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terça-feira, 4 de junho de 2019

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Dos Cadernos do Meio-Dia saíram, entre Abril de 1958 e Fevereiro de 1960. cinco números. 
Numa ida ao Porto, talvez Abril de 1960, arranjei um tempinho, fora das tarefas que à cidade me levaram, e dei um salto à Livraria Divulgação, então na Rua de Ceuta nº 88.
Consegui encontrar 4 volumes dos Cadernos do Meio-Dia. Falta-me o nº 4 porque se esgotara.
Cada caderno custou 7$50.
Esta é a contra capa do nº 3 dos Cadernos onde se podem ler os nomes  dos colaboradores que, para este número, enviaram poesias, textos e críticas.
António Ramos Rosa faz crítica ao livro O Amor em Visita de Herberto Helder, publicado pelas Edições Contraponto do nosso muito conhecido Luiz Pacheco.
A crítica termina assim:
«Estamos em frente dum poeta autêntico que se pode situar entre os melhores da mais nova geração. Este livro, para o qual havíamos sugerido um título mais adequado, «Canto Nupcial», é, na verdade, um magnífico hino à Mulher e o poema processa-se com um ritual de amor. Com Herberto Helder, não tememos dizê-lo, surge uma nova dimensão poética, profundamente pagã e patética, uma violência genuína e não provocada, com fundas raízes no instinto, que só a sua maravilhosa música sabe flectir como esse «torso dobrado pela música».

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O POSTALINHO


Continuamos com as entrevistas do Luiz Pacheco antologiadas em OCrocodilo Que Voa.

Hoje entramos na entrevista feita por Mário Santos e publicada pelo Público, Março de 1995.

A primeira abordagem do jornalista aponta para a distribuição de livros que o Pacheco editava, servindo-se do Bilhete-Postal, da entrega do livro à cobrança:

A distribuição sigilosa é uma visitação dos inícios da Contraponto ou não encontrou editor que o pusesse nas livrarias?

E o taco? Olha este! Isto é uma chatice, mas é infalível! Porque eu sei que nenhum gajo vai receber o livro sem primeiro pagar ao carteiro! Eu nisto estou muito calhado, neste esquema do postalinho. Comecei a usá-lo em 1951, porque havia também a questão da PIDE: o livro escusava de ir às livrarias. Era um processo de venda semiclandestina…

Se o leitor estiver interessado no modo como funcionava o processo de distribuição do Pacheco, encontrará, neste blogue, na etiqueta LUIZ PACHECO EDITOR, uma série de histórias sobre o assunto.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

AS CARTAS DO PACHECO


Se existiu alguém que deu trabalho aos Correios de Portugal, Luiz Pacheco está no pelotão da frente.

Através do seu ficheiro pessoal enviava aos leitores, à cobrança, os livros da Contraponto,

Por tudo e por nada, enviava, cartas e bilhetes-postais, a meio mundo e parte do outro.

Numa entrevista chegou a observar:

«As pessoas dizem «estou a ler», «tenho à cabeceira», mas não lêem. Dizem que não têm tempo: não têm é hábitos de leitura.»

Para os livros da Contraponto Pacheco não invocava nada.

Lessem ou não lessem, o importante é que mandassem o guito,  para ajudar à sobrevivênciazinha.

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Já em Maio de 1974, Pacheco lança, na Estampa, Pacheco Versus Cesariny, um folhetim inventado e montado.

Entre a muita correspondência que por lá abunda, há uma carta do crítico e escritor Manuel de Lima, que começa assim:

«Acabo de saber, com grande surpresa e algum alarme que, todas as vezes, que lhe escrevia por uma simples necessidade de comunicar consigo, estava inadvertidamente a escrever para a história.»

Na conversa que Rui Zink e Carlos Quevedo mantiveram com Luiz Pacheco, foi-lhe perguntado como tinha surgido a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas.

Pacheco respondeu:

«No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco versus Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só.»

Os jornalistas lembram-lhe que as pessoas podiam ficar chateadas com a publicação das cartas.

Pacheco não desarma:

«Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois, um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca maus me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca era mais de 100 ou 200 paus…»

Em Fevereiro de 2002, Bernardo de Sá Nogueira, edição Alexandria, transcreve treze cartas e quatro postais de Luiz Pacheco para o poeta António José Forte. 

O livro chama-se Mano Forte.

Pacheco não gostou.

Na entrevista a João Pedro George, publicada em O Crocodilo que Voa, explicou:

«Um tipo sabe que fulano António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais. Guardou, morreu, foi para às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… Depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial, e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra…»

Luiz Pacheco no seu Memorando, Mirabolando, Setembro de 1995 para além de outros textos, publica cartas enviadas a Mário Cesariny de Vasconcelos, Pepe Blanco, Jaime Aires Pereira, Jaime Salazar Sampaio, Vitor Silva Tavares e Maria Manuela Ferreira.

