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terça-feira, 22 de maio de 2018

AO TODO SÃO TRINTA


Foram trinta, como vos disse, os discos que fui reunindo com poemas meus, cantados, e com diferentes músicos e cantores. Depois do de Manuel Freire, o mais conhecido foi o de José Niza, deputado da nação e também músico. É um disco de grande formato, só com poemas meus, ao todo onze. José Niza estava na guerra de África, no norte de Angola, quando o correio lhe fez chegar as “Poesias Completas”. Foi essa a origem do disco, conforme o próprio conta e vem impresso na respectiva capa. Obrigado.
Luís Cília, músico e cantor, publicou em Paris, um disco de grande formato, intitulado 2La pésie portugaise de nos jours et de toujours”, com dois poemas do vosso tetravô: a “Fala do Homem nascido” (“Voix de l’homme né”) e “Dez reis de esperança” (“Deux sous d’espoir”), em 1972. Além destes contém poemas de outros autores, portugueses também.
E muitos mais discos se publicaram, um deles de um cantor célebre na época, entre nós, o Adriano Correia de Oliveira, de quem tenho três discos com poemas meus e de outros autores.
E etc. Ao todo são trinta.

Rómulo de Carvalho em Memórias

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

ADRIANO


Adriano Correia de Oliveira morreu há 32 anos.

Daqui por uns anos corre-se o sério risco, neste país tão triste de esquecer gente, de Adriano Correia de Oliveira ninguém saiba quem foi, ou o que fez.

O tempo da chegada de Adriano a Coimbra na descrição de Manuel Alegre:

Vivia-se, então, quando ele chegou a Coimbra, um tempo de grande tensão histórica e de grande tensão interior, um tempo de impulso e de pulsão, de mudança e mutação. Algo mudara no nosso viver colectivo. Algo mudara dentro de cada um de nós. Era um tempo pejado de apelos e sinais, carregado de perigos e angústias, um tempo prenhe de coisas novas, por vezes indistintas e confusas, mas que buscavam o seu rosto e a sua forma. Ruíam tabus e mitos, levantavam-se barreiras, apertava-se a mordaça e reforçava-se a repressão, mas algo estava em marcha, algo que nenhuma censura e nenhuma polícia podiam travar: era uma nova consciência que despontava, uma energia que pulsava naquela geração sobre que se abatia, por um lado o endurecimento da ditadura salazarista, por outro o espectro cada vez mais próximo da guerra de África. Ao mesmo tempo chegavam a Coimbra ecos e notícias da luta libertadora de outros povos e também da tomada do paquete Santa Maria por Henrique Galvão, do ataque ao quartel de Beja, de manifestações e greves em Lisboa e Alentejo. E já por Coimbra tinha passado o vendaval da candidatura presidencial de Humberto Delgado, bem como a revolta da Academia contra o decreto 40.900 que visava a liquidação da tradicional autonomia das associações estudantis e, no caso particular de Coimbra, da Associação Académica. Tal como noutras épocas decisivas (recordo as gerações de Garrett e de Antero), o sopro do tempo, a corrente das ideias, o próprio fluir da História tinham chegado e provocavam um fervilhar de iniciativas, buscas, enfim, uma extrema tensão geradora duma nova mentalidade e duma nova maneira de ser. Foi nessa Coimbra que Adriano desembarcou. Trazia consigo uma grande generosidade e aquela dose de inocência que nunca haveria de perder. Não sei como, talvez por acaso, ou talvez não (não estará o Acaso, afinal, ma origem de tudo?), começou a aparecer por minha casa onde já se juntavam, entre outros, o António Portugal, o José Afonso, o Rui Pato. Descobrimos então o timbre inconfundível da voz de Adriano e também essa sua conhecida pretensão, que nunca perderia e haveria de provocar infindáveis discussões com o António Portugal, de cantar uma oitava acima de Edmundo de Bettencourt.

 Este homenzarrão barbado, mas com olhar cândido como dele disse Manuel da Fonseca, foi, acima de tudo, um homem de coragem; o melhor de todos nós na opinião de Fausto.

Adriano

Não era só a voz o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima.

Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura.

O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem queria caber e não cabia.

Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro.
Era Outubro em Avintes. E chovia.


Manuel Alegre


Exílio

Poema de Manuel Alegre

Música de Luís Cília

quarta-feira, 23 de abril de 2014

SARAMAGUEANDO


Neste EP, chamado Dulcineia, que é título do poema de José Gomes Ferreira, publicado em 1971, Manuel Freire faz a primeira abordagem a poemas de José Saramago.
O poema escolhido foi Fala do Velho do Restelo ao Astronauta.
Os outros poemas do disco, para os quais, Manuel Freire fez a música são Poema da malta das Naus de António Gedeão e Canção de Eduardo Olímpio.

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.

Por ocasião dos 25 anos do 25 de Abril, Manuel Freire reuniu, em formato CD, músicas que fez para poemas de José Saramago. Juntou também a música que Luís Cília escreveu para Dia Não.

José Saramago escreveu na contra capa do CD:

Há palavras que atam e há palavras que separam. Estas são das que unem e aconchegam. Por isso, enquanto ele canta, eu vou dizendo baixinho o que escrevi. É uma forma de agradecer.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

SOU BARCO

Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar.

Ei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.

Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater no fundo,
Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo
De seis passos
E o mar a bater ao fundo.

Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde,
Seu brando chamamento.

Ó mar, venha a onde forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.

Poema de António Borges Coelho
Música de Luís Cília

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A BOLA


Rola
Sangrenta
Uma Bola
No chão de Angola.
O dia
Vai alto
Brilha
O Sol
Na Poeira
Incendiada.
Soldados
Jogam
Futebol
Com a bola
Que pula
Sangrando
No chão
De Angola.
Ninguém
Distingue
Na bola
Ensopada
Na areia
Empastada
Na erva
Que gira
No solo
A cabeça
De um negro
Sangrando
Que rola
No chão
De Angola.

Letra de Jonas Negalha
Música de Luís Cilia

Esta canção aparece pela primeira vez, em 1964, no álbum Portugal/Angola Chnats de Lutte, de Luis Cilia, editado pela Chant Du Monde.

Virá, também, a estar incluída no álbum de Luís Cilia, Meu País, editado em 1970 pela Chant Du Monde.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

SARAMAGUEANDO


Manuel Freire foi quem mais musicou poemas de José Saramago. Também foi, mera opinião pessoal,  quem melhor cantou esses poemas.


Este EP de Manuel Freire, editado em, 1971 contém “Fala do Velho do Restelo ao Astronauta”, que foi a primeira abordagem, publicada, de Manuel Freire a poemas de José Saramago.

“Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome”.

Em 1973 Manuel Freire publica o EP “Abaixo D. Quixote” que contém “Ouvindo Beethoven”.
 No LP “Devolta”, publicado em 1978, Manuel Freire inclui “Dia Não” que, em 1967, tinha sido musicado por Luís Cília e que faz parte do 1º volume de “La Poésie Portugiase de Nos Jours et de Toujuors”, que Luís Cilia realizou durante o seu exílio em Paris.

“De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas.
Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco seja rude
Como pedras calcinadas
Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
que não finja mascaradas
De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas
E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas
Ah que saudades do sim
Nestas quadras desoladas”

Por ocasião dos 25 anos do 25 de Abril, Manuel Freire reúne, em formato CD, estes e outros poemas de José Saramago. Chamou-lhe “As Canções Possíveis” e é este o alinhamento do disco:

Circo
Nem Sempre a Mesma Rima
Tenho a alma queimada
Ouvindo Beethoven
Retrato do poeta quando jovem
Jogo do Lenço
Tenho um Irmão Siamês
Dispostos em Cruz
Fala do velho do Restelo ao Astronauta
A Ponte
Dia Não
É tão Fundo o Silêncio.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

NÃO ME PEÇAM RAZÕES

MN - 10 005

Lado 1

Há-de Haver - José Saramago
O Menino da Sua Mãe - Fernando Pessoa
Boda Pagã - Francisco Delgado
Canção - Fernando Morgado
O Cavador - Guerra Junqueiro
Pátria - Afonso Duarte
Orfeu Rebelde - Miguel Torga

Lado 2

Carta a Angela - Carlos de Oliveira
A Estrela - Carlos de Oliveira
O Viandante - Carlos de Oliveira
Há Lágrimas Nos Teus Olhos - Carlos de Oliveira
Não me Peçam Razões - José Saramago
Margem Esquerda - Urbano tavares Rodrigues
Dies Irae - Miguel Torga

Todas as músicas são da autoria de Luis Cilia.


Poemas traduzidos para francês por Jorge Reis

O disco tem uma cuidada apresentção gráfica e inclui uma pintura de Helena Vieira da Silva dedicada a Luis Cilia, que também aqui se reproduz.


Editado em 1969.

A propósito deste disco de Luis Cilia, transcrevo o comentário de João Pedro publicado aqui:


"Em relação ao Luis Cília, não posso deixar de partilhar uma história que jamais esquecerei, sendo essa uma das grandes explicações para o "carinho" especial que tenho por Luis Cilia. Abreviando a história, quando uma vez visitar a minha avó, numa casa feita de pedra, no meio das pedras, numa aldeia na Beira Alta, a minha mãe trouxe de lá um disco do Luis Cília " La poesie portugaise Vol. II". Nada de anormal, não fosse a casa da minha avó, não ter electricidade, nem água canalizada, etc... nem a minha avó ter gira-discos (a minha santa avó mal sabia assinar o nome dela). Ainda hoje desconheço como é que o disco lá foi parar, pois a minha avó não viveu o suficiente para mo contar, mas desconfio que talvez um tio meu, quando foi a França o tenha trazido, sabe-se lá porquê. Era muito miúdo na altura e demorei muitos anos até ouvir esse disco, numa fase de maior maturidade. E é ai, que chego ao cerne da questão: a melancolia da voz de luis Cília nesse disco, é a única que consegue retratar de forma fiel a própria melancolia do país em que vivíamos. Os arranjos sublimes, o contrabaixo, violoncelo, aliada à forma sentida como Luis Cilia interpreta cada uma daquelas canções, não têm comparação, na minha opinião, com qualquer outro cantor (Ouvir " O cavador" ; "Carta a Ângela" Boda pagã" " Há lágrimas nos teus olhos", naquela contexto tão especifico, acredito que tocaria necessariamente o coração do ouvinte."

"Não me peçam razões"
"Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.


Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.


Não me peçam razões, ou sombras delas
Deste gosto de amar e destruir:
Nos excessos do ser é que amanhece
A cor da Primavera que há-de vir."