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sábado, 8 de setembro de 2018

ESCREVE! ESCREVE!



Nos primeiros dias de Março começámos a percorrer as 96 páginas da Autobiografia de Mário Dionísio e hoje publicamos a derradeira página.
Um livrinho notável publicado em Dezembro de 1987.
Tentámos dar a conhecer as partes mais significativas, mas trata-se de um livro maravilhoso que exige ser lido no seu todo.
É provável que ainda o encontrem em alfarrabistas ou na Casa da Achada, sede do Centro Mário Dionísio.

O quê? Projectos? Mais projectos? Coço a cabeça, meio envergonhado. Um homem com esta idade! Terei tempo sequer para metade deles?
Vale-me então um espírito maligno, género anãozinho da floresta (outra vez a floresta...) que me pousa no ombro enquanto escrevo ou pinto e que me diz, gozão: «Inquietas-te porquê? Que falta é que tudo isso faz?» E, com esta, arruma-me de vez: «Estás convencido de teres estado sempre certo?»
A defesa, abro o meu irregularíssimo Diário num dia de 63, aí calhou, e leio-o como se a data fosse a de hoje: «Não queiras que cada página seja um monumento. Não queiras tudo. E o melhor ca­minho para não encontrares nada. Não te sintas esmagado pelos grandes nem condoído com a fa­lência dos que detestas ou desprezas ou apenas la­mentas. Escreve. Esquece tudo, tapa os ouvidos, mete-te bem na tua experiência, só na tua expe­riência. Grande ou pequena, é o que tens. Não de­sanimes, não desistas, não te perturbes com a indi­ferença dos outros, não te entusiasmes com os aplausos dos outros. Escreve! Escreve!».

Mário Dionísio em Autobiografia

sábado, 1 de setembro de 2018

VARRER O LIXO


E outros momentos. Soltos. Deslumbrantes na opaca escuridão do que não volta mais. Cada um terá os seus, a sua história privada, a sua respira­ção. A última reunião da Comissão de Escritores do MUD, a que tinha pertencido toda a gente (fal­tavam às vezes cadeiras) e a que, por fim, já só compareciam, inutilmente renitentes, três pessoas: a Manuela Porto, o Flausino Torres, eu. Que coor­denava o sector desde a própria ideia de o formar. Como o dos artistas (arquitectos, pintores, esculto­res, desenhadores, fotógrafos, publicitários) que, a partir de 46, fizeram juntos as suas Exposições num clima de entusiasmo e unidade como nunca houvera no país nem sei se, exactamente assim, te­rá voltado a haver.
 Momentos soltos lucilando na distância. O José Cardoso Pires a bater-me à porta com o seu pri­meiro original. O Piteira a paginar comigo, em minha casa, à noite, a Gazeta musical e de todas as artes.
 A Manuela Porto foi quem primeiro declamou a «Ode Marítima», como nunca mais ninguém faria. E, antes (ou depois?), a nossa poesia que mal ainda despontava, no velho Salão de O Século, com uma palestra introdutória do Armando Bacelar. Vejo-a a beijar, num pé, a minha filha então de meses: «Posso? E um milagre!» E, a seguir, na redacção da Eva, que ela chefiava e onde a vi pela última vez. Estava assente que eu passasse por lá para lhe dar a senha de contacto com o MUNAF, organiza­ção ilegal a que resolvera aderir. Era um prodígio de vontade e de coragem aquela mulher tão frágil, delicada, toda ela poesia. Mas tinha no gabinete, inesperadamente, alguém que não me devia ver, a directora da revista. Vem lá de dentro, à pressa, sorridente. Traz nas mãos as Cartas a um jovem poeta. Deixa a porta entreaberta, só o bastante para que a ouçam bem. «Desculpe não poder hoje rece­bê-lo. Está aqui o livro. Gostei muito». Mímica apressada a explicar porquê o livro e aquela con­versa. Dois dias depois suicidava-se.
 E vejo o Flausino também, muito mais tarde, com o seu arcaboiço de camponês, grossa samarra de gola levantada, já a noite caíra, à porta da sua casa de Tondela, em pleno campo, com os braços estendidos e os olhos molhados: «Tu é que tinhas razão». Enquanto eu, durante o abraço demorado e apertado, retomava um convívio interrompido du­rante anos: «E era preciso ires tão longe?»
Regressara de Praga, depois da invasão. Passara por lá as passas do Algarve nas mãos de uma co­nhecida dirigente, dessas de «antes quebrar que torcer», que se deslocava em luxuosos automóveis de Estado, vivia em bons hotéis por lá e anda agora por aí, nos períodos eleitorais, a fazer a propa­ganda de tudo o que seja de Direita.
Exactamente a mesma. Quando, em 42, fiz a minha conferência na Universidade Popular sobre arte moderna, essa expressão acabada da «burgue­sia decadente», foi ela que comentou: «Que grande desilusão!» Mas não se referia à qualidade da con­ferência. A minha grande falha ideológica é que a deixara desolada...
Varrer o lixo. Sem descanso. Conservar o que nos foge por entre os dedos, como fumo.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Manuela Porto

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

SE EU AINDA FUMASSE...


Terei de dizer uma vez mais, hei-de dizê-lo sempre, que nenhum partido de Esquerda percebeu (ou terá querido perceber), para além dos discur­sos, dos comícios, das entrevistas à Imprensa, não me interessa isso agora, que uma nação secular­mente mergulhada na mais completa ignorância das suas próprias carências (que não são só pão e casa, e mesmo para ter o pão, para ter a casa), exi­gia, antes de tudo, sabem o quê?, ensino. Ensino, no sentido mais vasto e profundo da palavra. Tão vasto e tão profundo que a tarefa imensa de pôr milhões a saber ler e escrever (mas que é ler?, mas que é escrever?) mais não seria que um ponto de partida. Em todas as idades. Em todos os recantos desta terra de milagres, crenças e crendices, de faz como vires fazer. Ensino para que se aprenda a ver com os próprios olhos, a intervir com as próprias mãos, a entender também que nunca é por acaso que se volta a falar, com redobrada insistência, nas suas glórias passadas — no largo Oceano ou nos palcos de revista —, como manda a receita dos bons tempos. Que os funâmbulos estão aí. À espe­ra. As ordens. Não é outra a sua profissão.
 Se eu ainda fumasse. Carregava um cachimbo como os sabia carregar depois de tantos anos de experiência, com pressões diferentes consoante a fundura a que o tabaco vai ficando. Um desses de fornilho alto, boca estreita, boquilha bem compri­da, o fumo chega assim mais frio, mais leve, des­perta o pensamento, dá-lhe asas. Estou olhando à minha volta e em mim mesmo. Que é isto, rapa­zinho? Desconforto? Apreensão?
 Caminhamos para onde? Para a destruição total, aqui e no Planeta inteiro? Ou, computadorizadamente, para um mundo inteiramente novo (novas linguagens, novos sentimentos) que não posso, e isso me desespera, prever sequer como será?
 Desprezível, entretanto, me parece o sorriso fe­liz dos que, no meio da tempestade e das matas em chamas, fingem não dar por elas. Há os que igno­ram (a fome, a poluição, a droga, a sida, o trabalho de menores à vista de toda a gente, a subversão da democracia democraticamente feita por dentro em nome dela, a agressividade, a ameaça nuclear), há os que simulam ignorar. Em qualquer dos casos: desprezível. Nisto insisto. É preciso insistir. Um antiquíssimo espelho põe-se-me na frente: É preci­so? Essa é boa! É preciso? Ou serás mesmo incu­rável?
 E, no entanto, tímidas esperanças se aproximam (sou incurável, sim, não deixarei de sê-lo!): certos aspectos do poder local, um alegre formigar de ac­tividades culturais de jovens que se alarga, de den­tro, por esse país fora e que era impossível antes, não esquecer: e que era impossível antes.
Tem de existir um grande desencontro entre o que escrevo e o que escrevem muitos dos meus contemporâneos. Gosto pouco, em geral, do que eles escrevem. Eles não devem gostar nada do que escrevo. Estamos quites, assim. Boa viagem. Sem ressentimentos.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: fotografia tirada de Autobiografia

