Mostrar mensagens com a etiqueta Luiz Pacheco Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luiz Pacheco Livros. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Textos Sadinos

Luiz Pacheco
Prefácio: Baptista-Bastos
Epitáfio: Ângela Caires
Capa e ilustrações: Rui Mesquita
Plurijornal, Setúbal 1991

Pronto. É uma história de amor, triste como o costume. As histórias de amor alegres não são para contar. As verdadeiras acabam sempre mal, duma maneira ou doutra. Com a Irene ao lado, algures em Setúbal, meti n’Os Namorados três parágrafos melancólicos. É tudo o que me resta da Fátima.

sábado, 11 de agosto de 2018

OLHAR AS CAPAS


Literatura Comestível

Luiz Pacheco
Capa: Soares Rocha
Editorial Estampa, Lisboa, Novembro de 1972

Durante anos e anod não publiquei nada meu, publicando outros, que considerava e considero ainda com muito mais talento do que eu (exemplo: o Cesariny, O Manuel de Lima). Se há coisa que me encha de cagança é essa minha actividade de Editor, a qual excede de longe a de Autor e lanço daqui mesmo um desafio: não pode haver em Portugal nenhuma bibliotecazinha decente que não tenha lá um livro editado por mim – poesia ou teatro, cinema, ficção, ensaio.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Libertino Passeia Por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor

Luiz Pacheco
Contraponto, 1970

Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): "Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado (1):

AMANHÃ MESMO MORRERÁS!

Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões (2), outra terra a que perdi o nome (3) e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Gêninha jamais esquecida. A Super-Super-Gêninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Figuras, Figurantes e Figurões

Luiz Pacheco
Selecção e prefácio: João Pedro George
Capa: André Carrilho
O Independente, Lisboa, 2004

Estive até aqui a ver se me distraía… e não posso. Morreu a semana passada o Fernando Assis Pacheco. A coincidência do nome não é o que me preocupa. Mas a perda de uma Amigo, numa Amizade velha de muitos anos e nunca desmentida, nunca traída. O Fernando era prosador de qualidade (como poeta não o apreciava tanto) e o seu último romance (ganhou no público um êxito que não logrou dos júris dos prémios) uma obra notável. Eu, que digo mal de tudo, se bem me lembro, escrevi-lhe uma carta, com justos louvores, porque gostei do livro. Tirando isso, que era muito e nada vulgar, menos vulgar ainda era a cordialidade, a simpatia, o entusiasmo que o Fernando punha no seu noticiário cultural, nas entrevistas, numa atenção eufórica perante a coisa literária e os coitados da República das Letras, sempre ansiosos por um conforto, uma palavrinha de ternura. Quanto a mim, posso e devo acrescentar: deu-me trabalho e razoavelmente remunerado, n’ O Jornal, quando eu andava por aí aos caídos.
Podendo, falarei talvez melhor do Fernando Assis Pacheco daqui a uns tempos, desculpem.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Exercícios de Estilo

