O que importa é que as palavras em contexto ficcional,
nunca são neutras. São ultravibráteis. Ao menor movimento, ressoam. São
caprichosas, sensíveis a cada minuto que passa, a cada relance de luz. Não é
indiferente lê-las numa página amarelada, numa página de brancura rasa, ao alto
da folha, em baixo. A própria grafia implica uma ligeira alteração de tom.
As palavras são volúveis. Vêm de contrabando, estabelecem-se,
envelhecem, desaparecem. Às vezes morrem, outras vezes ficam adormecidas e são
despertadas pelo beijo mágico de algum príncipe das letras, que pode ser um
humilde jornalista. Pulsam, ecoam, modulam a sua própria ressonância.
Reverberam, espalham reflexos para todo o lado. São rebeldes, desapertam as
cordas, esgueiram-se das clausuras. São leves e aéreas. São pesadas como
tanques. Abismam-se, ampliam-se, encolhem-se. Redimensionam-se. São como o deus
grego Proteu, sempre a mudar de forma e mesmo de género ("mha
senhor", dizia-se antes de "senhora" assumir o feminino).»
Mário de Carvalho ri-se com vontade durante um bom
bocado, antes de caracterizar o ambiente em que se vivia nesses idos tempos:
«No final dos anos 60, nós líamos muito e as leituras eram partilhadas, líamos
as mesmas coisas e conversávamos e discutíamos e vivíamos em ambiente
intelectual. Os casais que se visitavam, os grupos que se reuniam, iam ao
cinema, ao teatro, partilhavam tudo isso.» Só que «isso era antes», remata o
escritor que publica há mais de três décadas e que tem a clara percepção desse
antes e de um depois desse antes em que existia, por exemplo, em Portugal, «uma
crítica literária, que cumpria o seu papel e tinha a sua importância.» Depois,
que é como quem diz, agora, na sua opinião, passou a haver «apenas a publicidade
a livros anglo-saxónicos, e de vez em quando, um português para disfarçar, um
brasileiro para disfarçar… Mas, em princípio, o facto de ser português implica
logo uma secundarização. Isto é saloio, é extremamente saloio. É vergonhosos o
que se passa nos jornais em termos de valorização da literatura portuguesa, que
não é qualquer uma, é uma literatura de nove séculos, em alguns génios, tem um
acervo, através dos séculos, de grandes escritores, que são comparáveis a
outras grandes literaturas, e tudo isso é como se não existisse. E há gente que
aparece a fazer aquilo que julga que é crítica literária sem ter o contexto do
lastro histórico que é esse património sobre o qual a nossa literatura se está
a formar. E sem ter em conta até a nossa literatura e o nosso mundo literário,
e reproduzindo quase em termos de propaganda que chega a ser aflitiva, os
esquemas e as posições e as imprecisões e as opiniões que aparecerem primeiro
nas revistas anglo-saxónicas e no mundo anglo-saxónico. Acabam por ser uma
espécie de câmaras de repercussão, de Câmaras de reprodução do que é dito por
outros.»
Não há meio de
sabermos o que se passou realmente no roubo de armamento em Tancos.
Vítor Constãncio
recebe de reforma do Banco Central Europeu 17 mil euros e 17 mil de Portugal. O
que fez na estranja não é público, o que (não) fez em Portugal vai-se sabendo
aos poucos, mas perdeu a memória e Joe Berardo continua a rir-se.
Soube-se agora
que a campanha de Cavaco Silva á presidência da República beneficiou de dez
cheques de 25.000 euros provenientes do saco azul gerido por Ricardo salgado no
BES.
Soube-se hoje
que somos menos, que estamos mais envelhecidos e que a taxa de pobreza diminuiu
um pouco mas continua elevada e que afecta os jovens até aos 18 anos e os
adultos com mais de 65 anos.
As televisões,
diariamente, ocupam horas e horas e horas e horas de futebol.
Hélia Correia,
uma escritora portuguesa, venceu o com o seu livro Um Bailarino na Batalha
venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de
Escritores. Talvez alguma televisão tenha gasto 3 segundos com a notícia.
Dizem que a
chuva talvez volte amanhã.
