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terça-feira, 17 de setembro de 2019

O DESEJAR SER JORNALISTA


Assim foi nascendo em mim a paixão pela escrita. E comecei a enviar textos para os suplementos juvenis do Diário de Lisboa, dirigido pelo Mário Castrim e do República. Alguns foram mesmo publicados, quase todos sob pseudónimo, por influência – imagine-se a presunção! – dos heterónimos de Fernando Pessoa. A certa altura, fui ao República entregar um texto, e quem me recebeu foi o Pedro Foyos. Disse-me «venha daí comigo, que estou com pressa» e eu fui atrás dele até às oficinas. Nunca antes tinha estado numa tipografia e fiquei fascinado com aquilo. Era uma tipografia tradicional, com as suas linotypes, a rotativa barulhenta… Ainda guardo, na minha memória olfactiva, o cheiro intenso a tinta que impregnava o ar. Depois, voltámos à redacção e, espreitando lá para dentro, vislumbrei velhas secretárias de madeira, pejadas de jornais. Ouvia-se o matraquear de uma máquina de escrever. Foram momentos importantes, porque, talvez tenha sido então que, pela primeira vez na minha vida desejei ser jornalista.

Depoimento de Daniel Ricardo em Memórias Vivas do Jornalismo

Legenda: fotograma do filme Deadline de Richard Brooks com Humphrey Bogart

domingo, 23 de junho de 2019

COMO QUEM REGRESSA AO PAÍS DA SUA INFÂNCIA


Eis que voltámos ao Cais.

Este regresso levou-me a pensar em Mário Castrim.

Foi a grande bússola da crítica de televisão neste nosso país.

Começou a fazer crítica de televisão, no Diário de Lisboa, em 14 de Maio de 1965.

Nos tempos da ditadura, a malta encontrava-se nos cafés e quando algum chegava, a primeira pergunta não variava muito: «Já leste o Castrim?»

Quase quarenta anos a fazer crítica de televisão.

Em 1990, Fernando Assis Pacheco calculou que Mário Castrim já passara 17 mil horas frente ao televisor. Em Outubro de 2002, tempo da sua morte, as contas foram calculadas em 70 mil horas.

A censura, diariamente, esquartejava-lhe a prosa.

Mesmo assim, um dia, entenderam que o homem estava a ir longe de mais e proibiram o «Canal da Crítica»

Proveniente de todos os quadrantes, levantou-se um vendaval de protestos.
Outra coisa não restou às múmias ditatoriais, senão aceitarem o regresso de Mário Castrim.

Quando esse dia chegou, Castrim abriu com um lindíssimo texto.

Foi assim:

«Regresso. Comovido, como quem regressa ao país da sua infância. Ficou para trás a calma, o sono reencontrado, o silêncio por toda a casa. Ficou para trás a visita de amigos, a frescura da noite, o deambular descuidado. Ficou para trás o ser “como toda a gente”. E no entanto, este regresso, na sua felicidade perdida, tem o sabor de uma felicidade reencontrada. Vou de porta em porta apertando as mãos que se estendem, forte de uma grande família. Vou crucificar os olhos no fulgor violento do televisor. Vou, pelo túnel da noite, em perseguição das palavras úteis, ou necessárias, ou simplesmente possíveis. Difíceis sempre, arrancadas da carne a grande profundidade da pele. Palavras que seriam de amizade, a selar a presença vivida, revivida, de tantos rostos desconhecidos e atentos. Palavras de quem, regressando ao frio da noite, regressa também, a morosamente, ao país da sua infância, ao país do seu país.»

Legenda: Mário Castrim

sexta-feira, 10 de maio de 2019

SARAMAGUEANDO


Voltamos às páginas do Joaquim Vieira em José Saramago Rota da Vida.

Vieira conta que José Saramago, vivendo na Parede com Ilda Reis e a filha Violante, inscreve-se «como o sócio nº 488 do Clube Nacinal de Ginástica da Parede, dedicando-se ao ténis como a sua actividade física favorita. E surpreendentemente publica no suplemento «Cultura e Desporto», do jornal «O Benfica», em início de 1956, um longo artigo intitulado «É tempo», onde não fala de desporto mas sim de «atitude do homem cristalizado diante da arte moderna, para fazer uma apaixonada apologia das vanguardas estéticas.

Joaquim Vieira não conta, mas José Saramago foi sócio do Sport Lisboa e Benfica e tal como se pode ler no catálogo da exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos em 1999 tornou-se Sócio Honorário Desportivo do Sport Lisboa e Benfica.