Luiz Pacheco
Editorial Estampa, Lisboa, Julho de 1971

Tenho Amigos até 1 copo. Tenho todos os meus Amigos tabelados: a cincos (o Edmundo Bettencourt, o Jaime Salazar Sampaio, por ex.), a vintes (são a grande maioria), a cinquentas (o Mário Alberto, etc.), a cemzes, a quinhentos (o Artur Ramos), a miles (destes últimos convém não abusar, é só para as grandes aflições). A vintes cada bebedeira são á bicha, bêbedas que apanhamos eles a pensarem neles e no que mais lhes interessa ou por um bocado de companhia ou por um ouvido irmão para desabafar; eu a pensar nos vintes que lhes vou cravar à despedida, na hora das emotivas efusões em que a fraternidade é lei. Tenho Amigos que dão vintes mesmo sem vinho – e sabe-se lá porquê? Tenho Amigos que dão a gravata a camisa a calça curta ou comprida cachecóis lenços de assoar a esferográfica deles, todos os trocos miúdos das suas algibeiras, com uma careta ou um riso satisfeito, tanto me faz. Tenho ainda Amigos que me levam uma vez por ano à praia de popó e me dizem insistem para que molhe ao menos os pés, lave as ventas na água salgada, insistem por pura amizade para eu respirar fundo «qu’ali é qu’é bom». O iodo. As brisas atlânticas. As beldades carnudas bem à mostra. Tenho outros Amigos que me põem a ouvir a última gravação que compraram do Brell e oiço Les Timides, Les Vieux e choramingo, na hora dos copos qualquer pretexto (me serve) lachrima triste à esquerda (veio decerto directa do coração), lagrimeta condensada na pupila à direita pelos tintos, forma de arroto vínico irreprimível subido do fígado inchado que se enganou no caminho natural talvez sugestionado pelo Brell. Tenho Amigos-amigos, Amigos-negócios à parte e Amigos-meio a atirar pró torto, da onça. De todos preciso e assim-assim de todos gosto à minha maneira porque a solidão e o silêncio são causas de morte, são a morte. O meu maior Amigo, digo: aquele que me tem feito sofrer mais, sou eu. Por isso, talvez, também que o prefira (e me gramo). Entre todos os Amigos às vezes me prefiro e tiro mais, carrasco e vítima de mim mesmo, e bebo e drogo-me para o esquecer, o desconhecer, e ainda às vezes tanto asco lhe voto e desespero que o matava logo ali – a não ter tanto medo da polícia Eu).

domingo, 15 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Uma Admirável Droga

Luiz Pacheco
Posfácio: Isabel Segorbe
Capa: Victor Hugo
Ilustrações A.S.L.
Quarteto Editora, Coimbra, Fevereiro 2001

Se eu tive um destino singular, na modéstia que todos temos um único, original e nosso e apenas isso, mas repito se, em comparação com muita gente que me rodeia, lhe posso ainda, aqui comigo e nas histórias lendárias ou veras que de mim contam (algumas tenho ouvido, espantado sem acreditar; doutras nem já me lembrava mas foram mesmo), esse meu destino, é singular, porque será? Interrogo (-me) e não sei capaz, não lhe (me) sei responder. A doença em pequeno? a devoradora leitura, alargando uma imaginação já de si exagerada, neurótica? uma degenerescência familiar de que fiz bastante para me salvaguardar, procurando outros rumos, novos projectos, caras felizes? um  acentuado pendor para a contradição ou atenção crítica que começa no querer ver como é, saber ouvir, ler muito e variado, e desconfiando sempre? Porque desconfio, duvido, amontoando hipóteses, alterando dados na aparência irrefutáveis e, em frieza quase absoluta, distinguindo os meus sentimentos ternos pelas pessoas da análise implacável do que elas são ou de como aas queria? e repelindo-as ou chegando-me a elas, na convivência forçada ou fascinante que temos de aceitar com o outro?
Conheço-me? não me conheço? estou baralhado de todo? Ou fui sempre? 

sábado, 17 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Mano Forte

Luiz Pacheco
Apresentação de Bernardo de Sá Nogueira
Livraria Alexandria, Lisboa, Fevereiro de 2002

Mano Forte:

Está feito o negócio! A Ulisseia vai-me editar tudo, tudo. E para já o volume, amálgama, dos textos críticos ou raivosos. 7200$00! (Precisas de dinheiro? Se sim, avisa depressa: devo estar totalmente, alegremente teso domingo ou segunda. O dinheiro dá azar!) Como terás ocasião para ler, a Crítica de Circunstância só é um livro porque mantém, ao longo de quase vinte anos, uma certa unidade de pensamento, uma certa intransigência. Uma atitude. O outro, Exercícios de Estilo, é obra mais deliberada. E tenciono agarra-me a ela, com unhas e dentes.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS



O Uivo do Coiote
Entrevistas

Luiz Pacheco
Prefácio: Acácio Barradas
Capa: Paulo Curto
Contraponto, Setúbal, Fevereiro de 1997

Uma vez pediu ou pensou pedir uma bolsa à Gulbenkian para uma biografia do Bocage. Não escreveu isso?

