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sábado, 7 de julho de 2018

VIAGEM ATRAVÉS DE UMA LÁGRIMA


Nós, comunistas,
não habitamos
o deserto
nunca.

Há sempre
alguma coisa
alguém
uma palavra
uma canção
que de repente
se transforma
em lágrima-

A lágrima
ao sol
é um pequeno punho
de cristal.

Mário Castrim em Viagens

sábado, 5 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Nome de Flor

Mário Castrim
Capa e ilustrações: Ermelinda de Sousa
Edição dos militantes comunistas da Renascença Gráfica/Diário de Lisboa, Setembro de 1979

Avô

O avô estava a olhar para longe
Longe
Para tão longe daqui
- Para onde estás a olhar, avô?
- Estou a olhar para ti.

domingo, 3 de setembro de 2017

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Este livro do Castrim nasce da colaboração que manteve com os Missionários Comboianos, para a revista Audácia. A morte não permitiu que assistisse à publicação deste bonito livro «dedicado a todos os seus amigos comboianos.»

Os desenhos de Rogério Ribeiro tornam o livro ainda mais cativante.

Mário Castrim era católico.

Disse um dia:

Que é ser católico? Ir todos os domingos à missa? Confessar-se? Gostar de João Paulo? Não, isso não serei. Se é ser católico dar, como Cristo, prioridade aos pobres, aos oprimidos, aos injustiçados; se é estar como Cristo a combater a riqueza indevida, a hipocrisia e o poder do dinheiro; se é amar a Terra para melhor merecer o céu, então católico fui, sou e serei.
Olhe, o comunista é aquele que deixou de acreditar na eternidade para acreditar no futuro. O comunista é um cristão para uso quotidiano.

O Padre Manuel Augusto, Director da Revista Além-Mar e sacerdote comboniano afirma que este livro «é o grito de uma pessoa que procura, se confronta com Deus, reconhece e invoca a sua presença”. Por isso indica, ser um livro destinado a todas as pessoas que fazem uma procura de Deus, a partir dos conflitos normais e dos dramas da própria vida. Na redacção da publicação comboniana é recordado como uma pessoa com um “grande entusiasmo pela vida em geral. Tudo o que acontecia na vida merecia a apreciação lúcida e admirada do Mário, e ele colocava-o por escrito nas suas crónicas, sem preconceitos nem moralismos. Para ele havia uma regra essencial: a vida é harmonia, lealdade e respeito pelos inimigos”. “A amizade para com os Missionários Combonianos surgiu naturalmente, porque também ele alimentava o sonho de um mundo melhor, mais justo e fraterno. Ele era um homem profundamente preocupado e comprometido com os pobres e deserdados do mundo. Ouvia com enorme prazer todas as histórias dos missionários, e vivia a sorte e as incertezas daqueles que se encontravam nos teatros de guerra e das gentes que serviam».

Mário Castrim morreu a 15 de Outubro de 2002.

Oito dias antes, escreveu o seu último poema:

Lágrimas, não. Lágrimas, não. A sério.
Enfim, não digo que. É natural.
Mas pronto. Adeus, prazer em conhecer-vos.
Filhos, sejamos práticos, sadios.
Nada de flores. Rigorosamente.
Nem as velas, está bem? Se as acenderem,
sou homem para me levantar e vir
soprá-las, e cantar os "Parabéns".
Não falem baixo: é tarde para segredos.
Conversem, mas de modo que eu também
oiça, e melhor a grande noite passe.
Peço pouco na hora desprendida:
fique eu em vós apenas como se
tudo não fosse mais que um sonho bom.

Deste ponto do hotel vê-se qualquer coisa
que logo desde o início se entendeu
não poder ser outra coisa além do Cabo da Roca.
Daqui donde estou se vê que o Cabo é
perfeitamenhte ocidental o mais
ocidental possível.
Mais do que ele, só os nossos olhos.
Eles, para quem a terra não acaba nunca.
Eles, que tocam o ponto exacto onde
um sol de fogo prova que ela é redonda.
A única diferença é o farol. Mas se fores tu
de noite a olhar o mar, os barcos
podem ir à confiança.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

CABO DA ROCA


Deste ponto do hotel vê-se qualquer coisa
que logo desde o início se entendeu
não poder ser outra coisa além do Cabo da Roca.
Daqui donde estou se vê que o Cabo é
perfeitamente ocidental o mais
ocidental possível.

