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domingo, 28 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Autografia e Outros Poemas de Pena Capital

Mário Cesariny
Assírio & Alvim, Lisboa, Março de 2007

Autografia I

sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

o meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
( antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa )
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente - tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris - já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião - não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais - também, já por cá
passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnifica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha-férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha

E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascensão para ti O Magnifico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais
nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu
partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!

terça-feira, 4 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Cadernos do Meio-Dia
Nº 3

Coordenação de António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira
 Ferreira, Hernâni de Lencastre
Edição dos Coordenadores, Faro, Outubro de 1958

Canção de Vistoriar

Vou aqui por este lado
a vistoriar o historiado.

Vou por aqui e vou bem.
Já o dizia a tua mãe.

Pobre morta, é verdade.
Mas é assim a eternidade.

Vou depressa antes que anoiteça
e o campo, de facto, desapareça.

E canto esta canção irregular
que é como canta quem anda a vistoriar.

Mário Cesariny de Vasconcelos

sexta-feira, 15 de junho de 2018

AEROPORTO


A mala que segue viagem
Assim como o avião
Têm a grande vantagem
De não terrem coração.

Só formas amplas – metais
De uma brancura de praia!
Dentro, vão sonhos a mais.
É bom que a mala não caia.

Mala do sonho, vais bem
Assim deitada de lado?
Chega-te a roupa que tens
Ou chamamos o criado?

Ou chamamos o fantasma
Da queda livre no espaço,
Verga do pássaro de aço
Onde a poesia se espasma

segunda-feira, 26 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Burlescas, Teóricas e Sentiemtais

Mário Cesariny
Colecção Forma nº 7
Editorial Presença, Lisboa, Julho de 1972

Rua do Ouro

Ai dele que tanto lutou e afinal
Está tão só. Tão sòzinho. Chora.
DIRECÇÃO DA COMPANHIA TANTOS DO TAL.
Cinquenta e três anos. Chove, lá fora.

Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A ele ou à carteira?)

Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage: que diabo…Afinal...
E olha para o cofre cheínho.

Sim estou só ainda bem porque não? ele diz
Batendo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.

Seis e meia. Ó neurastenia
O homem que venceu está de borco
E sente uma grande agonia
Que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.

É da carne de porco ele diz
Vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.

Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
Diz que é feliz diz que está muito bem.

Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sòzinho.

Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?

Sim, reage: Esta noite a Leonor
Amanhã de manhã o Salemos
e depois? Ah o novo motor
veremos, veremos, veremos

Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.

Os filhos? Esperam que ele morra.
A mulher? espera que ele morra.
O sócio? Pede a Deus que ele morra!
Só a Anita não quer que ele morra!

Ai, maldita carne, murmura
Vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E chora de desilusão.

Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.

O homem que venceu matou-se
Na margem mais escura do rio
Ao volante dum belo Packard

sexta-feira, 28 de julho de 2017

AUTORIDADE E LIBERDADE SÃO UMA E A MESMA COISA



Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é uma quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que jula ser possível autorizar ou desautorizar
a autoridade de outrem não sabe no que se mete

                                       *

Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que
um só. Mas são mais revérbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moeda corrente
do libertino.

Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado, no ar, ou à dentada com cães. Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido, mais perigosos. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro – nunca sairá um escravo.


                                AUTORIDADE E LIBERDADE
                                SÃO UMA E A MESMA COISA           

Lisboa, Maio-58

                                                Mário Cesariny de Vasconcelos

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

PASTELARIA



Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny de Vasconcelos 

Legenda: Fotografia de Willy Ronis