Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Sacramento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Sacramento. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de julho de 2019

PRAÇA DA CANÇÃO


No dia 2 de Maio de 1974 chegou do exílio, em Argel, bateu à porta do PS que lhas escancarou.
Com ele vinha outro exilado, Fernando Piteira Santos, a quem um dia perguntaram porque se não tinha filiado no Partido Socialista e aquele que perguntou, ouviu a resposta: “Porque sou socialista”. 

No prefácio à 2ª edição de Praça da Canção, Mário Sacramento lembrava  a  notícia-crítica que escrevera, em 1965:

«Não me levem a mal se, apoiado num livro que pode considerar-se de estreiam, me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português.»

Numa carta datada de 12 de Fevereiro de 1973, Carlo Vittorio Cattaneo  contava a Jorge de Sena:

«No encontro romano, Alexandre O’ Neill, aos que lhe pediam uma opinião sobre Manuel Alegre (que conta muitos admiradores em Itália) respondeu muito duramente que Alegre não é um poeta ou, no máximo, pode-se-lhe chamar poeta somente porque escreve versos. Você também é desta opinião? A resposta interessa-me precisamente por causa do sucesso que Alegre tem com os leitores italianos.»

Em carta, datada de 7 de Março de 1973, Jorge de Sena responde:

«O que o O’Neill disse do M. Alegre é a opinião que eu também tenho. Não direi que o homem não é poeta, mas é sem dúvida um poeta muito menor. Não entendo o sucesso italiano dele, a menos que seja pelo tom «popular» e «engagé» que ele mistura muito bem para cantigas à guitarra.»

Carlo Vittorio Cattaneo publicará em 1975 «La Nuova Poesia Portoghese» e em Janeiro de 75 lembra a Jorge de Sena: «Manuel Alegre, se bem que poeta medíocre, me serve como exemplo de poesia política.»

A antologia dos poetas traduzidos por Vittorio Catttaneo inclui Herberto Helder, Ruy Belo, Pedro Tamen, Manuel Alegre, Armando Silva Carvalho, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, Nuno Guimarães, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães, Nuno Júdice.

domingo, 8 de julho de 2018

MAS LÁ QUANTO A DOUTRINA...


Muitos meses depois, já em 53, liberto pois de qualquer disciplina partidária, fiz uma série de oito conferências na Associação de Estudantes da Facul­dade de Ciências de Lisboa, por iniciativa da sua secção cultural.
Público crescente. Pois sou infor­mado de que, enquanto falava, naquele silêncio ávi­do e colaborante que é o prémio maior para qual­quer orador, se bichanava na sala a deitar por fora: «Um tipo bestial. E pena como se portou quando esteve preso. Meteu muita gente dentro». Era in­fantil. Quem me conhecia, e muitos me conhe­ciam, sabia perfeitamente que eu nunca estivera preso.
A verdade é que nenhuma organização tem cul­pa dos seus doentes nem até dos seus períodos de crise sobretudo com dirigentes importantes na ca­deia. O que não obsta a que a bola de neve comece a tentar formar-se.
Não me passou despercebido, já três anos anda­dos e o tosco processo concluído, o tipo de objec­ções que o Mário Sacramento e o meu velho ami­go Óscar Lopes acharam por bem fazer — só eles e só então — a algumas teses expostas n' A Paleta e o Mundo, não se esquecendo ambos de informar os respectivos públicos de que o autor mudara de doutrina e que, embora muito isto e mais aquilo, abandonara «o caminho comum». Quanto a «ca­minho comum», na acepção que lhe davam, era já mais que evidente. Mas lá quanto a doutrina...
Havia muita coisa por detrás, que talvez nem eles conhecessem. Pormenores de importância, ou­so pensar. E, porque a história das ideias, dos paí­ses, dos partidos, finalmente das pessoas, também de pormenores se faz, espero ainda contar os que comigo se prendem (se prenderam) quando tiver espaço para tanto. Não tem pressa. E talvez — é a minha vez de o pensar — não seja o melhor mo­mento para. Resta saber se alguma vez o será.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio na Praia Grande. Fotografia de sua filha Eduarda Dionísio retirada do catálogo Passageiro Clandestino

sábado, 7 de julho de 2018

COMO AS COISAS MUDARAM AÍ EM PORTUGAL...


