uma excelente peça de teatro, a sua segunda experiência na matéria.

O livro são os caminhos que se foram construindo para tratar da composição e publicação de Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões.

«Se eu fosse esmolar pelas ruas e praças talvez me dessem dinheiro para comer. Mas não mo dariam se eu dissesse que o destinava a pagar ao livreiro que me imprimisse o livro.»

José Saramago teatraliza, numa corte rodeada de frades, outros, tantos, religiosos, fidalgos, fidalguinhos e afins, pouco ou nada dados a leituras, a luta de Camões para a publicação do seu livro.

«Assim fica entendido que não saibais vós de Luís Vaz. Poeta é, o maior que há em Portugal, e sem outros bens que o seu engenho.»

A censura da ditadura salazarista como herdeira do Santo Ofício e a que Sarmago dá um andamento crítico muito seu. Portugal regista na sua história largos séculos de censura. Às palavras, ao pensamento.

Uma noite, tempos salazarentos, Luís Filipe Costa impedido de claramente dizer que Palma Inácio, dirigente da Luar - Liga de Unidade de Acção Revolucionária, tinha sido preso da Pide, terminou o noticiário no Rádio Clube Português:

Felizmente há Luar!

Legenda: capa de  Que Farei Com Este Livro? publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Carlos do Carmo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

À BEIRA DE UM PRECIPÍCIO


Carta de António José Saraiva, desde Amsterdão, 16 de Fevereiro de 1973, para Óscar Lopes onde volta à divinização de Agustina Bessa-Luís («A Agustina é infinitamente mais «realista» que o Redol, porque os livros do redol são mortos e os da Agustina vivos. Quando a leio sinto-me à beira de um precipício, e por isso não aguento lê-la mais que uma dúzia de páginas seguidas») e um breve comentário sobre as colónias portuguesas:

As minhas correcções à parte da Agustina visaram sobretudo a dar-lhe o lugar que ela merece e que não é o de uma simples «escritora feminina». A Agustina é um dos dois grandes escritores mundiais que Portugal produziu neste século e está a ser vítima de uma certa mesquinhez nacional, bem ajuizadinha, cujos grandes símbolos são no nosso século o Teófilo e o Salazar. Não há dúvida que perdemos nos últimos séculos uma certa capacidade de ver grande como tiveram o Camões,  o Vieira, o Oliveira Martins, o Pessoa e até certo ponto o Sérgio. Secou-se-nos o grãozinho de mostarda. Dizer que os últimos livros dela não são tão bons como os primeiros é fugir à questão. E quanto a não ser traduzida, é lá com os tradutores e os comerciantes de livros.

Quanto às colónias só há uma alternativa: ou liquidar tudo, limpando saí as mãos (estado branco independente, ou negociações com os movimentos, ou outra qualquer solução que entregue aquilo ao diabo); ou então procurar criara uma sociedade em que os brancos e pretos convivam. Mas esta segunda solução parece cada vez mais impossível. Somos um país pequeno, pobre, resignado ao destino que não conhecemos nem queremos conhecer! Isso dói-me.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

