Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Dionísio Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Dionísio Livros. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

OLHAR AS CAPAS



O Dia Cinzento e Outros Contos

Mário Dionísio
Desenho inédito de Júlio Pomar
Obras de Mário Dioníssio nº 2
Publicações Europa-América, Lisboa, 1967

Àquela hora o trânsito complicava-se. As lojas, os escritórios, algumas oficinas, atiravam para a rua centenas de pessoas. E as ruas, as praças, as paragens dos eléctricos, que tinham sido planeadas quando não havia nas lojas, nos escritórios e nas oficinas tanta gente, ficavam repletas dum momento para o outro. Nos largos passeios das grandes praças havia encontrões. As pessoas de aprumo tinham de fechar os olhos àquele desacato e não viam remédio senão receber e dar encontrões também e praguejar algumas vezes. Os eléctricos apinhavam-se na linha à frente uns dos outros. Seguiam morosamente, carregados até aos estribos e por fora dos estri­bos, atrás, no salva-vidas, com as tais centenas de pessoas que saltavam àquela hora apressada­mente das lojas, dos escritórios, das oficinas. Além disso, nos dias bonitos como aquele, as ruas da Baixa enchiam-se de elegantes que iam dar a sua volta, às cinco horas, pelas lojas de novidades e pelas casas de chá, para matar o tempo de qual­quer maneira, ver caras conhecidas, cumprimen­tar e ser cumprimentadas, e só voltavam a casa à hora do jantar.
A multidão propunha uma confraternização à força. Era preciso pedir desculpa ao marçano que se acabava de pisar, implorar às pessoas pen­duradas no eléctrico que se apertassem um pouco mais para se poder arrumar um pé, nada mais que um pé, num cantinho do estribo, muitas vezes sorrir para gente que nunca se tinha visto antes e apetecia insultar. Os elegantes e as elegantes achavam naturalmente tudo isto muito aborre­cido. Sobretudo a necessidade absoluta de seguir naquelas plataformas repletas em que não viaja­vam só cavalheiros, mas muitos homenzinhos pouco correctos e onde esses mesmos homenzi­nhos e mulheres vulgares deitavam um cheiro insuportável. Que fazer, no entanto, senão ati­rar-se uma pessoa também para aquele mar de gente que empurrava, furava, pisava e barafus­tava até chegar ao carro? Que fazer senão em­purrar, furar, pisar e barafustar também?
O carro seguia morosamente e repleto como os outros. Felizmente, ainda havia alguns homens correctos na cidade e algumas mulherezinhas que conheciam o seu lugar. Só graças a isso as se­nhoras que tinham arriscado os seus sapatos e os seus chapéus naquela refrega e alguns cavalhei­ros respeitáveis conseguiam sentar-se.

(Excerto do conto Assobiando à Vontade)

quinta-feira, 26 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS



Terceira Idade

Mário Dionísio
Obras de Mário Dionísio nº 10
Publicações Europa-América, Lisboa s/d

(1 de Julho de 81: morte do Carlos de Oliveira)

É hoje o primeiro dia
em que há mundo sem ti

Esforço-me por entender o sem sentido disto

Mas não se pensa o que se chora
Espanto-me sim de esta cidade para mim vazia
ser para os outros como sempre a vi

Que pode haver agora?
Que enganosa miragem?
Tu não foste fazer uma viagem
Tua ausência não é um intervalo

Vai-se indo pouco a pouco o porque existo
E nunca mais também sem ti
saberei sequer reinventá-lo

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Autobiografia

Mário Dionísio
Colecção Autobiografias nº 3
Edições O Jornal, Lisboa, Dezembro de 1987

Disse um dia a um jornal que os erros dos que estão mais próximos dos meus ideais, mesmo só em teoria, nunca me farão cair nos braços dos inimigos desses mesmos ideais. Disse-o então, digo-o agora. Amanhã a mesma coisa. Espero.

domingo, 29 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Memória Dum Pintor Desconhecido.

Mário Dionísio
Colecção Poetas de Hoje nº 19
Portugália Editora, Lisboa Dezembro 1965

Com o dedo escreves
no vidro molhado
uma palavra indecifrável

Às oito e meia da manhã
na cidade apressada
ninguém a pode ver

Mas quem ouve o segredo
desse arabesco de árvore
já não vai ao emprego

Fica tonto a olhar
internecidamente
tudo e nada

mesmo sem entender



Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política. A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.