Carta de António José Saraiva, Paris Maio de 1969, para Óscar Lopes:

Li o teu artigo do (Mário) Sacramento, e o simples aparecimento dele em letra de forma mostra como ss coisas aí mudaram de Setembro para cá. O Sacramento é um exemplo muito típico do comportamento dos intelectuais em Portugal, mas pergunto a mim mesmo em que medida esse comportamento deve ser erigido em regra geral. Sem dúvida que os intelectuais não podem alhear-se do destino colectivo, mas talvez isso não implique que eles devam desempenhar um papel que prejudique a realização da sua vocação específica. Escrever um ensaio ou um romance ou realizar uma investigação pode ser muito mais importante do que participar numa comissão, até porque ao nível da criação científica, filosófica, ou estética se podem pôr problemas que não cabem no dia a dia dos compromissos, das declarações e das tácticas.
O problema, reconheço, não é simples, até porque a nossa elaboração teórica é feita da substância da nossa vida prática e quotidiana. Mas nem toda a prática é política: há problemas de relação com nós mesmos, de relação com o nosso próximo e de relação com isso a que se chama «Deus» (que talvez seja só o limite matemático do Eu, lá onde ele não é só um Eu individual) que não se podem pôr facilmente em termos «políticos» e que no entanto exigem expressão e realização. O teu ideal de uma concretização permanente das nossas aspirações mais fundas em termos de atitudes práticas não cabe evidentemente em congressos e reuniões.
E, alguns intelectuais portugueses parece-me evidente que esse empenhamento, nos termos em que se faz, leva a uma amputação das virtualidades intelectuais e à simplificação fanatizante dos problemas. O (António) Sérgio escapou a isso porque recusou sempre arregimentar-se e porque apresentou as suas atitudes como a manifestação de um dever moral que estava muito acima da prática.


Legenda: Mário Sacramento

terça-feira, 1 de maio de 2018

RELACIONADOS


Mário Sacramento morreu, em Aveiro, em 27 de Março de 1969.

Notícia do Diário de Lisboa de 13 de Julho de 1970:

Uma comissão composta por diversas personalidades locais pediu a quem de direito que consagrasse a memória de um homem justo e superior, incluindo o seu nome na toponímica da cidade. Julgamos saber que há poucos dias, o Município pediu esclarecimentos sobre a obra de Mário Sacramento em prol da sua cidade, para assim julgar da justificação para que uma rua de Aveiro tenha o seu nome.

Notícia do Diário de Lisboa de 13 de Novembro de 1970:

A Câmara Municipal de Aveiro acaba de indeferir o pedido apresentado por vasta comissão para que o nome de Mário Sacramento fosse dado a uma artéria condigna da cidade. Segundo julgamos saber a recusa baseia-se na “falta de oportunidade” e na inexistência de méritos que justifiquem a homenagem. A decisão foi tomada por unanimidade assinando a sentença o próprio presidente do Município Dr. Artur Alves Moreira.


Diário de Lisboa 29 de Março de 1975

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Esta noite tive um sonho em-que-não-me-deram-a-palavra. Que raio de coisa.

Mário Sacramento em Diário

sábado, 25 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Homem na Cidade

Vários autores
Prefácio: Mário Sacramento
Capa: Luís Carrôlo
Colecção O Homem no Mundo nº 5
Prelo Editora, Lisboa, Julho 1968

Era ao cair da tarde – e havia mortos. Todos muito juntos, enlameados, compridos.
Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.
Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades. Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos. Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.«Se tu és João” – dizia para mim – és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.» E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal. Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora.
- Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
- Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
- Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

Pedro Alvim, crónica publicada no Diário de Lisboa, aquando das trágicas cheias de Novembro de 1967.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ETECETERA


Há 50 anos Che Guevara foi assassinado.

«Muitos consideram-me um aventureiro e na verdade sou-o, mas de um tipo diferente, do tipo dos que arriscam a pele para provar o que dizem.»

Mário Sacramento no seu Diário:

«Parece que sempre conseguiram matar o Che Guevara, ao que dizem os jornais. Embora o sinta, não adiro com o mesmo sentimento que tive e tenho pelo Lumumba. É muito diferente lutar e morrer no seio do próprio povo ou agir como caixeiro-viajante da aventura revolucionária, no seio de outros. A dinastia dos Malraux nunca me foi simpática e a realidade confirma que há boas razões para isso.»