Há um curioso recorte do Mário Castrim, numa crítica, publicado no semanário Tal & Qual, a um programa, bem idiota, dos princípios da SIC, que dava pelo nome de Os Donos da Bola:

«O momento mais alto do programa aconteceu na Assembleia do Benfica transmitida em directo. Levantou-se para falar o sócio Jorge Máximo. “O galardão máximo da literatura foi entregue a José Saramago. Ainda por cima, José Saramago é do Benfica. Vamos daqui dar uma salva de palmas a esse grande homem, a esse grande português. Somos campeões do mundo em literatura! É isso que nós, benfiquistas, não podemos perder no nosso humanismo».
Fico siderado. Uma vontade doida de rir e não ser capaz. Porque aquilo é mesmo assim. Todos agora nos sentimos campeões do mundo em literatura, todos e não apenas os benfiquistas. Está aí a grandeza so Saramago: dar força ao nosso humanismo».

Algures, José Saramago reflecte que o futebol tem o velho problema: ou é bem, ou mal jogado.

Numa entrevista que deu a Afonso de Melo, e publicada em A Bola Magazine de Novembro 1998, José Saramago fala dos seus desencantos com o futebol.

Eu fui sócio do Benfica com os meus oito ou nove anos, Por influência do meu pai, claro está!, ele era um benfiquista ferrenho, no tempo do Estádio das Amoreiras, com aquelas bancadas e aquele peão de terceiro mundo. Mas depois as mudanças de vida levaram-me por outros caminhos. Não me apetecia estar a sair de casa para ver um jogo. Nunca fui suficientemente entusiasta para andar de bandeira e cachecol e toda essa parafernália que fez com que o espetáculo se tenha deslocado do campo para as bancadas. O que, aliás, está de acordo com os atuais costumes do Mundo. Além do
mais desagradei-me.

Também não quero estar aqui com a conversa saudosista do «antigamente  é que era bom». Mas a verdade é que, nessa época, o jogador tinha o seu clube, e clube e jogador estavam pegados um ao outro. A camisola era uma coisa respeitável. Quase como uma outra bandeira. E o Benfica viveu o orgulho de só ter jogadores portugueses...Num tempo não muito distante. E agora o que é que acontece? Caiu-se num exagero. Onde estão hoje o Benfica, o Sporting, o F.C.Porto? O futebol não passa de um negócio. Desapareceu uma certa solidariedade de grupo. Isso fez-me desinteressar pelo futebol. O futebol converteu-se num espetáculo e já nada tem praticamente de desporto. Apenas isso.

Sobre o Benfica e o futebol, já Saramago andara às voltas na longa conversa que manteve com João Céu e Silva. O jornalista pergunta se um desafio de futebol lhe causa entusiasmo.

Não. O meu pai levava-me e eu gostava mas não me entusiasma. Nunca fui de transferir para onze pessoas que estão ali no campo a dar pontapés numa bola as emoções que eu deixaria sair por outras razões e por outros motivos, Gostava de ver um bom jogo mas mesmo isso também é bastante relativo, o que eu queria sobretudo era que o Benfica ganhasse mesmo que a equipa jogasse mal. Eu deixei de ser sócio do Benfica há uma quantidade de anos. Eu era o sócio 1322 e hoje estaria entre os primeiros e mais antigos, talvez fosse o número três ou quatro. Enfim, as coisas mudam e nesse tempo era um princípio absolutamente radical de que o Benfica só utilizaria jogadores portugueses. E assim foi, durante uma quantidade de anos, depois – isto é um negócio como outros – com a compra e venda de jogadores e as transferências tornou-se num espectáculo um pouco lamentável, às vezes bastante lamentável. E não quer dizer que uma pessoa na vida profissional, que não tenha a ver com o desporto, se encontrar um trabalho melhor e mais bem remunerado não saia de onde estava e vá para outro lado. Portanto, não se pode estranhar que um jogador de futebol o faça, além de que essa coisa de amor à camisola é uma treta.

O meu avô meteu-me, aos 6 anos, o vício do futebol, mais concretamente do Benfica. Anos mais tarde não deixou de me dizer que as coisas mais importantes da vida não se escolhem.

António Mega Ferreira, benfiquista assumido, gosta de ver os jogos sozinho para poder fazer figuras tristes à vontade, porque em matéria de futebol não se pode ser razoável, ou como disse o cineasta João Botelho, outro benfiquista: «a paixão pelo futebol é um dos lados dos comportamentos irracionais das pessoas».

Albert Camus dizia que o melhor que sabia sobre a moral e as obrigações dos homens, devia-o ao futebol.

«Aprendi rapidamente que uma bola nunca nos chega de onde a esperávamos. Isso serviu-me para toda a vida».

Mas fechamos os taipais com o escritor Mário de Carvalho:

«A maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola e meter na cadeia essa pardalada.»