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

LUTAVA CONTRA MOINHOS CONTRA O VENTO


A minha longa doença nos começos da vida, a actividade clandestina, sempre embora na legalida­de, o muito trabalho sempre, tudo isso deixa marca e deve ser responsável de um estilo de vida que há--de parecer meio monástico e muito pouco agradará aos nadadores de aquário. Mas ouriço, eu?
Depois do 25 de Abril, com a euforia geral e a minha em particular (como era bom falar com toda a gente em qualquer parte!, ver que afinai isso é possível!), voltei a dar-me mais, a dar-me todo: ar­tigos, entrevistas, discursos, reuniões, frenéticos trabalhos de organização e mobilização na escola, no Ministério, até na RTP, essa cabeça perigosa que também pensa por «milhões de cérebros». Per­tenci até, embora por pouco tempo, na excelente companhia dos profs. Torre de Assunção e Ário de Azevedo, à Comissão de Saneamento do Minis­tério da Educação. Não há razão para ocultá-lo. Apesar do que diz uma linguinha que anda por aí escorrendo baba e devia ser cortada. Pedira-me um velho amigo, então ministro, o Vitorino Magalhães Godinho, que aceitasse a espinhosa e trabalhosa missão. E a verdade é que alguém teria de dispor--se a aceitar certas tarefas, por mais ingratas e difí­ceis. Ou a Revolução se defendia, ou nunca chega­ria a sê-lo. Como não chegou. Mas pouco ali mais fiz do que arrumar a casa, que encontrei em peri­goso desalinho. Pelo menos, nunca mais ninguém levou processos para casa nem lhe deu tratamento ao sabor de preferências pessoais ou partidárias. Mal verifiquei, porém, ser indispensável alterar uma lei que castigava os pequenos (reles informa­dores, outros que tais) e protegia os grandes res­ponsáveis e que o Conselho de Ministros nem que­ria ouvir falar em tal, tanto eu como o companhei­ro exemplar que era o prof. Torre de Assunção, apresentámos o nosso pedido de demissão ao Mi­nistro, que entretanto mudara.
Luta tenaz, tão sincera como ingénua: os abu­tres estavam lá, na sombra ainda. Uma luta, como sempre, assente em dois pontos principais: cultura e unidade. Não me chegara a lição da vida inteira. Lutava contra moinhos, contra o vento.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio no Sanatótio do Caramulo (1970), fotografia tirada de Autobiografia

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

MAS QUEM É ESTE?


Grande frequentador de cafés (quando os havia, e neles muito escrevi, há épocas, gostos, preferên­cias que mudam), nunca frequentei, contudo, os centros oficiosos de convívio de artistas e escrito­res, incluindo jornalistas. Como a célebre «Brasi­leira» do Chiado, paraíso de muitos, onde também os pides iam tomar a sua bica nos intervalos dos interrogatórios ali mesmo a dois passos, na Antó­nio Maria Cardoso. Chegava a haver, parece, quem entrasse, risonho e distraído, estendesse a mão pe­las mesas à volta, «boa tarde!, boa tarde!» e nem via que era o Seixas. Muito menos frequentei, já homem feito, meios de boémia artística ou faz de conta que sim. E mau. Isto cria uma espécie de cortina de gelo à nossa volta, um quase mas quem é este?, de onde vem?, com resultados pouco dese­jáveis nas notícias, nos artigos, cá estamos nós, nas vendas.

Mário Dionísio em Autobiografia

terça-feira, 24 de julho de 2018

SE TIVER OLHOS PARA VER E SE OS QUISER USAR:


E a glória? Essa miragem que tira o sono a tan­ta gente?
 Manda-me a prudência calar o que penso da gló­ria e, muito principalmente, do que tantos fazem para atingi-la. Lá viria o «estão verdes». Fatalmen­te. E sei lá se com razão. Nunca a gente se conhe­ce bem até ao fundo.
 Direi só, serrazinento, que a acho dama engana­dora e tanto mais na época das grandes montagens publicitárias, com poderosas ligações multinacio­nais, tudo o que vem é ganho, etc. e tal. Uma fa­mosa escritora (não só) policial pensa acertadamen­te que «talvez para um escritor muita da sua sorte venha do facto de ter a publicidade certa no mo­mento certo». Publicidade. A explicação de (quase) tudo. Num livrinho que me interessou bastante, sobre a fabricação (será o termo exacto) de contos e romances, não forçosamente policiais, a mesma autora emprega com sintomática frequência o ver­bo ou a ideia de «vender» onde até agora se tem dito, por exemplo, «agradar»: «para conseguir ven­der...», «encontrar um mercado para isto», «uma história que se venderá», «um livro é tanto mais facilmente vendido para televisão e cinema, se...», se «se pretende um determinado mercado...» 
 Pobre do livro transformado em vistoso objecto de consumo. Pobres de todos nós. «Já leste?», «Não, mas tenho lá para ler. Parece que é muito bom». E as edições saindo, tanto melhor assim, e as traduções também (certos agentes são duma criatividade de deixar a boca aberta), e Portugal transformando-se, que me dizem a isto?, num vi­veiro de criadores com manifesta surpresa da Euro­pa e arredores. Um quinto império no papo. Ape­sar da língua aos tropeções, sob vários aspectos, não se fala agora nisso, quem cá ficar verá. Se tiver olhos para ver e se os quiser usar.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio e João José Cochofel, fotografia tirada de Autobiografia

