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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


O que nos fica, finda a leitura deste livro, não é a imagem de um homem fazendo gestos para que o vejam: é a imagem de uma alma segredando aos outros qualquer coisa impossível de calar.

João Gaspar Simões, crítica ao livro As Solicitações e Emboscadas de Mário Dionísio

Legenda: citação tirada da Frenesi Loja

terça-feira, 25 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Nasci para Nascer

Pablo Neruda
Tradução:
Eduardo Saló (texto em prosa)
Mário Dionísio (poemas)
Colecção Estudos e Documentos nº 159
Publicações Europa-América, Lisboa

Nas nossas Américas há achados: em ilhas desabitadas ou selvas irascíveis debaixo da terra depressa se encontram estátuas de ouro, pinturas na pedra, colares de turquesa, cabeças imensas vestígios de inúmeros seres desconhecidos que se têm de descobrir e nomear para que respondam do seu silêncio secular.
Se, numa ilha nossa, se encontrassem as capas sucessivas de Picasso, a sua monumental abstracção, a sua criação rupestre, as suas jóias exactas, os seus quadros de felicidade e terror, os arqueólogos, assombrados, procurariam os habitantes, as culturas que tanto fizeram acumulando jogos e milagres fabulosos.
Picasso é uma ilha. Um continente povoado por argonautas, caraíbes, touros e laranjas. Picasso é uma raça. No seu coração, o Sol nunca se põe.

(Escrito por motivo da celebração, em Paris, do 90º aniversário de Picasso, Outubro de 1971)

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO


Em Amsterdão, Outubro de 1970, António José Saraiva escreve a Óscar Lopes e a dado ponto anda às bicadas ao neo-realismo português:

Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um ínico grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.
E não há só uma invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do redol e outros.
(…)
Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.
Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte.


Legenda: Ferreira de Castro

quinta-feira, 5 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


 A arte nada tem com qualquer espécie de negócio e tudo com o ócio. De que nasce.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

OLHARES


Dedicatória de José Gomes Ferreira em O Mundo dos Outros para Mário Dionísio e sua mulher Maria Letícia, presente na Exposição Passageiro Clandestino que esteve patente no Museu do Neo Realismo de 14 de Maio de 2016 a 26 de Fevereiro de 2017. 
Zé Gomes dizia que o livro talvez já esteja morto e que a única parte viva era o prefácio que Mário Dionísio escreveu, em 1978, para a 7ª edição de O Mundo dos Outros.
A 1ª edição é de 1950. 
Tenho a edição de 1961, Colecção das Três Abelhas das Publicações Europa-América e que por um destes dias ocupará um Olhar as Capas.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Passageiro Clandestino
Catálogo da Exposição Mário Dionísio 100 Anos

Organização: António Pedro Pita e Fátima Faria Roque
Capa: Dulce Munhoz
Edição Museu do Neo-Realismo e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Maio de 2016

A qualquer uma destas circunstâncias sobreleva, todavia, um aspeto: a vinculação política era então profundamente existencial, era uma questão de vida, uma vez que o comunismo e o partido que dele se reclamava dava à vida aos seus militantes, como disse um deles, um destino. A transformação da vida em destino e a inscrição individual na transcendência da história tronam a rutura dolorosa até ao limite – sobretudo, como é o caso de Mário Dionísio, quando é expulso depois de se ter demitido.
Essa mágoa não teve cura. Por isso, quando Álvaro Cunhal ensaia uma reaproximação, logo a seguir à fuga de Peniche, Mário Dionísio refere que todod esse passo o levou a um estado de amargura (…) e de falta de desconfiança talvez definitivo. Nunca mais poderei voltar a ter em ninguém a confiança que tive em pessoas que se mostraram indignas dela. Sem esta confiança não há acção possível”.
Este conjunto de cartas documenta a deceção e a dor. E a esperança difícil de um homem para quem a arte foi sempre um modo sublime de a vida conduzir-se, sempre, a um limiar.

