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sábado, 9 de novembro de 2019

PIOR QUE NÃO CANTAR


Pior que não cantar
é cantar sem saber o que se canta

Pior que não gritar
é gritar só porque um grito algures se levanta

Pior que não andar
é ir andando atrás de alguém que manda

Sem amor e sem raiva as bandeiras são pano
que só vento electriza
em ruidosa confusão
de engano

A Revolução
não se burocratiza

Mário Dionísio em Terceira Idade

Legenda: pintura de Vilhelm Hammershøi

sábado, 7 de setembro de 2019

RELACIONADOS


Neste número 7 das Notícias do Bloqueio encontramos poemas de:

Joaquim Namorado
João Rui de Sousa
Alexandre O’ Neill
Jean Todrani, poemas traduzidos por Egito Gonçalves

Em separata, um desenho de Domingos Pinho a ilustrar o poema Ode de Mário Dionísio.



quinta-feira, 26 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS



Terceira Idade

Mário Dionísio
Obras de Mário Dionísio nº 10
Publicações Europa-América, Lisboa s/d

(1 de Julho de 81: morte do Carlos de Oliveira)

É hoje o primeiro dia
em que há mundo sem ti

Esforço-me por entender o sem sentido disto

Mas não se pensa o que se chora
Espanto-me sim de esta cidade para mim vazia
ser para os outros como sempre a vi

Que pode haver agora?
Que enganosa miragem?
Tu não foste fazer uma viagem
Tua ausência não é um intervalo

Vai-se indo pouco a pouco o porque existo
E nunca mais também sem ti
saberei sequer reinventá-lo

sábado, 17 de fevereiro de 2018

PARA SER LIDO MAIS TARDE


Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar

quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando

já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres

quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho

para ti será o começo de tudo

Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim será já tão frio e já tão tarde

E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara 

Mário Dionísio

sexta-feira, 19 de maio de 2017

CANTO DE BAR


Canta, cantor esquecido, tuas valsas de angústia!

Aqui o canto de bar
onde vêm parar os que serão suicidas,
gente de todas as nações falando todas as línguas,
emigrados de todos os países.
Aqui o canto de bar
onde ancorou o jogador arruinado
e as mulheres que perderam o número dos amantes
e os moços que sonharam vidas que não puderam ter.
Onde os cantores esquecidos cantam valsas lentas e antigas
que trazem a recordação de lares despedaçados.
Onde vieram parar os maltrapilhos perdidos para sempre
e onde as valsas cantadas por vozes arrastadas,
que lembram multidões de coisas,
já não trazem a mínima saudade.
Aqui onde se sabe indiferentemente
que o homem saído há pouco
estendeu a corda e se enforcou na escada.
Aqui onde se joga tudo sem interesse
porque já não há nada para jogar.
É o canto soturno
onde não entra sol nem lua.
Janelas fechadas, só fumo e luz vermelha.
Homens de todas as raças de olhos desiludidos,
mulheres de todas as raças de cabelos desgrenhados.
Aqui o canto de bar
onde veio parar o lixo de todas as nações.
(Todos que estavam a mais nas cidades e nos lares…)

Canta, cantor esquecido, tuas valsas de angústia!

Mário Dionísio em Novo Cancioneiro

Legenda: pintura de Douglas Gray

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

DEPOIS DE MIM


Um dia (sei-o bem)
os campos ficarão eternamente floridos
e a chaga que me inquieta
deixará de sangrar em todos os peitos.
Os homens já não estarão curvados sobre as terras.
E a leiteira não virá mais trazer-me as bilhas com o seu ar de humildade.

A mulher dos ovos e o homem da fruta,
o rapaz pobre envergonhado de dizer: eu sei,
o camponês prestando contas da estação,
os vultos negros do subsolo,
a linda mãe solteira,
deixarão de sorrir com humildade.

Humildade ficará nos dicionários como esqueleto em museu arqueológico.
Eu próprio nunca mais farei baixar as pálpebras
e deixarei que o sol me inunde bem, nos olhos.