A certeza é que
quando as cerejas acabarem, só as voltaremos a ver lá para o Natal, vindas do
Chile, a preços astronómicos.
No dia 20 de
Julho, um sábado, às 21H30 irei rever, na Cinemateca, Belarmino, esse belo filme de Fernando Lopes.
No meio disto tudo, lembrar que Mário de
Carvalho começa assim o seu livro Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina:
«Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a
gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos,
trios, “ensembles”, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu de
Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam
a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório
é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em
todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a
falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer,
a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de
aturdimento mais à mão.»
Um artigo que li no outro dia perguntava: porque é que
os perus votam a favor do Natal? Ou seja, porque é que as pessoas votam contra
os seus próprios interesses? O subtítulo dizia: “façam de nós mais pobres” e o
artigo concluía que quem numa campanha eleitoral começa a racionalizar e a
explicar também começa a perder porque as pessoas vão apoiar não os que lhes
dão melhores alternativas, mas aqueles que lhes contam melhores histórias,
melhores tretas. Isto é de facto altamente preocupante.
Vai agora, pelos campos, para os lados de Vila de
Frades, um apicultor, numa cansada bicicleta pasteleira. Traz no exposto
porta-bagagens um bidão de plástico amarelo, cheio de mel, que muito
desequilibra aquele andar. Pois ainda que vagando sozinho, também faz conversa.
Fala com os seus botões. Nem os solitários escapam ao afã elocutório, porque a
abotoadura, desde que foi inventada, tem o condão mágico e tradicional de
nutrir o paleio. E vem o apicultor a dizer baixinho, mas com convicção: «ora
bem, estes vinte litros de mel distribuídos por cento e cinquenta frascos que
já lá tenho lavados e que não custaram nada porque foram recolhidos nos vidrões
dos supermercados, o trabalhão que isso deu, descontando dez euros para
etiquetas e colas e paninhos para tampas, dá, deixa ver Eleutério (chama-se
Eleutério), deixa ver… A oito euros o frasco, a bela maquia de mil cento e
noventa euros. Com metade, compro sementes de quivi, que é o que está a dar, e
o resto divido em duas partes, uma para comprar uma prenda para a Irina porque
as namoradas em pousio desertam, a outra para comprar um jogo de matraquilhos
em terceira mão que instalo na tasca do meu cunhado, rendimentos a meias». E lá
segue o homem, a pedalar e a falar, por um dos trilhos deste Portugal, muito a
sul. Nisto, espalha-se nos ares a melodia de Smetana, O Rio Moldávia, em notas
fininhas, como vibração de fios de arame invisível, o homem remexe nos bolsos,
tira um objecto brilhante, brada «tá?» e a bicicleta andando, andando, enquanto
o homem comunica, uma das mãos no guiador a outra no Nokia.
Telefones móveis! Soturna apoquentação! Um país
tagarela tem, de um momento para o outro, dez milhões de íncolas a querer saber
onde é que os outros param, e a transmitir pensamentos à distância.
Afortunados ventos que batem todas as altitudes e
pontos cardeais e levam as mais das palavras, às vezes frases inteiras,
parágrafos, grosas delas, para as afogar no mar, embeber nos lameiros de
Espanha, gelar nos confins da Sibéria, perder nas imensidades do éter. É um
favor de Deus único e verdadeiro. O país pereceria num sufoco, aflito de
rouquidões, atafulhado de vocábulos, envenenado de sandices, se a Providência
caridosa lhos não disseminasse por desatinadas paragens.
Assume-se como um homem de esquerda, foi preso
político antes do 25 de Abril de 1974, foi militante de um partido político.
Nestes anos que levamos de democracia a sua visão da sociedade alterou-se?