Legenda: fotografia de José Saramago em 1933, tirada do catálogo exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos

domingo, 28 de abril de 2019

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Foi numa crítica de televisão do Mário Castrim, no Diário de Lisboa, que li a frase do José Gomes Ferreira que vem em A Memória das Palavras, Ou o Gosto de Falar de Mim: «saudades, só do futuro.»

Como eu gostei do raio da frase, o próprio título do livro era apelativo.

Na biblioteca do meu pai não havia nenhum livro do José Gomes Ferreira.

Corria o ano de 1966, era Junho, um salto até à Feira do Livro para beneficiar do desconto: Na livraria 45$00, na Feira 36$00, e os preços ainda estão a lápis na primeira folha do livro.

Há livros de encantar. Este é um deles.

Não há ninguém tão feliz como o leitor que de súbito se descobre inteligente. A descoberta de José Gomes Ferreira, o comprar de A Memória das Palavras na Feira do Livro, é um destes casos, o saber certo de que vamos ficar com um autor para a vida.

No livro lia-se: «a maioria dos meus versos componho-os às topadas por essas ruas. Ai de mim, quando envelhecer!»

Se ele era poeta, havia que ir à procura dos livros.

E fui.

Uma Sessãopor Cinema é um livro publicado pela Cinemateca para assinalar o centenário do nascimento de José Gomes Ferreira que nasceu no Porto no dia 9 de Junho de 1900.

É uma antologia de textos de José Gomes Ferreira sobre cinema publicados nas revistas da época: a Kino, a Imagem, a Girasol, a Ilustração.

Para além desses textos e críticas, José Gomes Ferreira colaborou com os amigos Cottinelli Telmo e Chianca de Garcia nos filmes em A Canção de Lisboa e A Aldeia da Roupa Branca.

Mas com o pseudónimo de Álvaro Gomes fez a tradução e legendagem de filmes.

Durante cerca de cinco décadas, essa foi a sua principal actividade profissional.

De modo que, quando no cinema lia Legendas de Álvaro Gomes desconhecia que era o poeta José Gomes Ferreira que estava por detrás daquele pseudónimo.

No seu livro Revolução Necessária, Gomes Ferreira fala desse trabalho:

«De redactor de revistas cinematográficas (com inúmeras máscaras de pseudónimos e crítico do Diário de Lisboa), a tradutor de fitas assinadas pelo sr. Álavro Gomes pouco tempo levou. E, a certa altura, dei comigo na escravatura de arrastar, pela vida fora, grilões de chatice de sebo e raiva. Claro que as traduções de quilómetros de películas más fixaram para sempre o meu ódio ao cinema que eu chegara um dia a amar episodicamente na Noruega, quando assisti à exibição de um filme extraordinário com o título de A Revolta do mar Negro.
Revi-o há pouco em Lisboa com o seu nome verdadeiro: O Couraçado Potemkine.

A rotina de um trabalho penoso - seria bem pago? - levou-o a afastar-se do cinema, a quase odiá-lo.

O Sr. Álvaro Gomes era o poeta José Gomes Ferreira.

Como o poeta escreveu:

Viver sempre também cansa.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O meu primeiro contacto com João César Monteiro remete-me para a década de 70, quando começou a fazer crítica de cinema para o Diário de Lisboa, tendo como companheiros o Eduardo Prado Coelho, o Lauro António e o Vitor Silva Tavares.


«Eu sempre disse por exemplo que o cinema sou eu. E isto é uma afirmação que não tem nada de monárquico ou de centrista. Tudo o que eu faço é singular, insubstituível.»

E ainda:

«Eu sou um realizador que não sabe efectivamente, «a ponta de um corno». Sei que isto é horrível, mas é assim. Devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»

Fiquei com um gosto assolapado pelo João.

Mais ainda quando colaborou na folha cultural q. b. &.etc. principalmente, quando lá  escarrapachou A Minha Certidão:

Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Eu e o meu pai, volta e meia, íamos para a petisqueira e para a conversa e depois havia «piolho»

Tudo corria melhor, a cereja no topo do bolo, quando calhava um filme do João César Monteiro.

Infelizmente só vimos quatro filmes, a sua morte em 1990, roubou-me esse insubstituível prazer.

Para além do génio, para além da arte, para além de tudo, os filmes do João César Monteiro davam-nos um imenso gozo.

Foram estes os filmes:

Silvestre no Cine-Bloco
À Flor do Mar no Ávila
Recordações da Casa Amarela no Fórum Picoas e éramos os únicos espectadores.

João César:

«A mim interessa-me fazer filmes para todos os públicos. Noventa por cento da população do país não é um espectador de cinema e provavelmente será esse o público mais inocente e disponível, porque menos condicionado por certos códigos imperialistas. É um dever cívico fazer cinema para essa gente, embora sem grandes esperanças de que a curto prazo possam ser espectadores de cinema.»