Poema para Che Guevara escrito por Jorge de Sena:

Neste vil mundo que nos coube em sorte
por culpa dos avós e de nós mesmos
tão ocupados em desculpas de salvá-lo,
há uma diferença de revoluções.
Alguns sofrem do estômago, escrevem versos,
Outros reúnem-se à semana discutindo
o evangelho da semana; outros agitam-se
na paz da consciência que adquirem
com agitar-se em benefícios e protestos;
outros param com as costas na cadeia,
para que haja protestos. Há também
revoluções, umas a sério, que se acabam
em compromissos, e outras a fingir,
que não acabam nem começam. Mas são raros
os que não morrem de úlcera ou de pancada a mais,
e contra quem agências e computadores
se mobilizam de sabê-los numa selva
tentando que os campónios se revoltem.
Os campónios não se revoltam. E eles
São caçados, fuzilados, retratados
em forma de cadáver semi-nu,
a quem cortam depois cabeça, mãos,
ou dedos só (numa ânsia de castrá-los
mesmo depois de mortos) e o comércio
transforma-os logo num cartaz romântico
para quarto de jovens que ainda sonhem
com rebeldias antes de se empregarem
no assassinar pontual da sua humanidade
e da dos outros, dia a dia, ao mês,
com seguro social e descontando
para a reforma na velhice idiota.
Ó mundo pulha e pilha que de mortos vive!


PSD

Quando for eleito o sucessor, Passos Coelho vai renunciar ao mandato de deputado.

Rui Rio fará o anúncio da sua candidatura quarta-feira em Aveiro, não quis que fosse no porto ou em Lisboa.

Pedro Santana Lopes, segundo a SIC, almoçou hoje com Marcelo Rebelo de Sousa e ainda não parou de ponderar.

Marcelo que amiúde diz não querer meter-se na vida dos partidos, de que terá falado com Santana? Dos tempos em que este, como primeiro-ministro, quis pô-lo a andar de comentador da TVI?

Marcelo que, sabe-se, não gosta de Rui Rio nem de Santana, poderá, apesar de tudo, preferir Santana a Rio?

Fernanda Câncio no Diário de Notícias, de hoje, lamenta os louvores que por aí circulam dedicados a Pedro Passos Coelho, terminando o artigo:

«Lamento: não tenho prazer em zurzir em quem está de saída, mas o que é demais é demais. Há porém um inestimável serviço ao país pelo qual Passos ficará na história -- uniu a esquerda. E isso sim, é obra.»

CATALUNHA

Amanhã, provável declaração unilateral de independência da Catalunha.

Mariano Rajoy, afirmou hoje que o executivo fará tudo o que for preciso para impedir a independência da Catalunha.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O SENHOR FERNANDO PESSOA NO POTE D'ÁGUA