Respondeu:
A sociedade alterou-se muito. Hoje vivemos um pouco
num mundo de ficção científica; o mundo em 2010 não tem nada que ver com o
mundo da minha juventude. As certezas que na altura tinha, um pouco próprias da
teimosia juvenil que se interroga pouco, mas também porque o mundo parecia ter
uma configuração completamente diferente e os acontecimentos pareciam dar razão
à minha visão do mundo, acabaram por demonstrar que nem sempre era assim. Penso
que a diferença entre esquerda e direita faz cada vez mais sentido, faz todo o
sentido. Não se trata de quem se senta à direita do rei, mas da distinção entre
esquerda e direita, em que à primeira estão associados os movimentos de
transformação que querem melhorar a vida de todos e à segunda respeitam aqueles
que querem perpetuar a exploração de uns por outros e a humilhação, o poder do
dinheiro, dos exércitos. Há ao longo da História uma distinção muitíssimo clara
entre as duas. A direita funciona naturalmente através do preconceito; a
direita está naturalmente ao lado dos mais fortes; a direita está naturalmente
contra as mudanças. Por mais que se arvorem em direita moderna, quando chega a
hora dos grandes confrontos e das grandes decisões a direita está sempre do
lado errado da História, pelo lado dos maus instintos. Quando digo isto não
quero dizer que as pessoas tenham maus instintos; há pessoas de direita que são
excelentes pessoas. Refiro-me à inserção social, à inserção na História e a
direita representa o lado histórico dos maus instintos. É, por exemplo, o lado
de quem, durante todo o século XIX esteve contra a liberdade de expressão,
contra a liberdade de reunião, contra a liberdade de imprensa, contra a
liberdade sindical. Esse é o lado da direita.
Entrevista de
Mário de Carvalho feita por Ana Goulart e publicada na Seara Nova nº
1712, Verão de 2010.
Na passada sexta-feira abriu, nos jardins do Palácio de
Cristal, a Feira do Livro de Porto que fechará stands no dia 23 de Setembro.
Nas muitas iniciativas dos organizadores da feira, consta
a atribuição da Tíliaque este ano
homenageia José Mário Branco, um dos maiores nomes da Música Portuguesa.
José Mário Branco junta-se, como recebedor da tília, a
Mário Cláudio, Vasco Graça-Moura, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner
Andresen.
José Mário Branco editou recentemente um duplo álbum de
inéditos, datados de 1967 a 1999, quebrando um silêncio de vários anos.
ZECA
À boleia de José Mário Branco cabe trazer o registo de um
triste episódio em que se viu envolvido o nome de José Afonso.
A incontrolável vaidade pessoal de José Jorge Letria,
músico e cantor menor e hoje presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores,
levou-o a declarar o compromisso de que os restos mortais de José Afonso deveriam ser transladados para o Panteão
Nacional :
«É este o tributo e é esta homenagem que Portugal deve a quem como mais
ninguém o soube cantar em nome dos valores da liberdade, da democracia, da
cultura e da cidadania», lê-se no comunicado. Assumimdo a Sociedade Portuuesa
de Autores assume publicamente o compromisso de lutar por este legítimo e
inadiável ato de consagração que deverá coincidir com os 90 anos do nascimento
[de José Afonso] e com os 45 anos do 25 de Abril.»
José Jorge Letra gosta de dizer que andou de braço dado
com o Zeca mas, se verdade isso é, podemos dizer que não aprendeu NADA!
De imediato, os herdeiros de José Afonso, que ficaram
surpreendidos com a proposta, rejeitaram a transladação dos restos mortais de
José Afonso para o Panteão Nacional:
«José Afonso
rejeitou em vida as condecorações oficiais que lhe haviam sido propostas. Foi,
a seu pedido, enterrado em campa rasa e sem cerimónias oficiais, em total
coerência com a sua vida e pensamento. Por isso, apesar da meritória
intenção que inspira a proposta, é a sua vontade que deve ser respeitada.»
Sabe-se que o mundo do futebol é uma podridão generalizada.
Razão tinha o escritor Mário de Carvalho quando, há longo
tempo, disse numa entrevista que «a maior
alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola e meter na
cadeia essa pardalada.»