(Do texto de António Pedro Pita tirado do capítulo do catálogo «Correspondência com o PCP»)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

COM O SAL BRUXO NAS SOMBRAS


27 de Agosto de 1969

O café do Sr, Cunha fechou – disse-me o Mário Dionísio a quem visitei em Cascais.
Outro!
Café por onde passa o nosso grupo, já se sabe, fecha.
Trazemos o sal bruxo nas sombras.
Nos últimos tempos, que me recorde, lancámos a maldição aos seguintes recintos onde nos reuníamos: Café Chiado, Martinho, Bocage, A Cubana, e, por fim, «a do Sr. Cunha».
Pergunta lancinante do Mário:
- E agora?

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.


Legenda: Brasileira do Chiado, desenho de Bernardo Marques. Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Carlos Botelho, Ofélia Marques, o criado João franco, Sarah Afonso, José Gomes Ferreira, Bernardo Marques e José Bacelar.
«... meus filhos não nada a fazer... Isto é um país de merda!

terça-feira, 18 de abril de 2017

RECADOS


Sou um leitor compulsivo.

Não preciso de grandes sinais para comprar um livro: pela capa, pelos começos, pelos finais, por tudo e mais alguma coisa.

Lembro-me que comprei Viver com os Outros da Isabel da Nóbrega pela leitura da parte final do discurso que Mário Dionísio proferiu no jantar da atribuição do Prémio Camilo Castelo Branco de 1964.

No meio de imensa papelada, fui dar com esse pedaço de recorte.

Comovi-me.

Já agora: numa carta, datada de 20 de Março de 1966, José Saramago escreve, a José Rodrigues Miguéis sobre esse jantar: 

Neste  triste país, o sage é o homem calado que não quer conhecer ninguém nem quer que o conheçam. Há dias fui ao jantar da entrega do Prémio Camilo À Isabel da Nóbrega: é de morrer. Tanta impostura, tanta falsidade, tanto esforço para parecer mais inteligente que o vizinho, e sobretudo mais célebre. E tudo isto sob a capa de modéstia jesuítica, uma capa cheia de buracos de orgulho e inveja. E esta gente é a nata, e esta gente conduz, orienta, dá entrevistas, pontifica, tem opiniões acerca de tudo e de coisa nenhuma. E todos, seja qual for a cor da epiderme, têm um lema: «Hors l'église (notre église) pas de salut!» E com medo de não nos salvarmos, lá vamos para a sombra do campanário do vizinho, não vá acontecer que a salvação não esteja afinal onde a supúnhamos. Há excepções, claro, há gente digna, sem dúvida, mas a balbúrdia não deixa que as suas vozes se oiçam, e quando, através da confusão, do burburinho, se ouve uma voz honesta, responsável,logo a irmandade se faz, logo os campanários afinam os rebates - e enquanto o intruso não se cala, justos céus, é ver quem mais bate.

domingo, 2 de abril de 2017

RECADOS


Contra capa de Os Armários Vazios de Maria Judite de Carvalho.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

OLHARES


Dedicatória de Mário Dionísio para o poeta Joaquim Namorado.

Até domingo ainda podem ver a Exposição no Museu do Neo-Realismo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Não queiras que cada página seja um monumento. Não queiras tudo. É o melhor caminho para não encontrares nada. Não te sintas esmagado pelos grandes nem condoído com a falência dos que detestas ou desprezas ou apenas lamentas. Escreve, Esquece tudo, tapa os ouvidos, mete-te bem na tua experiência, só na tua experiência. Grande ou pequena, é o que tens. Não desanimes, não desistas, não te perturbes com a indiferença dos outros, não te entusiasmes com os aplausos dos outros. Escreve! Escreve!

Mário Dionísio em Autobiografia

OLHARES


Até ao dia 26 deste mês está patente no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a Exposição comemorativa do centenário de nascimento de Mário Dionísio, «Passageiro Clandestino Mário Dionísio 100 Anos».

Com a curadoria de António Pedro Pita, a exposição faz a retrospetiva da obra de Mário Dionísio, poeta, ensaísta e pintor.

A imagem acima mostra a caderneta escolar de Mário Dionísio que se encontra na exposição.