Não, para isso nunca. Pedi uma bolsa à Gulbenkian e disseram-me que não era costume dar bolsas para escritores; já houve essa discussão, só há bolsas para pintores. A conversa do costume, que «era estimular a preguiça», mas para mim, como «não era exigente», talvez se arranjassem dois ou três contecos por mês. Eu nessa altura quase não via nada e precisava de uns óculos, pensei então que, em vez de dois contos, podia pedir para os óculos. Faço então uma petição à Gulbenkian para pagarem os óculos, com uma grande choradeira, que estava quase ceguinho… Eu com estes já só consigo ler o «Estrela-Gomes Freire» a 30, 20 metros. Passados dois meses mandaram-me um conto de réis, porque eu podia esperar. Agarro numa fotocópia da petição, saio do Curry Cabral e vejo numa montra o Padre Cruz e santinhos e um postal do Sousa Martins, que é o «santo» do Campo Santana, e mando ao perdigão a cópia a dizer: «Pedi para aí uma bolsa já há tantos meses, para uns óculos, que estou quase cego. Já me agarrei ao São Calouste, ao São Perdigão, vamos lá a ver se agora o Sousa Martins me faz o milagre.» Carta registada, aviso de recepção. Tive como resposta um pedido para enviar o orçamento do oculista, «sem compromisso desta Fundação». Empenhei uns binóculos que tinha, fui ao médico, passou-me a receita e fui ao Pereira do largo do rato. Fizeram-me o orçamento. Fiquei a saber que não foi a Fundação, mas o Presidente, que pagou o0s 35 contos e quinhentos por estes óculos, italianos. Disseram-me que ele tinha um fundo pessoal para essas coisas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS



O Uivo do Coiote

Luiz Pacheco
Entrevista conduzida por Baptista-Bastos
Ilustrações Martim Avilez
Capa: José Teófilo Duarte
Contraponto, Setúbal, Novembro de 1992

Queiras ou não, tu criaste a tua própria moral que vai, embatente, contra a moral estatuída. Começamos a conversa assim?

Ficaria completamente embatucado e não tivesse de despachar este paleio contigo; e pode gabar-te…

Eu? Gabar-me de quê, ó Luiz?

De seres o único sujeito do Mundo que me levaria a este tipo de conversa à pressão. Mas vamos a isto: devo-te grandes finezas e colossais descomposturas, tudo à mistura ou de seguida, de viva voz ou por escrito, exageros ciclotímicos que temos de agradecer, deliciados, ou gramar, de mau cariz e em silêncio, que a personagem em questão, tu, não admite contradita, e começando a doutorar ninguém te cala. Adiante! Estávamos na moral, não é?

sexta-feira, 3 de junho de 2016

OLHAR AS CAPAS


Os Doutores, a Salvação e o Menino Jesus

Luiz Pacheco
Ilustração: Henrique Manuel
Capa: Graça Castanheira
Oficina do Livro, Lisboa, Dezembro de 2002

1

Era no tempo em que os animais falavam. O Menino Jesus tinha então doze anos e estava um homenzinho.

2

Ia crescendo em idade, em graça e sabedoria diante de Deus e diante dos homens

3

Seus pais costumavam passar as festas da Páscoa na cidade de Jerusalém, onde tinham alguns parentes e amigos e conhecidos.

4

Naquele ano não faltaram e ei-los agora que partem de Nazaré a caminho da cidade sagrada.

5

6
Depois do almoço, o S. José tinha saído a comprar uma plaina grande, uma garlopa que lhe fazia muita falta, e pregos,

7

E ao mesmo tempo para saber o preço dum banco de carpinteiro, em segunda mão.

8

A Nossa Senhora Maria acabou de dar de mamar ao José, o mais novo dos pequenos (Tiago dormia a sesta na sua cama) e agora

9

A Nossa Senhora Maria estava lavando e esfregando a loiça suja do almoço e não reparou na porta só encostada e no Jesus que se esgueirava prà rua. Fugiu.

10

Ora pois: foi pla tardinha e o Menino Jesus fugiu mesmo. Ia procurar os Doutores.