José Pacheco Pereira no Público:
«O interessante e
pouco surpreendente exercício de contenção de danos que sucessões de adeptos do
Benfica, célebres, consagrados, eminentes juristas, e homens que só eles sabem
quem são, fazem, com a cumplicidade activa da comunicação social reduzida a
esta miséria, tem como objectivo dizer que, se houve ilegalidades, elas foram
de um homem ou dois e não atingem o clube, nem essa coisa contraditória nos
seus termos, chamada a “verdade desportiva”. Isto porque uma das sanções
previstas, em absoluta teoria e em absoluta impossibilidade prática, inclui a
proibição do clube jogar por uns meses e anos, ou ser despromovido para uma
divisão inferior. A tese é que nenhum jogo foi ganho ou perdido, a célebre
“verdade desportiva”, por causa de uma malfeitoria de espionagem ilegal ao
sistema judicial e a várias bases de dados públicas, para obter informações
sobre processos judiciais e dados sobre árbitros.
A questão é muito
simples: na história da corrupção em Portugal há quatro componentes, três de
cima, e uma de baixo. Completam-se como peças de um jogo, neste caso o jogo do
nosso atávico atraso nacional. Nacional, português, nosso, que todos nós
pagamos para alguns receberem. As três de cima são as dos grandes: a corrupção
na política, nos negócios e no futebol, profundamente interligadas. A de baixo,
é a pequena corrupção do dia a dia, que os portugueses praticam como quem
respira e que, entre outras coisas, gera o pano de fundo para toda a corrupção,
nem que seja pela fragilíssima condenação de ilegalidades quando são parecidas
com as que os de baixo praticam. São tudo valentões contra a corrupção, no café
e nas caixas de comentários e Facebooks, mas depois, como se vê no futebol,
fecham os olhos tão forte que até dói.»
A FECHAR
«Lembrei-me de pedir a João Semedo que me contasse como tinha ido viver
para o porto. Ele sorriu com a pergunta, deve ter coçado a cabeça no seu gesto
típico e a resposta foi algo como: “o Partido precisava de gente no Porto” –m o
Partido era então, o PCP – “e eu fui para o Porto”. Não havia na sua voz
qualquer laivo de distanciamento em relação às razões dessa decisão, pelo
contrário. João Semedo tornou-se profundamente um portuense e um homem que
vivia a cidade do porto. Ter ido para o porto por militância partidária e
cívica – uma coisa que hoje não se faz e quase ninguém imaginaria fazer – era
provavelmente para ele a melhor razão para se ter tornado portuense».
Rui Tavares, artigo na
morte de João Semedo, publicado no Público.
Dei com este
admirável texto que publicou no Facebook e que encontrei no blog Aventar.
Mário de Carvalho
nasceu em Setembro de 1944, eu em Março de 1945.
Morava na Rua das Enfermeiras
da Grande Guerra, eu na Rua Mestre António Martins, ambas para os lados da
Penha de França.
Andámos no Liceu Gil
Vicente, a caminho sentíamos o delicioso cheiro, a chocolate, da Fábrica
Favorita, ali a Sapadores, frequentámos as matinés do Cine-Oriente mas nunca
nos encontrámos.
Talvez um dia.
«Era que trocássemos umas ideias sobre o assunto.»
«Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus
superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de
Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros
miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais
velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a
Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de
ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em
torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o
«venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe
de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe
do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e
Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu
nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças
inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a
acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos
escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca
fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui
em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo
assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca
vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e
papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros
do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os
presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que
tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada,
vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e
insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar
durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e
ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca
fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar
inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave,
no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca
vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de
sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se
encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas,
nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu
nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante
o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio
desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum
cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes
arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da
prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio
memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu
nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e
nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e
comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse
censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido
gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz
num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar
com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial
por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça
aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num
autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado.
Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por
fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da
Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui
sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde.
Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me
apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que
queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui
expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a
minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui
precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na
realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações
«a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar
ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e
condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente
quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze
noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e
ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci
as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que
tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado
à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente
do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade
de conhecer o fascismo.»
Há uns bons anos atrás, numa entrevista ao
suplemento Mil Folhas do jornal Público, o escritor Mário de Carvalho
disse: «a maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do jogo da bola.»
