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sábado, 5 de outubro de 2019

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Prestava serviço militar obrigatório no Regimento de Infantaria nº 5 nas Caldas da Raínha e, por esse motivo, uma qualquer entidade recensearam-me nessa cidade.

Se fossemos votar, tinham-nos avisado de que os nossos votos seriam rigorosamente vigiados.

Decidimos na mesma ir votar em força na Oposição Democrática.

Sabíamos da inutilidade dos nossos votos, mas isso era uma outra história.

Se nas sessões de instrução nocturna fazíamos, em lugar das balelas militares, a leitura de poemas de A Praça da Canção de Manuel Alegre, aquele domingo não era tempo de assobiar para o lado.

Ainda na noite das eleições, o comandante da unidade foi informado da expressão do voto dos milicianos na CDE. O número (cerca de 80) permitiu que não houvesse graves consequências. Quem daria instrução no dia seguinte?

Mas, obviamente, a PIDE ficou a saber das nossas opções políticas.

Copio da Wikipédia:

«As eleições legislativas portuguesas de 1969 foram as primeiras realizadas após a saída de António de Oliveira Salazar da Presidência do Conselho. Decorreram num clima de aparente abertura política, designado por Primavera Marcelista. Realizaram-se no dia 26 de Outubro, tendo concorrido quatro listas: União Nacional ("Lista A"), Comissão Eleitoral de Unidade Democrática ("Lista B"), Comissão Democrática Eleitoral("Lista D") e Comissão Eleitoral Monárquica ("Lista C"). A União Nacional elegeu a totalidade dos 130 deputados, obtendo 980 mil votos. As listas oposicionistas obtiveram somente 133 mil, não conseguindo , no quadro do sistema eleitoral maioritário e plurinominal, eleger qualquer deputado para a Assembleia Nacional.»

Para que a farsa dessas eleições fosse completa, Salazar, em estado vegetal. foi votar. 

Na fotografia que encima o texto, Salazar encontra-se ladeado por uma enfermeira e pela governanta Maria.

As eleições realizaram-se no dia 26 de Outubro de 1969 e no dia 24 Marcelo Caetano dirigira-se à Nação.

São estas as palavras finais da comunicação:


Ficam os títulos dos jornais no dia seguinte às eleições:

Diário de Notícias:

«O Primeiro Grande Resultado da Eleição de Ontem: Vitória do Civismo.

Afluência record e ordem completa.

A Oposição Não Conseguiu Vencer em Nenhum dos Círculos em que se Apresentou e a Assembleia Nacional Será Constituída pelos Deputados que Eram da União Nacional.»

O Século:

»A Expressiva Vontade da Nação: «Sim» ao Prof. Marcelo Caetano.»

Diário da Manhã:

Esmagadora Vitória da Nação Sobre as oposições Ditas Democráticas.

Em números toscos refere-se que, da população maior, em cada 1000, 700 não estavam recenseados; dos 300 recenseados, 115 abstiveram-se, 162 votaram pela União Nacional e 22 pela Oposição Democrática.

Recorde-se, que Mário Soares realizou o seu primeiro acto público de divisionismo constituindo a CEUD contra a CDE.

A ditadura apreciou o sinal. 

Não que os votos da CEUD, juntamente com os da CDE, servissem para eleger um deputado, os dados estavam antecipadamente viciados, mas, como diria o outro, «não havia necessidade!»

Outras histórias!

sábado, 3 de novembro de 2018

O RESTO É O MEU TRABALHINHO


Abrimos as páginas de mais uma entrevista de Luiz Pacheco. A de hoje foi publicada no JL em Setembro de 1997, feita pelo Rodrigues da Silva e o Ricardo de Araújo Pereira com o título A Velhice do Guerrilheiro da Escrita:

Foi preciso chegares a um lar de terceira idade para finalmente, estares bem da vida?

E como nunca estive.

Quanto é que pagas por isto?

Pago 185 contos, que dá mais de 200 por causa dos remédios que são à parte.

Donde é que vem essa massa?