Mais do que ele, só os nossos olhos.

Eles, para quem a terra não acaba nunca.
Eles, que tocam o ponto exacto onde
um sol de fogo prova que ela é redonda.

A única diferença é o farol. Mas se fores tu
de noite a olhar o mar, os barcos
podem ir à confiança.

Mário Castrim 

terça-feira, 21 de maio de 2013

POSTAL PARA AUGUSTO CABRITA



Volta depressa,
caçador da luz!

Volta para fixar
no barro claridade
o fruir de uma altura
a expressão de uma asa.

Volta depressa, Augusto.
Sem ti é tão escura
a nossa casa...

Mário Castrim

Legenda: Pormenor da construção das fábricas da UFA, no Lavradio, início da década de 50, fotografia de Augusto Cabrita, incluída no catálogo da Retrospectiva de Augusto Cabrita.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

RUA DO OURO


A maior parte das Agências de Navegação localizavam-se no Cais do Sodré.

Como ao Metro ainda faltavam alguns anos para o terminal no Cais do Sodré, apanhava-o na Praça do Chile, saía Rossio, descia a pé a Rua do Ouro, não antes sem fazer paragem obrigatória para, encostado ao balcão da Casa Chineza, tomar o café da manhã, olhar os rostos que circundavam, quase sempre, àquela hora, os do costume.

A Casa Chineza, ao tempo, tinha um dos melhores cafés de saco da cidade.

Por lá, todas as manhã, à mesma hora, o Professor José Pedro Machado, que colaborou no Grande Dicionário de Morais, com os volumes do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, o saco das compras da dia na mão, e que,  tomado o pequeno almoço, arrancava para a habitual cavaqueira na Livraria Portugal.

Ao longo dos tempos, a Casa Chineza tem vindo a perder o anterior glamour.

Para que não restem dúvidas que os tempos mudaram naquela casa, na grande montra, ostenta em grandes letras que fabricam Folar de Chaves.



A luta pela defesa dos velhos cafés das cidades é uma luta inglória.

Ressalta, então, uma tristeza que por mós perpassa, uma melancolia acomodada.


A uma pequeníssima crónica, publicada no velho Diário de Lisboa, Mário Castrim chamou: Rua do Ouro.


A pastelaria de que se fala talvez pudesse ser a Casa Chineza.


Na pastelaria

por cima do balcão
o homem disse:
«Por favor, aquele de chantilly e um galão».
Comeu com invejável apetite
sorveu o galão
ruidosamente.
Depois abriu o porta-moedas
e pagou
e  parou um instante à porta
a ver uma jovem de calças
fortemente cingidas às ancas.
Alguém saberá que outrora
apagou cigarros
nas costas dos presos.
Cinco horas da tarde.
Estamos na Rua do Ouro.
Os rostos confundem-se
e afinal talvez não passasse tudo
De fadiga, de nervos,
da imaginação um pouco doente.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

TENHO UMA JANELA


Tenho uma janela
que dá para o mar
barcos a sair
barcos a entrar
tenho uma janela
que dá para o mar
sonhos a partir
sonhos a chegar
tenho uma janela
que dá para o mar
um fio de fumo
uma sombra além
uma história antiga
um cantar de vela
um azul de mar
tenho uma janela
que dá para o mar
tenho uma janela
que seria bela
seria mais bela
que qualquer janela
janela fosse ela
de Lua ou de estrelas
ou qualquer janela
de qualquer escola
se não fosse aquele
pescador já velho
que anda pela praia
a pedir esmola
barcos a sair
barcos a entrar
chego-me à janela
e não vejo o mar.


Mário Castrim, canção infantil