Pedro
Tadeu, hoje, no Diário de Notícias insurge-se
contra os acontecimentos do fim-de-semana no mundo portuga da bola: um adepto
deitado no chão a ser pontapeado por um polícia, um árbitro agredido com uma
joelhada no nariz aos dois minutos do jogo Rio Tinto-Canelas do campeonato distrital do Porto:
Há livros, lidos
há muito tempo, caídos no esquecimento e que voltamos a pegar, por vezes olhar,
só quando, por uma qualquer assombração, uma campainha toca, e dizemos:
Muito curiosas as primeiras linhas de Nossa Senhora de
Paris, de Victor Hugo, com a obsessão enumerativa que prepondera em todo o
romance: «Faz hoje trezentos e quarenta e oito anos seis meses e dezanove dias
que os parisienses despertaram com a barulheira de todos os sinos a badalar…
O livro, dois
volumes, o primeiro com 294 páginas, o segundo com 352 páginas, cheias de uma
letra minúscula e que pertencem à Colecção Lusitânia da Livraria Lello &
Irmão, sem data de edição, sem indicação do tradutor, apenas a nota «Tradução
Cuidado», foi-me oferecido, em 1958, por ocasião dos meus 13 anos, pelo António
Colaço, um amigo do meu pai.
Que leva alguém a
oferecer, a um puto, um livro destes?
Que o leia,
naturalmente.
Senão aos 13,
aos 50, aos 75 anos, mas que o leia.
Ficou de lado à
espera de uma qualquer vontade.
Lembro-me de o
ler, não recordo com que idade, mas de certeza antes dos 22 anos.
Naquele tempo
era a leitura o que restava, mas poucos eram os privilegiados.
Não havia
televisão, apenas cinema ao sábado à noite ou domingo à tarde, futebol de 15 em
15 dias e como não era possível andar sempre a jogar à bola nas ruas, lia-se
tudo, passavam-se livros de mão em mão, assim um pouco, como, maravilhosamente,
contou Dinis Machado no capítulo Os rapazes dos livros, das fitas e da bola,
de Reduto Quase Final
Recordo a
leitura encantantória de Nossa Senhor de Paris, principalmente a partir
do livro Sétimo, quando o autor decreta dos perigos de confiar um segredo a uma
cabra.
Quasímodo, o
Corcunda enclausurado de Notre Dame, Esmeralda, a bela cigana, a história do
louco amor dele por ela, e apenas a
amizade dela por ele. Também o arcediago de Notre Dame, D. Claudio
Frollo , também ele , esquecendo Deus, perdido de amores pela bela cigana.
O entusiasmo
pelo livro teve um acalentamento suplementar, transformado em grata memória,
quando, no Cine-Oriente, princípios dos anos sessenta (1962?) vi o filme que
Jean Delannoy adaptou ao cinema, com a participação de Jacques Prévert, espaço
assombroso para uma deslumbrante Gina Lolobrigida e um excelente Anthony Queen.
Com os dois
volumes nas mãos, uma leve tentação para voltar a ler, mas aquela letra
miudinha fez desfalecer o pitosga que já sou.
Assim, en
passant, como dizem os franceses, perdi umas horas a (re)ler algumas páginas,
e deu-me para respigar da pág. 175 do 2º volume:
No dia seguinte pela manhã descobriu, ao despertar,
que tinha dormido. Já havia tanto tempo que se desabituara de dormir! Um alegre
raio de sol nascente entrava pelo postigo e vinha beijar-lhe o rosto. Ao mesmo
tempo que o Sol, viu nesse postigo um objecto que a encheu de medo; era o desventurado
rosto de Quasímodo. Involuntàriamente fechou os olhos, mas debalde; parecia
estar sempre a ver através das suas pálpebras cor-de-rosa aquela máscara de
gnomo, cego dum olho, com os dentes de fora. Então, conservando sempre os olhos
fechados, ouviu uma voz rude que dizia com muita meiguice:
- Não tenhais medo. Sou vosso amigo. Que eu venha
ver-vos dormir não vos faz mal, não é verdade? Que vos faz que eu esteja aqui
quando tendes os olhos fechados? Agora vou-me embora. Vede, pus-me por detrás
do muro. Podeis abrir os olhos.
Mais um pormenor
sobre a Nossa Senhora de Paris.