120 contos do Ministério da Cultura – é do Fundo de Fomento Cultural. Já me aumentaram aqui (tinha só 90). Mas a minha reforma de funcionário público (foram só 14 anos) – são 31.700$00 E tenho ainda mais oito contos da SPA. Isto tudo dá 160 contos.

Falta algum. Donde é que vem?

O resto é o meu trabalhinho. Quando vim para aqui tinha 500/600 contos. Sabes que o Mário Soares deu-me 650 contos, não sei se do bolso dele, se donde. Nem me interessa, para mim até pode ser lavagem de dinheiro. Bom: com 500/600 contos dava para três meses aqui. E vim. E há ainda os 55 contos por crónica para o Público.

terça-feira, 10 de julho de 2018

UM DIA DESTES PIFO...


Curta carta de Mário-Henrique Leiria para a «Querida menina», enviada de Carcavelos a 28 de Setembro de 1974, data da hipotética manifestação da maioria Silenciosa orquestrada por Spínola.
As breves linhas falam do momento político, mas não abordam a cena circense de Spínola:

Por enquanto estou aceitando a Junta de Salvação nacional. Por enquanto, é o que digo. Porque não sei o que vai ser concretamente. Estou esperando o melhor. Mas não acredito em míticos, nunca acreditei. E então em generais, muito menos. Veremos…
Trabalha-se…
Tentar reorganizar o PC e legalizá-lo. Veremos, também.
No Mário Soares é que francamente, não vale a pena. Já começou a falar demagogicamente, como nos anos 20. Benza-os Deus… mas comigo não.
Isabel, isto é importante, pelo menos para nós que vivemos aqui..
Não tenho tempo para mais. Estão à minha espera, já aqui ao lado para uma reunião. Amanhã tenho mais e um dia destes pifo. Não faz mal; pifar é bom, quando temos uma realidade.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

VELHOS RECORTES

Assim se fizeram as coisas...
Assim, uma rapaziada fixe meteu o socialismo numa gaveta...
Não mais de lá saiu...
Ou a suave transição democrática do país à beira-mar plantado...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

ETECETERA


Pela primeira vez, o Fundo de Resolução assumiu que perdeu o valor, 4,9 mil milhões de euros, com que capitalizou o Novo Banco.

Se o vulgar cidadão, que nunca estudos economia ou finanças, percebeu que era assim que ia acontecer, estranha-se - não se estranha nada!... - que os governantes e seus conselheiros não o soubessem.

O título acima, pertence à 1ª página do Diário de Notícias de 31 de Dezembro.

A notícia em si, adiantava que só os cinco maiores bancos fecharam 350 balcões.

CTT

O Movimento de Utentes de Serviços Públicos defendeu que o serviço prestado pelos CTT demonstra uma «degradação como não há memória no país», pelos atrasos superiores a meia hora no atendimento e pelo prazo das entregas, resultantes dos poucos trabalhadores que as estações registam.

Acresce que os trabalhadores que andam a distribuir a correspondência pelas residências,  não estão preparados para desempenharem a tarefa.

Sistematicamente na minha caixa do correio aparecem cartas que se destinam a outros, enquanto que me não chegam cartas que deveria receber.

Dois exemplos recentes:

Não recebi uma factura da VODAFONE.

Estranhando, telefonei para a empresa, minutos e minutos  e minutos à espera, para me dizerem que a factura fora enviada e que me devia dirigir à loja mais próxima para fazer o pagamento.

Na loja da Avenida de Roma esperei três quartos de hora para ser atendido e foi-me dito que têm existido muitas reclamações dos clientes.

Simplesmente, na factura que recebi agora, referente ao mês de Dezembro, debitaram-me 1,50 euros de taxa de «Atraso de Pagamento».

Até hoje, não recebi a carta do CONTINENTE referente aos descontos de Janeiro.

Claro que numa qualquer loja posso pedir a impressão dos descontos, mas nada disto está certo.

Quantas cartas e postais já deixei de receber?