GERALMENTE DEIXA-O EM CIMA DO BANCO


Se a manhã está agradável sai de casa, um pouco soturna apesar dos cuidados e desvelos de Lídia, para ler os jornais à luz clara do dia, sentado ao sol, sob o vulto protector de Adamastor, já se viu que Luís de Camões exagerou muito, este rosto carregado, a barba esquálida, os olhos encovados, a postura nem medida nem má, é puro sofrimento amoroso o que atormenta o estupendo gigante, quer ele lá saber se passam ou não passam o cabo as portuguesas naus. Olhando o rio refulgente, Ricardo Reis lembra-se de dois versos duma antiga quadra popular, Da janela do meu quarto vejo saltar a tainha, todas aquelas cintilações da onda são peixes que saltam, irrequietos, embriagados de luz, é bem verdade que são belos todos os corpos que saem rápidos ou vagarosos da água, a escorrer, como Lídia no outro dia, ao alcance das mãos, ou estes peixes que nem os olhos vêem. Num outro banco os dois velhos conversam, estão à espera de que Ricardo Reis acabe de ler o jornal, geralmente deixa-o em cima do banco quando se vai embora, saem todos os dias de casa com a esperança de que aquele senhor apareça no jardim, a vida é uma inesgotável fonte de surpresas, chegámos a esta idade em que só podemos ver navios no Alto de Santa Catarina, e de repente somos gratificados com o jornal, às vezes em dias seguidos, depende do tempo. Uma vez Ricardo Reis dará pela ansiedade dos velhos, viu mesmo um deles apontar uma corridinha trémula e trôpega para o banco onde estivera sentado, e cometerá a caridade de oferecer por suas mãos e palavras o jornal, que eles aceitarão, claro está, porém rancorosos por terem ficado a dever um favor. Confortavelmente reclinado no encosto do banco, de perna traçada, sentindo o leve ardor do sol nas pálpebras semicerradas, Ricardo Reis recebe no Alto de Santa Catarina as notícias do vasto mundo, acumula conhecimento e ciência, que Mussolini declarou, Não pode tardar o aniquilamento total das forças militares etíopes, que foram enviadas armas soviéticas para os refugiados portugueses em Espanha, além doutros fundos e material destinados a implantar a União das Repúblicas Ibéricas Soviéticas Independentes, que, segundo foi proclamado por Lumbrales, Portugal é a obra de Deus através de muitas gerações de santos e heróis, que no cortejo da jornada corporativa do Norte vão incorporar-se quatro mil e quinhentos trabalhadores, a saber, dois mil trabalhadores de armazém, mil seiscentos e cinquenta tanoeiros, duzentos engarrafadeiros, quatrocentos mineiros de São Pedro da Cova, quatrocentos conserveiros de Matosinhos e quinhentos associados dos sindicatos de Lisboa, e que o aviso de primeira classe Afonso de Albuquerque largará com destino a Leixões, a fim de tomar parte na festa operária que ali se realizará, também ficou a saber que os relógios serão adiantados uma hora, que há greve geral em Madrid, que sai hoje o jornal O Crime, que tornou a aparecer aquele famoso monstro de Loch Ness, que os membros do governo que foram ao Porto assistiram à distribuição de um bodo a três mil e duzentos pobres, que morreu Ottorino Respighi, autor das Fontes de Roma, felizmente o mundo pode satisfazer todos os gostos, isto é o que pensa Ricardo Reis, não aprecia de igual modo o que lê, tem, como toda a gente, as suas preferências, mas não pode escolher as notícias, sujeita-se ao que lhe dão. Muito diferente da sua é a situação daquele ancião americano que todas as manhãs recebe um exemplar do New York Times, seu jornal favorito, o qual tem em tão alta estima e consideração o seu idoso leitor, com a bonita idade de noventa e sete primaveras, a precária saúde dele, o seu direito a um fim de vida tranquilo, que todas as manhãs lhe prepara essa edição de exemplar único, falsificada de uma ponta à outra, só com notícias agradáveis e artigos optimistas, para que o pobre velho não tenha de sofrer com os terrores do mundo e suas promessas de pior, por isso o jornal explica e demonstra que a crise económica está a desaparecer, que já não há desempregados, e que o comunismo na Rússia evoluciona para o americanismo, tiveram de render-se os bolcheviques à evidência das virtudes americanas.

terça-feira, 9 de maio de 2017

TUDO CONSPIRA PARA ME DESANIMAR


De uma carta de José Rodrigues Miguéis, datada de 6 de Fevereiro de 1967, para José Saramago:

Devo ir a Portugal, talvez com demora, lá para o Verão. Do meu trabalho (nas péssimas condições de espírito em que tenho estado, devido à morte da minha irmã, às condições em que ela viveu e morreu) refiz todo o final da Salomé, em que não voltarei a mexer. É o meu «monumento fúnebre»! A impossibilidade de o publicar desanima-me muito. Atirei-me e refundi o Idealista («Baltasar»), também incerto quanto às resoluções e destino do romance. Estou a sofrer de dúvidas penosas,  parece que perdi a «querença» ou «crença» - os eruditos, os críticos, os sabichões, os falsos-problemáticos (a leitura de Uma Canção de Camões de Jorge de sena – misto de erudição assombrosa e de loucura literária – qual é o propósito, qual é a conclusão daquele tumulto de extraordinária prosa, raciocínio e saber?!) tudo conspira para me desanimar. Eu próprio estou a ver a minha prosa com outros olhos: serei realmente, apenas, um escritor «realista» de outras eras, uma espécie de mini-John dos Passos? e onde  quero eu chegar, que quero (se quero) provar?... Tenho vontade de escrever outras coisas, de me libertar de esquemas e doutrinas, e tenho invejas absurdas do J. Luís Borges, de Beckett, de Camus, do Hesse, do Musil, não sei de quem mais. (Mas de nenhum português!) Vou correndo, montado num cavalo – de cara virada para o rabo!... só daqui a 40 ou 50 anos se saberá se vali a pena. Eu nunca o saberei! Sinto-me muito só, muito longe e muito insignificante. Tenho saudades de Portugal, de Lisboa, de uma vadiagem irresponsável, descuidosa… e o horror de ter 65 anos amachucados de não poder recomeçar. – E agora, depois do Delfim Santos, morre (de repente? no Rossio? de congestão?...) o T. Kim (que só vi uma vez na COR, Tr. da Emenda). Todos mais novos do que eu!... – Se me falta a paciência para a minha tarefa, que mais posso fazer, como viver? – Já lhe disse que (como V. na sua carta) sinto muito a sua falta, como da companhia de um irmão mais novo, que se lembrou de ser Poeta para contrastar comigo – prosaico, irónico, realista, merdre!