11

Na rua outros miúdos da idade dele jogavam a bola, negócio de que o menino muito gostava e em que era sabido.

12

Mas o Jesus tinha a sua fisgada: queria falar aos Doutores.

13

Estes Doutores (eles não eram muitos, mas inda lá havia uma boa meia dúzia) reuniam-se todas as tardes num velho café judeu,

14

Naquele velho café judeu que uma bomba, escondida pelos árabes, transformou depois em cacaria inútil e imunda.

15

Reuniam-se à saída da Repartição — cinco horas, cinco e meia — e falavam de coisas várias.

16

Falavam.

17

Geralmente era filosofia ou religião ou política — e Ortografia.

18

As vezes até, um qualquer se aventurava pelos caminhos mais despreocupados e mais floridos das artes e das literaturas.


quinta-feira, 14 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


Raio de Luar

Luiz Pacheco
Prefácio: Rui Zink
Capa: Graça Castanheira
Oficina do Livro, Lisboa, Março de 2003

Quanto a mim, escrevi as minhas cartas, com um prazer sem igual, na maior, à-vontade. Escrevi muito. Por necessidades da pedincha, aguentar a sobrevivência, conversar com Amigos distantes. Ou, se acantonado em locais de asilo forçado, invocar auxílios e apoios no Lá Fora. Escrevi cartas e postais que me desunhei, centenas e centenas. Há quem tenha espólios meus, já esteja a fazer negócio com isso. Ou a preparar-se. Acho óptimo. Dou-me os parabéns. Com esta mais-valia: o género epistolar está em extinção. Seria patetice esperar que um fulano com telemóvel no bolso vá escrever, quando se tem ali pertinho um meio de falar com outrem e sem deixar rasto, as palavras voam! (Deve ser mais um caso do politicamente correcto, que não compromete nada nem ninguém.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Crocodilo Que Voa
Entrevistas

Organização e introdução de João Pedro George
Capa: Vera Tavares
Tinta-da-China, Lisboa Fevereiro de 2008

Não é isso! Há bocado falámos da avença: o Torga não era um escritor avençado! Era até um escritor único em Portugal, e no mundo, porque era um gajo que se editava a si próprio. Mas é um chato do caneco. Por exemplo, faz um poema para cada Natal: é como quem mata uma galinha ou um peru!
O gajo para mim era um mestre, foi muito importante na minha vida, e se o meu livro é uma autobiografia tenho que meter sempre o Torga! Mas deixei de lê-lo porque é um grandessíssimo chato! Não é não gostar dele: enganou-me! Então o gajo que não queria entrevistas nem prémios literários mamou os prémios todos quantos havia e morreu, como diz o Mário Soares, com a frustração de não ter tido o Prémio Nobel! Não queria mais nada?! E é muito reacionário, benza-o Deus, coitadinho!

(Da entrevista a Mário Santos, Público, Março de 1995).

sexta-feira, 3 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Cartas Na Mesa

Luiz Pacheco
Apresentação e Notas de Serafim Ferreira
Capa: Alfredo Martins
Editorial Escritor, Lisboa, Maio de 1996

     Serafim,
     fui  apreendido. Corolário lógico: depois de encafuarem os livros, segue-se o Autor. Infelizmente não tenho a sorte do Urbano (ainda ontem vi a sua máscara n’ A Capital em «crítica» duma antiga fanchona dele, a Felizarda Botelho) ou do Sttau; quando vou de cana ninguém chora nem ninguém protesta. Tão-pouco os meus crimes são nobres, ditos cívicos, de cidadania… mas delitos comuns, taras sexuais. Adiante. 2 pedidos ao Menino Serafim: a) tem por aí uma notinha para mim? (o fim do mês tá à vista!). Em carta simples c/ as últimas novidades do milieu literato. b) Boulle: para a semana recupero (desempenho) uma das duas máquinas de escritura. Gostava de rever o texto, mesmo que VV. não o queira editar (resgataria a tradução).
     Cumprimentos ao Abreu, Armando e irmão do Vítor
                                                 e para si abraços do