Péssima a qualidade dos serviços prestados pelos CTT.

A privatização dos CTT, uma das muitas coroas de glória do miserável governo de Pedro Passos Coelho, rendeu aos cofres do Estado mais de 900 milhões de euros.

PPD/PSD


Por uma inexplicável bizarria assisti à primeira hora do frente a frente entre Rui Rio e Santana Lopes, transmitido na quinta-feira pela TVI.

Deplorável.

Lembrei-me de uma frase de Maria do Rosário Pedreira:

Quando ouço alguns políticos falarem, pergunto-me se já terão lido um livro inteiro, de tal forma é pobre o seu discurso.

A escolha do novo líder do PPD/PSD é, portanto, apenas uma escolha entre diferentes personalidades, não é uma escolha entre diferentes políticas.

Por isso, quando leio que os debates entre Rio e Santana não apresentaram ideias e apenas ataques pessoais, acho que é mesmo isso que está certo, é mesmo isso que seria de esperar.

Quando no outro século, Mário Soares colocou o Socialismo na gaveta e passou a dedicar-se ao socialismo democrático ou socialismo em liberdade, o caminho estava aberto para, mais tarde ou mais cedo reconhecer, dentro da sua boa consciência burguesa que mais não era do que um social-democrata.

Na medida em que é o Partido Socialista que retém as franjas da social democracia, e o CDS detém as franjas da direita liberal, o PPD/PSD irá, mais ano, menos, irá diluindo-se.

Nenhum dos dois personagens, que amanhã se apresentam para um deles ser presidente do partido, mostra um caldo de cultura e de política que permita inverter qualquer situação.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Livro das Insónias sem Mestre
8º Volume de Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2017

A CEUD que o Mário Soares opôs à CDE foi um fiasco – por falta de base popular e juventude. Os filhos dos aderentes da CEUD pertenciam quase todos à CDE que, como uma Boa Nova, se espalhou por colégios, liceus, universidades, lares de raparigas… Os próprios alunos das escolas primárias não escaparam ao sortilégio.
Só o meu neto Pedro José parecia indiferente.
- Ó Pedro: és da CDE?
- Não. Sou do Benfica…
- Porquê?
- Porque ganha quase sempre.
Apreciei o rigor deste quase.

segunda-feira, 20 de março de 2017

POSTAIS SEM SELO


Como Soares, à esquerda, também Cavaco não faz o pleno, à direita. Alguém que pense pela sua cabeça não pode ser nem cavaquista nem soarista o tempo todo.

Pedro Baldaia, Diário de Notícias

Legenda: fotografia de Rui Ochôa, publicada no Expresso.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MOMENTOS ARREPIANTES


Passadas as emoções do momento, quero deixar referido que as cerimónias fúnebres de Mário Soares nos Jerónimos, o mesmo cenário que marcou a assinatura da cerimónia da adesão de Portugal à CEE, tiveram passos marcantes mas quero referir dois: a declamação, por Maria Barroso, de Os Dos Sonetos de Amor da Hora Triste de Álvaro Feijó, a audição da Lacrimosa do Requiem de Mozart.
O começo da minha aprendizagem dos poetas portugueses contemporâneos, está marcado pela leitura dessa espantosa Colecção Poetas de Hoje, da Portugália Editora. Hoje, o poeta Álvaro Feijó, como tantos outros, apenas é conhecido por uma minoria e, por sinal, é o número 1 dessa colecção.

I

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.
                                                        Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca 
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

II

Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.



sábado, 7 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES (1924-2017)


Figura incontornável da política portuguesa.
Em Março de 1981, disse de si mesmo: uma das raras referências democráticas da sociedade portuguesa.
O respeito pela figura de Mário Soares, obriga a não rever águas que já passaram, águas que já não movimentam moinhos.
A História fará o seu julgamento.

Legenda: retrato de Júlio Pomar

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

SARAMAGUEANDO


Publicamos os últimos excertos das Folhas Políticas que, de um modo ou de outro, se entendeu terem a ver com a unidade que se formou à esquerda, para apoiar o Governo do Partido Socialista.