Curiosamente e nela se constata que Mário Dionísio, no ano escolar 1926/1927 no Liceu de Camões, teve «medíocre» na disciplina de Desenho.

Não é sem um suave sorriso que olhamos o pormenor.

Como dizia a minha avó: os galegos nunca gostaram de ver bons princípos aos filhos.

Na Livraria do Museu ainda se encontram à venda alguns exemplares da Autobiografia de Mário Dionísio, publicada em 1987, pelo semanário O Jornal.

Um livrinho importantíssimo que começa assim:

«Contar a minha vida. Sempre que me falam nisso, imagino-me sentado num banco de cozinha, com um grosso camisolão, ombros caídos, a olhar por uma janela alta e estreita o que ele deixa ver da floresta. Alguém deixou um machado na pequena clareira em frente da janela. Andarão a rachar lenha. Grandes aves esvoaçam lá por fora, não muito alto decerto. E, além disto, silêncio. O profundo silêncio do que não volta mais.»

O curioso é ainda existirem exemplares à venda deste livro de Mário Dionísio.

A ficha técnica não indica a tiragem mas não devia ultrapassar o milhar de exemplares.

Este país tão riste de esquecer gente.

Ou como escreveu Mário Dionísio, «o profundo  silêncio do que não volta mais».


Museu do Neo-Realismo
Rua Alves Redol, nº 45
Vila Franca de Xira
Horário: 3.ª a 6.ª feira, 10h00-18h00;
Sábado e domingo, 10h00-19h00;
Encerra à 2.ª feira e aos feriados.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Pérola

John Steinbeck
Tradução Mário Dionísio
Colecção Livros de Bolso Europa-América nº 152
Publicações Europa-América, Lisboa s/d

Joana, que estava inclinada para o lume, endireitou-se, tornou a deitar Coyotito no caixote, pôs-se a pentear os cabelos negros, separou-os em duas tranças, atou-os com fitas verdes. Kino acocorou-se junto do lume, tirou um bolo de milho bem quente, embebeu-o no molho e comeu-o. Bebeu um pouco de pulque. E foi o seu pequeno-almoço. Nunca conheceu outro, a não ser nos dias de festa e numa memorável pândega de guloseimas em que quase tinha rebentado. Kino acabou. Joana foi para junto do lume e tomou também o seu pequeno-almoço.
Uma vez, há muito tempo, haviam conversado. Mas não sentiam a necessidade de falara porque o fariam só por hábito. Kino suspirou com prazer – e isso era falar.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

À VOLTA DO DISCO DO ZÉ GOMES


Cuidava que nos meus dossiers de papelada, tinha uma qualquer crítica ao disco do José GomesFerreira.

Não a encontrei.

Porventura nunca existiu.

No catálogo da Exposição, Novembro de 2000, o disco é apenas referido, não existindo reprodução da capa.

O mesmo na Fotobiografia

Para a história ficam apenas as fugazes referências que José Gomes Ferreira coloca nos Dias Comuns.

Quando por qualquer motivo tenho que consultar dossiers, amiúde me perco.

O que seriam breves minutos de procura, transformam-se em horas.

Assim, acabei por entrar nos recortes que referem a morte do José Gomes Ferreira.

Um dia virás
Tu-que.não-sei-quem-és,
Com leveza de gás
No silêncio dos pés

O Herberto Helder tem uma frase em Os Passos em Volta:

E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.

O José Gomes Ferreira costumava dizer:

Quando eu morrer isto vai ser uma desgraça: nunca mais ninguém me lê!

No fundo, sabia que seria assim.

E, no entanto:

Senhor Deus que não tenho! O trabalho que me deu a tornar poeta!

Nos dias que correm, poucos lêem José Gomes Ferreira.

Muitos, mesmo muitos, nem sequer, de nome, o conhecem.

Aquando da sua morte, escreveu Mário Dionísio:

Leiam-no, releiam-no e se, depois disso, não se sentirem outros, mais ricos, mais indignados e mais generosos, mais felizes por serem homens, mesmo num mundo de larvas e de monstros, suicidem-se são extremistas, ou, pelos menos, vão consultar o médico porque qualquer coisa está gravemente doente.