Em princípios de 1959 eu havia editado o livro de Mário Sacramento Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda. Tinha um mandado de captura às costas e resolvi laurear por Itália antes de ir meter o corpinho no saudoso Limoeiro. Fito longínquo e mais que utópico dessa viajata: o Egipto. Porém, tendo atingido o cume do Vesúvio, achei que ir ver as pirâmides me era coisa desnecessária, a obra da Mãe Natura incomparável confrontada com a trabalheira suada dos escravos dos faraós e sua soberba de deixarem rastro de si, por todos os séculos dos séculos, em formato múmia e mausoléus labirínticos. Regressado a Portugal, fui (como era de prever) preso daí a escassos meses. No imediato, tinha uma história para ouvir e que relato agora, tal como ma contaram, visiono a trinta anos distantes. Quem ma contou, com a maior naturalidade, foi a Maria do Carmo, sertaneja de pêlo na venta, minha companheira de casa, cama e pucarinho.
Era assim: na minha ausência em Roma, aparecera na Rua Jorge Colaço, ali ao Pote d’Água, onde então residíamos, um senhor vindo de Aveiro à minha procura. Apresentara-se: dr. Mário Sacramento. A rapariga, semianalfabeta, não sabia quem ele era, nunca ouvira, aquilo era um mistério. O Mário Sacramento, desejando por certo completar a sua identificação, há-de ter falado do livro recentemente publicado; terá insistido que era ele o autor do Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda. Não resultou melhor. Ou sim: à Maria do Carmo, "Fernando Pessoa" e "horas surdas" (fez-lhe mesmo certa espécie, horas surdas, e confessou-mo quando do seu raconto), algo, todavia, lhe remexeu o bichinho do ouvido com a referência. Semanas antes, houvera uma chuva de vales do correio, de assinantes pagantes da obra, tínhamos festejado a assiduidade do carteiro à nossa porta com umas almoçaradas reais. E se ela comia bem! Já o Salazar repetia, em Conselho de Ministros: o que interessa é dinheirinho! Beirã como ele, a Maria do Carmo não esquecera o acelerado movimento de comestíveis naquele apartamento do Pote d’Água, à custa desse tal Pessoa – isso já era outro falar! E, com respeito ao desconhecido visitante, ali presente insistente, que fazer? Acudiu-lhe uma ideia salvadora:
– Quem deve saber disso tudo é a minha comadre, a Natália Correia! Vamos a casa dela.
Foram. E continuo a imaginar o cenário. O Mário Sacramento não podia ignorar quem era a Natália. Se ainda a não conhecia pessoalmente, haveria de ter a maior curiosidade, bisbilhotar o seu celebrado "salão". Meteram-se no carro e foram à Rua Rodrigues Sampaio, por cima da Smarta. A rapariga bateu à porta e como conhecia bem os cantos à casa, entrou por ali dentro aos brados: Ó Natália, ó Natália, está aqui o senhor Fernando Pessoa!
A Natália Correia, além das inúmeras virtudes, públicas e privadas, que lhe apontam (merecida ou imerecidamente: ainda que sem o menor fundamento – tudo fumaça!, é outro assunto), lembro que, naquele tempo, uma das suas tendências era coleccionar celebridades no seu "salão". Ali tive o gosto de conhecer o Ionesco, o Henry Miller e muitos outros nomes grandes, de passagem por Lisboa. Era um "salão" cosmopolita a sério e as vitualhas, os vinhos deliciosos que vinham do Hotel Império honravam a gentileza dos anfitriões, a Natália e o esposo, o meu grande amigo Alfredo Machado.
Quando ouviu a gritaria da Maria do Carmo, a Natália (é-nos permitido supor) sentiu um baque, arrepiou-se toda perante o indizível fenómeno: teria Fernando Pessoa reincarnado, escolhendo precisamente o seu "salão" para surgir em Glória aos seus admiradores, Lisboa revisitada via Natália? Que sensação, que atractivo formidável para o sarau dessa noite. E, sem tardança, num alvoroço adolescente, desvairada correu para a porta.
Nunca vi o dr. Mário Sacramento, apenas fotos suas nos jornais. Durante a atribulada edição do livro, que demorou anos, apenas nos correspondíamos por carta e ele tanto me remetia o original e provas de Aveiro como do Forte de Caxias, nas muitas perseguições que a PIDE lhe moveu. Nada nele, nas fotos, fazia lembrar o Pessoa (das fotos, também): face bolachuda, cheia de bonomia (e melancolia, também) em Mário Sacramento opondo-se ao físico raquítico, hálito ardente dos bagaços, miopia aguda, bigodito fininho do Pessoa, tal como o João Botelho me mascarou no filme Conversa Acabada em três breves aparições, feito (eu) Pessoa moribundo e logo esticado, com o Manuel de Oliveira, padreca, a rezar-me o responso, num latim engosmado.
Quando a Natália esbarrou com a figura do Mário Sacramento à soleira da porta, já ele devia estar chateadíssimo, ouvira a Maria do Carmo anunciá-lo como Fernando Pessoa. De que modo teriam deslindado aquela grotesca maralha? De todo em todo o ignoro. Diverti-me, passados tantos anos, a recordá-lo e não podendo ocultar-me a ingenuidade de ambos: o Mário, no completo desconhecimento de que eu era um editor marginalíssimo e que detesto figuronas intelectualóides para a convivência doméstica, na cama e à mesa; e, por 1959, já estava falido, nas derradeiras proezas com os prelos, inda por cima com a polícia dos costumes em batida na minha cola; a Natália, com o sôfrego anseio que o Pessoa…ele há cada lembrança!
Nunca falei ao José Saramago neste episódio, portanto ninguém queira ver na sua portentosa concepção de O Ano da Morte de Ricardo Reis, pondo um Pessoa a passear-se dos Prazeres ao Chiado, a palrar com outra sombra, a do Ricardo Reis, um resquício ou sugestão dele. Mais uma vez, porém, a realidade (por escassos segundos, embora) terá excedido (na mente da Natália, sempre fantasiosa e crédula) a ficção. Ou a Vida imitando a Arte, é como se queira interpretar.

Luiz Pacheco em Memorando, Mirabolando
Legenda: Capa do livro Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda, publicado por Contraponto/Luiz Pacheco.

Imagem tirada de Luiz Pacheco 1 Homem Dividido Vale por 2

quinta-feira, 3 de abril de 2014

NÃO ME OBRIGUEM A VOLTAR CÁ!