                                                            Luiz Pacheco  

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Memorando, Mirabolando

Luiz Pacheco
Grafismo: Vitor Silva Tavares
Hors-Texte: Carlos Fernandes
Edição Contraponto, Setúbal, Setembro de 1995

O evento é-me fácil de localizar datar: o meu pousio era então Coimbra, isto nos anos cinquenta, a vender exemplares da edição Contraponto do Diálogo entre um Padre e um Moribundo, do Marquês de Sade. Preço: cinco escudos. Sade pela primeira vez em português e quase de borla. Com a PIDE à perna – e foi apreendida parte da edição – era demasiada ousadia e lucro nenhum. Andei pelas livrarias da Baixa coimbrã a fazer negócio, acho-me perto do Largo da Portagem e decido visitar o consultório de otorrino do dr. Adolfo Rocha, vulgo Miguel Torga, em Literatura. Ficava a conhecê-lo ao vivo e arrecadava 5 paus; ou talvez, até, lhe oferecesse o livrinho. Seria uma homenagem pachecal, modesta mas sincera. A saleta do consultório, muito pelintra, estava sem ninguém. Bati a uma porta que pouco depois se entreabre devagarinho, à cautela, apenas uma frincha de meio palmo e surge medonha caraça lavrada de rugas. Interrogativa, hostil.
Esboço o melhor sorriso que podia, indago:
- Miguel Torga?
- Doutor Adolfo Rocha – oiço voz cava e repreensiva.
- Pois… é o mesmo, trazia-lhe aqui uma ediçãozinha minha… do Sade… são só 5 escudos….
Nem quis ouvir nada. Baldadas as suas esperanças de que eu fosse doentinho da garganta, das fossas nasais ou que necessitasse de lavar a cera dos ouvidos, Torga-Rocha-Torga tratou de empurrar logo a porta, afastar a minha mão com o folheto, manter sigiloso, livre de estranhas criaturas sãs, aquele santuário.
Estico braço e mão, o folheto bem espetado para debaixo do nariz dele, que recua a cara, quer escapulir-se. Insisto:
- É do Sade… são só cinco escudos.

A cena, chaplinesca, durou pouco. Percebo que seri indelicado ateimar, molestá-lo assim, afinal eu era-lhe desconhecido e sabia devia prever a forretice do tipo, a sua pacóvia inconveniência. Desconsoladamente deixei-me ficar na tosca saleta, viúva de médico e doentes. Só, enraivado, meto o folheto na caixa de correio dele, para mostrar que os cinco escudos eram, ali, o menos. E dando ao diabo a homenagem pachecal e votando a todos os quintos dos infernos o sujeito mesquinho, sovina, cavernícola que fora um ídolo para mim, na minha juventude. Até àquele dia. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Caso das Criancinhas Desaparecidas

Luiz Pacheco
Círculo de Leitores, Lisboa, Fevereiro de 1981

A verdade é esta: a Irene tinha de sair. Da minha vidinha triste. Tinha só 19 anos. Eu: 19xmil. É muito. Uma grande desproporção de idades de espaço entre nós. Ia dar mal. Já se sabia (antes) Quando nos juntámos disse um dia cinicamente para um amigo que só tencionava pô-la em rodagem. Lixei-me. Fui justiceiramente colhido pelo meu próprio jogo. Já toda a gente depois contava com isso (e eu, antes de todos; sei como elas acontecem, isto é, nos calham na cama e depois como se pisgam). Quando o silêncio começou a cair em cima de nós, começou também, inevitavelmente, a haver silêncio em nós entre nós. Amargura, recriminações mútuas coisas antigas que se calam mas azedam os mínimos ditos e atitudes, chispam em olhares de um ódio pequenino caseiro, vai explodir. Um silêncio mais denso e crescente, intrigante. Um realejo de árias desafinadas a ranger e sempre as mesmas e sempre a despropósito que surgiam nas conversas entre nós, um frémito de rancor contido lodoso envolvente. É fácil de dizer escrever. Não assim para viver e todos os dias o mesmo. Quando se ama. Portanto, atenção!, o pior vem agora.
O que era Irene para mim? Um caso incestuoso. Amante filha paqueta companheira mãe enfermeira cúmplice governanta criada para todo o serviço secretária ama doutros filhos meus sobrinhos dela (esta nobre rapariguinha esta menina do povo criou cinco crianças com 18 anos) libertina comigo quando é dado numa semianalfabeta e mais mais: muita fome de tudo a meu lado e com dignidade, desdenhando pedir, altiva de sete raios, trabalhando moira de trabalho, daqui te saúdo, rapariga! onde estiveres agora. Sê feliz que bem o mereces (é a tal minha teoria do amor pela Amada).

