Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Ventura Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Ventura Livros. Mostrar todas as mensagens

sábado, 2 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Outro Tempo Outra Cidade

Mário Ventura
Capa: Manuel Dias sobre «A Parábola dos Cegos» pintura de Brueghel
Livraria Bertrand, Lisboa. Novembro de 1979

Um dia há-de dizer-se que nunca existiu em Portugal um verdadeiro fascismo. E isso só servirá para encobrir uma amarga verdade: a de que todos, mas todos estivemos envolvidos e comprometidos nesta farsa trágica que se abateu sobre nós. Quando não se pode transformar a sociedade em que vivemos, porque nos falta a força para isso ou por não o desejarmos com muita intensidade, acabamos por aceitar, involuntária mas resignadamente, que ela nos transforme e corrompa. Porquê e como, é uma coisa que não se sabe nem se pode sentir. Vê tu como este palhaço do Marcelo Caetano, que chegou a iludir e a manter em expectativa tanta e tão boa gente, crente de que o fascismo se deixaria liberalizar, acabou decorrido um a afalar das colónias e da guerra:
«O bom combate é o de poupar a nossa África às calamidades das independências fictícias, proclamadas por meio de autodeterminações ilusórias que, em homenagem a mitos reinantes, sacrificam os verdadeiros interesses dos povos e comprometem a paz no mundo.»

terça-feira, 11 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


À Sombra da Árvores Mortas

Mário Ventura
Capa: José Cândido
Livraria Bertrand, Lisboa s/d

Manolo olhou-o em silêncio, como se lhe perscrutasse as intenções. Parecia desconfiado.
- Mas tu pensas que os livros sérios circulam assim à vontade?
- Não sabia… - murmurou confuso.
O outro continuou a fitá-lo até que chegou a uma decisão.
- Verei se posso conseguir alguma coisa.
- Sabes… o que me contaste ajuda-me a conhecer mais o teu país e a compreender certas coisas que vi. E creio té que gosto mais dele…
- É do saber comum: só se ama o que se conhece bem.

sábado, 2 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Despojo dos Insensatos

Mário Ventura
Capa: José Cândido
Livraria Bertrand, Lisboa 1968

Vinte anos atrás a enciclopédia dedicava duas páginas a Açoreira, referindo a existência de fábricas de conserva, lagares de azeite, destilações de aguardente, moagens, agências bancárias. Hoje existem apenas as Agências bancárias, quase todas as semanas abre, os estrangeiros trocam dinheiro diariamente. O resto foi-se, na voragem de um estranho progresso, com as pessoas sentindo-se estranhas na própria terra e a abalar para outras paragens.
Na capitania estão inscritos dois mil pescadores, e ainda não há muitos anos que todos enganavam a morte e a vida arrastando-se pelas águas da Açoreira. Agora são, quanto muito quinhentos, pescando apenas no Verão, no Inverno iludem o tempo em trabalhos de vexame e de fome nos campos, e quase todos estão com um pé dentro e outro fora desta terra maldita que lhes anda a trocar as voltas desde que nasceram.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Conversas

Mário Ventura
Colecção Figuras nº 5
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1986

Este livro constitui o registo de uma das experiências mais interessantes da minha vida profissional, quer como jornalista, quer como escritor. Começo por ser um projecto puramente jornalístico, circunspecto e comedido, mas acabou por ser uma tarefa aliciante e divertida.

Existem várias razões para que assim tenha sido, mas todas elas radicam numa única: a liberdade da palavra trouxe também a desinibição da palavra. Com efeito, e ainda não há muitos anos, era impensável pretender que um escritor português respondesse de improviso às perguntas que lhe fossem dirigidas com o objectvo imediatista da respectiva publicação.

domingo, 15 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


 Março Desavindo

Mário Ventura
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 1987

- Claro, é evidente que existem as condições teóricas para que isso possa acontecer. Há uma burguesia que não é de esquerda, embora alguns pretendam absurdamente que está com a revolução, o que é um requinte de optimismo idiota se pensarmos que num dado momento ela apenas se afirmou democrata. E do outro lado há um processo revolucionário, melhor dizendo radical, que até hoje ninguém adoptou de forma coerente e até  às últimas consequências, chegando mesmo àquilo de que os jornalistas mais gostam: sangue e mortos. Não estou a brincar, admito apenas a possibilidade lógica de um processo que se pretende revolucionário. Mas se a esquerda não tem cojones ou inteligência para actuar com decisão e firmeza, também não vejo que a burguesia seja mais hábil ou voluntariosa. Se o fosse não teria perdido o seu lugar. Ainda que provisoriamente. A esquerda vai continuar a fazer a sua revolução verbal, assustando muito mas sem vontade e capacidade para fazer o que apregoa, ou seja, conquistar o Poder, e a burguesia, com a lógica habitual dos acossados, só actuará quando tiver a certeza de ganhar.
- Esqueceste-te dos comunistas – interrompeu Lozano.
- Os comunistas cumprem uma tarefa impossível: tentam arrumar uma casa constantemente sacudida por tremores de terra. Não conseguirão passar daí, embora também assustem muito.
- Diz-se que estão por detrás de tudo…
- Todos os partidos estão por detrás de tudo aquilo que fazem os militares, Cada um procura a sua marioneta.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

OLHAR AS CAPAS


A Noite da Vergonha

Mário Ventura
Capa: Guilherme Casquilho
Livraria Bertrand, Lisboa s/d

É detestável, eu sei, mas não me posso contrariar. Não consigo vê-los de outra forma que não seja a de vermes a rastejar, a rastejar sempre, eternamente, sem um momento de revolta ou de lucidez… Não vislumbro neles qualquer espécie de elevação, a não ser a de viver, se é que a involuntariedade desse acto lhes deixa qualquer mérito. Como se nada tivessem do que eu penso que faz um ser humano digno e consciente: simplicidade, raciocínio, capacidade de agir. E contudo sei que não é assim; crei até, e com convicção, que se encontram no mesmo plano que eu, e quantos deles acima de mim… Mas para o compreender, para o sentir verdadeiramente, necessito de presenciar a sua vida, os seus problemas. Assim, visto à distância, num cenário que nada tem de humano, possuem o sabor de fantoches, de bonecos articulados, a provocarem um riso amargo…