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domingo, 3 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS



As Mãos de Abraão Zacut

Luís de Sttau Monteiro
Capa: Alberto Gomes
Edições Ática, Lisboa, Fevereiro de 1968

Por pensarmos como tu é que transformámos a terra num campo de concentração, onde ninguém escapa à fogueira. Há quem conte com Deus, Susana, e há quem conte com os outros, mas para podermos andar de mãos dadas, temos de contar com as nossas próprias mãos e só com as nossas próprias mãos! As grades, Susana, foram as nossas mãos que as fizeram… e só as nossas mãos poderão destruí-las.

sábado, 29 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Auto da Barca do Motor Fora da Borda

Luís de Sttau Monteiro
Edições Ática, Lisboa, Maio de 1966

O ruído é agora muito intenso. Ouvem-se as palavras «pão» e «liberdade» e gritos de revolta.
Padre Contemporâneo: Que é isto?
Burguês: Vou ver. É o povo que se levantou.
Industrial de Sapataria: É por causa do corte dos salários. Eu bem dizia.
Banqueiro: Cale-se. Passe-me o telefone. Então? Para que julgam os senhores que nós lhes pagamos? Vá, depressa! Tomem as medidas que forem necessárias. Sem ordem não há progresso!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Angústia para o Jantar

Luís de Sttau Monteiro
Edições Ática, Lisboa, Janeiro de 1963

-          Meu pai dizia-me que da janela da repartição onde trabalhava se via o mar...
-          Que fazia teu pai?
-          Que fazia meu pai? Não fazia nada, era oficial da marinha. Entrava na repartição às 10 e saía às 6...
Lá o que ele fazia não sei... Preenchia papelada ou sonhava com navios... sei lá... talvez olhasse para o mar através da janela... Quando chegava a casa lia o jornal, fazia as palavras cruzadas e ia para a cama. Era oficial da marinha, digo-te eu...      

quarta-feira, 15 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


A Guerra Santa
A Estátua

Luís de Sttau Monteiro
Não há indicação de Editora. Apenas se lê na 3ª página: Teatro Minotauro 13.
Também não há indicação da tipografia onde foi impresso. Ano de publicação: 1967.

O General – Eu sou o general zero, escolhido para dirigir esta batalha por ter obtido a melhor classificação do meu curso: 20 em ginástica, 20 em aprumo militar, 20 em pontualidade e 20 em respeito pelos meus superiores hierárquicos. Faltam zero minutos para a hora zero. Dentro de zero minutos os meus oficiais reunir-se-ão aqui para discutir o plano zero que me permitirá pôr termo a esta guerra antes de ser reformado. Estou farto de ouvir a minha mulher.
Voz de Mulher – Pede a reforma, filho, e deixa-te de fantasias. Olha que é melhor pedi-la já, enquanto estás na mó de cima, do que esperares pelo fim da batalha. Prefiro a rua reforma de general vivo, à minha pensão de viúva de herói morto. Pede a reforma que já tens idade para ter juízo.
O General – Pois é, mas lá se vai o carro de graça, a gasolina por metade do preço, o impedido, os convites oficiais… e ninguém torna a fazer-me continência na rua…
Voz de Mulher – E depois? Ainda não estás farto de fitas? Olha, filho, passas a ser aquilo que és e mais nada. Pede a reforma. Pede a reforma, que eu faço-te uma açordinha de chouriço como tu gostas…