terça-feira, 17 de julho de 2018

TER O INFERNO GARANTIDO


O tempo foi ensinando muita coisa a quase toda a gente. Mesmo a alguns que não sabem que eu sei que. É melhor mudar de assunto. De qualquer modo, as propostas, anteriores e posteriores ao 25 de Abril, para «rever o meu caso», nunca me dis­pus, naturalmente, a aceitá-las. Sem alegria, desejo que se saiba. Sem ponta de vaidade, quer queiram crer, quer não. Se os tais olhinhos fixos e brilhan­tes não são coisa que se esqueça (nunca mais), ou­tro apelo permanece, irrecusável, desde sempre, muito provavelmente para sempre. Ronca mugindo roucamente no espesso nevoeiro. Sem se saber on­de o farol estará. Se existirá.
 Via tudo agora mais de longe e, se me dão li­cença, ainda mais de cima. Ou seja — e assim vol­tamos ao ponto de partida... —, o tal orgulho, bur­guês ou não burguês (pensar-se-á ainda assim?) que me faz ter o inferno garantido.
 Disse um dia a um jornal que os erros dos que estão mais próximos dos meus ideais, mesmo só em teoria, nunca me farão cair nos braços dos inimigos desses mesmos ideais. Disse-o então, digo-o agora. Amanhã a mesma coisa. Espero.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: fotografia tirada de Autobiografia

domingo, 8 de julho de 2018

MAS LÁ QUANTO A DOUTRINA...


Muitos meses depois, já em 53, liberto pois de qualquer disciplina partidária, fiz uma série de oito conferências na Associação de Estudantes da Facul­dade de Ciências de Lisboa, por iniciativa da sua secção cultural.
Público crescente. Pois sou infor­mado de que, enquanto falava, naquele silêncio ávi­do e colaborante que é o prémio maior para qual­quer orador, se bichanava na sala a deitar por fora: «Um tipo bestial. E pena como se portou quando esteve preso. Meteu muita gente dentro». Era in­fantil. Quem me conhecia, e muitos me conhe­ciam, sabia perfeitamente que eu nunca estivera preso.
A verdade é que nenhuma organização tem cul­pa dos seus doentes nem até dos seus períodos de crise sobretudo com dirigentes importantes na ca­deia. O que não obsta a que a bola de neve comece a tentar formar-se.
Não me passou despercebido, já três anos anda­dos e o tosco processo concluído, o tipo de objec­ções que o Mário Sacramento e o meu velho ami­go Óscar Lopes acharam por bem fazer — só eles e só então — a algumas teses expostas n' A Paleta e o Mundo, não se esquecendo ambos de informar os respectivos públicos de que o autor mudara de doutrina e que, embora muito isto e mais aquilo, abandonara «o caminho comum». Quanto a «ca­minho comum», na acepção que lhe davam, era já mais que evidente. Mas lá quanto a doutrina...
Havia muita coisa por detrás, que talvez nem eles conhecessem. Pormenores de importância, ou­so pensar. E, porque a história das ideias, dos paí­ses, dos partidos, finalmente das pessoas, também de pormenores se faz, espero ainda contar os que comigo se prendem (se prenderam) quando tiver espaço para tanto. Não tem pressa. E talvez — é a minha vez de o pensar — não seja o melhor mo­mento para. Resta saber se alguma vez o será.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio na Praia Grande. Fotografia de sua filha Eduarda Dionísio retirada do catálogo Passageiro Clandestino

quinta-feira, 28 de junho de 2018

LEVEI TEMPO A ENTENDER QUE SIM


Tudo se complicava muito porque nós (mas quais de nós?, quantos de nós?) sentíamos, como um espinho na carne, o dever de lutar pela felici­dade dos outros. Não o fazer era uma espécie de pecado. Não sabíamos viver com esse peso, essa hi­pótese sequer, na consciência. Mas lutar seria obe­decer de olhos fechados a uma orientação que (e assim me parecia mais e mais) não levaria a lado algum, à transformação dos homens certamente não? E o papel do intelectual (como o de qualquer outro militante) poderia limitar-se a subir e descer escadas com o único objectivo de subir e descer es­cadas? Não seria sua estrita obrigação (não só dele, mas sobretudo dele) esclarecer, esclarecer, esclare­cer os que só o não são, à partida, por defeituosa, criminosa organização da sociedade? Uns, como eu, pensavam (o Cochofel, o Carlos de Oliveira, o Lopes Graça, não só estes) que a militância do ar­tista deveria ser sobretudo (sobretudo, não só) no campo cultural. E que ela de modo nenhum deve­ria impedir o artista de dedicar-se ao conhecimento profundo da linguagem específica da arte e seus problemas. Que não havia arte revolucionária sem começar por ser arte. Que a desejada acção da arte junto do público, além de arte ser, exigia um míni­mo de preparação da parte deste, a incluir nas tare­fas políticas dos intelectuais. Que — princípio e fim de tudo — considerar a chamada «forma» e o chamado «conteúdo» elementos (metafisicamente) separáveis revelava, não um conceito marxista, mas um «mecanicismo pré-dialéctico», como já lhe chamara, sem que qualquer de nós o pudesse então saber, o insuspeito Mikail Bakhtine. Outros (muito mais poderosos na organização, deliberando o que pensar, desde o vértice da pirâmide a toda a base) defendiam, e com que intransigência!, precisamen­te o contrário.
 Coisas graves me pareciam que a crítica de bai­xo para cima (a inversa nunca esteve em causa), embora muito apregoada, nunca fosse possível exercê-la, que a repetição de palavras de ordem até ao atordoamento, mesmo no interior, substituísse uma cultura cientificamente indagadora, que qual­quer discordância de fundo obtivesse invariavel­mente como resposta: «terás razão, mas não é este o momento de». Quando a cultura não é nunca para amanhã, é sempre para já. O futuro o diria, o presente o está dizendo.
 Por que não se esquecem certas coisas? Ao pas­sar a simples «simpatizante» (era tudo afinal o que então queria e, a custo, consegui), um «amigo» — entre aspas a partir desse preciso instante — disse-me de olhinhos fixos e brilhantes: «Nunca mais farás nada». Mau agoiro para quem queria fa­zer tanto.
 Uma ameaça? Levei tempo a entender que sim.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio. Fotografia tirada do catálogo Passageiro Clandestino