Vitor Silva Tavares:

«Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.»


Pego no guião de Recordações da Casa Amarela, publicado no 2º volume da Obra Escrita de João César Monteiro e entretenho-me a copiar a Cena 06 do filme.

João César escreve que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia, no restaurante Estrela da Sé.


«Ferdinando sentado à mesa, serve-se de uma cabeça de garoupa com todos. Olha para fora de campo e diz:

Ferdinando: Caríssimo João de Deus: isso é reumático ou venéreo?

João de Deus entra em campo, com o sobretudo vestido, aperta a mão a Ferdinando, enquanto sussurra, debruçado sobre Ferdinando:

João de Deus: É coisa que me apareceu nas virilhas.

João de Deus senta-se em frente de Ferdinando.

Ferdinando (a rir): Nas brilhas, como se diz no Porto. Manda vir qualquer coisa que se trinque.

João de Deus: Não me apetece, Ferdinando. Tenho a boca a arder e custa-me mastigar.

Ferdinando: Estamos todos podres, é o que isso quer dizer. E a tua mãe?

Enquanto Ferdinando se vai  batendo com a cabeça de garoupa, João de Deus puxa de um cigarro, acende-o e, com o cotovelo apoiado no tampo da mesa, encosta a cabeça ao punho fechado.

João de Deus: Lá anda.

Ferdinando: Madre de Deus só há uma. Nunca o esqueças, meu filho.

João de Deus: Não consegui foi escrever nada. Sou amigo do tipo. Pelo menos, fui amigo da mulher e custa-me um bocado. Conheço-os há uma data de anos, ainda do tempo da outra senhora.

A câmara desloca-se ligeiramente para a esquerda, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que suspende o garfo, junto à boca.

Ferdinando: Estás a perder qualidades, Se me é permitido um reparo – não leves a mal - , por vezes consegues ser contundente, mas nunca fulminante. Andas às voltas, não vais direito ao assunto. Bebe nos clássicos, meu filho. Fulmina. Recordas-te da polémica de Camilo com Mesquita Fialho?

A câmara desloca-se ligeiramente para a direita, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que muito devastou a pratada e emborca um copo de branco.

João de Deus: O problema é que este não se chama Filho.

Ferdinando pousa o copo na mesa e diz com toda a gravidade que se impõe:

Ferdinando: Mas também deputa… filho.

João de Deus: Estou farto de escrever imundícies.

Ferdinando está boquiaberto.

Ferdinando: Mas tu nunca arriscaste a ponta de um corno, nem sequer o nome.
As chatices com a «judite», os processos em tribunal, as pesadas indemnizações, tudo te tem sido poupado. Nunca me vi confrontado com um caso de tamanha ingratidão: metes-me nojo.

O criado entra pela esquerda e levanta o prato de Ferdinando.

Ferdinando: Só café e uma bagaceira fresquinha. Da casa.

O criado sai por onde entrara. Percebe-se que Ferdinando acende uma cigarrilha. O criado entre em campo com o café e o bagaço, pousa-os na mesa e volta a sair.

Ferdinando: Vá-me tirando a continha, la dolorosa.»

Uma cena maravilhosa.

Por alturas da exibição do Silvestre em Lisboa, Mário Castrim abria, no Diário de Lisboa uma sua crítica de televisão, dizendo que tinha ido ver o filme pela segunda vez como quem se vai purificar nas águas do Jordão.

Sobre Silvestre, o João César disse que era um filme para as pessoas que ainda conseguem sentir-se crianças.

Agarrando na frase, José Saramago escreveu que «é um filme que não infantiliza os adultos que nós somos, mas adultiza as crianças que continuamos a ser.»

Fernando Lopes:

«Ao César perdoa-se tudo porque ele tem um talento que se ri de si próprio. Em suma. É um grande demente que faz coisas muito belas.»

Ainda o João:

«Ninguém morre por não fazer filmes e se morrer é idiota. Não avle a pena. Morre-se, sim, por fazer filmes, por na idade em que se fazem as opções mais importantes (que não são necessariamente as mais graves) se ter optado pelo ofício de cineasta, Agora estou sozinho diante das estrelas.»

Tenho saudades do João César Monteiro, do meu pai.

A falta que me fazem!

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

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Belíssima capa de Vitor Palla para o segundo romance publicado por Carlos de Oliveira e que nunca mereceu da parte do autor uma outra versão, tal como fez com as restantes obras.


Carlos de Oliveira, perante os seus livros, tinha uma permanente insatisfação.