Muito mais postais e cartas existirão por aí espalhados em jornais, jornalecos, revistas, revistecas.

Talvez algum dia se faça a necessária divulgação de toda essa correspondência.

Talvez…

Legenda: pintura de William Albanese

terça-feira, 21 de julho de 2015

LUIZ PACHECO, EDITOR


Mais uma incursão pelas maravilhosas loucuras do editor Luiz Pacheco.
Aqui envaidece-se quando declara que a 1ª edição do seu livro Cartas na Mesase esgotou depressa com ajuda do ficheiro de assinantes Contraponto.
As saudades que o prezado assinante nº 84 tem destes tempos.
Um humor inteligente, um enorme gosto em ser editor que, segundo o próprio Pacheco, foi a melhor e mais bonita coisa que fez na sua atribulada vida.

sábado, 24 de janeiro de 2015

LUIZ PACHECO, EDITOR





Para além dos -cá-vintesfoi com a utilização destes postais que fui adquirindo os livros do Pacheco que, raramente, chegavam às livrarias.
Foi com estes postais, que Luiz Pacheco incluía nos livro que editavas, que ele foi construindo o seu ficheiro de assinantes.
De tão simples como de importante.
Grande Pacheco!

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

LUIZ PACHECO, EDITOR


O habitual panfleto publicitário que Luiz Pacheco colocava no meio dos livros que enviava aos seus assinantes.
Este veio dentro de Uma Casa na Praia de Pablo Neruda.

sábado, 16 de agosto de 2014

LUIZ PACHECO, EDITOR


Os últimos anos de vida, Luiz Pacheco passou-os em Lares de Terceira Idade.

Um desses lares, penso que terá sido o primeiro, situava-se em Palmela:

Era um lar no meio de uma serra, com o ar puríssimo de Palmela, uma construção nova, em arco, sem vizinhança, sem casas à volta… Era muito bonito… Fui para lá logo quando aquilo começou… no início, a fase da promoção, serviam um bacalhau altíssimo, as torradas pareciam as das pastelarias da Baixa, dois andares de torradas, molhadas em manteiga, o café com leite vinha com dois pacotes de açúcar… depois, um dia começou a aparecer só um pacote, vieram as economias,,, as torradas passaram a ter só um andar com uma lambidela de margarina… Agora este aqui, do Príncipe Real, já se aproxima mais da generalidade. Por exemplo as giletes que eles dão algumas já barbearam mortos. Tu não fazes ideia,,, Isto é um armazém de pré-cadáveres, é uma parada de monstros.

Num qualquer livro que comprara do Pacheco, encontrava-se um Bilhete-Postal-Porte-Pago para inscrição como assinante da Contraponto.

Foi assim como me constituí como o Assinante nº  84 e passei a receber, pelo correio, todos os livros editados pela Contraponto.

Um dia soube que a sogra do Santos Costa estava nesse lar de Palmela e sugeri que fizesse uma visita ao Pacheco e se constituísse, para poupar tempo e os portes, como portador dos livros. Livro na mão, pagamento feito pelo Santos Costa.

Entretanto a sogra do Santos Costa morreu e eu perdi o meu correio privilegiado.

Um dia, Novembro de 1998, recebi pelo correio, mais um livro do Pacheco, o Prazo de Validade.

Lá dentro um recado manuscrito:

Você é uma jóia de pessoa, mas é um CRAVA do pior. Agora que aquele senhor não vem aqui já (faleceu a D. Celeste), ou V. me envia 2.000$00 ou é saneado do meu ficheiro de assinantes.

O Santos Costa garantiu-me que todos os livros que trouxera de Palmela tinham sido pagos.

Mandei uma amável carta ao Pacheco, perguntando-lhe qual o livro que ficara por pagar.

Resposta em Pachecal-Postal:

Desfazia-se em desculpas. Tinha-me confundido com um assinante do Porto e adiantava que era capaz de enganar muita gente nunca um dos seus assinantes.

O Postal é o que aí está, e Pacheco deixou recado manuscrito:

Pegue nesta miúda e leve-a para o MECO.

Mais tarde, enviado pelo Pacheco, recebi um pacote contendo três livros e um recado, escrito a esferográfica verde:

Estão aqui uns livrecos, que certamente já terá, e se assim for, ofereça-os a um amigo.

Não tem de pagar nada. Você é um compincha.

Desconcertante este Pacheco.

Razão plena quando dizia: a Contraponto sou eu!