3 de Abril de 1974

Três tópicos da agitada e importante agenda política, nos primeiros dias de Abril, do Chefe de Estado Américo Tomás

Em entrevista ao semanário francês Le Point, Marcelo Caetano disse que jamais concordará com o abandono das províncias ultramarinas.
Portugal está a lutar em África em defesa de uma sociedade multirracial contra movimentos racistas que procuram expulsar os brancos de África

Num qualquer dia de Março, ou Abril de 1974, andei à procura do recorte mas deve estar, algures, a servir de marcador na página de um livro, é atribuída a Marcelo Caetano a seguinte frase:

Cuidado com os capitães. O perigo vem deles, pois não têm ainda idade suficiente para poderem ser comprados.

Viviam-se dias resultantes do choque petrolífero, mas o governo, via Ministro da Indústria e Energia, fez anunciar a suspensão, nos próximos dias 13 3 14, respectivamente Sábado e Domingo de Páscoa, do racionamento de gasolina durante os feriados e fins-de-semana.

Um excerto da Carta-Testamento de Mário Sacramento:

Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!
Não veremos o que quisemos, mas quisemos o que vimos. E este querer é um imperativo histórico. Há milhões de mortos a dizer-vos: avante!
Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!

terça-feira, 21 de maio de 2013

OLHAR AS CAPAS


Cartas de Estalinegrado

Prefácio de Mário Sacramento
Tradução de Helena Rosado
Editora Arcádia. Lisboa Junho de 1960.

Tenho o teu retrato junto de mim e olhei-o longamente. Revivo aquela noite de Verão do último ano de paz em que atravessámos o vale cheio de flores. Quando nos encontrámos pela primeira vez, falou em nós a voz do coração, depois a voz do amor e depois a da felicidade. Falámos de nós e do futuro que aparecia como um tapete de cores alegres.
Esse tapete de cores alegres já não existe. A noite de Verão também já não existe e o vale cheio de flores também não. E já não estamos juntos. Em vez desse tapete multicor vejo um campo branco sem fim; foi-se o Verão, ficou o Inverno, e já não há futuro pelo menos para mim, e por isso para ti, talvez também não o haja.
Há muito tempo que tenho uma sensação inexplicável – compreendi-a hoje – é medo do que te pode acontecer. A milhares de quilómetros de distância sinto que estás como eu.
Quando receberes esta carta, lê-a, esquecendo-te de tudo o mais – talvez assim oiças a minha voz. Dizem-nos que a nossa luta é pela Alemanha mas há aqui poucos que acreditam que este sacrifício absurdo seja útil à nossa pátria.

sábado, 23 de março de 2013

ÓSCAR LOPES (1917-2013)


Um sentimento unânime: com a morte de Óscar Lopes desapareceu um dos vultos maiores da cultura portuguesa do século XX.
Uma qualquer morte mata sempre um pouco a nossa memória.
Na minha primeira aula de Literatura do 6º ano, o professor, deu as boas-vindas e de imediato disse que quem quisesse saber, mas saber mesmo, qualquer coisa da matéria, havia que comprar -  e ler - a História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes.
Editada pela Porto Editora, o meu exemplar é a 3ª edição corrigida.
Em finais de 1969, comprei o meu primeiro livro, a solo, de Óscar Lopes: Ler e Depois.
Este livro representa um conjunto de tentativas no sentido da síntese agora possível, por parte, não de um investigador ou crítico literário profissional (há anos que nem sequer ensino literatura no Liceu), mas de um simples leitor que vai lendo e pensando, e depois continua pensando, sobre o que lê e é, a ponderar intuições, informações (aquelas que lhe chegam), estéticas, morais, práticas, científicas, políticas, umas com outras, e uma contra outras mesmo sem sair de cada um dos domínios de ser e do valer.
O livro tem dedicatória:
Recordação de Mário Sacramento, recordação de todos os momentos em que me saíu da boca a palavra «TU» num alvoroço de camaradagem ou de ternura.
Óscar Lopes ensinou-me a ler, porque ler, como disse alguém, não é apenas juntar as letras.
Militante do Partido Comunista desde 1944, perseguido pela ditadura, proibido de leccionar, contou que a sua avó chorou de desgosto quando soube que ele era comunista. "E eu chorei, porque ela chorou", foi alguém, tal como escreveu Baptidta-Bastos, maior do que o seu tempo.
Já ficou no Olhar as Capas o comovente e judicioso depoimento que Agustina Bessa Luís escreveu e que está incluído no livro comemorativo dos noventa anos de Óscar Lopes.
Mas, necessariamente, voltarei a Óscar Lopes.
Um Homem que, para além de muitas outras coisas, gostava de gatos e de flores.