terça-feira, 12 de junho de 2018

UMA PONTA DO VÉU


Embora circunscrita ao sector cultural, assim a quis — propor, coordenar, impulsionar, ligar a zo­na clandestina à zona legal e vice-versa —, a mi­nha actividade política não deixava de crescer. Não era raro levar-me o tempo todo. Porque havia as reuniões (muitas e intermináveis), a sua prepara­ção, a distribuição da imprensa, outras tarefas. Sempre recusei ser promovido no mundo subterrâ­neo, como, depois do 25 de Abril, recusaria por duas vezes ser ministro. Eu não era, nunca fora nem seria um político. Era apenas um artista (bom ou mau é outro assunto) que circunstâncias histó­ricas precisas obrigavam a actuar politicamente. Queria-me soldado só. Mas que difícil fazer enten­der isto aos que nasceram para subir, mesmo que fiquem pelo sonho, de soldado a general!
 Erguia-me no meio da noite e olhava, angustia­do, as mesas de trabalho: a secretária, o estirador.
Não tinha tempo. O ensino, a poesia, a ficção, o ensaio, a malfadada crítica, a pintura. Tudo isto chegaria bem para encher uma vida. Ou não? So­bretudo com a demora e a minúcia que me habi­tuara a pôr em tudo e fizera de mim um animal pouco rentável. Não tinha tempo. Ninguém enten­deria isto? Ninguém entenderia que o duelo não era entre o prazer e o dever? Que era entre a vida e a morte?
 Pertenci ao Partido (escusado dizer qual) até Maio de 1952. E dele resolvi sair por não dispor do tempo indispensável para o que mais na vida me interessava (a corda quebrara) e por outras ra­zões, naturalmente. De ordem teórica, de ordem prática. Caíra, enfim, no burguesíssimo orgulho de querer ver mais e melhor do que a direcção duma organização que pensava «por milhões de cére­bros». Toma lá. Com toda a seriedade. E eu, já muito corroído pelo micróbio decadente: pensar por? nem sequer a rogo de?
Mas não era sequer o que actualmente se chama «um dissidente». Anti-stalinista, sim, e desde sempre, muito embora sem grande consciência dis­so. Ainda nem existia a palavra «stalinismo». Vinham longe o XX Congresso, as grandes revela­ções (confirmações), as primeiras tentativas de «de­gelo». Relendo documentos dessa altura, vejo, com pasmo, que respondia a certas objecções feitas em nome do pensamento de Stáline com frases do mesmíssimo Stáline... Estávamos todos muito ver­des, eu também. O que só será compreendido por quem puder reconstituir a época com a minúcia e a precisão indispensáveis.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Apresentação do MUD, 1945. Mário Dionísio está na 1ª fila, 2º a contar da direita. Fotografia tirada do catálogo Passageiro Clandestino.

sábado, 26 de maio de 2018

O TEMPO PASSA


E outras iniciativas, publicações, antologias, a criação do PEN Clube português - possibilidade de encontros à luz do dia -, palestras, recitais on­de houvesse um recinto praticável. Maior ou mais pequeno. Estou vendo, lá para Alcântara, uma ga­ragem da CUF, que era ou me parece hoje que era imensa, cheia de operários erguendo-se de chofre e aplaudindo poesias, entre as quais a minha «Elegia ao companheiro morto», declamada, com a alma toda, pela Maria Barroso. Saia preta, blusa muito branca, uma imagem do povo inconformado. O tempo passa.
 «Convosco ou não, meu galope é em frente./ /Pertenço a outro mundo, a outra raça, a outra gente.// E andar! E andar!» Versos meus, de 42. Tendo ainda, como vêem, uma pontinha de in­fluência brasileira.
 Falei de amigos. Haverá melhor na vida do que tê-los? Muitos? Uns partem de vez (eram amigos a prazo), outros andaram por longe, regressaram, convertidos à ideia de que não há como beber um copo juntos. Nem que seja de café. Só na desgraça se conhecem bem: sabedoria popular. Fi-los em to­da a parte. No sanatório, por exemplo.
 No sanatório, onde, num daqueles dias infindá­veis, recebi, o mais inesperadamente que é possí­vel, uma carta do Joaquim Namorado a propor-me a inclusão do meu livro Poemas, que ele sabia pronto há muito, na colecção a que ele e outros tinham metido ombros e ia chamar-se «Novo Can­cioneiro». Êxito imprevisto. O volume, com uma gravura na capa do Manuel Ribeiro de Pavia, não chegou às livrarias. Vendeu-se rapidamente, de mão em mão, houve quem o passasse à máquina. Foi o segundo volume da colecção, que começara, com Terra, do Fernando Namora, também em 41.
 Fui e sou amigo de um bom punhado de gente. E, todavia (os absurdos da vida!), talvez ninguém tenha cortado tanto relações como eu. Chego a perguntar-me, descontente comigo, se chegará para o Guinness...
 Foi-me sempre difícil suportar, sem corte radi­cal, a mentira, a prepotência, a traiçãozeca. Ado­lescência retardada. Como se um corte de relações pudesse excluir da vida essas misérias pegajosas. Arrependido? Em grande parte dos casos, realmen­te não. Mal que não se tem em frente do nariz sente-se menos, não cheira. Noutros, hesito. No fundo, as pessoas mudam, eu próprio terei mudado alguma coisa. Talvez hoje pudesse conviver sem custo, bem pelo contrário, com gente a que não fa­lo por antigos excessos de rigor. Certas arranhade­las, de que simulei não dar-me conta na altura própria (necessidades de estratégia de outra or­dem), comprovam-me que sim.
 Porque ofensa, ofensa mesmo, e pública, só me lembro de três casos, biliosa de mais num, desrazoada de mais nos outros, para que fale aqui neles. Merecem só silêncio. Além de que até isso o tem­po vai gastando um pouco.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Maria Barroso, fotografia tirada daqui.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

VIRA O DISCO E TOCA O MESMO!