«Escrever, reescrever, etc., uma espécie de teia que enreda o próprio escritor e a que é difícil escapar», disse numa entrevista a Maria Teresa Horta, A Capital 26 de Março de 1969.

Logo que o livro chegou às livrarias, a PIDE tratou de o apreender

Carlos de Oliveira renegou este seu livro e chegou a considerar que o livro não deveria fazer parte da sua obra.

Sou um admirador incondicional da obra de Carlos de Oliveira, da sua personalidade, predicados que dele fizeram um nome admirável no panorama da nossa literatura.

Considero Alcateia um bom romance, reli-o agora, e escapam-me os porquês das razões porque Carlos de Oliveira o deixou de considerar como livro seu.

A obra de Carlos de Oliveira ocupa na estante um pouco mais de um palmo de espaço, mas é todo um mundo que ali está. A sua presença é silenciosa mas ao mesmo tempo gritante.

Serenidade sempre foi uma palavra que resultou da leitura  que sempre fiz da poesia e da prosa de Carlos de Oliveira.

Como disse Mário Castrim:

«É muito difícil falar de Carlos de Oliveira porque, se falamos dele, toda a banalidade é pecado.» 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

OLHARES


Nesta margem de olhares, onde tudo cabe, passei há dias pelo Jardim Fernando Pessa, ali na Avenida de Roma, onde em tempos recuados esteve o Cinema com o mesmo nome, de boas memórias, e agora é local de assembleias municipais.

Fernando Pessa é um nome que não é estranho aos portugueses.

Andava por Lisboa e para o telejornal da estação pública fazia pequenas reportagens,  mostrava as mazelas da cidade e terminava com aquele: «e esta hein?!»

Mas marco de trabalho histórico, Pessa, durante a II Guerra Mundial, foi locutor da secção portuguesa da BBC.

O capacete usado pelo jornalista, em Londres, está exposto na universidade King's College, na capital britânica.

No entanto,  o olhar da placa com o nome do jardim, levou-me para histórias longínquas, não vividas, apenas de ouvir contar, de ler.

Nasci com o findar da guerra e, já crescidote, ouvia o meu pai contar a maneira como o Pessa, depreciativamente, com o «h» britânico bem aspirado, pronunciava «Hitler».

«Até logo. Hem? Não faltes. O que é que o Pessa dirá hoje?
Ontem disse que as coisas estão difíceis, mas que é preciso ter esperança, os povos não se deixarão vencer pela barbárie. Até me chegaram as lágrimas aos olhos. Vê lá, pá, se não tiveres tempo jantas em casa e ficas lá. Não, não está muita gente, a do costume. Já sabes do fuzilamento dos reféns em Paris? Também foi o Pessa que disse ontem. Também disse que foram pelos ares um data de comboios com tropas alemãs.
Naquele tempo, àquela hora, as ruas ficavam vazias. Amigos e familiares reuniam-se à volta do aparelho de rádio, um RCA minúsculo. Fechavam-se bem as portas, punha-se o rádio baixinho para não ser ouvido pelos vizinhos. Fazia-se um grande silêncio. O coração apertado de angústia, os dedos nervosos enclavinhados. Chegavam notícias. Chegavam de longe. Chegavam na voz de Fernando Pessa.»

(Montagem de duas crónicas de crítica televisiva, sobre Fernando Pessa, do Mário Castrim, publicadas no Diário de Lisboa.)

Falar da II Guerra Mundial é recado para lembrar o seu fim e a festa que foi por este país, principalmente em Lisboa.

Como contou José-Augusto França em entrevista ao Expresso de 1 de Fevereiro de 2014:

«Mais tarde, soube que por cá os meus amigos tinham andado em grandes festas e que se fizeram manifestações a festejar a vitória dos aliados, apareceram uns paus sem bandeira e até bandeiras do Benfica. Eram, evidentemente, a homenagem aos aliados soviéticos, cujo nome não podia ser mencionado.»

Ou José Gomes Ferreira, em Intervenção Sonâmbula:

«No entanto, o povo berrava nas ruas a sua alegria com lágrimas e bandeiras (muitos empunhavam apenas paus nus com imaginárias bandeiras vermelhas da pátria dos sovietes), ainda com alguns ingénuos a quererem convencer-se de que a mágica queda do salazarismo aconteceria no dia seguinte.
Quem não dançou, quem não cantou, quem não soltou vivas e morras nessa noite? Mas entre aqueles milhares e milhares de pessoas, recordo-me sobretudo – é curioso como certas imagens sobrenadam na memória em detrimento de outras – recordo-me do Fernando Lopes Graça então 30 anos mais novo, a mancar, com os pés doridos de tanto marchar pelas pedras de Lisboa.»