Legenda: Óscar Lopes no jardim de sua casa, tirado do livro Óscar Lopes – um homem maior do que o seu tempo.

domingo, 10 de junho de 2012

LIVROS ENTRE AZEITE, BACALHAU E VINHO A MARTELO


No tempo da ditadura há casos curiosos de capitalistas e empresários portugueses que  ajudaram escritores e artistas, que eram da oposição, por motivos nunca declarados e que, agora, não sei como se podem explicar.

O industrial Manuel Vinhas ajudou artistas como Júlio Pomar, Vespeira, escritores como Ary dos Santos, Mário Cesariny de Vasconcelos, Alexandre O’Neill, Luiz Pacheco, financiou Raul Solnado para a construção do Teatro João Villaret, cedeu as instalações de um antigo armazém, ao lado da Cervejaria Portugália, pertença da Sociedade Central de Cervejas, para que A Comuna apresentasse os seus espectáculos.

Luiz Pacheco dedicou-lhe o seu livro Exercícios de Estilo (Editorial Estampa, Lisboa 1971) e numa Carta de Longe fala da ajuda que Vinhas lhe prestou:

Do mecenas Manuel Vinhas, falo pelo que me toca. Durante anos, mais de dez, auxiliou-me em dinheiros, renda de casa pontualmente paga, bolsa de estudo em livros, máquina de escrever, a minha charrua, oferecida. Sem me conhecer pessoalmente, apenas alertado para a minha difícil situação económica por um Amigo comum.

Nunca tive nem creio que venha a ter mecenas tão delicado e escrupuloso. Nunca se esquivou quando a ele tive de recorrer, e apenas o fazia em última instância, e nunca, também, me deu conselhos ou sugestões que interferissem no meu trabalho.

“O Mecenas paga, não dá ordens”, costumava dizer Mestre Almada Negreiros.

Claro que ninguém está a ver os merceeiros Belmiro de Azevedo, Soares dos Santos, ou o sr. José de Mello a terem desvios deste jaez!...

Os proprietários da Sociedade Abel Pereira Fonseca possuíam a Editorial Ulisseia e o Diário Ilustrado.

Esta Praça da Canção , de Manuel Alegre, um livro que marcou toda uma geração, é o nº 18 da Colecção Poesia e Ensaio, uma belíssima e importante colecção, publicada com orientação gráfica de Espiga Pinto e que viu alguns livros apreendidos pela PIDE/DGS.

A Praça da Canção foi publicada, em 1965, pela revista Vértice, em exclusivo para os seus assinantes. Os poucos exemplares que apareceram nas livrarias foram, de imediato, apreendidos pela polícia política.
  
Esta 2ª edição, prefaciada por Mário Sacramento e editada pela Ulisseia, também foi apreendida pela PIDE/DGS, mas aqui, com a conivência de alguns livreiros, foi possível que grande parte não caísse nas suas pérfidas mãos.

Servindo-me do livro Memórias Vivas do Jornalismo, sigo até à entrevista de Edite Soeiro para contar a história da Ulisseia, que amanhã se completará com um depoimento de Vítor Silva Tavares, para depois, Roby Amorim, contar a história do Diário Ilustrado:

Em 1964 fui convidada para orientar as edições Ulisseia. Aceitei com certa relutância, mas o ordenado era tentador. Assegurei a colaboração do Vítor Silva Tavares, actual editor das publicações & etc., o qual já trabalhara comigo no Intransigente e que teve papel preponderante na selecção de autores. Estive lá 30 meses, mas não tardei a verificar que os patrões não queriam saber da editora para nada e pouco se lhes dava que imprimisse obras-primas ou fotocópias. A única coisa que realmente pretendiam era que aquilo não desse prejuízo. Efectivamente, a Ulisseia deixou de dar prejuízo, mas nós tínhamos projectos mais ambiciosos. Por exemplo, queríamos lançar uma colecção chamada Pelicano, para que os estudantes universitários pudessem deixar as miseráveis sebentas que utilizavam, por falta de alternativa. Este e outros projectos reclamavam um forte investimento, pelo que não podia ser decidido sem o aval dos proprietários da editora, que eram da firma Abel Pereira da Fonseca. Nunca conseguimos fazer com eles uma reunião decente, para lhes apresentarmos os nossos projectos e tomarmos deliberações em conjunto. Entre o bacalhau, o vinho, o arroz e todas essas coisas, tinham aquela preciosidade que era a Ulisseia, para tratar da qual não dispunham de tempo. Por isso, resolvi demitir-me.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

