Foram trinta, como vos disse, os discos que fui reunindo com poemas
meus, cantados, e com diferentes músicos e cantores. Depois do de Manuel
Freire, o mais conhecido foi o de José Niza, deputado da nação e também
músico. É um disco de grande formato, só com poemas meus, ao todo onze. José Niza estava na guerra de África, no norte de Angola, quando o correio lhe fez chegar
as “Poesias Completas”. Foi essa a origem do disco, conforme o próprio conta e
vem impresso na respectiva capa. Obrigado.
Luís Cília, músico e cantor, publicou em Paris, um disco de grande
formato, intitulado 2La pésie portugaise de nos jours et de toujours”, com dois
poemas do vosso tetravô: a “Fala do Homem nascido” (“Voix de l’homme né”) e “Dez
reis de esperança” (“Deux sous d’espoir”), em 1972. Além destes contém poemas
de outros autores, portugueses também.
E muitos mais discos se publicaram, um deles de um cantor célebre na
época, entre nós, o Adriano Correia de Oliveira, de quem tenho três discos com
poemas meus e de outros autores.
Daqui por uns anos corre-se o sério risco, neste país tão triste de esquecer
gente, de Adriano Correia de Oliveira ninguém saiba quem foi, ou o que fez.
O tempo da chegada de Adriano a Coimbra na descrição de
Manuel Alegre:
Vivia-se, então, quando ele chegou a Coimbra, um tempo de grande tensão
histórica e de grande tensão interior, um tempo de impulso e de pulsão, de
mudança e mutação. Algo mudara no nosso viver colectivo. Algo mudara dentro de
cada um de nós. Era um tempo pejado de apelos e sinais, carregado de perigos e
angústias, um tempo prenhe de coisas novas, por vezes indistintas e confusas,
mas que buscavam o seu rosto e a sua forma. Ruíam tabus e mitos, levantavam-se
barreiras, apertava-se a mordaça e reforçava-se a repressão, mas algo estava em
marcha, algo que nenhuma censura e nenhuma polícia podiam travar: era uma nova
consciência que despontava, uma energia que pulsava naquela geração sobre que
se abatia, por um lado o endurecimento da ditadura salazarista, por outro o
espectro cada vez mais próximo da guerra de África. Ao mesmo tempo chegavam a
Coimbra ecos e notícias da luta libertadora de outros povos e também da tomada
do paquete Santa Maria por Henrique Galvão, do ataque ao quartel de Beja, de
manifestações e greves em Lisboa e Alentejo. E já por Coimbra tinha passado o
vendaval da candidatura presidencial de Humberto Delgado, bem como a revolta da
Academia contra o decreto 40.900 que visava a liquidação da tradicional
autonomia das associações estudantis e, no caso particular de Coimbra, da
Associação Académica. Tal como noutras épocas decisivas (recordo as gerações de
Garrett e de Antero), o sopro do tempo, a corrente das ideias, o próprio fluir
da História tinham chegado e provocavam um fervilhar de iniciativas, buscas,
enfim, uma extrema tensão geradora duma nova mentalidade e duma nova maneira de
ser. Foi nessa Coimbra que Adriano desembarcou. Trazia consigo uma grande
generosidade e aquela dose de inocência que nunca haveria de perder. Não sei
como, talvez por acaso, ou talvez não (não estará o Acaso, afinal, ma origem de
tudo?), começou a aparecer por minha casa onde já se juntavam, entre outros, o
António Portugal, o José Afonso, o Rui Pato. Descobrimos então o timbre
inconfundível da voz de Adriano e também essa sua conhecida pretensão, que
nunca perderia e haveria de provocar infindáveis discussões com o António
Portugal, de cantar uma oitava acima de Edmundo de Bettencourt.
Este homenzarrão barbado, mas com olhar cândido
como dele disse Manuel da Fonseca, foi, acima de tudo, um homem de coragem; o
melhor de todos nós na opinião de Fausto.
Neste EP, chamadoDulcineia, que é título
do poema de José Gomes Ferreira, publicado em 1971, Manuel Freire faz a primeira
abordagem a poemas de José Saramago.
O poema escolhido foi Fala do Velho do Restelo ao Astronauta.
Os outros poemas do disco, para os quais, Manuel Freire fez
a música são Poema da malta das Naus de António Gedeão e Canção
de Eduardo Olímpio.
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.
Por ocasião dos 25 anos do 25 de Abril, Manuel Freire reuniu,
em formato CD, músicas que fez para poemas de José Saramago. Juntou também a
música que Luís Cília escreveu para Dia Não.