O texto foi publicado no semanário Extra no dia 12 de Janeiro de 1978:

Se ainda alguma coisa espero no meio deste descalabro, desta paródia dum CDS anti-socialista a participar (subtilmente, Soares dixit) num governo comprometido com uma Constituição como a nossa, se alguma coisa ainda espero é que os socialistas militantes se sintam ofendidos pelos factos e reajam como quem ofendido foi e está a ser. E não é, como se pensaria, na mira de uma legítima maioria de esquerda, que faço este voto: sabemos que a maioria de esquerda foi possível, não desde 25 de Abril de 1976, mas desde 25 de Abril de 1974, e contudo, não se fez: não é agora que lhe poderíamos dar a vida que nunca teve. Se peço aos militantes socialistas que reajam, é apenas, e tanto, para que não morram as esperanças de socialismo em Portugal. Não dou ordens em casa alheia, porque as não admito na minha. Limito-me a dizer ao meu vizinho: «Tens o telhado a acir. Olha que morremos todos.» Só isto e nada mais.
(…)
Dir-se-á que detesto o Partido Socialista. Puro engano. Detesto-o tão pouco, que se não fosse comunista seria socialista (E isto, que pode parecer uma simples frase, um mero efeito verbal, exprime rigorosamente, na alternativa lógica que comporta, o absurdo da divisão existente entre os dois partidos, como tal.) O que eu detesto é a política de nenhuma verdade que a direcção do PS tem vindo a praticar sistematicamente, é o descrédito que o PS está a fazer cair sobre a política e sobre a democracia: não dignifica a política quem a transformou no rapa, tira, põe e deixa de interesses que o país nada sabe, não serve a democracia quem utiliza a palavra para iludir a instituição que ela é e os trabalhadores a quem deveria servir.
O povo português está calado. Apagou-se o entusiasmo, o gosto de agir, a criatividade múltipla, que em 1974b e 1975 se manifestaram. Chegaram os portugueses a gostar de si próprios, e essa foi a maior conquista de Abril. E agora? Agora vivemos na Feira da Ladra, comprando e vendendo trapos em segunda mão, enquanto uma voz conhecida, toda voltada para a direita, faz negócios de ministérios: «E quem comprar dois, leva três!» Boa venda, Sr. Mário Soares.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

SARAMAGUEANDO


Prosseguimos a leitura das Folhas a que José Saramago chamou Políticas e que admitimos serem leitura de apoio para os dias difíceis que o governo do Partido Socialista está a viver.

Nas margens daqueles textos, está a vontade que José Saramago sentia de quanto o Partido Socialista, do tempo soarista, deveria ser e que nunca foi.

Para desgosto de quem acreditava que os ideais de Abril eram para ser cumpridos.

Os muitos milhares que se enganaram, tal como cantava o Zé Mário Branco.

Sem dúvida que foi a vontade popular, tomada em termos aritméticos, voto por voto, que fez do Partido Socialista (continuemos, para sua vergonha, a escrever a palavra por extenso) partido de governo e governo: mas não é contra o povo e, portanto, contra a vontade dele (a não ser que os portugueses sejam irremediavelmente masoquistas) que o governo do Sr. Mário Soares tem vindo a governar, praticamente desde que este celebrado socialista se sentou na principal cadeira do conselho de ministros. Já foi mil vezes escrito, já foi mil vezes denunciado que o Partido Socialista está a governar contra especificações essenciais da Constituição, e portanto contra o povo que elegeu os que a redigiram: evitemos, portanto, as repetições. Quando na semana passada falei de oportunismo e traição, não estava com certeza a pensar no PPD e no CDS, coerentíssimos partidos que sabem tão bem o que querem, que até sabem levar o Partido Socialista a fazer o que a eles convém. Cada um na sua altura e segundo o seu interesse. Nisso, o Partido Socialista tem óptima boca.
Mas onde as coisas atingem o delírio, onde as palavras, coitadas delas, são magnificamente conspurcadas, é quando se fala de dignidade da pessoa humana e de soberania. As palavras, meu caríssimo e único leitor, são infelizes, não podem defender-se de quem lhes troca o sentido, de quem não se sente obrigado a respeitá-las, precisamente porque é mínimo ou nulo o seu respeito pela pessoa humana. Falar em dignidade em Portugal, quando todos os dias se aprovam leis contra o povo, quando a polícia espanca e vem depois esconder a mão, negar que tivesse espancado, quando a subserviência se instalou nos corredores do poder, começa por ser indignidade e acaba por ser perda de sentido moral. O nosso país atravessa uma crise económica gravíssima, toda a gente o sabe. E também vive uma profunda crise moral, mas essa crise, ao contrário do que se quer fazer acreditar, não tem os seus mais elevados expoentes nem na droga, nem na criminalidade, nem na prostituição: paira mais alto e tem piores consequências.

