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domingo, 6 de outubro de 2019

AH! AS PALAVRAS


O que importa é que as palavras em contexto ficcional, nunca são neutras. São ultravibráteis. Ao menor movimento, ressoam. São caprichosas, sensíveis a cada minuto que passa, a cada relance de luz. Não é indiferente lê-las numa página amarelada, numa página de brancura rasa, ao alto da folha, em baixo. A própria grafia implica uma ligeira alteração de tom.
As palavras são volúveis. Vêm de contrabando, estabelecem-se, envelhecem, desaparecem. Às vezes morrem, outras vezes ficam adormecidas e são despertadas pelo beijo mágico de algum príncipe das letras, que pode ser um humilde jornalista. Pulsam, ecoam, modulam a sua própria ressonância. Reverberam, espalham reflexos para todo o lado. São rebeldes, desapertam as cordas, esgueiram-se das clausuras. São leves e aéreas. São pesadas como tanques. Abismam-se, ampliam-se, encolhem-se. Redimensionam-se. São como o deus grego Proteu, sempre a mudar de forma e mesmo de género ("mha senhor", dizia-se antes de "senhora" assumir o feminino).»

domingo, 29 de setembro de 2019

AS LEITURAS ERAM PARTILHADAS


Mário de Carvalho ri-se com vontade durante um bom bocado, antes de caracterizar o ambiente em que se vivia nesses idos tempos: «No final dos anos 60, nós líamos muito e as leituras eram partilhadas, líamos as mesmas coisas e conversávamos e discutíamos e vivíamos em ambiente intelectual. Os casais que se visitavam, os grupos que se reuniam, iam ao cinema, ao teatro, partilhavam tudo isso.» Só que «isso era antes», remata o escritor que publica há mais de três décadas e que tem a clara percepção desse antes e de um depois desse antes em que existia, por exemplo, em Portugal, «uma crítica literária, que cumpria o seu papel e tinha a sua importância.» Depois, que é como quem diz, agora, na sua opinião, passou a haver «apenas a publicidade a livros anglo-saxónicos, e de vez em quando, um português para disfarçar, um brasileiro para disfarçar… Mas, em princípio, o facto de ser português implica logo uma secundarização. Isto é saloio, é extremamente saloio. É vergonhosos o que se passa nos jornais em termos de valorização da literatura portuguesa, que não é qualquer uma, é uma literatura de nove séculos, em alguns génios, tem um acervo, através dos séculos, de grandes escritores, que são comparáveis a outras grandes literaturas, e tudo isso é como se não existisse. E há gente que aparece a fazer aquilo que julga que é crítica literária sem ter o contexto do lastro histórico que é esse património sobre o qual a nossa literatura se está a formar. E sem ter em conta até a nossa literatura e o nosso mundo literário, e reproduzindo quase em termos de propaganda que chega a ser aflitiva, os esquemas e as posições e as imprecisões e as opiniões que aparecerem primeiro nas revistas anglo-saxónicas e no mundo anglo-saxónico. Acabam por ser uma espécie de câmaras de repercussão, de Câmaras de reprodução do que é dito por outros.»

Inês Fonseca Santos em Vale a Pena?

quinta-feira, 11 de julho de 2019

QUOTIDIANOS


As cerejas estão a acabar.
Parece que o Verão chegou a Portugal.
A corrupção alastra nas autarquias.
Não há meio de sabermos o que se passou realmente no roubo de armamento em Tancos.
Vítor Constãncio recebe de reforma do Banco Central Europeu 17 mil euros e 17 mil de Portugal. O que fez na estranja não é público, o que (não) fez em Portugal vai-se sabendo aos poucos, mas perdeu a memória e Joe Berardo continua a rir-se.
Soube-se agora que a campanha de Cavaco Silva á presidência da República beneficiou de dez cheques de 25.000 euros provenientes do saco azul gerido por Ricardo salgado no BES.
Soube-se hoje que somos menos, que estamos mais envelhecidos e que a taxa de pobreza diminuiu um pouco mas continua elevada e que afecta os jovens até aos 18 anos e os adultos com mais de 65 anos.
As televisões, diariamente, ocupam horas e horas e horas e horas de futebol.
Hélia Correia, uma escritora portuguesa, venceu o com o seu livro Um Bailarino na Batalha venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Talvez alguma televisão tenha gasto 3 segundos com a notícia.
Dizem que a chuva talvez volte amanhã.
A certeza é que quando as cerejas acabarem, só as voltaremos a ver lá para o Natal, vindas do Chile, a preços astronómicos.
No dia 20 de Julho, um sábado, às 21H30 irei rever, na Cinemateca, Belarmino, esse belo filme de Fernando Lopes.
No meio disto tudo, lembrar que Mário de Carvalho começa assim o seu livro Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina:

«Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, “ensembles”, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.»

sábado, 13 de abril de 2019

SÓ OS POBRES É QUE SE ENGANAM!...