É comovente a notícia que Fernando Assis Pacheco escreveu par o JL:

Tenho saudades de José Gomes Ferreira porque era bom e alegre e tratava os mais novos com delicadeza. Das duas vezes que o entrevistei por coisas literárias, ficou-me a mesma imagem: de um senhor fluente, despedindo palavras à velocidade da memória ágil, perguntando sempre se me estaria a maçar com essa tralha toda, histórias, perfis de amigos desaparecidos, breves anedotas, e dizendo de si próprio, velho “leitmotiv”, tenho a idade do século, sou do tamanho do século.

Na sua evocação José Fernandes Fafe, lembra:


 Houve um tempo em que ele foi o meu amigo mais próximo.
Até que saí de Portugal. Nas férias não deixava de o procurar , mas, naturalmente, os contactos espaçados deslaçaram um pouco a nossa intimidade.
Um dia, numa dessas visitas, chamou-me à parte para me dizer:
- Muito obrigado.
- Obrigado porquê?
- Eu sei que o Fafe pensa de maneira diferente da minha. E quero agradecer-lhe a delicadeza de fazer como se o ignorasse…
- Ó Zé Gomes!... Ó Zé Gomes! Não nos temos nós por pessoas civilizadas?

Legenda: fotografia de Nuno Calvet publicada no disco de José Gomes Ferreira.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O POETA MILITANTE


No dia 29 de Fevereiro de 1980, José Gomes Ferreira decide tornar-se militante do Partido Comunista Português.

Na Soeiro Pereira Gomes é recebido por Carlos Aboim Inglês, responsável pelo Sector Intelectual.

È esse camarada que, no Avante de 6 de Março, torna pública a notícia:

Camarada!

Dia 29 de Fevereiro de 1980, pelas cinco e meia da tarde, chuvosa, caminhaste pelas ruas com o passo firme da tua alma grande e vieste bater à porta da nossa Casa, na Soeiro Pereira Gomes. Na fala directa de quem pensou e se decidiu em consciência disseste enxutamente ao que vinhas: que te aceitássemos como membro do Partido Comunista Português. Aos 80 anos. Em coerência com toda uma vida, repensada e assumida. Dando resposta combativa a um presente que não é fácil. De olhos postos, juvenis, no futuro que faremos, que fazemos.
As tuas palavras, o teu acto, tinha aquele peso e asas que pões em tudo. Simples, como as coisas verdadeiras do coração. Como um acto lúcido que se cumpre na hora, por determinação de homem independente que sempre foste e serás. De homem solidário que és, de raiz – poeta militante, companheiro dos homens que sofrem, sonham e lutam. E que, juntos como os dedos da mão, de mãos dadas, hão-de chegar ao fim da estrada e depois hão-de rasgar as estradas novas de Portugal livre, independente, socialista, para os homens novos que estão nascendo já.

Ficámos de te dar resposta. E. ressalvando embora a pública notícia, que não está nos nossos usos, mas que a luta aconselha nestes tempos de promoção, de crescimento necessário, aqui estamos para te responder dizendo apenas, com respeito e alegria compartilhada decerto por todo o grande colectivo fraternal do nosso Partido – que te saudamos, camarada! Abril vencerá!


Com a sua pontinha de veneno-inveja, Vergílio Ferreira escreve no 3º volume do seu Conta-Corrente:

Aqui há dias a imprensa noticiou que o José Gomes Ferreira (aproveitando a circunstância de o ano ser bissexto?) no dia 29 de Fevereiro se inscreveu no PC. Aqui há semanas, e a propósito de um programa da TV, levantou-se grande celeuma sobre se Guerra Junqueiro era um poeta maior ou menos e ventilou-se ainda a questão sobre se ele, à hora do fim, se teria convertido à Igreja Católica. E, uma vez mais, é curiosos como a história se repete. Só que, no caso de Gomes Ferreira, ele inscreveu-se mesmo.

Nos seus Dias Comuns José Gomes Ferreira refere esse velho sonho de se filiar no Partido.

Dos Dias Comuns estão publicados 7 volumes.