(De um artigo publicado no semanário Extra em 29 de Julho de 1977)

sábado, 6 de fevereiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Crocodilo Que Voa
Entrevistas

Organização e introdução de João Pedro George
Capa: Vera Tavares
Tinta-da-China, Lisboa Fevereiro de 2008

Não é isso! Há bocado falámos da avença: o Torga não era um escritor avençado! Era até um escritor único em Portugal, e no mundo, porque era um gajo que se editava a si próprio. Mas é um chato do caneco. Por exemplo, faz um poema para cada Natal: é como quem mata uma galinha ou um peru!
O gajo para mim era um mestre, foi muito importante na minha vida, e se o meu livro é uma autobiografia tenho que meter sempre o Torga! Mas deixei de lê-lo porque é um grandessíssimo chato! Não é não gostar dele: enganou-me! Então o gajo que não queria entrevistas nem prémios literários mamou os prémios todos quantos havia e morreu, como diz o Mário Soares, com a frustração de não ter tido o Prémio Nobel! Não queria mais nada?! E é muito reacionário, benza-o Deus, coitadinho!

(Da entrevista a Mário Santos, Público, Março de 1995).

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

OS IDOS DE DEZEMBRO DE 1975



30 de Dezembro de 1975

Estes dois recortes, um do Diário Popular, outra de A Luta, ambos de 30 de Dezembro de 1975, referem o encerrar do capítulo que ficou para a História como o «Caso Rep«ublica».
Chegava ao fim a longa e difícil luta dos trabalhadores que se arrastou por seis meses.
Passados que são 40 anos ainda não é possível saber, com exactidão, o que se passou no República, durante o Verão Quente.
Mas já é possível dizer que a versão de Mário Soares, e de todos os oportunistas que em seu redor se colocaram, não é toda verdade.
Apenas a verdade que serviu para criar o divisionismo entre as esquerdas.

Um dia, se fará a História.
De quem traiu e o porquê.
Como escreveu Simone Beauvoir:
É horrível assistir à agonia de uma esperança.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO 1975


24 de Novembro de 1975

É tal o emaranhado de acontecimentos, decisões e contra decisões, afirmações e desmentidos das mesmas, uma avalanche de opiniões, palavras de ordem, que se torna, particularmente, difícil, em pouco espaço, dar a conhecer tudo o que vai acontecendo nos dias que correm.

Uma coisa é certa: mais do que nunca, cheira a golpe, venha ele de onde vier.

Ontem, na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, para o mesmo local de há quatro meses antes, o Partido Socialista organizou um comício com a presença de milhares de pessoas.

