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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS



Há Uma Estética Neo-Realista?

Mário Sacramento
Capa; Fernando Felgueiras
Cadernos de Literatura nº 1
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 1968

Está dito e redito que onde a arte se remete à expressão dum impasse, pingueponga em espelhos paralelos o ar rarefeito duma agonia. Em contrapartida, onde o realismo parte do conhecimento objectivo para a expressão directa do factual, é linguagem híbrida. O neo-realismo português tem kmuito disso, expressão circunstancial que é. Ao procurar-lhe, nas páginas que vão ler-se, uma matriz estética, abstraí desse caduco e procurei delimitar o que nele reascende do impacte científico à especificidade literária.
Processo em marcha ainda, deixo o seu encadeamento para o estudo histórico que um dia terá de fazer-se. Concebido como depoimento pessoal para um livro de colaboração colectiva que não chegou a sair, o presente ensaio é o que é e nada mais. Aos que fiquem decepcionados só há que dizer: tirem dos seus tinteiros o que aqui não coube.

terça-feira, 1 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Diário

Mário Sacramento
Capa: Armando Alves
Editora Limiar, Porto, Junho de 1975

Aveiro, 20 de Julho de 1968

Ex.mo Senhor Director da Polícia Internacional e de Defesa do Estado
Lisboa

Ex.mo Senhor:

Baseando-me em informações da Polícia que V. Exª Dirige, o sr. Governador Civil de Aveiro indeferiu por duas vezes, no ano transacto e neste, o requerimento para passaporte que lhe dirigi. Para cúmulo, o segundo indeferimento abrangeu também a minha Mulher. Tal circunstãncia impediu-me de participar no Congresso de Radiologia de Barcelona e de acompanhar um doente grave a uma clínica estrangeira.
Médico especializado em França, mercê de uma Bolsa de >Estudo, vejo-me assim impedido não só de actualizar os meus conhecimentos científicos, o que contraria, como é óbvio, a política de Saúde adoptada pelo Governo, mas de me deslocar a Espanha, país onde vigora um regime cujas afinidades com o de Portugal é desnecessário encarecer.
Estou em crer que só por mal-entendido tais factos se verificam. Nessa conformidade, venho solicitar de V.Exª que mande averuiguar o que se passa e dê informação que me permita requerer passaporte para Espanha, pelo menos, ou para Espanha, França e Inglaterra, se possível.
Com os meus cumprimentos
                                                         Mário Sacramento

domingo, 21 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Ensaios de Domingo
3º Volume

Mário Sacramento
Capa: Jorge Machado Dias
Veja, Lisboa s/d

Não me levem a mal se apoiando-me apenas num livro que pode considerar-se de estreia, eu me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português. Assim o sinto, assim o devo escrever, muito embora não esqueça todos os que foram ou são maiores poetas do que ele em definidos (ou restritos) rumos ou tonas e modos do que em poesia podemos abarcar pela designação de neo-realismo. É que em Manuel Alegre não há singularidade, mas sim a espontaneidade dum lirismo vigilante que tem um só tema, um só modo e um só nome: poesia, e pelo qual desabrocha em plenitude e maturidade uma vocação que integra o que antes dele for sobretudo ensaio, esboço ou realização parcelar e mitigada.

(Da crítica a Praçada Canção de Manuel Alegre, publicada na Seara Nova, Maio de 1965).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

OLHAR AS CAPAS


Ensaios de Domingo
1º Volume

Mário Sacramento
Coimbra Editora, Limitada, Coimbra 1959
Capa Gaspar Albino

Morei sucessivamente, na infância, junto às casas dos «novos» e dos «velhos» filarmónicos locais. Foi isso que fez de mim um ensaísta? Apraz-me supô-lo. Gostava de vê-los a caminho do ensaio, ainda em fatos de trabalho, rumorosos e barbudos, sopesando os instrumentos envoltos em guardas de chita ou cotim. E ouvi-los, pela noite dentro, ensopar o silêncio em saliva e suor.
Como eles, sou e serei um ensaísta de retalho, que semeia a escuridão de clangores torturados e síncopes desabridas, alanceado por dispneias em falsete, e invariavelmente impróprio para o consumo em coreto. Ensaio, como eles, nas horas de folga, manhãs de domingo e serões da semana. E como eles sofro o terror da batuta, gavião insaciável do melhor que o peito dá e o sopro leva.
Aqui lhes deixo o meu solfejo. Aos novos e velhos. Homens de fé e surdina. De trenos e amavios. Matutos e salivares. Com sonho ensacado em chita.

domingo, 22 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Carta-Testamento

Mário Sacramento
Direcção gráfica de Armando Alves
Editorial Inova Sarl, Porto, Março 1973

Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!

Não veremos o que quisemos, mas quisemos o que vimos. E este querer é um imperativo histórico. Há milhões de mortos a dizer-vos: avante!

 Para a Mulher, um abraço, simples e esquivo como eu sempre fui. Para os Filhos, um beijo, frio e recalcado como eu sempre lhes dei. Para todos, um afecto. Quem tinha tão pouco que dar a tantos, teve de ser avaro... Mas morre convencido de que não guardou nada para si. Ou de que teve, pelo menos, essa intenção.

 Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.