Um dia
(ah! sinto-o bem para além das milhentas folhas de todos os tratados)
uma onda de amor invadirá tudo e todos.
E será uma primavera diferente de todas as primaveras,
porque ainda não foram inventadas as palavras para exprimi-la.

Simplesmente, nesse dia primeiro da nova criação, eu já terei partido.
A minha carne estará funda de mais para sentir o beliscão da alegria.
E os olhos cheios de terra
não verão os homens levantados
nem os campos eternamente floridos
nem a leiteira sem o seu ar de humildade.

Porém que importa?
Um dia, sei-o bem, todos estarão até que enfim de acordo.
Portanto, que importa a minha ausência?
Que importa que eu não venha a saborear os frutos da própria árvore?
Que é isso
ao pé da inabalável certeza desse dia admirável.

Mário Dionísio de Com Todos os Homens Dentro de Mim em Novo Cancioneiro 

sábado, 3 de outubro de 2015

DEIXA LÁ COMPANHEIRA!


Deixa lá, companheira!
Que havemos de fazer?
Fecharam-nos a porta e quase nos cuspiram.
Pisaram-te e, a mim, vergastaram-me as mãos.
Deixa lá! Deixa lá! Eu beijarei teus pés
e tu farás sarar as minhas mãos.
Para lá da última casa ainda há terra
e céu e água e luz...
Ainda há vida para lá.

Deixemos para eles o som vazio das gargalhadas
e a luxúria do oiro.
Ainda há vida para lá.
O nosso horizonte é mais vasto em cada instante.
A nossa voz mais rica em cada instante.
O nosso querer mais certo em cada instante.
Ainda há vida para lá.
Sigamos nossa rota, companheira.
Enxugarei teu rosto com cuidado.
Tu farás o meu canto.
E para além das barreiras do tempo
milhões de homens nos esperam com os braços abertos,
que desde a primeira hora serão braços de irmãos.

Mário Dionísio, Poemas dos Cães Danados (4) em Novo Cancioneiro.

Legenda: Desenho de Cipriano Dourado

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

SEGUNDO NASCIMENTO


Depois que se romperam os sapatos,
e deixei a gravata pior que uma rodilha no caixote do lixo,
é que vi bem o céu.

Um homem levantou a vista dos torrões e olhou para cima.
Mil cadeias inúteis se quebraram.
Mil caras, mil sorrisos, mil atitudes passaram.
Mil crenças se apagaram.
E dentro de mim mesmo surgi eu.

Enquanto se perdeu a última falripa da sola do sapato
e se esgarçou o fio de seda da gravata,
saltei a outro mundo.
Já não entendo as velhas relações nem amo as minhas velhas amizades.
Tudo o que é dantes me aparece inodoro, insípido, incolor, sem significação.
Já não tenho a noção de caminhar no meio de maltrapilhos.
Não há mais eu e eles porque passou a haver unicamente nós.
Os doutores, as madames e as meninas em série nunca mais me viram
porque passam por mim sem me reconhecerem
e eu não consigo distingui-los bem na galeria imensa do friso dos fantoches.

Tenho a alma repleta de alegria
e os braços cheios de força
e o coração a transbordar amor.

Bendita a miséria que rompeu os sapatos
e esgarçou a gravata que abandonei no lixo
e me fez ver o céu.


Livre.

Agora que deitei fora as lentes emprestadas,
e mandei ao diabo as crenças emprestadas,
e cuspi no altar das coisas consagradas,
agora, sim: sou eu.

Mário Dionísio de Anunciação em Novo Cancioneiro

Legenda: Mulher das Mãos Gretadas, pintura de Mário Dionísio

sábado, 6 de dezembro de 2014

QUANDO A NOTÍCIA CORREU


quando a notícia correu
de coração em coração
as ruas ficaram geladas
as casas ficaram geladas

cada um tentava imaginar
entre os punhais do desespero
a última vez que o vira
a última vez que o ouvira

a última esquina o último nome
o último olhar do companheiro
a última lição do companheiro
a última lição do companheiro

e tu que só lhe conhecias
um pedaço do rosto e tu do riso
sentiste à volta a mesma solidão
a mesma desolada solidão

oh um minuto apenas um minuto
abandono das horas desgraçadas
põe-nos a mão de ferro sobre os ombros
o desespero do luto sobre os ombros

de pé bebo no choro inconformado
a tormentosa rebeldia amarga
que entre lágrimas nasce
que entre lágrimas cresce

homens casas árvores caminhos
parar um breve instante
varrei as ruas de silêncio
chicoteai  as ruas de silêncio

uma bandeira negra de silêncio
desfraldai sobre as casas
que este silêncio fala
que este silêncio arde