O Presidente Costa Gomes foi fortemente criticado, enquanto é manifestado inequívoco apoio a Pires Veloso e Jaime Neves, ao VI Governo Provisório

No seu discurso, Mário Soares, proferiu as palavras que o Diário Popular colocou em título:


 À volta de armas e canetas o jornalista do vespertino, Carlos Benigno da Cruz, tece o seguinte comentário:


Numa entrevista ao Nouvel Observateur, Melo Antunes assume que o país caminha para uma guerra civil que, a não ser evitada, nos conduzirá a um outro fascismo
O Jornal Novo transcreve largos extractos da entrevista e, para título, arrastou estas palavras:


Os extractos têm estas palavras de abertura:

Por entre a balbúrdia de opiniões, e as tomadas de posição desconexas e contraditórias a que temos vindo a assistir nos últimos tempos, ergue-se uma voz de bom-senso – a do Major Melo Antunes.
Numa entrevista que hoje sairá a público no “Nouvel Obaervateur”, o ministro dos Negócios Estrangeiros faz uma análise da actual situação política portuguesa e aponta caminhos – que, a serem seguidos, talvez ainda possam salvar este país da derrocada.

Ao jornal coimbrão “Domingo”, o brigadeiro Franco Charais dá uma entrevista em que a bota bate com a perdigota,  e levanta um ponta do nebuloso véu que cerca o país:

Estou convencido que a muito curto prazo vamos ter uma clarificação do processo político português. Clarificação que nem de longe passará por armas nem por confrontações físicas, mas apenas por procedimentos políticos.

O jornalista, no findar da entrevista, pergunta:

- Está preocupado?

- Não. Estou mais optimista.

Entretanto, Jaime Neves passeia-se, por Lisboa, em Chaimite.

Neste mesmo dia o Conselho da Revolução reúne-se para, em definitivo, resolver a nomeação de Vasco Lourenço como comandante da Região Militar de Lisboa.

No seu habitual Apontamento, na 1ª página do Diário de Notícias, José Saramago lembra: Hoje há Conselho:



Num plenário que reúne milhares de agricultores em Rio Maior, é aprovado o saneamento do secretário de estado da Reestruturação Agrária (António Bica do PCP) e de todos os técnicos do IRA de Santarém. Enquanto uma comissão eleita no plenário se desloca ao Conselho da Revolução os agricultores erguem barricadas que bloqueiam completamente os acessos a Lisboa.

Aproxima-se a madrugada em que Novembro entrará portas dentro dos quarteis de Abril.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- A Resistência de José Gomes Mota
- Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


A Resistência

José Gomes Mota
Prefácio Sousa e Castro
Capa: Luís Ribeiro
Edições Jornal Expresso, Lisboa Junho de 1976.

Na reunião das Laranjeiras – a última das reuniões plenárias do Movimento antes do 25 de Novembro – tinha ficado assente de, ao nível do Governo, ter de ser tomada uma atitude agressiva para pressionar o poder militar e clarificar a sua posição frente do VI Governo Provisório.
A demissão colectiva ou uma suspensão temporária de actividades tinham sido as medidas que obtiveram maior consenso, ainda que não tenha resultado qualquer decisão em favor de uma ou de outra.
Na terça-feira, dia 18 de Novembro, como quase habitualmente fomos almoçar ao Chocalho.
Este restaurante de Santos, uma descoberta de Melo Antunes, oferece-nos a vantagem de utilizar uma improvisada sala de jantar, antiga dispensa da casa, o que nos consente um total recato. Apareceram como normalmente o Vítor Crespo, Vítor Alves, Mário de Aguiar, Costa Brás, Vasco Lourenço, Melo Antunes e, como seu convidado, o Dr. Mário Soares.
O convite a Mário Soares justificava-se pela necessidade de se fazer um ponto da situação política e conhecer de parte a parte, »nove» e partido socialista, as perspectivas de acção concreta para se tentar conseguir o reforço da autoridade do VI Governo. Após uma longa e vasta troca de impressões, expus «apaixonadamente» a Mário Soares a ideia de se provocar uma suspensão de actividades do Governo.
Esta atitude política porém só poderia resultar verdadeiramente eficaz se colhesse inteiramente de surpresa os nossos «adversários». Tomada ainda nestas circunstâncias seria, provavelmente, a primeira vez, que a iniciativa e a surpresa eram inteiramente nossas.
Mário Soares acolheu a ideia com entusiasmo, praticamente garantindo desde logo a adesão do seu partido, e manifestando a convicção de que a ela adeririam com certeza o PPD e os Ministros Independentes.