sábado, 7 de outubro de 2017

UM DITADOR TELEVISIVO


29 de Setembro de 1969

O último discurso de Marcello 8com dois ll) desceu aos abismos mais baixos dos sequazes salazarentos (palavra criada por Aquilino), ou aos marcelentos (palavra criada pelo Carlos de Oliveira).
Como é que um homem inteligente (quem não e inteligente?) pode descer a voragens tão analfabetas? Ouvi dizer a um professor de Direito que os actuais meios de informação e de contacto com o público podem substituir o Parlamento – magoa.
Na verdade hoje os governantes penetram sem cerimónia em todas as casas para convencer ou dar ordens aos cidadãos – espectadores passivos.
Mas o contrário?
Como é que os cidadãos respondem ou entram pela casa dentro dos governantes?
O Maecello é o tipo acabado do Ditador televisivo. Não precisa de partido basta-lhe ser imagem – para governar espectros.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

Legenda: pormenor da capa do livro O Lugar do Televisor de Mário Castrim

terça-feira, 6 de junho de 2017

EU NÃO QUERIA!...


De uma entrevista de António Barreto publicada na revista do Expresso 27 de Maio de 2017.
António Barreto, um anti-comunista primário, foi o personagem escolhido por Mário Soares, I Governo Constitucional Julho 1976, para proceder à destruição da Reforma Agrária.
Como diria o Mário Castrim:

Alguns cadáveres ainda aprendem a habilidade de usar muletas. Este, nem isso.

OLHAR AS CAPAS


Fantasia Lisboeta

Carlos Pinhão
Prefácio: Mário Castrim
Capa e Ilustrações: Duarte Saraiva
Edição de «NA» - Orion, Lisboa s/d

Beato

Deve ser chato nascer
na Rua General Não-Sei-Quê
ou numa Grande Avenida
dessas de Nome Comprido.
Por mim estou tranquilo

nasci na Rua do Grilo.

sábado, 6 de maio de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Tinha em mãos Alentejo Não tem Sombra, uma antologia de poesia contemporânea sobre o Alentejo, organizada por Eugénio de Andrade.

Encontrei agora um outro: «40 Anos de Servidão» do Jorge de Sena.

Invariavelmente, cada ida a um cinema, que tivesse livraria contígua, tinha direito a visita e estou para garantir que não terá existido nenhuma ida que não tivesse saído com livro debaixo do braço.

No Apolo 70, havia uma estupenda sala de cinema e sobrava um problema: para além de livraria, tinha discoteca, que era um sítio onde se compravam discos, na altura, de vinil.

Dado o apertadíssimo orçamento caseiro existia pormenores ginásticos.

No canto superior direito, o livreiro, a lápis, colocou o preço do livro: 400$00.
Hoje, qualquer coisa como 2 euros.

Tempos bons, apesar do resto.

Uma noite, não tenho o registo da data, a Simone de Oliveira disse num programa de televisão que Lisboa, nos anos sessenta era mais bela do que nos tempos que então corriam.

Mário Castrim, na sua coluna de crítica no semanário Tal & Qual, disse-lhe que estava enganada.

«Era uma cidade medonha. Monstruosa. Os embarques dos soldados para África.

Uma cidade paranóica.

Calada. Amordaçada. Sitiada, Vigiada.

Um gatilho esperava a luz a cada esquina. E não só a luz.

O medo toldava todos os mirantes sobre o Tejo.

Está enganada, Simone. Nos anos sessenta, Lisboa era uma cidade muito feia.

Não vá em cantigas».

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A MORTE SAIU À RUA NUM DIA ASSIM



O escultor José Dias Coelho foi assassinado pela PIDE no dia 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, rua que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário.

O assassinato está assinalado na canção de José Afonso “A Morte Saiu à Rua”do álbum “Eu Vou Ser Como a Toupeira", gravado em 1972.

Antes de ser assassinado, José Dias Coelho estivera em casa de Mário Castrim que, na altura, morava na Rua Luís de Camões, perto da estação dos carros eléctricos de Santo Amaro. 

No livro “Viagens”,  o poema “Viagem Através de Uma Fatia de Bolo-Rei”, Mário Castrim assinala  esses últimos momentos de vida de José Dias Coelho:


Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.

- Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)

- Comes outra fatia, camarada?

- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...

Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.

Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.

Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.

Funcionário clandestino do Partido Comunista, José Dias Coelho seguia pela Rua dos Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de um automóvel e alvejaram-no, à queima-toupa, com um tiro no peito, e dispararam outro tiro quando já se encontrava por terra.

No  nº 9, referente a Março de 1962, de “Notícias do Bloqueio”, Pedro Alvim, no poema intitulado “Lisboa”, refere o assassínio de Dias Coelho:

4 – Alcântara

Há quem tombe por um rio
Impetuoso e comum:
Alcântara dos tiros cegos
Alcântara sessenta e um.