Mário Dionísio em O Riso Dissonante


Nota do editor; poema escrito quando Mário Dionísio soube da morte de Soeiro Pereira Gomes

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

VAMOS, DÊEM AS MÃOS


Vamos, dêem as mãos.

Porquê esse ar de desconfiança?
esse medo? essa raiva?
Porquê essa imensa barreira
entre o Eu e o Nós na natural conjugação do verbo ser?

Vamos, dêem as mãos.

Para quê esses bons-dias, boas-noites,
se é um grunhido apenas e não uma saudação?
Para quê esse sorriso
se é um simples contrair da pele e nada mais?

Vamos, dêem as mãos.

Já que a nossa amargura é a mesma amargura,
já que a miséria, para nós, tem as mesmas sete letras,
já que o sangrar de nossos corpos é o vergão da mesma chicotada,
fiquemos juntos,
sejamos juntos.
Porquê esse ar de desconfiança?
esse medo? essa raiva?

Vamos, dêem as mãos.
Com uma estrela na mão
E a palavra no olhar
Apenas a emoção
De convosco partilhar
Um Natal aqui tão perto
Que nunca foi descoberto

Mário Dionísio em Poesia Incompleta

Legenda: pintura de Pierre Bonnard

quinta-feira, 9 de junho de 2011

JANELA DO DIA


1.
No 5º volume dos seus “Dias Comuns”, José Gomes Ferreira aborda as eleições francesas realizadas em Junho de 1968, derrota da esquerda, vitória de De Gaulle a tentar colmatar a ruptura do sistema neo-capitalista.

Desânimo na tertúlia do “Palladium”:

"- Muitos votaram por medo… disse não-sei-quem.
- O medo é a medida da realidade… declamou o Augusto Abelaira.”

O medo há-de ter tudo, como profetizava o Alexandre O’ Neill, e é exactamente isso o que medo quer.

2.
O Presidente Cavaco Silva deu ordem ao Ministério Público para instaurar um processo crime contra o director da revista “Sábado”, por considerar que este ofendeu a sua honra num comentário que escreveu na coluna Sobe e Desce do passado dia 27 de Janeiro.

“Miguel Pinheiro escreveu: "Tal como Fátima Felgueiras e Isaltino Morais, Cavaco Silva acha que uma vitória eleitoral elimina todas as dúvidas sobre negócios que surgem nas campanhas".

As verdades custam sempre a ouvir…

Aparentemente, Sua Excelência não tem mais que fazer do que processar jornalistas.

As verdades custam sempre a ouvir…
É sabido que o ridículo não mata…

3.
Para atenuar a cavaquice, socorro-me de Mário Dionísio, o poema LXI em “Terceira Idade”:

“País de azulejos partidos
de erva trepando entre paredes em ruína
País entregue à sua sina
sem olhos e sem ouvidos

País voraz ruminando o almoço
rindo ou chorando uncapaz de sorrir
País de corpo aberto a quem está a seguir
País do rastejar entre a pele e o osso

Pulinhos para trás e para a frente
de polegar na cava do colete
foguetes procissões uns copos de palhete
país da pequenez de si mesma contente

País indiferente aos que dão por ele a vida
País herói se não há perigo em sê-lo
País de velhos do Restelo
dado à mão-baixa perto e consentida

País que tudo quer e nada quer tudo suporta
País do faz como vires fazer
País do quero lá saber
do quem vier depois que feche a porta”

4.
Da correspondência de Sophia Mello Breyner Andresen. para Jorge de Sena:

“Valerá a pena você gastar tanta inteligência para explicar aos parvos que são parvos?”