Durante anos, o
Paulo Rodrigues, que foi actor saído da Guilherme Cossoul, foi meu colega de
trabalho e, volta e meia, entre as diversas secretárias, percorria o espaço da
grande sala, fazendo de corcunda e coxo e a dizer:
«Mon seigneur.»
Um pormenor que
não diz nada a ninguém, mas que, agora que o lembro, me faz sorrir de ternura.
Como disse, o Mário também acabou por ser preso. Que
marcas é que isso lhe deixou?
Respondeu:
Ao fim e ao cabo, o que eu fazia era participar em reuniões, distribuir
papeis, entrar em discussões. Era perfeitamente banal. Mas encontrei na cadeia
muitos bons amigos, e isso é que me ficou. Há um ruído que nunca mais se
esquece na vida. Sabe qual é? É o barulho das grades de ferro a fecharem-se. Da
fechadura. Ficamos com isso na cabeça para sempre.
COMEÇA HOJE
o maior europeu da história do futebol!
França,
anfitriã, e Roménia vão dar o pontapé de saída para o Euro 2016 às 20.00, horas.
A selecção
portuguesa só na terça-feira entra em campo, defrontando a Islândia.
O slogan que
falava em "11 milhões no
coração" foi modificado no autocarro que transporta a seleção em solo
francês.
A polémica andava
em torno de um número que não agradava a toda a gente, em especial ao deputado
do PS Paulo Pisco e ao secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José
Luís Carneiro.
Nos vidros
laterais do autocarro lia-se:
"Uma equipa, uma paixão. 11 milhões no
coração. Força Portugal."
Agora, para
não ferir susceptibilidades. passou a ler-se a mesma frase mas sem o 11.
Passaram a
ser milhões mas sem estarem quantificados.
Diz quem
sabe, que somos dez milhões a viver no quadrado e mais cinco milhões espalhados
pelos cantos do mundo.
Siga a
Marinha!
A DIRECÇÂO
DA FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE FUTEBOL tem previsto pagar um prémio de 250 mil
euros a cada um dos 23 jogadores se a seleção nacional se sagrar campeã europeia.
Esta verba,
no entanto, poderá aumentar. É que cada futebolista tem direito a um valor
diário - nas últimas competições andava na casa dos 800 euros. Contas feitas,
em caso de Portugal chegar à final e vencer, Cristiano Ronaldo e companhia
poderão aproximar-se dos 300 mil euros.
CERCA DE
DUAS CENTENAS DE ADEPTOS DA SELECÇÃO INGLESA foram dispersados pela polícia
francesa em Marselha, que recorreu a cães e gás lacrimogéneo, depois de desacatos durante a madrugada.
Os fãs
ingleses, que começaram a chegar na tarde de quinta-feira a Marselha para
assistir, no sábado, ao jogo de estreia da sua seleção no Euro2016, frente à
Rússia, foram-se reunindo numa zona de bares durante a madrugada, registando-se
os primeiros incidentes.
Aproximadamente
1.100 polícias estarão de vigilância em torno do estádio e outros 600 na zona
de fãs, devido ao jogo Inglaterra-Rússia, em Marselha, que foi qualificado de
alto risco.
POGBA,
KANTE, SISSOKO E SAGNA podiam sofrer fisicamente com o jejum entre o nascer e o
pôr-do-sol. Mas chegaram a acordo com a federação francesa e não vão obedecer
ao ritual.
França e
Roménia dão esta noite o pontapé de saída do Campeonato da Europa. Didier
Deschamps, selecionador francês, terá todos os seus craques à disposição e a
100%. Houve alguma incerteza sobre a forma de quatro futebolistas, todos eles
muçulmanos, mas Paul Pogba, N"Golo Kante, Moussa Sissoko e Bacary Sagna
não vão cumprir o Ramadão, de forma a estarem fisicamente aptos para este
importante torneio.
Cumprir o
Ramadão (que este ano termina a 5 de Julho) obrigaria os quatros jogadores a
não comer e beber do nascer ao pôr-do-sol, algo impensável durante um torneio
tão exigente do ponto de vista físico.
O ESCRITOR
MÁRIO DE CARVALHO ODEIA FUTEBOL
Tem todo o direito,
pois então!