Tenho de confessar que A Paleta foi excelen­temente recebida. Além da generosidade das refe­rências e do espontâneo interesse duma grande editorial espanhola, mereceu em 62, por unani­midade, o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escritores.Os prémios não se ti­nham ainda banalizado. E tratava-se então de uma promoção exclusivamente cultural. Como acontecia também com o Prémio Camilo Castelo Branco (obras de ficção), a cujo júri quase sempre perten­ci. Digo-o sem desprimor para os tantos prémios de hoje. Não se leia mais do que aqui escrevo. Mas era outra a canção. Indiscutivelmente. 
Enchia-se-nos a casa de amigos. Velhos e novos ­amigos. Com muita parra à mistura, é bem verda­de. Não há uvas sem parras. Juntos projectámos e organizámos, na mesma sala onde lavro este do­cumento para a posteridade (que não há), muita coisa que esforçadamente ergueu o punho contra a barbárie fascista. Se esta sala falasse, nunca mais se calava.
As conferências, por exemplo, do Grémio Alen­tejano, que assim se chamava, em 43, a Casa do Alentejo, foram aqui planeadas. Uma série de pa­lestras ilustradas com recitais de poesia e música (de música, estou dizendo), destinadas a um vasto público e aqui pensadas por amigos vários, entre os quais me ocorrem de momento a Francine Benoit, o Sidónio Muralha, o Alexandre Cabral, de cabelos à cão-d'água, risca ao meio, camisa azul-da-prússia e gravata amarela, jogava râguebi, bem bom. Co­mo era então difícil conseguir uma sala! E alugar um piano?
A primeira conferência, do Bento de Jesus Caraça - «Algumas reflexões sobre Arte» - sala cheia, decorreu sem problemas de maior. Mas, na segunda (e última), já os mastins tinham acordado, tudo mudou de figura. Sala ainda mais cheia. Fala­va o Lopes Graça sobre música medieval e punha um novo disco para documentar o que dizia, quan­do, no silêncio momentâneo, se ouviu, lá das últi­mas filas, uma voz avinhada, toda escorropichante: «Vira o disco e toca o mesmo!»
Era o sinal. Os mercenários atiraram-se ao pú­blico como feras esfaimadas. Cães à solta. Confu­são. As coisas não foram, no entanto, assim tão fáceis para eles. Nós tínhamos, a toda a volta da sala, um cordão de operários da Carris, trazidos pe­lo Cabral, me parece, que trabalhava na empresa. De livre vontade ali estavam para o que desse e viesse. E o que veio foi uma sessão de brutal pan­cadaria. Brutal, não exagero. Os mastins excitavam-se a si mesmos, trepando a cadeiras para ber­rar: «Quem é que disse morra a Pátria?» E, dessas mesmas cadeiras se servindo como camartelos, ber­ravam: «Viva a Pátria! Viva Salazar!» Os corpos engalfinhavam-se nas salas, rebolavam pelas esca­das do Grémio Alentejano abaixo até à rua e, na rua, até à esquadra do Rossio. Apesar da indignação que tudo isto provocava, ainda nos mais calmos, Caraça maravilhava-se: como era possível haver ainda gente pronta a bater-se, e de tal modo, em defesa da cultura! Pedra branca para mim: foi no fim dessa refrega que conheci o Ludgero Pinto Basto, recém-chegado da prisão, em Angra.

Mário Dionísio em Autobiografia

segunda-feira, 7 de maio de 2018

CAMPONESES QUE SÓ SE TINHAM VISTO DA JANELA DO COMBOIO


Creio ter contribuído alguma coisa para dotar o neo-realismo de uma nova dimensão, outra lingua­gem, na poesia, na ficção, na teoria (a ordem é arbitrária), como os pesquisadores, se os houver e forem capazes de, talvez confirmem. Que não es­queçam as datas por favor.
 O problema principal, para mim, seria nunca escrever sobre camponeses que só se tinham visto da janela do comboio, de acordo com o que o Na­mora dissera na nota introdutória do seu livro do «Novo Cancioneiro»: «Este é um livro da Terra: da Terra que não foi vista da janela do comboio». Nunca escrever, portanto, sobre camponeses mol­dados nos de romances de alheias literaturas, mas só sobre gente e meios que o autor directamente conhecesse. E tão de dentro quanto possível. Nu­ma entrevista posterior (a tal dada a O Primeiro de Janeiro), tornaria isto bem claro. Era muito natural que, na relação camponeses/operários, os campone­ses fossem os preferidos e bem se entenderá por­quê. A censura tinha os olhos muito mais abertos para o que se referisse àqueles. Os problemas que os operários suscitavam tornavam-nos mais difíceis (perigosos) de tratar. A explosão no campo (a ve­lha pobreza do camponês) era um tema sabido e de algum modo consentido, tinha uma longa tradição que ajudava a ocultar os novos propósitos com que o abordavam, enquanto a exploração na cidade, sobretudo nas fábricas, era inevitavelmente explosiva.
 Mas não havia só camponeses e operários. Ha­via a sociedade inteira: tudo dependia do «ponto de vista» (ver outra vez a citada entrevista). Havia, nomeadamente, a pequena-burguesia a que todos pertencíamos, que conhecíamos de dentro e que tinha (teria), quanto a mim, um papel importante na situação política portuguesa. Não inventada, mas observada e pessoalmente vivida, a pequena-burguesia permitiria trazer a nossa ficção para a cidade. E foi o que fiz em quase todo O Dia Cin­zento. Por isso terá sido tão mal compreendido quando apareceu. Mas a actividade clandestina lá está, e na cidade. Bastou o pequeno truque de dar nomes estrangeiros às personagens (na 1ª edição), simulando, para a censura, tratar-se duma história da Resistência francesa. As pessoas, contudo, as ruas, os recintos descritos no «Nevoeiro na cida­de» são de Lisboa. A casa da personagem principal é na Calçada dos Cavaleiros, o café é em frente da estação do Rossio. Aí os via, escrevendo.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda; desenho de Lima de Freitas