Há palavras que atam e há palavras que separam. Estas são das que unem
e aconchegam. Por isso, enquanto ele canta, eu vou dizendo baixinho o que
escrevi. É uma forma de agradecer.
Rola Sangrenta Uma Bola No chão de Angola. O dia Vai alto Brilha O Sol Na Poeira Incendiada. Soldados Jogam Futebol Com a bola Que pula Sangrando No chão De Angola. Ninguém Distingue Na bola Ensopada Na areia Empastada Na erva Que gira No solo A cabeça De um negro Sangrando Que rola No chão De Angola.
Letra de Jonas Negalha Música de Luís Cilia Esta canção aparece pela primeira vez, em 1964, no álbum Portugal/Angola Chnats de Lutte, de Luis Cilia, editado pela Chant Du Monde. Virá, também, a estar incluída no álbum de Luís Cilia, Meu País, editado em 1970 pela Chant Du Monde.
Manuel Freire foi quem mais musicou poemas de José Saramago. Também foi, mera opinião pessoal,quem melhor cantou esses poemas.
Este EP de Manuel Freire, editado em, 1971 contém “Fala do Velho do Restelo ao Astronauta”, que foi a primeira abordagem, publicada, de Manuel Freire a poemas de José Saramago.
“Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome”.
Em 1973 Manuel Freire publica o EP “Abaixo D. Quixote” que contém “Ouvindo Beethoven”.
No LP “Devolta”, publicado em 1978, Manuel Freire inclui “Dia Não” que, em 1967, tinha sido musicado por Luís Cília e que faz parte do 1º volume de “La Poésie Portugiase de Nos Jours et de Toujuors”, que Luís Cilia realizou durante o seu exílio em Paris.
“De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas.
Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco seja rude
Como pedras calcinadas
Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
que não finja mascaradas
De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas
E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas Ah que saudades do sim
Nestas quadras desoladas”
Por ocasião dos 25 anos do 25 de Abril, Manuel Freire reúne, em formato CD, estes e outros poemas de José Saramago. Chamou-lhe “As Canções Possíveis” e é este o alinhamento do disco:
MN - 10 005
Lado 1 Há-de Haver - José Saramago O Menino da Sua Mãe - Fernando Pessoa Boda Pagã - Francisco Delgado Canção - Fernando Morgado O Cavador - Guerra Junqueiro Pátria - Afonso Duarte Orfeu Rebelde - Miguel Torga
Lado 2 Carta a Angela - Carlos de Oliveira A Estrela - Carlos de Oliveira O Viandante - Carlos de Oliveira Há Lágrimas Nos Teus Olhos - Carlos de Oliveira Não me Peçam Razões - José Saramago Margem Esquerda - Urbano tavares Rodrigues Dies Irae - Miguel Torga
Todas as músicas são da autoria de Luis Cilia. Poemas traduzidos para francês por Jorge Reis
O disco tem uma cuidada apresentção gráfica e inclui uma pintura de Helena Vieira da Silva dedicada a Luis Cilia, que também aqui se reproduz. Editado em 1969.
A propósito deste disco de Luis Cilia, transcrevo o comentário de João Pedro publicado aqui:
"Em relação ao Luis Cília, não posso deixar de partilhar uma história que jamais esquecerei, sendo essa uma das grandes explicações para o "carinho" especial que tenho por Luis Cilia. Abreviando a história, quando uma vez visitar a minha avó, numa casa feita de pedra, no meio das pedras, numa aldeia na Beira Alta, a minha mãe trouxe de lá um disco do Luis Cília " La poesie portugaise Vol. II". Nada de anormal, não fosse a casa da minha avó, não ter electricidade, nem água canalizada, etc... nem a minha avó ter gira-discos (a minha santa avó mal sabia assinar o nome dela). Ainda hoje desconheço como é que o disco lá foi parar, pois a minha avó não viveu o suficiente para mo contar, mas desconfio que talvez um tio meu, quando foi a França o tenha trazido, sabe-se lá porquê. Era muito miúdo na altura e demorei muitos anos até ouvir esse disco, numa fase de maior maturidade. E é ai, que chego ao cerne da questão: a melancolia da voz de luis Cília nesse disco, é a única que consegue retratar de forma fiel a própria melancolia do país em que vivíamos. Os arranjos sublimes, o contrabaixo, violoncelo, aliada à forma sentida como Luis Cilia interpreta cada uma daquelas canções, não têm comparação, na minha opinião, com qualquer outro cantor (Ouvir " O cavador" ; "Carta a Ângela" Boda pagã" " Há lágrimas nos teus olhos", naquela contexto tão especifico, acredito que tocaria necessariamente o coração do ouvinte."