Um artigo que li no outro dia perguntava: porque é que os perus votam a favor do Natal? Ou seja, porque é que as pessoas votam contra os seus próprios interesses? O subtítulo dizia: “façam de nós mais pobres” e o artigo concluía que quem numa campanha eleitoral começa a racionalizar e a explicar também começa a perder porque as pessoas vão apoiar não os que lhes dão melhores alternativas, mas aqueles que lhes contam melhores histórias, melhores tretas. Isto é de facto altamente preocupante.

Mário de Carvalho na Seara Nova, Verão 2010

quinta-feira, 4 de abril de 2019

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NUMA CANSADA BICICLETA PASTELEIRA


Vai agora, pelos campos, para os lados de Vila de Frades, um apicultor, numa cansada bicicleta pasteleira. Traz no exposto porta-bagagens um bidão de plástico amarelo, cheio de mel, que muito desequilibra aquele andar. Pois ainda que vagando sozinho, também faz conversa. Fala com os seus botões. Nem os solitários escapam ao afã elocutório, porque a abotoadura, desde que foi inventada, tem o condão mágico e tradicional de nutrir o paleio. E vem o apicultor a dizer baixinho, mas com convicção: «ora bem, estes vinte litros de mel distribuídos por cento e cinquenta frascos que já lá tenho lavados e que não custaram nada porque foram recolhidos nos vidrões dos supermercados, o trabalhão que isso deu, descontando dez euros para etiquetas e colas e paninhos para tampas, dá, deixa ver Eleutério (chama-se Eleutério), deixa ver… A oito euros o frasco, a bela maquia de mil cento e noventa euros. Com metade, compro sementes de quivi, que é o que está a dar, e o resto divido em duas partes, uma para comprar uma prenda para a Irina porque as namoradas em pousio desertam, a outra para comprar um jogo de matraquilhos em terceira mão que instalo na tasca do meu cunhado, rendimentos a meias». E lá segue o homem, a pedalar e a falar, por um dos trilhos deste Portugal, muito a sul. Nisto, espalha-se nos ares a melodia de Smetana, O Rio Moldávia, em notas fininhas, como vibração de fios de arame invisível, o homem remexe nos bolsos, tira um objecto brilhante, brada «tá?» e a bicicleta andando, andando, enquanto o homem comunica, uma das mãos no guiador a outra no Nokia.
Telefones móveis! Soturna apoquentação! Um país tagarela tem, de um momento para o outro, dez milhões de íncolas a querer saber onde é que os outros param, e a transmitir pensamentos à distância.
Afortunados ventos que batem todas as altitudes e pontos cardeais e levam as mais das palavras, às vezes frases inteiras, parágrafos, grosas delas, para as afogar no mar, embeber nos lameiros de Espanha, gelar nos confins da Sibéria, perder nas imensidades do éter. É um favor de Deus único e verdadeiro. O país pereceria num sufoco, aflito de rouquidões, atafulhado de vocábulos, envenenado de sandices, se a Providência caridosa lhos não disseminasse por desatinadas paragens.


Legenda: ilustração de Mihai Christie

quinta-feira, 7 de março de 2019

À CONVERSA


Perguntaram-lhe:

Assume-se como um homem de esquerda, foi preso político antes do 25 de Abril de 1974, foi militante de um partido político. Nestes anos que levamos de democracia a sua visão da sociedade alterou-se?

Respondeu:

A sociedade alterou-se muito. Hoje vivemos um pouco num mundo de ficção científica; o mundo em 2010 não tem nada que ver com o mundo da minha juventude. As certezas que na altura tinha, um pouco próprias da teimosia juvenil que se interroga pouco, mas também porque o mundo parecia ter uma configuração completamente diferente e os acontecimentos pareciam dar razão à minha visão do mundo, acabaram por demonstrar que nem sempre era assim. Penso que a diferença entre esquerda e direita faz cada vez mais sentido, faz todo o sentido. Não se trata de quem se senta à direita do rei, mas da distinção entre esquerda e direita, em que à primeira estão associados os movimentos de transformação que querem melhorar a vida de todos e à segunda respeitam aqueles que querem perpetuar a exploração de uns por outros e a humilhação, o poder do dinheiro, dos exércitos. Há ao longo da História uma distinção muitíssimo clara entre as duas. A direita funciona naturalmente através do preconceito; a direita está naturalmente ao lado dos mais fortes; a direita está naturalmente contra as mudanças. Por mais que se arvorem em direita moderna, quando chega a hora dos grandes confrontos e das grandes decisões a direita está sempre do lado errado da História, pelo lado dos maus instintos. Quando digo isto não quero dizer que as pessoas tenham maus instintos; há pessoas de direita que são excelentes pessoas. Refiro-me à inserção social, à inserção na História e a direita representa o lado histórico dos maus instintos. É, por exemplo, o lado de quem, durante todo o século XIX esteve contra a liberdade de expressão, contra a liberdade de reunião, contra a liberdade de imprensa, contra a liberdade sindical. Esse é o lado da direita.