segunda-feira, 30 de abril de 2018

NÓS AMÁVAMOS MUITO E SABÍAMOS POUCO


A guerra de Espanha, aqui ao lado, vivida dia a dia e hora a hora com o ouvido colado aos apare­lhos de TSF, por causa das interferências meticulo­samente provocadas, por causa dos vizinhos (fos­sem eles quem fossem), com projectos ansiosos de ir lá ter («Partir./Partir para a pátria instável onde o grito salta das veias», versos meus de 38) e o re­morso de ficar. As notícias diárias dos bombardea­mentos, dos fuzilamentos, das aldeias destruídas, sem pão, sem armas. E o «no pasarón!». O não passarão vibrando no nosso desespero, ainda antes de gritado nas barricadas de Madrid, sentido em silêncio e lágrimas, neste país agrilhoado, esvaziado, com os amigos perseguidos, presos, torturados, muitos deles mortos não se sabia onde. Houve um tempo em que nem saber onde estavam se podia.
 Tudo isso foi raiz (e corpo) do neo-realismo. Do neo-realismo de que participei desde a hora antes do amanhecer, com o Joaquim Namorado, o Re­dol, o Namora, o Fonseca, o Carlos de Oliveira, muitos mais. Do neo-realismo que rapidamente se propagou e diferenciou. Que era e continua a ser motivo de confusões intencionais, involuntárias, talvez inevitáveis. Apesar de tudo o que, também eu, sobre ele escrevi e repeti. Dos estudos que al­guns lhe têm dedicado.
 Nós amávamos muito e sabíamos pouco. «A re­forma social» (e estética) «esbarrava na própria so­ciedade néscia que havia sido o caldo de cultura dos neo-realistas e também o [de mim] próprio», como bem diz um estudioso do movimento, ele próprio neo-realista, embora não da primeira va­ga. Líamos Barbusse, Gorki e Gladkov, os brasi­leiros, misturando Romain Rolland, Oscar Wilde, Tolstoi e Erich Maria Remarque, Panait Istrati e Malraux. Vagamente conhecíamos o Orpheu, pou­co melhor a própria Presença que tão juvenilmente combatíamos. Moralmente, estavam-nos vedadas grandes paixões futuras: o Proust, o Gide, Katherine Mansfield, tantos e tantos mais. Muitas vezes me espanta como, com tão pouca bagagem, podía­mos viajar até tão longe.
 A luta entre neo-realismo e surrealismo foi em parte um equívoco a que o nosso gueto forçosa­mente nos levou. Ao contrário do que aconteceu em França, o surrealismo em Portugal é posterior ao neo-realismo. Lá, muitos surrealistas, a começar por Aragon e Éluard, se tornaram comunistas e deram então à sua obra um cunho directamente social e político. Aqui, pelo contrário, foram os neo-realistas, não muitos na verdade, que se torna­ram surrealistas e se afastaram duma frente de combate que não lhes oferecia o espírito de renova­ção estética a que aspiravam. Aqui, ao contrário do que aconteceu em França, é a poesia de carácter directamente social que adoptará métodos criati­vos que só o surrealismo poderia fornecer-lhes. Não foi o que eu próprio fiz n' O Riso Dissonante, por exemplo, ou no Feu qui dort: «une pluie de taureaux est tombée sur la ville»? Dizer a verdade é bom.
 Entretanto, valerá a pena ao menos insistir em que: primeiro, nunca concordei com a designação de neo-realismo, que se deve a uma infeliz inspira­ção de momento do Joaquim Namorado, meu grande amigo até à morte; segundo, para mim, «neo-realismo» não era nem poderia ser uma outra maneira de, por razões de censura, dizer «realismo socialista»; terceiro, para mim ainda, o neo-realismo deveria ser a expressão estética duma vi­são marxista do mundo e, sendo esta tão complexa como se sabe (quem o sabe), aquele movimento — nunca «escola» — teria de desdobrar-se em diver­sas maneiras, gostos, soluções imprevisíveis — o que efectivamente aconteceu. O seu domínio seria o do «extremamente complexo conhecimento dia­léctico do homem» (Lenine). Complexo e dialécti­co, façam favor de tomar nota. Seria a voz duma classe em ascensão, de um mundo (um homem) necessariamente novo, que, como tal, teria de in­tegrar toda a herança do passado, incluindo a da classe a que se opunha. Aí estava a utopia.

Mário Dionísio em Autobiografia

domingo, 22 de abril de 2018

ENCONTREI GENTE QUE SÓ CONHECIA DOS ROMANCES DE GORKI


Na Faculdade, pois, a política ilegal e meio-legal: eleições para delegados ao Senado Universi­tário (pela última vez), assembleias para a criação de uma Associação de Estudantes, que não havia e continuou a não haver, protestos contra a expulsão do Prof. Rodrigues Lapa. Ali conheci, enfim, aque­la que seria a minha companheira para sempre, nos bons e nos maus momentos. E nos péssimos também. Como o da grave doença revelada dezoito dias depois do nosso casamento (sangue no chão de tanta felicidade) e que durou três longuíssimos anos. Ela mantinha a casa, ela me inventava a es­perança. Misteriosamente. Alegremente, se assim se pode dizer. Coração mais cabeça e muita dedica­ção, eis de onde vêm os milagres.
 Mas voltando ainda à Faculdade. Não sabia on­de começava e onde acabava o amor, a luta pela li­berdade e pela transformação do mundo, a criação poética. Engolia o Altolaguirre, o Emilio Prados, o Lorca muito menos (nunca soube explicar isto, te­nha embora um poema que parece inspiradíssimo num dele mas não é: desconhecia ainda o belíssimo «eran las cinco en punto de la tarde»), o Rafael Alberti, mais que todos talvez. Sonhava declamar, como ele, um grande poema na frente de combate. A minha convicção era que versos de tal modo declamados (mas tinham de ser bons, era o que já pensava) fariam recuar os tanques do inimigo, quebrar grades de cadeias, erguer bandeiras com multidões de esfarrapados atrás delas. Armazenar os explosivos. Pegar fogo ao rastilho. Vieram-me dizer: «Foste falado nos interrogatórios desta noite. Põe-te a andar».
 Desapareci de Lisboa até serem libertados os in­terrogados dessa noite, meti-me no Alentejo, en­contrei gente que só conhecia dos romances de Gorki. Tratavam-me como um irmão, davam-me a chave da própria casa, «para se precisares, de noite». E não eram operários nem rurais. Um tra­balhava numa farmácia, outro nos Caminhos de Ferro, outro num escritório. Chamava-se este Mar­quês. Por meu intermédio entrou na actividade clandestina e, quem o suporia então?, seria morto anos mais tarde nas torturas da PIDE.
 Quantas horas tinha cada dia? Quantos éramos ao todo? Impossível sabê-lo. Sabíamos, sim, que a situação portuguesa não se podia suportar (e trinta e muitos anos mais a suportámos), que ela se in­tegrava, numa situação internacional a nossos olhos de leitura fácil, que obrigava a tomar e a fa­zer tomar partido. E que a única esperança brilha­va, muito longe, nesta frase do autor de Tomás Gordeiev. «Nasce um novo sol no coração do Ho­mem». Frase que forçosamente se confundia, para muitos de nós, com um país imenso, onde houvera a maior Revolução do nosso tempo, raivosamente defendido de múltiplas e simultâneas tentativas de invasão, heroicamente resistindo à fome, à neve, à falta de quadros superiores: «Proletários de todos os países, uni-vos!» País sobre o qual muito líamos e falávamos, sobre o qual afinal pouco sabíamos e era, seria o centro de tudo durante muitos anos.
 Ou se mudava o Homem, ou não se mudava nada. Era o que pensava então, é o que penso ho­je. Os versos do meu livro Poemas (36 a 38) disto falavam, os de Terceira Idade (82), também. E o mais que escrevi. Escrever é outra coisa («uma coi­sa é ver, outra pintar», Picasso), mas relaciona-se com tudo.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Máximo Gorki