1º Volume: Outubro de 1990
2º Volume: Setembro de 1998
3º Volume: Maio de 2000
4º Volume: Maio de 2004
5º Volume: Novembro de 2010
6º Volume: Janeiro de 2013
7º Volume: Março de 2015

Sete volumes publicados em 25 anos.

A caminho dos 71 anos, são nulas as expectativas de que venha a ler os restantes volumes dos Dias Comuns.

Na Leya não gostam de livros e apenas entendem a edição como algo que tem de gerar lucros.

Os livros dos pivots de televisão, ou treinadores de futebol, qualquer merdunça desde que se veja o guito.

Quem sabe quem é o José Gomes Ferreira?

Quem o lê?

É isso!

Pois!


Para sabermos dos passos diários de José Gomes Ferreira até se tornar militante do partido, teremos que nos socorrer dos textos desses diários que Raúl Hertnes Ferreira disponibilizou na Fotobiografia do poeta.

21 de Junho de 1978

Alguns amigos insistem para que eu me inscreva no Partido Comunista. Tenho resistido até agora e espero resistir.
- Mas tu és comunista – afirmam.
- Pois sou – respondo – Mas tão naturalmente como uma laranjeira dá laranjas. Sem necessidade de cartão.

17 de Junho de 1979

Alguns jornais falam do meu 80º aniversário do próximo ano e alguns insinuam que devem condecorar-me.
Como livrar-me dessa condecoração?
Hoje, lembrei-me de me inscrever no Partido Comunista.
Talvez não se atrevam a condecorar um comuna!

28 de Fevereiro de 1980

Hoje resolvi-me e fui pedir ao Aboim Inglês que me inscrevesse no Partido Comunista Português. Incomodava-me o facto de todos me considerarem pertencente ao Partido. Isto é, possuir tudo o que era positivo nele. Quanto aos defeitos evitava-os sem dificuldades.

4 de Março de 1980

Inscrevi-me no Partido Comunista. Exactamente no pior momento que este partido passa.
Esperei pacientemente pelo dia de hoje.

Também se lê na Fotobiografia que as últimas linhas dos seus Dias Comuns estão datadas de 25 de Maio de 1980 e fazem parte do 20º volume com o subtítulo A vida Corre sem a Elegância de uma Gazela.

Repito: pelos critérios mercantilistas da Leya, e com a idade que vou tendo, quantos mais volumes irei ler dos Dias Comuns do José Gomes Ferreira?

Uma angústia desenhada no horizonte do meu caminhar.

Não tenho por qualquer outro escritor, daqui ou dacolá, a ternura que tenho por José Gomes Ferreira.

Legenda:
      Fotografia de José Gomes Ferreira retirada da Fotobiografia.
      Fotografia de José Gomes Ferreira, numa manifestação de apoio à Reforma Agrária, retirada de Correio do Porto.
      Quadro de José Gomes Ferreira pintado por Mário Dionísio.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

À ESPERA DE UM TAL ABRIL


José Gomes Ferreira, no dia 1 de Janeiro de 1966, escrevia nos seus Dias Comuns:

A passagem do ano desenrolou-se com mansidão sóbria.
Alguns amigos: o Mário Dionísio com a família, Maria e o Chico Keil, a Maria Vitória e o Manuel, a Georgiana e o Zé Queiroz, a minha Mãe e o Raúl...
Champanhe. Uvas à meia-noite. Sandwiches. Pudins. Mastigação melancólica.
Rotina dos eternos gracejos com ranço... repetição de ditos já musgosos... Palavras que deixam na boca fios de teias de aranha de cuspo...
Começo dum novo ano de bafio...
Quando voltaremos a viver com entusiasmo? Qualquer entusiasmo. Até com caveiras nas árvores!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC


Vitor Silva Tavares foi um dos mais entusiásticos fundadores da Casa da Achada-Centro Mário Dionísio. Pertenceu vários anos à Direcção. Deu ideias, participou em sessões, trabalhou em edições, apresentou filmes e teve a seu cargo o boletim informativo desta associação, chamado «Ficha», que saiu duas vezes por ano entre Setembro de 2010 e Abril de 2014.
Foi com grande mágoa que soubemos da sua morte. É com grande mágoa que comunicamos esta tão grande perda para todos nós.