No dia 24 de Novembro de 1976, começava, no 1º Tribunal Militar Territorial de Lisboa, o julgamento do ex-agente da PIDE António Domingues, acusado de ter assassinado José Dias Coelho, julgamento que só terminaria no ano seguinte:

Na 1ª página do “Diário de Notícias”, de 6 de Janeiro de 1977, lia-se:

“O antigo agente da PIDE/DGS António Domingues, responsável pela morte do escultor comunista José Dias Coelho, foi, ontem, condenado em três anos e nove meses de prisão maior. Perdoados 90 dias e tomado em conta o tempo de prisão preventiva que já sofreu, desde 1974, vai o réu cumprir apenas mais cerca de 10 meses de cadeia. O tribunal (3ºTMTL) considerou não ter havido homicídio voluntário, mas apenas “ofensa corporal voluntária, de que resultou a morte “praeter-intencional”. Dado como provado o disparo de dois tiros, o último dos quais com a arama “muito próxima da roupa da vítima, a sentença foi recebida pela assistência com uma manifestação de protesto.”


No editorial do “Diário de Lisboa," também de 6 de Janeiro, lia-se:

“Na verdade, reconhece-se a legitimidade da “profissão” de assassino de adversários políticos de um regime. É um insulto à memória de José Dias Coelho.
Um insulto aos mortos e aos vivos da resistência antifascista.
Um insulto ao 25 de Abril.”

Legenda:  A imagem de topo é uma gravura de José Dias Coelho, representando o operário Cândido Martins, assassinado na frente da manifestação do Barreiro contra a burla eleitoral e publicada no “Avante” nº 130 de Novembro de 1961. Para a que seria a sua última gravura, José Dias Coelho escreveu: “De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas”


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Quem não conhece, não estima.

Mário Castrim

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

domingo, 2 de outubro de 2016

QUOTIDIANOS


O pai dizia-lhe:

«Se te marcam encontro para as 10,00 horas, apareces dez minutos antes.»

Um dia, numa velha crítica de televisão, anos 60, do Mário Castrim, leu:

 «Só quem chegou à estação um segundo atrasado, sabe como compensa chegar à estação demasiado cedo».

Legenda: pintura de Mihai Criste

domingo, 25 de setembro de 2016

UM RAPAZ DE SACAVÉM, UM HOMEM DO MUNDO




No dia 4 de Março de 1967, o fotógrafo Eduardo Gageiro foi o convidado dos Encontros do Diário de Lisboa – Juvenil.
Retomados a 12 de Novembro de 1966 com a presença de Eduardo Prado Coelho, depois com o jornalista Manuel de Azevedo e a 21 de Janeiro de 1967 com Fernando Lopes Graça e Dulce Cabrita.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


José António Saraiva publicou uma coisa a que chama Eu e os Políticos em que conta várias histórias que lhe foram contadas em privado, muitas delas de conteúdo sexual.

A coisa é absolutamente inqualificável e mais não é que um verdadeiro acto criminoso.

Durante 23 anos este biltre foi director do Expresso.

Como é que Pinto Balsemão permitiu uma pestilência deste calibre?

Que pensarão, hoje, todos aqueles jornalistas que andaram pelo Expresso, ou que ainda por lá se encontrem a trabalhar.

Também foi director do Sol,mas aqui nada a dizer porque é lixo a dirigir lixo.

A coisa era para ter sido apresentada por Pedro Passos Coelho, que, de todo, desconhecia o conteúdo e, quando lhe deram uns tópicos, manteve a fidelidade ao autor da coisa.

Não sou de voltar com a palavra atrás nem de dar o dito por não dito. Estarei a fazer a apresentação dessa obra,

Passada quase uma semana, Passos Coelho voltou com a palavra atrás e já não apresentará a coisa.

Como se não soubéssemos das vezes em que o ex-primeiro ministro voltou com a palavra atrás, deu o dito por não dito.

Já não apresenta, mas esta é uma daquelas nódoas que ficam e não há benzina que a elimine.

José António Saraiva é filho de António José Saraiva e sobrinho de José Hermano Saraiva, ministro da educação de um governo salazarista.

Um António José Saraiva-gaga-de-todo, apareceu, em 1981, na televisão a bolsar atrocidades sobre o 25 de Abril.

Segundo Mário Castrim, um horror de disparates e, na sua coluna publicada no Diário de Lisboa de 27 de Abril, lavrou sentença:

Alguns cadáveres ainda aprendem a habilidade de usar muletas. Este, nem isso.

sábado, 9 de julho de 2016

POSTAIS SEM SELO


Quem já leu Jack London, fecha os olhos quando surgem os cãezinhos de circo.