Nota do Editor: a descrição do lar de Palmela é tirada de uma entrevista dada a João Pedro George e incluída em O Crocodilo Que Voa, Tinta da China, Lisboa Fevereiro de 2008.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

LUIZ PACHECO, EDITOR

E ficas já a saber, meu bom Silveira, que sendo ele Luís de nome próprio como tu, este Pacheco de quem se torna inevitável que dele fale nesta narrativa teve uma vida de sete e mais fôlegos, padeceu o que nem ao diabo lembra, mas fez a sua travessia na coerência e justa pretensão de publicar alguns bons livros que fez chegar às mãos de muita gente através de um ficheiro bem organizado e em trabalho artesanal de largos anos. Editou os livros que mais lhe agradaram, alguns assinalaram mesmo a estreia literária dos seus autores (Herberto Helder, Manuel de Lima, António Tavares Manaças ou carlos Wallenstein), e devo dizer-te que foi ainda companheiro e amigo de poetas e pintores ligados ao surrealismo português.

Serafim Ferreira em  Olhar de Editor, Editorial  Escritor, Lisboa Outubro de 1999.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

DÁ CÁ VINTES!



Lisboa, finais dos anos 60.

Eu a descer o Chiado, o Luiz Pacheco a subir.

A tal imagem de marca, saquinho de plástico, calça curta, canela quase à mostra, peúgas descaídas por falta de elástico.

Repare nas minhas calças: sou o gajo das calças curtas. Porquê? Porque não mando fazer um fato desde 1957 ou 1958! E por acaso tinha um bom alfaiate, mas o último fato não o paguei e nunca mais lá fui… «O gajo anda de calças assim para provocar, para se mostrar original.» Não é! Eu vejo aí é calças a três e quatro contos e eu ia dar três contos por um par de calças?! Jamais de ma vie, porra! Se me dão calças compridas, visto-as, dão-me curtas, eu visto-as! Quero lá saber… são dadas! Essa carneirada acha de mim uma coisa, eu acho deles outra! Agora, isto não tem nada a ver com a obra que fiz!

(De uma entrevista de Luiz Pacheco no Público, Março de 1995, e que consta de O Crocodilo Que Voa, organização de João Pedro George)

Cruzamo-nos à porta da Leitaria Marques, que continua fechada, questões de massas ou lá o que é, mexe no saco de plástico, saca umas folhas copiadas a stencil.

- Dá cá vintes!

Os tempos eram difíceis, mas o Pacheco era o Pacheco, dei-lhe os vintes.

Fiquei com dezes e a Comunidade.
                                                                                                       
A capa e a primeira folha que aqui se reproduzem.

Amarelada pelo tempo não consegui uma boa reprodução., mas fica aqui.

Um lindíssimo texto, uns vintes, em tempos difíceis, muito bem empregues.

Em Março de 1970, a Comunidade saiu em folheto, ainda pela Contraponto, «fez-se uma tiragem especial de trezentos exemplares, numerada e assinada pelo Editor, com um «poster-hors-texte», original de Carlos Ferreiro.»

Segundo o catálogo da Exposição 1 Homem Dividido vale por 2, a Comunidade foi saindo editada não só pela Contraponto. Da  edição do ano de 1996, publicaram-se 500 exemplares, «especialíssima, dedicada em preito de homenagem e gratidão, a Sua Excelência o presidente da República Portuguesa, Dr. Mário Soares».


Por Mário Soares, conta a Pachecal figura:

Essa história do gajo me dar dinheiro? As pessoas têm esta coisa que é assim: «o presidente da República deu 200 contos àquele calhordas», isso provocou espanto. Estupefacção. Andámos na faculdade, nunca tivemos um relacionamento íntimo ou uma grande amizade. Eu via o gajo no Chiado: «Ó Mário, passa-me aí algum, pá.» Ele puxava da carteira, tirava cinco paus, fazia um gesto com o dinheiro na mão para o mostrar, e dava-mo. Agora, aqui, em Setúbal, isso tem uma explicação. O assessor cultural foi à livraria da Raposo (Pacheco refere-se à livraria UniVerso, em Setúbal) e este, para se evidenciar, disse logo: «quem está aí é o Pacheco e tal». E o outro foi dizer ao Mário Soares. Não é lá essa história do presidente descobrir que eu estou aqui no buraco e manda-me 200 contos, dentro do envelope vinham 25 notas de 10 contos. Ia morrendo. Acho que tem uma razão deontológica…, o escritor, o escriba, depois como é que agradece um gesto destes?

(De uma entrevista de Luiz Pacheco, publicada em Dezembro de 1995, no Blitz e que consta O Crocodilo Que Voa)

Do Jorge Sampaio nem cheiro. Pior foi o Eanes. Como o David  Mourão-Ferreira tinha conseguido um subsídio para o Raul de carvalho, o Alçada Baptista falou-lhe em mim. E o Eanes respondeu-lhe: «Para quê? Para ir gastar na taberna?» O Soares não perguntou onde é que eu ia gastar a massa.

(De uma entrevista de Luiz Pacheco, dada a Rodrigues da Silva, publicada no JL e que consta de OCrocodilo que Voa).