quinta-feira, 5 de abril de 2018

A NECESSIDADE DE CUMPRIR


A obsessão do dever, o escrúpulo de cumprir o combinado, a tendência para estar sempre a horas (pontualidade = minutos antes de) sempre foi muito forte em mim. Possível conclusão: a educação con­ta mais do que se julga e a actividade clandestina, que é também uma escola, conta ainda mais. E quem pensar que o digo para gabar-me, não es­queça, para não errar, que tal tipo de comporta­mento nunca foi coisa de que artistas costumem orgulhar-se, nem muito propícia, na verdade, à criação. Para certos temperamentos, como o meu: a arte nada tem com qualquer espécie de negócio e tudo com o ócio. De que nasce.
 Vêm-me à cabeça casos em que espontaneamen­te esta necessidade de cumprir foi posta à prova. Em 1963, tendo aceitado colaborar num número de O Tempo e o Modo, dedicado por sinal ao tema de se «A arte deverá ter por fim a verdade práti­ca», cai-me em cima da cabeça a necessidade de fa­zer uma operação de urgência. «O Carneiro de Moura tira-lhe isso num instante!» – mandou-me dizer o prof. Pulido Valente, que, com a amizade que sempre lhe devi, diagnosticara rapidamente o mal, já no leito de que não mais se levantou. «Isso» era um simpático quisto sebáceo, do tama­nho duma laranja, o sacripanta, bem agarrado à parede exterior do rim, que outros me queriam ar­rancar, não o quisto mas o rim... Em exames pré­vios e inúteis já me tinham provocado uma exce­lentíssima infecção que ia acabando ali comigo. Dei, pois, entrada no Hospital de Santa Maria em estado lastimável, sem tempo nem cabeça para es­crever fosse o que fosse, adeus depoimento. Mas, na véspera da operação, à noite, quando a minha mulher, inquieta, se despedia, até ao dia seguinte (horas boas!, inútil é contá-las a quem as não co­nhece de vivê-las!), digo-lhe eu, a fazer de homem que não treme: «Amanhã de manhã, quando esti­ver na sala de operações, vem ver na gaveta aqui na banca. Se este bloco tiver alguma coisa escrita, passa-a à máquina, por favor, e fá-la chegar ao Bénard da Costa. Vou tentar». E assim foi. Quando a enfermeira abriu a porta com os comprimidos da praxe, eu estava dentro da rotina por experiência, pedi-lhe que voltasse dentro de meia hora, poderia ser? Ela que sim, amável, parecia adivinhar, e eu, mal sentado na cama, lá consegui rabiscar em cima dos joelhos, que não sobre o joelho, um pequeno texto que era quase o prometido6. Guardei o bloco na gaveta, esperei o regresso da simpática enfer­meira, engoli os comprimidos e, todo entregue já ao meu destino, apaguei a luz satisfeito comigo. Tinha feito o possível.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: retrato de Mário Dionísio por João Abel Manta retirado do site do Centro Mário Dionísio/Casa da Achada

segunda-feira, 26 de março de 2018

AGORA SÃO SÓ PEDAGOGIAS?NÃO TEM ESCRITO NADA?


Ensinar como simples ganha-pão é repugnante. E era o que então fazia. Num colegiozinho de má morte, ao Bairro Alto, onde o não ter o curso concluído nem possuir qualquer diploma para o ofício permitia ao director pagar-me o que bem lhe parecia. Um director de truz, bigodeira de pontas reviradas, bata branca, que também dava a sua au­la, sim senhor, mas se ocupava muito mais com vender aos cachopos cadernos, lápis, rebuçados... Artigo 1.° (pensava eu, imaginando leis fundamen­tais que deveria haver): é expressamente proibida qualquer forma de negócio em matéria de ensino. Mas só mais tarde sentiria a grande revelação: en­sinar de verdade (forma excelsa de comunicação), reaprender sempre a ensinar, ensinar a ensinar. Como um profissional. Indispensável. Mas também como uma dádiva feliz e inteira, exactamente igual à que exige o acto de criar seja o que for. Depois disso, raras vezes ensinei com sacrifício. Não direi «nunca». Mentiria. O normal era, contudo, fazê-lo com verdadeira entrega interior e algum êxito, pa­rece. Desde a escola do ensino técnico onde verda­deiramente assentei praça (ainda aí só quase ganha--pão, mas já só quase), ao trabalhoso e abençoado estágio, interrompido durante dezoito anos (malhas que o Império tecia...), aos longos anos no parti­cular — não tinha outra saída —, ao ensino secun­dário oficial, em vários dos seus escalões, à meto­dologia, à Comissão de Estudo da Reforma Educa­tiva, a que presidi, logo após o 25 de Abril (era ainda ensinar, era ainda paixão), enfim, à Faculda­de, onde a história acabou quando tinha de acabar.
Nunca consegui convencer deste prazer e sobretudo da sua utilidade os escritores meus amigos. Eles viam na maneira absorvente como ao ensino me entregava a mais indesculpável das infidelida­des. Que assim não podia ser. Que eu não nascera «para aquilo». Nascera «para mais», pensavam eles. E enchia-me de tristeza que não pudessem perceber. O Ferreira de Castro, por exemplo, quan­do, no Verão, estando ele em Sintra e eu em Galamares, nos encontrávamos com bastante frequên­cia: «Cuidado! Não deixe passar a idade. O tempo voa...» Mas os «piores» eram o Carlos de Oliveira, o José Gomes Ferreira, o Cochofel. Porque com estes estava eu todos os dias, tinha-os ali à perna. O Carlos —olha quem! — nem pensar em desar­mar. «Então agora são só pedagogias?» Irónico, implacável. E logo sério, com a amizade do costu­me: «Mas não tem escrito nada? Mesmo nada?» Como se o mundo fosse acabar por isso. Já publi­cara aliás grande número dos meus livros. E men­tia para mudar de assunto. Mas não mentia muito. Na verdade, escrever era o meu vício. Andava às voltas, havia perto de três anos, com o Não há Morte nem Princípio, cujo original ele, a seu tem­po, leria com o empenho que só os amigos sabem o que é. Com o mesmo com que eu lia os dele, cheios ainda de emendas, papelinhos colados, a in­satisfação em carne viva.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: retrato de Carlos de Oliveira da autoria de Mário Dionísio