A Direcção da Casa da Achada-Centro Mário Dionísio

Comunicado da Casa da Achada sobre a morte de Vitor Silva Tavares e o comentário deixado por Regina Guimarães;

Quantas vezes tenho pensado que devia deitar a vergonha às urtigas
e perguntar ao Vítor S T se achava que eu podia fazer mais um livro com ele.
Coisa que ficarei por lhe dizer.
Mas o que custa muito é imaginar que não mais o ouvirei contar, com todas as pontuações do espírito a cravarem-se na voz que se encontra e se procura. Etc.
Aqui, neste lugar que é da Achada que ele ajudou a fazer, fica um texto feito de coisas que me roem…

A IMPLORAÇÃO
Não vês que me escorrem
pelas pernas abaixo
os filhos que de mim não nasceram
entre lábios e sorrisos incompletos?
Não vês as palavras que me escorrem
tão agudas e argutas
pelas faces abaixo
rasgando rugas em lugar de frases?
Não vês que eu olhei as estrelas
demasiado tempo
e julguei ver
na sua combustão nervosa
na sua intermitência cintilante
um chamamento, uma ordem, um rumo
um caminho para a casa desabitada
mas desde sempre habitada pela luz?
Não vês que se me olhares assim
eu terei de procurar os meus olhos debaixo da mesa
de rolar até à rampa onde a vista se perde de vista
talvez roubando esse grão
que é moinho da voz
para não morrer?
Para não cantar todas as ruas
a sós.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC


Passo da entrevista de Alexandra Lucas Coelho a Vitor Silva Tavares em que se fala da colaboração do Vitor com essa extraordinária difusora cultural e política que é Eduarda Dionísio, filha do pintor e poeta Mário Dionísio:

Eduarda Dionísio (com quem trabalhou na associação Abril em Maio e recentemente no jornal PREC) diz que não há coisa de que o Vítor Silva Tavares goste mais do que a tipografia, e o Alberto Pimenta (um dos autores mais da casa, na & etc) crê que a fusão inseparável da estética e da ética é o que melhor o define. Tudo o que disse sobre a artesania do livro se relaciona bem com essa fusão.
Agora preside à Abril em Maio, que está num limbo. O que o fez querer pertencer a este colectivo? Como resistência – não sei se a palavra é a boa?

É essa. É a única.

Um dia a Abril em Maio pediu para aqui uns livritos, disse onde era, à Graça, fui lá a um debate, um rés-do-chão de uma casa antiga, fiquei encantadíssimo por ver aquele espaço e reencontrar finalmente a Eduarda Dionísio, que conhecia de nome. Sabia-a filha de quem era, mas nunca tinha tido relacionamento próximo.

E ao saber que aquela coisa tão encantadora que ali estava, onde um disco daqueles que não aparecem em lado nenhum – sei lá, o García Lorca a tocar piano – está ao lado de uma garrafa de azeite, de um boneco de barro, de um livro; ao ver o tipo de pe, ssoas, a miudagem; ao ver que também ali não havia nenhum propósito lucrativo, era uma associação cultural propriamente dita, e que também ela não dependia de nenhuma espécie de subsídios, nem disto nem daquilo, ou não estivesse lá a Eduarda Dionísio: havendo afinidades que não se podem circunscrever ao ideológico, que têm a ver com a maneira de estar e de fazer cultura, alheia ao “mainstream”; eu, que jamais tinha pertencido a qualquer clube resolvi ser sócio daquele.

Estava longe de imaginar que iria filiar-me numa associação que tinha a sua morte anunciada. Ser sócio não é só pagar a quota. Não posso abandonar o etc, onde faço de tudo, sou eu que varro também o chão, essas coisas, a minha disponibilidade está repartida, sempre. De qualquer modo tive trabalhos, iniciativas, ideias na Abril em Maio, daquela pulga eléctrica que é a Eduarda Dionísio. Tenho uma grande ternura por ela, uma grande admiração por aquela capacidade de mobilizar e de fazer, também pela sua capacidade de organização, eu que sou desorganizado. Muitas afinidades. De tal modo que não me interessa assim tanto a Abril em Maio. Quando gosto de uma pessoa, sou de uma fidelidade total. Só estou lá porque lá está a Eduarda, cultivando com ela o mesmo tipo de fidelidade. É um mau feitio que me quadra muito bem. Quem me dera ter dez por cento daquele mau feitio. É sempre recto.