SARAMAGUEANDO


No dia 27 de Novembro de 1967, Mário Sacramento escrevia no seu “Diário”:

“Passei três dias em Lisboa, ricos de experiência humana e telúrica. E telúrica, repito, - ao arrepio do que é uso julgar-se possível intramuros de uma urbe…
Passei pela Mesa-Redonda que se realizou no Grémio dos Industriais Gráficos, sob a égide dos retratos do Carmona e do Salazar (que conservavam o olhar pudicamente fixo no infinito…)  versando a “Situação da Mulher em Portugal”. (…) Não pude, sequer, assistir aos debates, pois fora convidado a ir à recepção ao Claude Roy, em casa do Lyon de Castro. Saí à socapa, deixando o Santareno com o seu ar de potro das pradarias bebendo a amplidão, de narinas abertas e crinas ao vento; o Urbano, sofrendo uma decrepitude  precoce de fauno gasto, que as mechas de cabelo grisalho acentuam; o Salema, com o lampejo duma juventude que se extingue sem saber em que aplicar-se; o Saramago, com a imponência cachimbante de quem vale mais do que é capaz de mostrar; o Abelaira, com a voz persuasiva do microscopista dos sentimentos paradoxais, que espera encontrar neles a pedra filosofal da remanhã”

Sublinho:

“O Saramago, com a imponência cachimbante de quem vale mais do que é capaz de mostrar.”

Faltavam 31 anos para que soubéssemos que José Saramago seria Prémio Nobel da Literatura. O quanto, com essa atribuição, Mário Sacramento teria ficado feliz, mas a morte ceifou-o em 29 de Março de 1969. Também não assistiu ao 25 de Abril, ele que deixou uma Carta-Testamento em cujo final se pode ler:

“Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!”

Legenda: “Diário”, Mário Sacramento, Editora Limiar, Porto 1975, capa de Armando Alves.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

FAÇAM UM MUNDO MELHOR, OUVIRAM?



Cópia da Carta-Testamento por Mário Sacramento, com a indicação no envelope: "Para ser aberto quando eu morrer”.
A carta foi escrita na Pousada de S. Lourenço, no Caramulo, em 7 de Abril de 1967:

"Aos mais adiados...

