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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Histórias Com Juízo

Mário Castrim
Capa e ilustrações. Isabel Laginhas
Plátano Editora, Lisboa, Novembro de 1973

Ofício

-Mãezinha cadeira, o que é preciso fazer para ser uma boa cadeira?
- Muita paciência, filha, e ter as costas largas.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


A Caminho de Fátima

Mário Castrim
Capa e Ilustrações: José Miguel Ribeiro
Colecção De Par em Par nº 18
Editorial Caminho, Lisboa Maio de 1992

No ano passado, o marido da Drª Ester tivera um AVC.
Duas vozes:
- Um quê?
Um AVC quer dizer Acidente Cardiovascular.
- Credo – mastigou a Fani. – Pensei que era um partido político.
O marido da Drª Ester ficou duas semanas internado. Os médicos asseguraram que tinha sido coisa pouca, for mais um ameaço do que propriamente um acidente.
- Foi um acevezinho… - resumiu Fani.
Entretanto, a vigilância devia manter-se, pois em qualquer momento a situação podia agravar-se. Pelo sim, pelo não, a Drª Ester fez uma promessa: iria a Fátima, daria à Senhora o seu anel de noivado. Hoje, só a pérola valia um dinheirão.
- Ó Céu – interrompeu a Fani, chocalhando o biscoito dentro do chá -, tens a certeza que o anel serve no dedo da Senhora?
A Céu fez que não ouviu. E continuou a falar da promessa. A Drª Ester andaria té ao altar, de joelhos, tanto tempo quanto pudesse. A promessa tinha dois fins: o primeiro, agradecer a benignidade do ACV e a boa solução do caso; o segundo, prevenir outro acidente. A Drª Ester desconfiava que o coração do marido continuava a não funcionar bem.
- Essa do anel, foi bonito – disse a D. Rosália.
Fani suspirou, com grande estardalhaço de biscoito:
- Vão-se os anéis e fiquem os maridos…
D. Rosália não percebia bem era a história dos joelhos:
- Ir de joelhos até poder? Olha a grande África. Ainda se ela dissesse: «Até não poder…»
- É tudo uma maneira de falar – esclareceu a Fani, muito compreensiva.
- Tal e qual – foi a vez da Céu. – E se vocês soubessem como aquele casal se dá bem… A promessa está mioto apropriada. Quem quer bons maridos guarda-os.
Lembrou-se do seu defunto e a voz tremeu-lhe.

sábado, 5 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Nome de Flor

Mário Castrim
Capa e ilustrações: Ermelinda de Sousa
Edição dos militantes comunistas da Renascença Gráfica/Diário de Lisboa, Setembro de 1979

Avô

O avô estava a olhar para longe
Longe
Para tão longe daqui
- Para onde estás a olhar, avô?
- Estou a olhar para ti.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS

Viagens

Mário Castrim
Capa: pormenor de um dos Desenhos da Prisão de Álvaro Cunhal
Edição da célula dos Trabalhadores Gráficos da Renascença Gráfica, Lisboa 1977

Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.

- Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)

- Comes outra fatia, camarada?

- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...

Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.

Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.

Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.

sábado, 25 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Homem na Cidade

Vários autores
Prefácio: Mário Sacramento
Capa: Luís Carrôlo
Colecção O Homem no Mundo nº 5
Prelo Editora, Lisboa, Julho 1968

Era ao cair da tarde – e havia mortos. Todos muito juntos, enlameados, compridos.
Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.
Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades. Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos. Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.«Se tu és João” – dizia para mim – és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.» E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal. Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora.
- Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
- Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
- Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

Pedro Alvim, crónica publicada no Diário de Lisboa, aquando das trágicas cheias de Novembro de 1967.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Do Livro dos Salmos

Mário Castrim
Capa e Desenhos Rogério Ribeiro
Campo das Letras, Porto, Outubro de 2007

Todos à festa!

Vibra a lira, as harpas, os metais,
Tocai trombetas pela Lua Nova!

Pesados fardos sobre os vossos ombros
demasiado já foi. Pesados cestos
de areia e pedra andastes carregando
a levantar o corpo da pirâmide.
Hoje, vibrai as harpas, os metais.

Todos à festa!

sábado, 19 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Cavalo do Lenço Amarelo É Perigoso

Mário Castrim
Capa: Manuel Augusto
Colecção Cacto nº 1
Prelo Editora, Lisboa, Maio de 1971

A história não acaba aqui.
Virão mais peripécias.
Mais personagens. Podes ser tu, quem sabe lá.
Talvez um dia encontres à tua porta o cavalo que se recusa ao Matadouro.
Recorda-te:
Cor de amora, ao pescoço um lenço amarelo, um dente sempre à perna.
Começará,  para o Arabé, outra aventura.
Começará outra aventura para ti.

sábado, 27 de outubro de 2012

OLHAR AS CAPAS


Poemas do Avante

Mário Castrim
Poemas recolhidos à revelia do autor por Correia da Fonseca
Capa: José Serrão
Edições Avante, Lisboa Agosto 1998

Meu pai tinha os olhos azuis.
Ninguém na família
tivera alguma vez olhos azuis.

Um azul de brincar.
Não posso dizer
que era um azul
como isto ou como aquilo
(o céu, o mar, etc.)
por isso não adianta explicar.

Quando a sombra de um pássaro
cruza a minha janela
«é azul – digo –
é azul como os olhos do meu pai.»

O que eu
quero dizer
nestes versos
tem um azul parecido.

domingo, 23 de setembro de 2012

OLHAR AS CAPAS


O Lugar do Televisor

Mário Castrim
Capa e ilustrações: Ana Romão
Editorial Além-Mar, Lisboa Julho 2003

Estou doente. O grande pico da febre já passou, mas fiquei muito deitado abaixo. Não me apetece nada. Não me apetece fazer nada. Nem ler. Não há dúvida: deu-me forte. Pedi que me trouxessem a mesinha de escrever na cama, estou encostado a duas grandes almofadas. Mas seguro a esferográfica nos dedos moles. A minha mulher diz-me: «Vê lá se me sujas o lençol, como da outra vez. As nódoas de esferográfica não saem.«Como da outra vez»... Sorrio. Foi há mais de doias anos. Elas nunca esquecem nada.