Mário Castrim

sexta-feira, 22 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Quem não conhece, não estima.

Mário Castrim

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

PROCURA-SE!


Num tempo, em que a censura da ditadura marcelista perseguia Mário Castrim, chegou mesmo a suspender, durante semanas,  o seu Canal de Crítica no Diário de Lisboa, A Mosca, suplemento dos sábados do Diário de Lisboa, fez publicar este aviso.
Aliás, a qualidade jornalística e satírica de A Mosca, mereceria um estudo e que, ao mesmo tempo, se fizesse uma recolha de alguns dos textos que poderiam ser publicados em livro.
Os textos, por norma, não eram assinados, mas conhece-se colaboração, entre outros, de Fernando Assis Pacheco, José Cardoso Pires, João Paulo Guerra, Mário Zambujal, Luís de Sttau Monteiro com as célebres redações da Guidinha.

Hoje, tenho uma imensa pena de não ter coleccionado esse suplemento, como fiz em relação a outros, como seja o Jornal de Crítica que, mais tarde, também aos sábados, se publicava no República.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

OS IDOS DE DEZEMBRO DE 1975


29 de Dezembro de 1975

O recorte é do Diário de Lisboa de 29 de Dezembro de 1975

Por parte da Igreja Católica pairou, sempre, sobre a ditadura Salazar/Caetano, um manto de silêncio, uma bênção que mais não era do que uma íntima aliança de interesses mútuos.

Para os senhores bispos, a PIDE nem perseguiu nem matou cidadãos portugueses.

Para os senhores bispos, a Guerra Colonial não existiu.

Para os senhores bispos, a perseguição a membros progressistas da Igreja, feita pelo regime, foi uma mera invenção de gente a soldo do estrangeiro.

A este silêncio de décadas, como facto parodoxal e escandaloso, sobreveio, nos dias seguintes ao 25 de Abril, um palavreado imenso contra os novos ares que o país começava a viver.

Não foram pacíficos os novos tempos na rádio da igreja.

Em Fevereiro de 1975, o despedimento sem justa causa de 11 trabalhadores, conduziram a uma greve que durou largos dias. A entidade patronal tentou conduzir um conflito laboral numa questão religiosa.

No seu Canal da Crítica, publicado do Diário de Lisboa de 13 de Fevereiro de 1975, escrevia Mário Castrim:


Durante a greve, o Episcopado proibiu a transmissão do terço e da missa.

Álvaro Guerra, no República de 3 de Março de 1975:


No Expresso de 3 de Dezembro de 2011, Ana Cristina Leonardo recorda:

… havia muira gente na Rua Capelo e que quando lá cheguei me perguntaram: “Vens para a manifestação de apoio aos trabalhadores?” Respondi que sim, ora essa, e o homem disparou: “Vais para o piquete das pedras!” E põs-me um capacete da Lisnave na cabeça. Cheguei ao piquete das pedras (as pedras arrumadinhas a um canto) e não conhecia ninguém. Fartei-me de esperar pelas forças da reacção, que nunca mais chegavam para ser apedrejadas, devolvi o capacete e disse que ia só ali. Distraí-me com um soldado que explicava aos passantes como manejar uma arma, reparei que se fizera tarde, tinha um comboio para apanhar e fui para casa.

Às 09,00 horas do dia 12 de Março de 1975, com a leitura de um comunicado, os trabalhadores da Rádio Renascença recomeçavam as emissões com uma programação própria, mas não abandonando a luta contra o reaccionarismo da Gerência:

O reinício da actividade da estação é antes de mais a nossa vitória. Ignoramos quais vão ser as etapas posteriores. Para já a estação está outra vez activa ao serviço das classes trabalhadoras e das massas populares.

Na madrugada de 7 de Novembro de 1975, por ordem superior do Conselho da Revolução, a terapia política da bomba destruía os emissores da Rádio Renascença na Buraca.

Perguntava-se, então:

Que rádio sairá dos destroços?

No dia 29 de Dezembro de 1975, por decisão do Ministério da Comunicação Social, a Rádio Renascença voltava ao Patriarcado.

Como é do conhecimento público, a Rádio Renascença não foi nacionalizada, o que correspondeu à reconfirmação da posição da Igreja Católica neste órgão de informação. Na sequência lógica dessa decisão resolveu o Governo fazer a restituição das instalações e bens, ilegalmente ocupadas, da Rádio Renascença em Lisboa.

Segundo um porta-voz da Rádio Renascença a estação recomeçaria as suas emissões no primeiro dia do Novo Ano com a transmissão, ao meio dia, da missa de Ano Novo, celebrada pelo cardeal Patriarca de Lisboa.