Vai sendo tempo de escrever uma carta de despedida! A velha carcaça é já uma ruína nítida. A somar às cicatrizes das lesões pulmonares que tive, há bronquiectasias e zonas de enfisema do impossível fumador que sou, as quais hão-de vir a resultar num coração pulmonar. A tensão mínima já começa a ressentir-se disso. O rim deita vestígios acentuados de albumina e cilindros. E o estômago tem qualquer coisa que um destes dias hei-de averiguar... Como não posso nem devo emagrecer excessivamente — são os próprios colegas que mo dizem —, dado o perigo de reactivação das antigas lesões bacilares, o peso é também um contra. E, como deixar de fumar, nesta idade, além de ser um sacrifício inglório que me roubaria um dos poucos apegos concretos que ainda tenho à vida, seria levar-me a engordar ainda mais, o balanço é portanto muito nítido. Quantos anos? Depois dos cinquenta acaba-se, estou convencido. Mais erro, menos erro, a média deve ser essa.
Começo por isso a ter pressa de fazer umas tantas coisas que reservei para a fase final, quando a terrível batalha que travei na sobrevivência contra o fascismo me deixasse, à margem desta profissão cujas dificuldades e condicionamentos económicas, sociais e políticos liquidaram tantos dos meus sonhos, margem para isso. Espero roubar, sempre que possa, alguns dias à labuta e à engrenagem diária e isolar-me, como agora fiz, para escrever qualquer coisa de mais íntimo. Para o romance cíclico que trago há tantos anos na cabeça, não chegará o tempo, decerto. E é melhor assim, pois evito uma desilusão e sempre morrerei com o arzinho angustiado de vítima dum mau destino, o que é chique, como diria o Eça...
Antes de tudo, impõe-se, porém, que escreva estas singelas palavras. Quem pode afiançar-me que não vou acabar hemiplégico e afásico, como minha Mãe? Deixa aqui, então, o que depois não poderás!
Deixar cheira a testamento. E eu, que deixe, só tenho o corpo. Por mais que fizesse, por mais que me fizessem, disso é que nunca consegui ser espoliado! E, como é com ele que me avenho nas noites de insónia e nas porfias diárias, é justo que lhe dedique, ao menos, um pensamento em vida. E não o legue aos cães... Pois não equivaleria a isso estar a ver-me, daqui, de barba feita a posteriori, sapatos engraxados, fato de ver a Deus, a apresentar as minhas despedidas, muito formalizado, de dentro da cabine - especial? Como não tenciono ir para parte nenhuma, metam-me como eu estiver no caixote mais barato que encontrem e devolvam-me os restos à terra. A terra sabe lavar-se. E não há nada como um cadáver «limpo» para marcar um limite.
Se morresse em localidade com forno crematório, não desgostava disso, se não fosse caro. E, por falar em caro: não sei se a terra será o mais barato para o caso, - ó contradições do capitalismo! E, como isto de morrer também «custa» aos outros, há que prevê-lo. A família tem uma pirâmide egípcia em Ílhavo. Embora eu esteja farto de conhecer prisões em vida, como nessa altura quem terá de aguentar isso é «o outro», não me oponho a ir para lá, se for mais económico ou mais fácil de arrumar. Não faço questões nenhumas com a morte... Ela nega-me, e é tudo. A grande magana!
Não, o motivo fundamental desta carta é outro. Aceitei dialogar, nestes últimos tempos, com os católicos. Se tivesse nascido num país protestante ou árabe ou budista, tê-lo-ia feito com esses. Pois do que se tratava — se trata, ó morto-vivo!, ainda não acabaste! — era, é de dialogar com os progressistas e, sobretudo, com o povo, directa ou indirectamente. Não há-de faltar contudo — sempre assim foi, ó alminhas santas! — quem procure fazer sujeira com isso e aproveitar-se duma ambiguidade que surja para me denegrir a memória. Se a minha Mulher ainda estiver viva — ela tem sido boa companheira! Não haverá problemas com isso, estou convencido. E o mesmo se dará se os filhos estiverem atentos: eles têm carácter. Mas quem pode prever tudo? Não que eu faça grande questão do meu bom nome: estou-me nas tintas para ele, depois de morto. Mas, além dele pertencer aos meus companheiros de jornada. E, que diabo, se passei tantos maus bocados por eles, em vida, é porque considerei que era esse o meu destino. E um homem tem o direito de o defender, mesmo depois de morto!
Fica portanto entendido que sou ateu e como ateu devo ser enterrado. Em vez dum pano preto, ponham um paninho vermelho no caixote, se puderem. E usem luto vermelho, se algum quiserem usar...
Mesmo que eu ficasse pílulas ou sugestionável à hora da morte, isso não modificaria ser esta a minha opinião responsável. É esta, por conseguinte, a única válida.
Claro está que gostaria de ter sido melhor homem, melhor marido e melhor pai. A perspectiva da morte só tem de positivo fazer-nos pensar assim. Mas o homem é um bicho complicado. E eu tenho a consciência de que pelo menos, me bati sempre comigo mesmo para ser melhor do que poderia ter sido. Fui amigo da família à minha maneira: sem efusões líricas ou rodriguinhos. E, se não fiz mais por ela, foi porque não pude, tanto no sentido social como psicológico do verbo. A prova de que o meu desejo era ser bom marido e bom pai está no muito que li, pensei e escrevi sobre isso. Sejam os Filhos melhores do que eu pude — foi sempre esse o meu sentido de missão.
Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais.
Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!
Não veremos o que quisemos, mas quisemos o que vimos. E este querer é um imperativo histórico. Há milhões de mortos a dizer-vos: avante!
Para a Mulher, um abraço, simples e esquivo como eu sempre fui. Para os Filhos, um beijo, frio e recalcado como eu sempre lhes dei. Para todos, um afecto. Quem tinha tão pouco que dar a tantos, teve de ser avaro... Mas morre convencido de que não guardou nada para si. Ou de que teve, pelo menos, essa intenção.
Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!”


“Carta-Testamento” de Mário Sacramento, Editorial Inova, SARL, Porto, Março de 1973

quinta-feira, 1 de abril de 2010

OLHAR AS CAPAS



Praça da Canção

Manuel Alegre

2ª edição
Prefácio de Mário Sacramento
Capa de Espiga Pinto.
Colecção Poesia e Ensaio Nº 18
Editora Ulisseia, Lisboa  s/d

NAMBUANGONGO MEU AMOR

Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo longo
a cabeça cortada
e a flor bombardeada
não tu não viste nada em Nambuangongo

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não corre.

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu. Tu
não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
cada carta é um adeus em cada carta se morre
cada carta é um silêncio e uma revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo longo longo
tempo exactamente em cima
do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima
com a palavra morte em Nambuangongo.