domingo, 15 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


15 de Novembro de 1975

O título pertence à edição do Diário de Notícias de hoje.
O que Mário Soares classificou como algo de muito grave que se preparava em Lisboa, que levou os deputados do PS e do PPD, a refugiarem-se no norte do país, não passou de uma gigantesca manifestação de vontade popular, realizada na Praça do Comércio, sem qualquer tipo de incidentes. Tão pouco foi necessário gritar: «O Povo é Sereno».
A manifestação está marcada para amanhã.
No dia de hoje, as notícias e os comentários voltam-se para o cerco a S. Bento.
Sá Carneiro refere a Comuna de Lisboa e Manuel Alegre, num comício, salientou que «se o Norte não fosse como é, a Revolução já tinha sido desfeita».
A Crónica Parlamentar do Diário Popular, assinada por Adelino Cardoso, refere a fuga para o norte do país, dos deputados do PS e do PPD.:


No  Conselho de Ministros, o governo solidarizou-se com o primeiro-ministro, o presidente da Assembleia da República, os ministros, os deputados, os funcionários sequestrados na Assembleia e declara que o Presidente da República e o Conselho da Revolução devem pronunciar-se sobre os gravíssimos acontecimentos.
O governo manifesta-se, ainda, contra o inacreditável alheamento do poder militar face ao cerco

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975



!0 de Novembro de 1975

PRIMEIRO ACONTECERA no Porto, depois em Faro e ontem chegou a vez de Lisboa.
Por iniciativa do PS., do PPD, do CDS, do PPM, teve lugar, no Terreiro do Paço, uma manifestação de apoio ao VI Governo.
Mário Castrim no seu Canal da Crítica, hoje, no Diário de Lisboa:
A principal preocupação parece centrar-se na defesa do VI Governo. Foi dito que o VI conta com o apoio da esmagadora maioria do povo português. Muito bem. Mas então por que o VI Governo não governa? Por que será que o Poder não pode?. A carga de plástico utilizada contra a Renascença não será a prova de um total divórcio entre as forças do Poder e as forças populares?
Não. Não se pode governar contra os trabalhadores. Esta é uma lição da História. Não se pode governar assim. Assim, só se pode reprimir. Com todos os perigos da escalada da repressão.
O Primeiro-Ministro Pinheiro de Azevedo fez o seu discurso, numa das varandas do Ministério da Economia, no Terreiro do Paço, ladeado por Mário Soares e Sá Carneiro.

O jornal Poder Popular, órgão central do Movimento de esquerda Socialista, reproduz diálogos entre Soares e o Almirante. O jornal afirma que os diálogos foram recolhidos por «microfones indiscretos». São estes os diálogos:


A INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA foi tema central de um inesperado Conselho de Ministros sob a presidência do Presidente da República e com a excepcional presença dos secretários-gerais do PS, do PPD e do PCP.
Às pressões internas, das forças à esquerda do PS, para que Portugal reconheça apenas a proclamação da independência do MPLA, e não as anunciadas pelos outros dois movimentos angolanos, UNITA e FNLA, juntou-se a condenação unânime dos partidos no poder nos novos países africanos: Moçambique, Guiné/Cabo Verde e são Tomé e Príncipe, reunidos em Lourenço marques sob a presidência de Samora Machel.

FREITAS DO AMARAL, citado pelo Diário de Notícias, num discurso em Tondela:
O processo de descolonização foi exemplarmente escandaloso.

JOSÉ SARAMAGO, no seu Apontamento no Diário de Notícias:
Amanhã, lembremos, será a independência de Angola. Até ao momento em que escrevemos, não é conhecida a posição final do Governo. As hesitações terão ido até ao fim, até ao derradeiro instante, e está bem que assim seja, num País em que a hesitação, tem sido a única constante política.