Entrevista de Mário de Carvalho feita por Ana Goulart e publicada na Seara Nova nº 1712, Verão de 2010.

Legenda: Mário de Carvalho

domingo, 9 de setembro de 2018

ETECETERA


Na passada sexta-feira abriu, nos jardins do Palácio de Cristal, a Feira do Livro de Porto que fechará stands no dia 23 de Setembro.

Nas muitas iniciativas dos organizadores da feira, consta a atribuição da Tília  que este ano homenageia José Mário Branco, um dos maiores nomes da Música Portuguesa.

José Mário Branco junta-se, como recebedor da tília, a Mário Cláudio, Vasco Graça-Moura, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner Andresen.

José Mário Branco editou recentemente um duplo álbum de inéditos, datados de 1967 a 1999, quebrando um silêncio de vários anos.


ZECA

À boleia de José Mário Branco cabe trazer o registo de um triste episódio em que se viu envolvido o nome de José Afonso.

A incontrolável vaidade pessoal de José Jorge Letria, músico e cantor menor e hoje presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, levou-o a declarar o compromisso de que os restos mortais de José Afonso deveriam ser transladados para o Panteão Nacional :

«É este o tributo e é esta homenagem que Portugal deve a quem como mais ninguém o soube cantar em nome dos valores da liberdade, da democracia, da cultura e da cidadania», lê-se no comunicado. Assumimdo a Sociedade Portuuesa de Autores assume publicamente o compromisso de lutar por este legítimo e inadiável ato de consagração que deverá coincidir com os 90 anos do nascimento [de José Afonso] e com os 45 anos do 25 de Abril.»

José Jorge Letra gosta de dizer que andou de braço dado com o Zeca mas, se verdade isso é, podemos dizer que não aprendeu NADA!

De imediato, os herdeiros de José Afonso, que ficaram surpreendidos com a proposta, rejeitaram a transladação dos restos mortais de José Afonso para o Panteão Nacional:

«José Afonso rejeitou em vida as condecorações oficiais que lhe haviam sido propostas. Foi, a seu pedido, enterrado em campa rasa e sem cerimónias oficiais, em total coerência com a sua vida e pensamento. Por isso, apesar da meritória intenção que inspira a proposta, é a sua vontade que deve ser respeitada.»

SLB


Sabe-se que o mundo do futebol é uma podridão generalizada.

Razão tinha o escritor Mário de Carvalho quando, há longo tempo, disse numa entrevista que «a maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola e meter na cadeia essa pardalada.»

José Pacheco Pereira no Público:

«O interessante e pouco surpreendente exercício de contenção de danos que sucessões de adeptos do Benfica, célebres, consagrados, eminentes juristas, e homens que só eles sabem quem são, fazem, com a cumplicidade activa da comunicação social reduzida a esta miséria, tem como objectivo dizer que, se houve ilegalidades, elas foram de um homem ou dois e não atingem o clube, nem essa coisa contraditória nos seus termos, chamada a “verdade desportiva”. Isto porque uma das sanções previstas, em absoluta teoria e em absoluta impossibilidade prática, inclui a proibição do clube jogar por uns meses e anos, ou ser despromovido para uma divisão inferior. A tese é que nenhum jogo foi ganho ou perdido, a célebre “verdade desportiva”, por causa de uma malfeitoria de espionagem ilegal ao sistema judicial e a várias bases de dados públicas, para obter informações sobre processos judiciais e dados sobre árbitros.
A questão é muito simples: na história da corrupção em Portugal há quatro componentes, três de cima, e uma de baixo. Completam-se como peças de um jogo, neste caso o jogo do nosso atávico atraso nacional. Nacional, português, nosso, que todos nós pagamos para alguns receberem. As três de cima são as dos grandes: a corrupção na política, nos negócios e no futebol, profundamente interligadas. A de baixo, é a pequena corrupção do dia a dia, que os portugueses praticam como quem respira e que, entre outras coisas, gera o pano de fundo para toda a corrupção, nem que seja pela fragilíssima condenação de ilegalidades quando são parecidas com as que os de baixo praticam. São tudo valentões contra a corrupção, no café e nas caixas de comentários e Facebooks, mas depois, como se vê no futebol, fecham os olhos tão forte que até dói.»

A FECHAR

«Lembrei-me de pedir a João Semedo que me contasse como tinha ido viver para o porto. Ele sorriu com a pergunta, deve ter coçado a cabeça no seu gesto típico e a resposta foi algo como: “o Partido precisava de gente no Porto” –m o Partido era então, o PCP – “e eu fui para o Porto”. Não havia na sua voz qualquer laivo de distanciamento em relação às razões dessa decisão, pelo contrário. João Semedo tornou-se profundamente um portuense e um homem que vivia a cidade do porto. Ter ido para o porto por militância partidária e cívica – uma coisa que hoje não se faz e quase ninguém imaginaria fazer – era provavelmente para ele a melhor razão para se ter tornado portuense».

Rui Tavares, artigo na morte de João Semedo, publicado no Público.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA


Mário de Carvalho é um escritor muito cá de casa.
Dei com este admirável texto que publicou no Facebook e que encontrei no blog Aventar.
Mário de Carvalho nasceu em Setembro de 1944, eu em Março de 1945.
Morava na Rua das Enfermeiras da Grande Guerra, eu na Rua Mestre António Martins, ambas para os lados da Penha de França.
Andámos no Liceu Gil Vicente, a caminho sentíamos o delicioso cheiro, a chocolate, da Fábrica Favorita, ali a Sapadores, frequentámos as matinés do Cine-Oriente mas nunca nos encontrámos.
Talvez um dia.
«Era que trocássemos umas ideias sobre o assunto.»

«Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.»

terça-feira, 4 de abril de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Há uns bons anos atrás, numa entrevista ao suplemento Mil Folhas do jornal Público, o escritor Mário de Carvalho disse: «a maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do jogo da bola.»

Pedro Tadeu, hoje, no Diário de Notícias insurge-se contra os acontecimentos do fim-de-semana no mundo portuga da bola: um adepto deitado no chão a ser pontapeado por um polícia, um árbitro agredido com uma joelhada no nariz aos dois minutos do jogo Rio Tinto-Canelas do campeonato distrital do Porto:

sábado, 25 de março de 2017

COMEÇOS DE LIVROS


Há livros, lidos há muito tempo, caídos no esquecimento e que voltamos a pegar, por vezes olhar, só quando, por uma qualquer assombração, uma campainha toca, e dizemos:

- Eh pá! Eu já li isto!

A campainha que tocou, encontrei-a no livro do Mário de Carvalho Quem Disser o Contrário éPorque Tem Razão.

Escreve Mário de Carvalho:

Muito curiosas as primeiras linhas de Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo, com a obsessão enumerativa que prepondera em todo o romance: «Faz hoje trezentos e quarenta e oito anos seis meses e dezanove dias que os parisienses despertaram com a barulheira de todos os sinos a badalar…


O livro, dois volumes, o primeiro com 294 páginas, o segundo com 352 páginas, cheias de uma letra minúscula e que pertencem à Colecção Lusitânia da Livraria Lello & Irmão, sem data de edição, sem indicação do tradutor, apenas a nota «Tradução Cuidado», foi-me oferecido, em 1958, por ocasião dos meus 13 anos, pelo António Colaço, um amigo do meu pai.

Que leva alguém a oferecer, a um puto, um livro destes?

Que o leia, naturalmente.

Senão aos 13, aos 50, aos 75 anos, mas que o leia.

Ficou de lado à espera de uma qualquer vontade.

Lembro-me de o ler, não recordo com que idade, mas de certeza antes dos 22 anos.

Naquele tempo era a leitura o que restava, mas poucos eram os privilegiados.

Não havia televisão, apenas cinema ao sábado à noite ou domingo à tarde, futebol de 15 em 15 dias e como não era possível andar sempre a jogar à bola nas ruas, lia-se tudo, passavam-se livros de mão em mão, assim um pouco, como, maravilhosamente, contou Dinis Machado no capítulo Os rapazes dos livros, das fitas e da bola, de Reduto Quase Final

Recordo a leitura encantantória de Nossa Senhor de Paris, principalmente a partir do livro Sétimo, quando o autor decreta dos perigos de confiar um segredo a uma cabra.

Quasímodo, o Corcunda enclausurado de Notre Dame, Esmeralda, a bela cigana, a história do louco amor dele por ela, e apenas a  amizade dela por ele. Também o arcediago de Notre Dame, D. Claudio Frollo , também ele , esquecendo Deus, perdido de amores pela bela cigana.

O entusiasmo pelo livro teve um acalentamento suplementar, transformado em grata memória, quando, no Cine-Oriente, princípios dos anos sessenta (1962?) vi o filme que Jean Delannoy adaptou ao cinema, com a participação de Jacques Prévert, espaço assombroso para uma deslumbrante Gina Lolobrigida e um excelente Anthony Queen.



Com os dois volumes nas mãos, uma leve tentação para voltar a ler, mas aquela letra miudinha fez desfalecer o pitosga que já sou.
Assim, en passant, como dizem os franceses, perdi umas horas a (re)ler algumas páginas, e deu-me para respigar da pág. 175 do 2º volume:

No dia seguinte pela manhã descobriu, ao despertar, que tinha dormido. Já havia tanto tempo que se desabituara de dormir! Um alegre raio de sol nascente entrava pelo postigo e vinha beijar-lhe o rosto. Ao mesmo tempo que o Sol, viu nesse postigo um objecto que a encheu de medo; era o desventurado rosto de Quasímodo. Involuntàriamente fechou os olhos, mas debalde; parecia estar sempre a ver através das suas pálpebras cor-de-rosa aquela máscara de gnomo, cego dum olho, com os dentes de fora. Então, conservando sempre os olhos fechados, ouviu uma voz rude que dizia com muita meiguice:
- Não tenhais medo. Sou vosso amigo. Que eu venha ver-vos dormir não vos faz mal, não é verdade? Que vos faz que eu esteja aqui quando tendes os olhos fechados? Agora vou-me embora. Vede, pus-me por detrás do muro. Podeis abrir os olhos.

Mais um pormenor sobre a Nossa Senhora de Paris.

Durante anos, o Paulo Rodrigues, que foi actor saído da Guilherme Cossoul, foi meu colega de trabalho e, volta e meia, entre as diversas secretárias, percorria o espaço da grande sala, fazendo de corcunda e coxo e a dizer:

«Mon seigneur.»
   
Um pormenor que não diz nada a ninguém, mas que, agora que o lembro, me faz sorrir de ternura.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

À CONVERSA


Perguntaram-lhe:

Como disse, o Mário também acabou por ser preso. Que marcas é que isso lhe deixou?

Respondeu:

Ao fim e ao cabo, o que eu fazia era participar em reuniões, distribuir papeis, entrar em discussões. Era perfeitamente banal. Mas encontrei na cadeia muitos bons amigos, e isso é que me ficou. Há um ruído que nunca mais se esquece na vida. Sabe qual é? É o barulho das grades de ferro a fecharem-se. Da fechadura. Ficamos com isso na cabeça para sempre.

Mário de Carvalho

sexta-feira, 10 de junho de 2016

BOLAS P'RO PINHAL!


COMEÇA HOJE o maior europeu da história do futebol!

França, anfitriã, e Roménia vão dar o pontapé de saída para o Euro 2016 às 20.00, horas.
A selecção portuguesa só na terça-feira entra em campo, defrontando a Islândia.

O slogan que falava em "11 milhões no coração" foi modificado no autocarro que transporta a seleção em solo francês.

A polémica andava em torno de um número que não agradava a toda a gente, em especial ao deputado do PS Paulo Pisco e ao secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro.

Nos vidros laterais do autocarro lia-se:

"Uma equipa, uma paixão. 11 milhões no coração. Força Portugal."

Agora, para não ferir susceptibilidades. passou a ler-se a mesma frase mas sem o 11.
Passaram a ser milhões mas sem estarem quantificados.

Diz quem sabe, que somos dez milhões a viver no quadrado e mais cinco milhões espalhados pelos cantos do mundo.

Siga a Marinha!

A DIRECÇÂO DA FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE FUTEBOL tem previsto pagar um prémio de 250 mil euros a cada um dos 23 jogadores se a seleção nacional se sagrar campeã europeia.

Esta verba, no entanto, poderá aumentar. É que cada futebolista tem direito a um valor diário - nas últimas competições andava na casa dos 800 euros. Contas feitas, em caso de Portugal chegar à final e vencer, Cristiano Ronaldo e companhia poderão aproximar-se dos 300 mil euros.

CERCA DE DUAS CENTENAS DE ADEPTOS DA SELECÇÃO INGLESA foram dispersados pela polícia francesa em Marselha, que recorreu a cães e gás lacrimogéneo, depois de desacatos durante a madrugada.

Os fãs ingleses, que começaram a chegar na tarde de quinta-feira a Marselha para assistir, no sábado, ao jogo de estreia da sua seleção no Euro2016, frente à Rússia, foram-se reunindo numa zona de bares durante a madrugada, registando-se os primeiros incidentes.

Aproximadamente 1.100 polícias estarão de vigilância em torno do estádio e outros 600 na zona de fãs, devido ao jogo Inglaterra-Rússia, em Marselha, que foi qualificado de alto risco.

POGBA, KANTE, SISSOKO E SAGNA podiam sofrer fisicamente com o jejum entre o nascer e o pôr-do-sol. Mas chegaram a acordo com a federação francesa e não vão obedecer ao ritual.

França e Roménia dão esta noite o pontapé de saída do Campeonato da Europa. Didier Deschamps, selecionador francês, terá todos os seus craques à disposição e a 100%. Houve alguma incerteza sobre a forma de quatro futebolistas, todos eles muçulmanos, mas Paul Pogba, N"Golo Kante, Moussa Sissoko e Bacary Sagna não vão cumprir o Ramadão, de forma a estarem fisicamente aptos para este importante torneio.

Cumprir o Ramadão (que este ano termina a 5 de Julho) obrigaria os quatros jogadores a não comer e beber do nascer ao pôr-do-sol, algo impensável durante um torneio tão exigente do ponto de vista físico.

O ESCRITOR MÁRIO DE CARVALHO ODEIA FUTEBOL

Tem todo o direito, pois então!

Por ocasião de outro europeu, manifestou-se assim:

Estamos perante uma das mais monstruosas manobras de aviltamento e rebaixamento de que há memória em Portugal. Aproxima-se o campeonato europeu da bola e os meus concidadãos, manipulados pela propaganda, mostram-se rendidos, servis, e ovantes. Gente ponderada e séria vai na onda, ou por medo das ralés, que vociferam e ameaçam, ou por aceitar aristocraticamente que será preferível elas esgadanharem-se por causa da bola que desatarem guerras civis e outras sangueiras.


Legenda: Seguindo a ideia do formato do “Borda D’Água” a “Associação Abril em Maio”, por alturas do Euro 2004, fez publicar “Euroxuto”, uma paródia que pretendia “contrariar a já vigente brutalização mediática, idólatra e encomiástica, e fornecer alguns dados e algumas pistas de reflexão.”

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A ENORME CAIXA-DE-MÚSICA


O estabelecimento, de abandonada montra de garrafas e porta e férrea de correr com gancho, acabrunha-se na esquina do cruzamento da Rua da Senhora da Glória com a Rua das Beatas. Dentro apresenta demasiados vidros e alumínios para tasca e demasiado vasilhame de pau encardido para leitaria. Progride de taberna (serradura no chão) para o modernaço (máquina de café), ou regride ao inverso. Carrega-se ali nos bagaços e nos copos de três, que podem ser animados pelo furor melódico da enorme caixa-de-música, que faz lembrar a do filme O Gigante, coberta de luminárias marcianas, a piscar coloridos. Uma moeda, dez tostões, os Beatles, Alfredo Marceneiro, Os Doors, Os Conchas (tchiribari-papa, tchiribari-papa…) ou o miúdo da Bica. Vale a pena escorropichar a moeda só para observar o sortilégio dos maquinismos. O disco a deslizar, a escorregar no prato, o braço do gira-discos a exibir-se ao alto, em sacudidelas medidas, antes de aplicar-se convictamente nas estrias para despiralar os ritmos. Tecnologia dos anos cinquenta que eu imaginei manejada com desembaraço, desencravada a poder de joelhómetro, pelos melómanos de esquina.

Mário de Carvalho em Apuros de Um Pessimista emFuga

quinta-feira, 30 de abril de 2015

TÍTULOS


Um certo título é difícil de fixar pela sua sua extensão, mas todos sabemos que ele existe e tentamos reproduzi-lo com um sorriso: Papá, Pobre Papá, a Mamã Pendurou-Te no Armário e Eu Estou Tão Triste, da peça de Arthur L. Kopit.

Mário de Carvalho em Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

PIOR QUE COISA DE LABREGOS!


Sou contra as praxes.

Por muitas histórias que me contem, não as compreendo nem aceito.

A tragédia da praia do Meco tem mostrado o lado negativo de uma comunicação social doentiamente interessada em vender papel e agarrar audiências.

Mostrou também o atraso com que as autoridades, policias e judiciais, lidaram com o problema.

Acresce a idiotice do presidente do Conselho de Administração da Lusófona, que é de opinião que as praxes são meras brincadeiras e que todos os dias morrem pessoas nas estradas e não vamos proibir alguém de andar na estrada, a Lusófona essa parideira de alguns doutores cujo principal rosto é o ex-ministro Miguel Relvas

And last but not the least a falta de tomates do ministro da Educação, tão lesto a tratar os professores a pontapé e acobardando-se ao ponto de não conseguir a tomada de uma posição clara e inequívoca sobre os limites das praxes.

Do que tenho ouvido e lido sobre a dramática brincadeira do Meco quero realçar a opinião de Pacheco Pereira e de Vasco Pulido Valente, ambas expressas no Público de 25 de Janeiro.

Lei agora, via Meditação na Pastelaria, a opinião do escritor Mário de Carvalho que num curto, mas certeiro, texto, coloca as praxes no devido enquadramento: pura javardice.

Antes da REACÇÃO contra a revolução do 25 de Abril de 1974, não havia praxe em Lisboa. O espírito crítico de um escol cultural, prevalente na Universidade, tinha padrões exigentes. Ensino superior não queria dizer ensino inferior. Era uma elevação sobre a miserável circunstância dominante. A praxe era considerada – e bem -- COISA DE LABREGOS.
Em Coimbra, nos anos sessenta, após as críticas corajosas de Flávio Vara (“ O Espantalho da praxe…” 1958) e a chegada de uma geração mais desempoeirada, a praxe quase desapareceu. Reinstalaram-na depois com todo o seu fétido programa passadista.
A praxe é o abraço alcoolizado entre o ricaço marialvão, abrutalhado e analfabeto e o povoléu boçal e trauliteiro, folclorizando o servilismo medieval em vestes eclesiásticas. Ao fim e ao cabo, o velho Portugal alarve, mendigo, medievalóide e agachadinho, mas de telemóvel em riste.
Não se ponderem gradações entre um medievalismo civilizado e um medievalismo excessivo. Toda a praxe é desprezível. No estado a que as coisas, desgraçadamente, chegaram, proibir seria contraproducente. Mas há muitas formas de desencorajar. E os professores – que têm sido, aliás, de uma distracção cúmplice (mea culpa) – sabem isso bem.
Oxalá os estudantes se dêem conta de como foram inferiorizados e transformados em «jovens velhinhos» por uma súcia rasca.
Tanto mais que a situação assume contornos sinistros e mafiosos. Ao que parece, com “omertà” e tudo. Um atavismo lusitano vem fazer de hífen entre a tradição siciliana e o nórdico Nacional-Socialismo.
Pior que mera COISA DE LABREGOS.

Legenda: imagem do Público.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

SARAMAGUEANDO


O livro, no bom dizer do saudoso editor Manuel Hermínio Monteiro deve conter a própria vida dos que com ele lidam quotidianamente.

Sou do tempo em que os livros estavam ao cuidado de gente culta.

Orgulhosamente profissionais, livreiros e editores sabiam o que tinham entre mãos.

Com a chamada globalização, os livreiros foram substituídos por computadores e os grandes grupos editoriais como a Leya, Porto Editora, Bertrand  &Cª Lda, desataram a comprar pequenas e grandes editoras, não com o objectivo de as valorizar mas para, simplesmente, ganharem algo com o negócio.

Por exemplo, Miguel Pais do Amaral, um empresário de tudo e mais alguma coisa, constituiu a Leya e comprou, entre outras pequenas editoras, as Publicações Dom Quixote e a Editorial Caminho que têm nos seus catálogos diversos escritores portugueses e jóias da coroa como António Lobo Antunes, e José Saramago.

Numa entrevista à Notícias Sábado, Fevereiro de 2010:

Os carros são o meu hobby, é algo que me acompanha desde sempre. Em termos competitivos, fui evoluindo aos poucos e agora isto é o máximo. O prazer de correr é único e sinto-me um privilegiado.

Pierre Bourdieu, citado por Arnaldo Saraiva disse que o editor é um personagem duplo que deve saber conciliar a arte e o dinheiro.

Claro que é possível gostar de carros e de livros ou, como na aldeia de Asterix, ser-se bárbaro e gostar de flores, mas não é o caso do personagem que presidencialmente se senta numa cadeira do edifício Leya.

Mário de Carvalho, durante muitos anos editado pela Caminho, em 2012 abandonou o   grupo  Leya pois não estava sujeito a que tivessem demorado três anos para saber quem ele era.

Acho que quem sabe de livros, deve fazer livros, quem sabe de cervejas ou de sabonetes deve tratar de cervejas ou de sabonetes…

Quarta-feira ficámos a saber que José Saramago não volta a ser publicado pela Leya.

Não se conhecem os contornos da decisão, apenas se sabe que chegou ao fim uma relação editorial iniciada há 35 anos, com a publicação de A Noite.

A posição da Leya surge depois de uma das editoras do grupo a Editorial Caminho, ter anunciado deixar de publicar as obras de José Saramago, por falta de acordo com as herdeiras do Nobel da Literatura.

As herdeiras de José Saramago e a Editorial Caminho informam que não foi possível chegar a acordo sobre as condições contratuais que permitiriam continuar a publicar nesta editora a obra do escritor, lê-se num comunicado assinado pelas herdeiras do escritor, a viúva, Pilar del Rio, e a filha, Violante Saramago Matos, e ainda por Tiago Morais Sarmento e Zeferino Coelho, da Editorial Caminho.

José Sucena, administrador da Fundação José Saramago já tornou público que a instituição está a fazer diligências no sentido de encontrar uma editora que sirva a Saramago e a quem Saramago sirva, e avançou a hipótese de, caso não seja encontrada uma editora, ser a própria fundação e editar os livros de José Saramago

Almeida Faria, João Tordo, José Eduardo Água Lusa, Ricahrd Zimler, João Tordo, os herdeiros de Sophia Mello Breyner Andresen, o anteriormente citado Mário de carvalho, já abandonaram a Leya.

Miguel Sousa Tavares seguiu o mesmo caminho e, hoje, em declarações ao Público,  fala de descontentamento quanto ao trabalho do grupo que, matou a identidade das editoras” que agregou desde a sua fundação, em 2008. Não creio que o grupo Leya esteja vocacionado para a edição de livros. A Leya partiu do princípio que juntando várias editoras faziam sinergias e conseguiam fazer melhor, mas isto não é como juntar as salsichas Nobre com as salsichas Aveirense.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

NOMOFOBIA


Não gosto de telefones, tão pouco de  telemóveis.

Dos telemóveis reconheço a sua utilidade para emergências, sejam elas quais forem, mas apenas para isso.

Há alguns meses que sou proprietário de um primitivo modelo de telemóvel, apenas porque a família entendeu que, começando a ficar gagá, servirá para chamar o 112, o que quer que seja, alguém que me dê uma mãozinha em caso de aflição.

Há quem fique aterrorizado com a ideia de ficar sem bateria, rede ou saldo no telemóvel.

Os ingleses chamam-lhe nomofobia e já está definida como uma sensação de angústia que surge quando alguém se sente impossibilitado de se comunicar ou se vê incontactável estando sem seu telemóvel.

A psicóloga Maria João Moura diz que há pessoas que não desligam o telemóvel para não estarem sozinhas.

Mário de Carvalho a págs. 13 de Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina:

Telefones móveis! Soturma apoquentação! Um país tagarela tem, de um momento para o outro, dez milhões de íncolas a quere saber onde é que os outros param, e a transmitir pensamentos à distãncia.

Maria do Rosário Pedreira no blogue Horas Extraordinárias:

A sociedade moderna, excessivamente tecnológica, torna-nos bichos solitários (no masculino, claro). No Facebook, apanhei há tempos uma fotografia divertida de um bar, na parede do qual o proprietário afixara um pedido para que os clientes largassem os telemóveis e falassem, por favor, uns com os outros. É verdade que muita gente vive completamente escrava destes e de outros aparelhos, talvez para não se sentir muito sozinha, mas ainda assim sozinha porque ignorando por causa disso os que ali estão e podiam fazer-lhe companhia melhor do que as SMS que chegam, irritantemente, a todo o momento e exigem resposta. Com muitos cafés transformados em agências bancárias, desapareceram também as conversas e tertúlias que, nos anos 1960 e 1970, segundo me conta o Manel, juntavam à roda de uma mesa (em Lisboa e no Porto, pelo menos) muita gente que queria falar e discutir assuntos, conhecer escritores e mostrar poemas, levantar a voz contra o poder instituído e planear acções culturais e políticas. Hoje, os cafés têm poucas mesas e, ao que parece, os jovens intelectuais perderam o gosto de se encontrar e trocar impressões, a menos que seja por e-mail. Talvez os blogues tenham substituído esses encontros ao vivo, mas, num período tão mau como o que vivemos, não era descabido que se realizassem de novo tertúlias, até porque delas poderiam sair ideias boas e criativas que nos alegrassem os dias.

Jorge Listopad: 

À mesa de uma esplanada, vejo chegar um casal, jovem ainda. Sentam-se, encomendam a bebida, e logo, no mesmo tempo, como em simultâneo, puxam dos respectivos telemóveis e põem-se a conversar.
Cada um para seu lado, animadamente.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Badana da Colecção A Hora do Lobo das Edições Rolim, referente ao nº4 - Era Uma Vez Um Alferes de Mário de Carvalho.

domingo, 28 de outubro de 2012

REFUNDIR, DISSE ELE...


O comandante da nave de loucos que nos (des)governa, disse ontem à nação que pretende discutir a refundação do memorando de entendimento com a troika..

Os teóricos-os-comentadores-a-malta-dos-fatos-às-riscas-e-gravatas-azul-bebé-do-costume, não sabem o que é que o homem quer com esta história do refundir.

Mas os dos costume já sabem: um qualquer outro meio de nos lixar ainda mais a vida já lixada que enfrentamos.

Esta garotada, como lhes chamou o escritor Mário de Carvalho, está completamente fora das realidades e demonstram uma insensibilidade desesperante, trágica mesmo, sobre os dramas sociais que estão, a todo o momento, a acontecer no país.

Sem qualquer ponta de dúvida, estamos a ser dirigidos por uma cambada de aldrabões

Estes ministros, os deputados que irão aprovar o orçamento para 2013., deviam pensar, por um único segundo, no descalabro que vão causar.

Poderão sorrir aos filhos? Falar aos amigos?

Pelas amostras que vamos vendo, rigorosamente nada os afecta.

Um governo como este, diria o Eça de Queiroz, não cai porque não é um edifício, mas sai com benzina porque é uma nódoa.

Mas, como com benzina, certamente, não cairá, temos que nos juntar e, por um destes dias, corrê-los à paulada.

Sim, à paulada, para que tudo o que já sofremos não tenha sido em vão!