Legenda: capa da  2ª edição de O Milagre Segundo Salomé publicada pela Editorial Estampa em  Abril de 1982. A 1ª edição é de 1975, publicada pela Estúdios Cor. Tal como Miguéis sabia, só foi possível a publicação da obra depois da queda da ditadura.
Ainda segundo Miguéis, O Milagre Segundo Salomé «devia constituir o terceiro painel do tríptico iniciado coma A Escola do Paraíso, sendo-lhe o do centro o romance Filhos de Lisboa, ainda hoje por concluir devido às dificuldades de ordem afectiva, pessoal, que me suscita».

terça-feira, 10 de junho de 2014

1O DE JUNHO


Como facilmente se compreenderá, não é Luís de Camões que está em causa, mas este dia feriado não devia existir.

Logo após o 25 de Abril deveria ter sido eliminado.

Ou, recentemente, quando este governo permitiu que a troika nos roubasse quatro feriados, um desses feriados eliminados deveria ser este e nunca o 5 de Outubro, valha, hoje, essa data o que possa valer.

Por mais voltas que pudessem ter dado, este feriado traria sempre à memória, uma das páginas mais negras da nossa História.

Hoje, na Praça do Comércio, já não se medalham militares por feitos heroicos, já não se medalham pais que ficaram sem os filhos, nem mulheres que ficaram sem maridos, nem filhos que ficaram sem os pais.

A guerra colonial foi um crime sem qualquer espécie de perdão ou esquecimento.

Hoje, chamam ao 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades,

Escolhe-se uma qualquer cidade do país, arranja-se uma série de personalidades, que da  maior parte ninguém sabe que feitos ou obras fizeram, e enfia-se-lhes uma qualquer ordem pela cabeça abaixo.

Esboçam-se sorrisos amarelos, ouvem-se palmas pífias.

Simplesmente patético!

Mais patético ainda, quando há uns anos atrás, o Presidente Cavaco Silva, em conversa com os jornalistas, ter deixado que à superfície viessem as suas saudades salazaristas, e ter-lhe chamado o Dia da Raça.

Para que conste, repete-se:



O poeta Luís de Camões não tem nada a ver com isto!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

OLHAR AS CAPAS


Os Lusíadas

Luís de Camões
Edição organizada por Emanuel Paulo Ramos
Porto Editora, Lda, Porto s/d

E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignadamente
Tomasi mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.

(Estrofe 93 do Canto IX)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

QUE FAREI COM ESTE LIVRO?


Que Farei Com Este Livro?

José Saramago
Editorial Caminho, Lisboa, Abril 1980
Posfácio: Luís Francisco Rebelo
Capa: José Araújo

Segunda peça de teatro de José Saramago.

Que Farei Com Este Livro? reflecte as dificuldades por que passou Luís de Camões para publicar Os Lusíadas: o desinteresse do rei, a perseguição que a Inquisição lhe moveu.

Saramago pretende que o livro seja o retrato das dificuldades de um qualquer autor, num qualquer tempo.

Da sua leitura podemos mesmo concluir que a cultura é, nos dias de hoje, tão desprezada como o foi no tempo de Luís de Camões.

No final, o autor pergunta-se e pergunta-nos: "que farei, que fareis com este livro?"

«Oitavo quadro

Rua de Lisboa, entardecer de um dia de Março de 1572, Luís de Camões, o servente de António Gonçalves. Ao fundo, estão e passam homens e mulheres do povo.


Servente


Senhor Luís de Camões, agora mesmo ia eu a vossa casa. Mas, já que vos encontrei, aqui tendes o que vos manda mestre António Gonçalves. É o primeiro que acabámos. (Retira-se)

Luís de Camões (segurando o livro com as duas mãos)


Que Farei com este livro? (Pausa. Abre o livro, estende ligeiramente os braços, olha em frente.) 