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Novos Apontamentos de José Saramago.

domingo, 8 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


 8 de Novembro de 1975

Hoje, o Diário de Lisboa publica um suplemento de 16 páginas com a transcrição, na íntegra, do Frente a Frente, moderado por Joaquim Letria.
O Suplemento do Diário de Lisboa tem um sugestivo desenho com a assinatura de João Abel Manta.
O Frente a Frente teve uma duração de 3 horas e 40 minutos e cada um dos intervenientes explicou a concepção do que devia ser o Socialismo.
Sobre o longo debate, e, na apresentação do documento, o Diário de Lisboa escreve:

O que ficou tragicamente definido neste “encontro impossível, foi a disparidade de duas linguagens: a do imediato que se projecta em realidades próximas (P.S.) e a do futuro próximo (P.C.) que assenta em realidades imediatas.

Seja como for, o perfil do P.C. P. não regista significativas correcções neste frente-a-frente, mas é o P.S. que, para o grande público, sai mais esclarecido nas entrelinhas do confronto. Será uma opinião, mais ou menos orientada – como se quiser. Mas que desapaixonadamente se deduzirá do relato que publicamos na integra.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

NOTÍCIAS DO CIRCO



Nunca me esquecerei, mas agora que ando a reler jornais e livros sobre o que passou no Verão Quente de 1975, mais ressalta o papel que o Partido Socialista desempenhou naqueles conturbados tempos.
Ninguém está isento de culpas, mas esse papel preludiava o que veio a acontecer, com resultados ainda hoje à vista.
Nem a esquerda militar, nem a civil estavam organizadas para ter-se construído a república socialista.
Um movimento, largamente urdido, foi erigido para que tal não acontecesse.
Nas últimas presidenciais o Partido Socialista dividiu-se ente Alegre e Soares.
Levámos com mais Cavaco!
Agora vai-se dividindo entre Sampaio da Nóvoa, Henrique Neto, Maria de Belém e ainda a procissão não saíu do adro.
Esta gente nunca mais aprende!
Hélas!

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

OS IDOS DE AGOSTO DE 1975


13 de Agosto de 1975

NO SEU LIVRO, A Resistência, José Gomes Mota relata, com detalhe, as conspirações que iam sendo construídas, primeiro para a elaboração do Documento dos Nove, segundo para a formação de um VI Governo Provisório:
Como o V Governo tinha uma esperança que não ia além de dois meses, era necessário encontrar rapidamente uma solução que pudesse ultrapassar definitivamente a crise aberta pelo abandono do IV Governo Provisório dos representantes dos partidos socialistas e popular democrático.
Reuniões com elementos do Grupo dos Nove e Otelo Saraiva de Carvalho acontecem em casa do próprio Gomes Mota.
Na entrevista à Agência espanhola Pyresa. Mário Soares chega a lançar a ideia de que Melo Antunes daria um bom Primeiro-Ministro.
Mas, ainda segundo Gomes Mota, a escolha recai em Carlos Fabião.
Nos próximos dias se dará conta do que então vai acontecendo neste Agosto de há quarenta anos.

CONTINUARAM a chegar em massa retornados de Angola.
Aos mais necessitados é-lhes dado 20, 50 ou 100 escudos para as primeiras despesas.
Entretanto o IARN vai resolvendo os problemas de alojamento.
De fonte não oficial, corre a notícia de que tropas da África do Sul entram no território para dar apoio à FNLA e à UNITA.

MIGUEL TORGA no seu Diário:
Coisa curiosa: esta revolução soçobra por inércia. As pessoas não actuam, por comodidade ou desleixo, à espera que as coisas se resolvam por si. Os próprios partidos praticam uma política morosa, de espera galegos. No fundo, todos reconhecemos intimamente a nossa mediocridade e não tentamos ecder-nos. Se depois a História nos confirmar, tanto melhor. Diante do comportamento de certos homens, fica a gente a pensar se estaremos em face de desencantados, de abúlicos, de cépticos ou de mistificadores.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

A Resistência de José Gomes Mota – Edições Jornal Expresso, Lisboa Junho de 1976.