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

OLHAR AS CAPAS



Diário Remendado
(1971-1975)

Luiz Pacheco
Fixação de texto e Posfácio de João Pedro George
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Agosto de 2005

Tarefas Prioritárias para Novembro

 tradução do Rilke;
 caso da luz;
 artigo Diário de Notícias, falar primeiro ao Saramago e ao Facas;
 textos para o Boletim da Gulbenkian (pedir livros ao Forte, Granja, Seara Nova, Montijo);
Textos Malditos: arrumar o caso com o R. de Mello, de vez;
Diário Remendado, avançar;
desintoxicação;
sondar a transferência Tábua (ou Caldas);
comprar caderno decente;
comprar transístor;
 comprar livros indispensáveis (D.R., etc);
 limpar de casa a merda e os acessórios empatas;
 fazer recortes (?) perde-se muito tempo;
arranja da máquina suplente;
NÃO PAGAR DÍVIDAS;
 campanha de abonos, à escala nacional;
 livro do Manaças e do José Alberto Marques;
ver o que quer o Vítor Belém, o Abílio e o Vinicius;
escrever Ibarrola
 chegar a Dezembro. É d’homem! 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Prazo de Validade

Luiz Pacheco
Ilustrações: Manuel João Ramos
Contraponto, Palmela, Setembro de 1998

Anoto, com algum pesar, que fomos (eu, o Cesariny, O’Neill, António Domingues) muito injustos com certos nomes do melhor neo-realismo, a quem acusávamos de sectarismo incurável, Nunca tive convivência com João José Cochofel, que conheci nos concertos da Sonata. Mas com Mário Dionísio, sim. E uma enorme admiração, Ainda agora me enraiva o esquecimento a que está votado o livro de contos “O Dia Cinzento”.

sábado, 16 de agosto de 2014

OLHAR AS CAPAS



Pacheco Versus Cesariny

Folhetim de Feição Epistolográfica, uma invenção e montagem de Luiz Pacheco
Capa: Martim Avilez
Editorial Estampa, Lisboa Maio de 1974

Estou a ler, la mort dans l’ame, um livro que te recomendo, OS CONDENADOS DA TERRA, da Ulisseia, já retirado mas felizmente esgotado antes. Fala da África contemporânea, mas nunca me senti tão negro (um cafre da Europa…) como ao lê-lo: fala de Ghana e da Argélia, e do Congo e não sei que mais e parece estar a relatar em síntese oito séculos de História de Portugal, incluindo o dia de hoje, em que já temos um novo Presidente. Lê, se ainda não leste. Se não arranjares, diz, o exemplar não é meu, ma passo-te.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

OLHAR AS CAPAS


Textos Locais

Luiz Pacheco
Semi-prefácio: Mário Cesariny de Vasconcelos
Posfácio: Serafim Ferreira
Contraponto, Alcobaça, Maio de 1967

Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância nasci assim já velho mas sou um bocadinho bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim, outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantezinha verde o tipo que emprestava os livros à gente tinha uma farda preenchia-se um papel com o nosso nome e morada era coisa séria. Os jardins da minha infância tinham lagos peixes vermelhos flores subtis perfumes quentes cores triviais recantos de sombra lugares comuns esconderijos giros para a gente brincar. Não me lembro, ah que pena os namorados sim os namorados devia haver nos bancos do jardim ou perdidos passeando de mãos dadas falando ou calados apertados, não me lembro.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Comunidade

Luiz Pacheco
Contraponto Editora, Lisboa Março de 1970

Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.