Sempre falou no trabalho como uma fruição, parte da vida, dos amigos. É raro as pessoas estarem numa coisa porque gostam muito de alguém. Têm objectivos, têm projectos, podem ganhar isto, aquilo.

Eu e a Eduarda gostamos de fazer coisas. Com as mãos, com os pés, com a língua. Não vamos teorizar muito sobre as coisas. Temos afinidades, é escusado estar a gastar saliva. Entendemo-nos muito bem. Podemos passar logo para a acção e mobilizar outros para esse trabalho.

A ideia do PREC?

Nasceu aqui. O título foi meu. Quem tiver ideias sobre o nome a dar a esta folha, que é para ler e não para ver, portanto vamos inundar a mancha com letras, uma letra vale mais que mil imagens...

Isso hoje é um verdadeiro PREC.

Exacto. Então, quem tiver ideias ponha no papel. E eu tenho aqui uma que é uma dupla provocação: desta porta para fora, quando sair, e desta porta para dentro, para as cabecinhas de todos nós que aqui estamos. A minha proposta é chamar-lhe PREC.
Ponto dois, toda a gente vai associar PREC ao processo revolucionário em curso. Só que nós vamos utilizar cada número para aquilo que nos der na bolha, e assim subvertermos a própria ideia feita do PREC, porque no interior das letrinhas vamos sempre meter coisas distintas, o que foi praticado com algum humor.

PREC porquê? Porque é PREC, sim senhor, contra-corrente, o próprio formato, outra vez o papel manteigueiro, e, à semelhança dos velhos jornais, encher aquela página literalmente com um corpo tão pequenino que vale pela mancha. É, em sim mesmo, uma afirmação estética, tipográfica. Depois, se as pessoas quiserem ler, com esforço, claro, até têm lá coisas para ler.

E de um trabalho tão duro, por vezes até às duas, três da manhã, conseguirmos um momento lúdico de trabalho, sempre a rir, e sem expectativas.

Fazemos as coisas porque temos de as fazer, porque está na nossa condição. Depois já não é connosco, já está para fora de nós. E a mim tanto me faz que haja só uma pessoa que tenha lido, criticado aquilo, como dez mil, uma que fosse. Aí não tenho espírito de missão, nem aqui dentro. Isto não é nenhuma igreja, não há aqui nenhuma crença, faz-se porque se tem de fazer, está na nossa condição fazer, fazer assim, saber porque fazemos assim. Perseguimos, sim, uma ideia de harmonia, de beleza, de intervenção, e sabemos que é uma resistência. Resistência é a palavra, à falta de ar vigente, ao obscurantismo, à criação permanente de falsos mitos passageiros.

Legenda: pormenor do Subterrâneo 3 onde se encontra instalada a &etc.
Estantes com arquivos e os exemplares mão esgotados dos livros &etc. A secretária e a cadeira de recosto onde o Vitor se sentava à conversa com quem ia aparecendo. Falta, na secretária, a máquina de escrever. Sim, porque ali nunca houve compudadores.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Já nem sabemos se as lágrimas serão gotas do mar que nos envolve, se é o mar a água das nossas próprias lágrimas.

Mário Dionísios, dos Poemas do Cão Danado em Novo Cancioneiro

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

domingo, 5 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Só as mãos que se estendem para a frente interessam.
Só os olhos que vêem para além do que se vê,
só o que vai para o que vem depois,
só o sacrifício por uma realidade que ainda não existe,
só amor o por qualquer coisa que ainda não se vê e ainda, nem nunca, será nossa,
interessa.

Mário Dionísio de Com Todos os Homens Nas Estadas do Mundo em Novo Cancioneiro