sexta-feira, 24 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Então mas que é isto toda a gente vota menos eu parece que mandam um papelinho e a gente escreve o nome de quem quer e mete numa caixa e depois eles vão lá e contam e quem tiver o nome escrito em mais papéis ganha lá o que se ganha não sei porque ninguém me explicou e já perguntei a mais de cem pessoas ou talvez fossem só cinco e começam a olhar para mim como se eu fosse doida e mudam de conversa mas que Pagode é este o meu Pai diz para eu meter o bedelho na minha vida como se esta não fosse a minha vida até parece que tenho outra o meu primo Manel diz que o melhor é eu estar calada e não fazer perguntas o meu padrinho quando eu lhe perguntei o que é que ganhava quem ganhasse as votações perguntou-me se eu queria metê-lo em sarilhos mas então que é isto senhor José que é o dono do talho onde a minha Mãe compra carne de cavalo que depois diz meu pai que é de vaca quando eu lhe perguntei que nome é que ele escrever no papelinho das votações abriu os olhos deixou cair a faca e cortou-se num dedo do pé e disse uma palavra que se a minha Mãe ouvisse ia-lhe a um sítio que eu cá sei bumba bumba bumba que ele ficava a arder ai não mas então que pagode é este ninguém me diz nada e eu se não fosse ter os ouvidos abertos morria burra nestas coisas de votações ai não mas como não estou cá por ver andar os outros já percebi umas coisa que não posso é dizer senão fico por aqui e não aprendo mais nada que eles calam-se logo mas a minha Avó coitada que não regula bem da cabeça para não falar do estômago e de outras coisas porque ontem foi à casa de banho sete vezes diz que as votações só servem para ir parar tudo não sei aonde o meu pai que é funcionário público não quer brincadeiras e diz que isso é para gente rica não é para funcionários e quando eu lhe peço para me explicar começa aos gritos a dizer que sabe muito bem o que está a dizer e que o Gomes ficou pobre e que ele não quer ficar pobre mas se ele tem tanta certeza no que diz então para que é que grita isso é que eu queria saber sim isso é que eu queria saber mas ninguém me diz é ó dizes mas lá que mete medo mete eu estava a pensar em escrever o nome do meu pai no tal papelinho para ver se ele ganhava as votações porque se calhar fazia-lhe arranjo que ele com o que ganha não se governa mas quando falei n isso e ele ia caindo da cadeira baixo e depois bumba bumba bumba que já não se pode querer ajudar a família livra que isto de levar tareia no rabo não é vida para ninguém quem me contou mais coisas foi o senhor Ricardino que vende lotarias da Santa casa e que tem tantos fregueses que já podia vender lotarias mesmo dele até já falámos nisso mas ele tem medo é o que eu digo anda toda a gente com medo então que diferença é que fazia sim que diferença é que fazia as lotarias dele não davam nada mas a s outras também quase nunca dão e ele sempre ganhava para meter um queijito no pão que aquilo de comer sempre pão com nada e nada com pão até faz mal mas ele é que me disse que as votações são assim um jogo diz o senhor Bernardino que vende lotaria branca pensos pentes e atacadores agora há muitos que já não escrevem nada porque viram a barba do vizinho a arder que é como quem diz que isso a mim a tal barba do vizinho  havia de me fazer muita diferença o que me fazer muita diferença o que me faz diferença é o rabo bumba bumba bumba não é a barba do vizinho o meu Pai diz que se ninguém soubesse também lá ia deitar o papelinho mas é ó vais eu gostava que ele deitasse lá isso gostava que era para ele ficar com o rabo a arder para aprender como é ai não que dói como burro mas ele não é homem para isso nem a minha Mãe deixa a minha Mãe ser mulher para isso nunca podia ser porque já está como mulher no bilhete de identidade  e quem muda o que vem ni bilhete de identidade trama-se eu que diga a bumba que levei quando pintei uns bigodes no retrato do meu Pai no bilhete de identidade levei que ia ficando doida bumba bumba bumba mas para me vingar no sítio onde diz sinais particulares escrevi é parvo e bate na filha e ele ainda não deu por nada quando der é certo e sabido bumba bumba bumba ai não mas não escapa de toda a gente saber que ele é parvo porque eu escrevi a tinta da China e lá essa coisa das votações é assim e o resto são tretas como diz o senhor Bernardino que já disse que desta vez talvez saia uma terminaçãozita mas não sai mais nada senão bumba no tambor para agente aprender agora foram lá pôr na minha rua uns cartazes que são uns papéis que se colam para tapar os buracos aos prédios enfim o que eu queria era saber o que é que ganha quem ganhar as votações há quem diga que é brinde será de plástico ou chocolate isso é que eu queria saber mas também gostava de votar lá isso gostava porque com o treino de bumba bumba que tenho lá de casa ficava-me a rir desta vez tenho de assinar com outro nome que lá em casa é como se houvesse votações quem manda é ele e bumba bumba bumba