Por ocasião
de outro europeu, manifestou-se assim:
Estamos perante uma das mais monstruosas
manobras de aviltamento e rebaixamento de que há memória em Portugal.
Aproxima-se o campeonato europeu da bola e os meus concidadãos, manipulados
pela propaganda, mostram-se rendidos, servis, e ovantes. Gente ponderada e
séria vai na onda, ou por medo das ralés, que vociferam e ameaçam, ou por
aceitar aristocraticamente que será preferível elas esgadanharem-se por causa
da bola que desatarem guerras civis e outras sangueiras.
Legenda:
Seguindo a ideia do formato do “Borda D’Água” a “Associação Abril em Maio”, por
alturas do Euro 2004, fez publicar “Euroxuto”, uma paródia que
pretendia “contrariar a já vigente brutalização mediática, idólatra e
encomiástica, e fornecer alguns dados e algumas pistas de reflexão.”
O estabelecimento, de abandonada montra de
garrafas e porta e férrea de correr com gancho, acabrunha-se na esquina do
cruzamento da Rua da Senhora da Glória com a Rua das Beatas. Dentro apresenta
demasiados vidros e alumínios para tasca e demasiado vasilhame de pau encardido
para leitaria. Progride de taberna (serradura no chão) para o modernaço
(máquina de café), ou regride ao inverso. Carrega-se ali nos bagaços e nos
copos de três, que podem ser animados pelo furor melódico da enorme
caixa-de-música, que faz lembrar a do filme O Gigante, coberta de luminárias
marcianas, a piscar coloridos. Uma moeda, dez tostões, os Beatles, Alfredo
Marceneiro, Os Doors, Os Conchas (tchiribari-papa, tchiribari-papa…) ou o miúdo
da Bica. Vale a pena escorropichar a moeda só para observar o sortilégio dos
maquinismos. O disco a deslizar, a escorregar no prato, o braço do gira-discos
a exibir-se ao alto, em sacudidelas medidas, antes de aplicar-se convictamente
nas estrias para despiralar os ritmos. Tecnologia dos anos cinquenta que eu
imaginei manejada com desembaraço, desencravada a poder de joelhómetro, pelos
melómanos de esquina.
Um certo título é difícil de fixar pela sua sua extensão, mas todos sabemos que ele existe e tentamos reproduzi-lo com um sorriso: Papá, Pobre Papá, a Mamã Pendurou-Te no Armário e Eu Estou Tão Triste, da peça de Arthur L. Kopit. Mário de Carvalho em Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão.
Por muitas histórias que me contem, não as compreendo nem
aceito.
A tragédia da praia do Meco tem mostrado o lado negativo de
uma comunicação social doentiamente interessada em vender papel e agarrar
audiências.
Mostrou também o atraso com que as autoridades, policias e
judiciais, lidaram com o problema.
Acresce a idiotice do presidente do Conselho de Administração
da Lusófona,
que é de opinião que as praxes são meras brincadeiras e que todos os dias
morrem pessoas nas estradas e não vamos proibir alguém de andar na estrada, a Lusófona
essa parideira de alguns doutores cujo principal rosto é o ex-ministro Miguel Relvas
And last but not the least a falta de tomates do ministro da
Educação, tão lesto a tratar os professores a pontapé e acobardando-se ao ponto
de não conseguir a tomada de uma posição clara e inequívoca sobre os limites
das praxes.
Do que tenho ouvido e lido sobre a dramática brincadeira
do Meco quero realçar a opinião de Pacheco Pereira e de Vasco Pulido Valente, ambas
expressas no Público de 25 de Janeiro.
Lei agora, via Meditação na Pastelaria, a opinião
do escritor Mário de Carvalho que num curto, mas certeiro, texto, coloca as
praxes no devido enquadramento: pura javardice.
Antes
da REACÇÃO contra a revolução do 25 de Abril de 1974, não havia praxe em
Lisboa. O espírito crítico de um escol cultural, prevalente na
Universidade, tinha padrões exigentes. Ensino superior não queria dizer ensino
inferior. Era uma elevação sobre a miserável circunstância dominante. A praxe
era considerada – e bem -- COISA DE LABREGOS.