sábado, 17 de março de 2018

DESTINOS


Filho único, não cheguei, porém, a contrair as maleitas de tão vantajosa situação, ou depressa de­las me curei. Mas não ponho as mãos no fogo. Quem sabe se uma sensibilidade às vezes exagerada (nunca tive vergonha de chorar, se é caso disso) não virá daí mesmo?
Sem pai aos onze anos (tinha ele trinta e qua­tro), sem avô paterno aos quinze (o materno já lá ia há muito), sem mãe aos dezassete (tinha ela trin­ta e oito), vivendo depois com uma avó atingida por doença mental, que uns tios haviam de levar para sua casa, longe, cedo me vi completamente só, cercado pelos tais lobos do homem, aliás exce­lentemente engravatados, os pequenos, melífluos sorrisos, mão rapace. Senhores! Como é que, com dezassete anos e a exclusiva experiência de menino de família, se administra um prédio a cair aos bo­cados, ainda por cima hipotecado — era a heran­ça —, e se lida com usurários que exibem na pare­de, por trás da secretária, este dístico solerte que nunca mais esqueci: «A melhor maneira de perder um amigo é emprestar-lhe dinheiro»? O caminho era vender, vender depressa, ainda que ao desbara­to, pagar tudo e mais que fosse e, depois, ficar roendo o que restasse. Se alguma coisa restasse.
Foi então com certeza que nasceu em mim para todo o sempre o horror ao mundo dos negócios, o conceito de explorado e explorador (muito antes de ler Marx), a ânsia quixotesca de transformar a vida (nem de nome conhecia ainda Lenine), a descober­ta de que o trabalho é a única solução para quem, não preferindo suicidar-se, queira viver com algu­ma dignidade numa sociedade que a não tem. Mas trabalhar em quê?
Houve aqui um factor decisivo. O desapareci­mento dos meus pais, ambos tão jovens e em tais circunstâncias. Ele, em Africa, por falta de meios de tratamento. Ela, em Lisboa, por erro de diag­nóstico: tinha uma pleurisia e tratavam-na de cál­culos nos rins! Vêm-me acordar, alta noite, «meni­no, menino, a sua mãe!», corro ao hospital, ouço-a dizer — ou julgo ter ouvido — «sê sempre bom, meu filho», descem-lhe a cama articulada, enquan­to o dia desponta, atalham-lhe os queixos, como se aquilo não fosse já a minha mãe e não era, a ver­dade é que não era. Eis o que explicará aquela an­gústia, aquele cepticismo tão pouco próprios da idade. Uma visão do mundo alheia a toda a espe­rança, que a versalhada que fazia bem deixaria ver, se, com louvável e oportuna sensatez, a não tivesse rasgado. O mais negro do Antero é que me sabia bem. E o Nobre, está claro. Embora já não fosse meu livro de cabeceira. Mas tanta desventura deu--me afinal (cinicamente se diria: há males que vêm por bem) a felicidade suprema de poder escolher.

A família destinara-me a Direito. E lá tinha as suas razões, sobre as quais ninguém me ouvira. Assim se usava ao tempo. Mas agora, que podia fazer de mim o que quisesse (nem sempre é doce a liberdade), de modo algum me apanhariam em Di­reito. Escolher o que menos rende? Por que não? Era Letras o que eu queria. Letras escolhi, com algum equívoco, sem dúvida.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio com 9 anos. Fotografia do catálogo «Passageiro Clandestino»

sexta-feira, 9 de março de 2018

A PÁTRIA AGRADECIDA VOS CONTEMPLA


Na rua Andrade, número dois, rés-do-chão, ao canto do piano. Eis o que, em garoto, invariavel­mente respondia a quem me perguntava: onde é que tu nasceste? Ouvira qualquer coisa parecida, transformara-a. As pessoas gostavam de ouvir a patetice. Faziam-me repeti-la. Eu repetia-a. Ainda sem saber que 1916 havia de carregar-se deste pe­so todo nos meus ombros, confundindo, para mim, esse ano dos princípios do século com o começo do Mundo. Ano de guerra mundial — a «Gran­de»! — por onde o meu pai andou a fazer não sei o quê.
(…)
O aluno pouco mais que medíocre no liceu tomava corpo nas salas penumbrosas da antiga Faculdade de Le­tras, afinava a própria voz e ensaiava gloriazinhas locais. Embora nem tudo fossem rosas, longe dis­so. E mesmo as rosas têm espinhos, toda a gente o sabe bem. Dum desaire importante e bastante ines­perado ficou-me só a pobre consolação de ter sido o primeiro a pronunciar em sessão pública naquela velha Casa, o nome de Pessoa. Bem antes, pois, de nascer e se espalhar por esse mundo fora o culto «pessoano», a que nos sentimos hoje todos obriga­dos, no duplo sentido da palavra. Estava-se em 1938 e era um trabalho bem modesto, apressado, superficial, uma pretensa introdução à leitura da «Ode Marítima». Para pouco mais que analfabetos. Coisas de que ainda coro. E se o arguente (Agos­tinho de Campos) lhe teceu, ao contrário do que eu esperava, tão desmedidos elogios, e perante tan­ta gente, só pude e posso atribuí-lo à audácia do tema, que era ali, também para ele, completa novidade. Já entretanto publicara, ainda no liceu, uma revista, Prisma, que só tivera um número, como merecia, e dois livrinhos (dois livrecos) que viria a riscar da minha tábua bibliográfica, tão verdes me haviam de parecer em breve. Sonetos e sonetilhos por aqui e por ali. Já fundara, co-dirigira e pagina­ra, em 34, o semanário Gleba. Já entrara para a redacção de Liberdade, a convite da gente mais des­temida desse tempo, tal como sucedeu, no mesmíssimo dia, ao Álvaro Cunhal, logo a seguir, ao Magalhães Vilhena. Como, anos depois, em 39, com um grupo maior, o grupo propriamente dito, ficaria à testa de O Diabo, escrevendo talvez de mais e, ao mesmo tempo, enviando o que podia ao Sol Nascente e a tudo o mais que aparecesse. En­fim, a pátria agradecida vos contempla.

Mário Dionísio em Autobiografia

sexta-feira, 2 de março de 2018

ATROPELAMENTO E FUGA


Contar a minha vida. Sempre que me falam nis­so, imagino-me sentado num banco de cozinha, com um grosso camisolão, ombros caídos, a olhar por uma janela alta e estreita o que ela deixa ver da floresta. Alguém deixou um machado na peque­na clareira em frente da janela. Andarão a rachar lenha. Grandes aves esvoaçam lá por fora, não muito alto decerto. E, além disto, silêncio. O pro­fundo silêncio do que não volta mais.
Mas que floresta? Nunca vivi em nenhuma flo­resta. Nem sequer perto de. Talvez uma lógica in­terna — penso então — comande os próprios des­mandos do nosso pensamento. E esse indivíduo mais ou menos ruço, no meio da cozinha lajeada, olhando o que não existe, queira dizer apenas que tudo foi bastante diferente do que eu teria deseja­do. Ou será a suspeita (uma quase certeza) de que contar a nossa vida é impossível. Por isso, à ideia de lembrar o que vivi e como, correrei a meter-me na pele de um qualquer em que mal me reconhe­ço. É o que se chama atropelamento e fuga.

Mário Dionísio em Autobiografia