Que fareis com este livro?»

sexta-feira, 16 de abril de 2010

NEM TUDO ESTÁ PODRE NO REINO DA DINAMARCA

ORFEU STAT 005
Acompanhamento. Carlos Correia (Bóris)
Arranjo Gráfico de José Santa-Bárbara
Editado em 1970

Lado 1
Traz Outro Amigo Também - José Afonso
Maria Faia - Popular/Beira Baixa
Canto Moço - José Afonso
Epígrafe Para a Arte de Furtar - Jorge de Sena/José Afonso
Moda do Entrudo - Popular/Beira Baixa
Os Eunucos - José Afonso

Lado 2
Avenida de Angola - José Afonso
Canção do Desterro - José Afonso
Verdes São os Campos - Luís de Camões/José Afonso
Carta a Miguel Djeje - José Afonso
Cantiga do Norte - José Afonso

Texto de Bernardo Santareno transcrito na capa do disco:

“A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula. Realmente é a “pureza” a nota maior desta arte: Pureza de voz, pureza no poema, pureza na música. Neste disco, um dos mais ricos quanto a valores poéticos, é ela que domina: Trova antiga purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a justiça via de bandeira. E o ouvinte fica tonificado, “limpo”, cheio de graça, com mais vigor para a luta. No chiqueiro velho e saudosista, insignificativo e feio da música ligeira do nosso país, José Afonso surgiu como um renovador: De riso claro e leal, com punho duro de diamante, terno e gentil, sem amaneiramentos. Limpou crostas, desatou amarras, descobriu ramos verdes e ocultos, abriu janelas na parede bolorenta do fatalismo lusíada. E como esta arte pura e viril habitava já, nebulosamente, nos anseios da juventude que tanto pechisbeque musical mórbido e paupérrimo trazia nauseada, José Afonso conseguiu, rapidamente uma enorme audiência: Ele é hoje o mais autêntico trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça, de verdade. Por isto, todos o amam. E o amor do povo, dos jovens, de todos aqueles que ainda não estão definitivamente contaminados, esclerosados, é, tenho a certeza! A recompensa e a glória de José Afonso. Nem tudo está podre no reino da Dinamarca.”

"Canto Moço"

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de manhã clara

Lá do cimo de uma montanha

Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Mensageira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras

Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca."



domingo, 4 de abril de 2010

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

GUILDA DA MÚSICA DP 01
Arranjos e direcção Musical José Mário Branco
Capa de Armando Alves e José Rodrigues
Gravação em 8 pistas no “Strawberry Studio” no Chateau d’ Hérouville.
Editado em 1971.

Lado 1
Aertura – Gare d’Austerlitz
Cantiga para pedir dois tostões – Sérgio Godinho/J.M. Branco
Cantiga do Fogo e da Guerra – Sérgio Godinho/J.M. Branco
O Charlatão – Sérgio Godinho
Queixa das Jovens Almas Censuradas – Natália Correia/ J.M. Branco

Lado 2
Nevoeiro – José Mário Branco
Mariazinha – José Mário Branco
Casa Comigo Marta – Sérgio Godinho/J. M. Branco
Perfilados de Medo – Alexandre O’ Neill/J.M. Branco
Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades – Luís de Camões/J.M. Branco e Jean Sommer

Bob Dylan já nos avisara que os tempos estavam a mudar.
Foi quando chegou José Mário, pela pena de um tal Luís de Camões, a dizer-nos que todo o mundo é composto de mudança.As vontades também.
A abertura conseguida de um som de comboios na Gare d’Austerlitz, um acordeão em fundo, lembrando quem, do país cinzento, saíu em busca de outras perspectivas de vida ,e em Austerlitz desembarcava. os outros, os perseguidos politicamente, passavam as fronteiras a salto.
“- Entregas-me as peles em Moiros.
- A que horas?
-Às onze”

As “peles”, explica Miguel Torga no seu “Diário”, eram os emigrantes clandestinos. “Onde pode chegar o aviltamento humano”, comenta Torga.

“assim se encerra a fase confusa
da nova música portuguesa
assim se inaugura uma época nova
onde também cantar bem e compor melhor
serão condições a exigir a canção útil
da afinação da palavra
à desafinação das cordas
à percussão das peles e teclas
à imaginação nos arranjos
à criação melódica à vocalização justa
aqui o circo foi desmantelado
com todas as ferramentas do som".


Palavras que José Duarte escreveu nas badanas de “Mudam-se os Tempos e as Vontades” e fez questão de deixar um abraço a Sérgio Godinho, porque “poeta bom não morre à sombra.”

"Queixa das Almas Jovens Censuradas"

“Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céul
evado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte”