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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS


As Mãos na Água A Cabeça no Mar

Mário Cesariny
A Phala – Edição do Autor. Lisboa, Janeiro de 1972

Não haverá ninguém insubstituível, mas podem passar-se muitos anos, já lá vão vinte, antes de que seja preenchida a lacuna causada pelo desaparecimento de uma figura exemplar. Certo que a diligência dos prosélitos não esquece, que nada será esquecido do enriquecimento conduzido à cultura, da mensagem «sempre viva», como se diz, dos que verdadeiramente representaram e enriqueceram a época. Não menos certo que o verno no pretérito declina a própria limitação, exalta, mas esvazia de substância. No caso do professor Bento de Jesus Caraça, a morte prematura aos 47 anos de idade, reforça, se se quiser, a mitificação da figura, mas quebra, angustiosamente para quem cá ficou, toda a promessa de desenvolvimento ulterior. Este, só o homem, aqui e agora, no-lo daria.

domingo, 28 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Autografia e Outros Poemas de Pena Capital

Mário Cesariny
Assírio & Alvim, Lisboa, Março de 2007

Autografia I

sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

o meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
( antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa )
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente - tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris - já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião - não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais - também, já por cá
passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnifica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha-férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha

E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascensão para ti O Magnifico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais
nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu
partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!

segunda-feira, 26 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Burlescas, Teóricas e Sentiemtais

Mário Cesariny
Colecção Forma nº 7
Editorial Presença, Lisboa, Julho de 1972

Rua do Ouro

Ai dele que tanto lutou e afinal
Está tão só. Tão sòzinho. Chora.
DIRECÇÃO DA COMPANHIA TANTOS DO TAL.
Cinquenta e três anos. Chove, lá fora.

Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A ele ou à carteira?)

Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage: que diabo…Afinal...
E olha para o cofre cheínho.

Sim estou só ainda bem porque não? ele diz
Batendo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.

Seis e meia. Ó neurastenia
O homem que venceu está de borco
E sente uma grande agonia
Que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.

É da carne de porco ele diz
Vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.

Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
Diz que é feliz diz que está muito bem.

Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sòzinho.

Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?

Sim, reage: Esta noite a Leonor
Amanhã de manhã o Salemos
e depois? Ah o novo motor
veremos, veremos, veremos

Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.

Os filhos? Esperam que ele morra.
A mulher? espera que ele morra.
O sócio? Pede a Deus que ele morra!
Só a Anita não quer que ele morra!

Ai, maldita carne, murmura
Vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E chora de desilusão.

Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.

O homem que venceu matou-se
Na margem mais escura do rio
Ao volante dum belo Packard

domingo, 13 de junho de 2010

OLHAR AS CAPAS

A Intervenção Surrealista

Organização de Mário Cesariny de Vasconcelos
Capa de Cruzeiro Seixas
Colecção “Documentos do Tempo Presente” nº 35
Editora Ulisseia, Lisboa Julho 1966

Contra o aniquilamento total do indivíduo que é frequentemente proposto por sistemas regenerativos só revolucionários na aparência, propomos o aparecimento súbito e violento do Homem e da Mulher integralmente livres dentro da sua própria necessidade dialéctica de transformação. Só no Homem acreditamos e só das suas própria mãos “Como indivíduo” cremos que saia a grande transformação das coisas.

Mário-Henrique Leiria, 1952