                                                                                    ANTONINHA

Esta Antoninha que assina esta redacção não tem nada a ver com a Guidinha que assinava as outras nem é da mesma família e até é órfã de Pai de maneira que se o meu Pai ler isto e me der outra vez bumba bumba bumba faz outra injustiça.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


E Se For Rapariga Chama-se Custódia

Luís de Sttau Monteiro
Edição do Autor, Lisboa Abril de 1966

O mais novo quis falar, quis dar ao amigo acesso à liberdade que acabava de conquistar e a que ainda não se habituara completamente. A liberdade conquista-se, pensou, conquista-se à bruta, sem cerimónias, doa a quem doer. As palavras, todavia, faltavam-lhe. Não se pode meter um mundo numa frase.

sábado, 20 de outubro de 2012

OLHAR AS CAPAS



Felizmente Há Luar!

Luís de Sttau Monteiro
Capa de António Vaz Pereira
Edições Ática, Lisboa Abril de 1963

Se ele quisesse? Mas se ele quisesse o quê? Vocês ainda não estão fartos de generais? Cornetas, tambores, tiros e mais tiros… Bestas!
Tens sete filhos com fome e com frio r vais para casa com as mãos a abanar. Julgas que o Gomes Freire os vai vestir?
E tu, que não comes desde ontem – estás compressa de ir para a guerra? Julgas que matas a fome com as balas? Idiotas! Nenhum de vocês tem um tecto que o abrigue no Inverno, nenhum de vocês tem onde cair morto, mas mal passa um tambor, não há um só que não queira ir atrás dos soldados.
Catrapum! Catrapum! Caprapum, pum, pum
- Idiotas!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

OLHAR AS CAPAS


Um Homem Não Chora

Luís de Sttau Monteiro
Capa: Paulo Guilherme
Edições Ática , Lda
Lisboa Novembro 1963

Procuro com a mão o despertador que está a tocar há mais de meio minuto. Encontro-o entre um livro e o copo de água que me colocam todas as noites sobre a mesinha de cabeceira. Carrego num botão e o silêncio volta a entrar no meu quarto. Sei que já não posso readormecer. O meu despertador toca invariavelmente às oito de manhã, todos  os dias, faça sol ou faça chuva.
É uma das invariáveis da minha vida, tão invariável como o amor da Fernanda, como os jantares de família nos dias santos, como o som do piano da vizinha aos Domingos.
Não há nada a fazer. Atiro com a roupa ao chão e procuro, com o pé, o chinelo que deve estar algures ao lado da cama.

domingo, 20 de março de 2011

OLHAR AS CAPAS


Todos os Anos Pela Primavera

Luís de Sttau Monteiro
Guimarães Editores
Lisboa, Novembro 1963

Primeiro preso – Você está aqui há sessenta e sete dias sozinho? (Senta-se e enterra a cabeça nas mãos) Meu Deus!
Segundo Preso – Não há Deus
Primeiro Preso – Não há…
Segundo preso (interrompendo) – Não. (Pausa) Não há Deus.
Primeiro preso – Então o que há?
Segundo preso – Filhos da puta, bandidos, o que você quiser… mas Deus não: Deus é coisa que não existe.
Primeiro preso – Para mim existe.
Segundo preso – Se Deus existe, está tudo perdido, tudo.