Em Coimbra, nos anos sessenta, após as críticas corajosas de Flávio Vara (“ O
Espantalho da praxe…” 1958) e a chegada de uma geração mais desempoeirada, a
praxe quase desapareceu. Reinstalaram-na depois com todo o seu fétido programa
passadista.
A praxe é o abraço alcoolizado entre o ricaço marialvão, abrutalhado e
analfabeto e o povoléu boçal e trauliteiro, folclorizando o servilismo medieval
em vestes eclesiásticas. Ao fim e ao cabo, o velho Portugal alarve, mendigo,
medievalóide e agachadinho, mas de telemóvel em riste.
Não se ponderem gradações entre um medievalismo civilizado e um medievalismo
excessivo. Toda a praxe é desprezível. No estado a que as coisas,
desgraçadamente, chegaram, proibir seria contraproducente. Mas há muitas formas
de desencorajar. E os professores – que têm sido, aliás, de uma distracção
cúmplice (mea culpa) – sabem isso bem.
Oxalá os estudantes se dêem conta de como foram inferiorizados e transformados
em «jovens velhinhos» por uma súcia rasca.
Tanto mais que a situação assume contornos sinistros e mafiosos. Ao que parece,
com “omertà” e tudo. Um atavismo lusitano vem fazer de hífen entre a tradição
siciliana e o nórdico Nacional-Socialismo.
Pior que mera COISA DE LABREGOS.
O livro, no bom dizer do saudoso editor Manuel Hermínio
Monteiro deve conter a própria vida dos que com ele lidam quotidianamente.
Sou do tempo em que os livros estavam ao cuidado de gente
culta.
Orgulhosamente profissionais, livreiros e editores sabiam o
que tinham entre mãos.
Com a chamada globalização, os livreiros foram substituídos
por computadores e os grandes grupos editoriais como a Leya, Porto Editora, Bertrand &Cª Lda, desataram a comprar pequenas e
grandes editoras, não com o objectivo de as valorizar mas para, simplesmente,
ganharem algo com o negócio.
Por exemplo, Miguel Pais do Amaral, um empresário de tudo e
mais alguma coisa, constituiu a Leya e comprou, entre outras
pequenas editoras, as Publicações Dom Quixote e a Editorial Caminho que têm nos seus
catálogos diversos escritores portugueses e jóias da coroa como António Lobo
Antunes, e José Saramago.
Numa entrevista à Notícias Sábado, Fevereiro de 2010:
Os carros são o meu hobby, é algo que me acompanha desde sempre. Em
termos competitivos, fui evoluindo aos poucos e agora isto é o máximo. O prazer
de correr é único e sinto-me um privilegiado.
Pierre Bourdieu, citado por Arnaldo Saraiva disse que o
editor é um personagem duplo que deve saber conciliar a arte e o dinheiro.
Claro que é possível gostar de carros e de livros ou, como
na aldeia de Asterix, ser-se bárbaro e gostar de flores, mas não é o caso do
personagem que presidencialmente se senta numa cadeira do edifício Leya.
Mário de Carvalho, durante muitos anos editado pela Caminho,
em 2012 abandonou o grupo Leya pois não estava sujeito a que
tivessem demorado três anos para saber quem ele era.
Acho que quem sabe de livros, deve fazer livros, quem sabe de cervejas
ou de sabonetes deve tratar de cervejas ou de sabonetes…
Quarta-feira ficámos a saber que José Saramago não volta a ser publicado pela Leya.
Não se conhecem os
contornos da decisão, apenas se sabe que chegou ao fim uma relação editorial iniciada
há 35 anos, com a publicação de A Noite.
A posição da Leya surge depois de uma das
editoras do grupo a Editorial Caminho, ter anunciado deixar de publicar as obras de
José Saramago, por falta de acordo com as herdeiras do Nobel da Literatura.
As herdeiras de José Saramago e a Editorial Caminho informam que não
foi possível chegar a acordo sobre as condições contratuais que permitiriam
continuar a publicar nesta editora a obra do escritor, lê-se num
comunicado assinado pelas herdeiras do escritor, a viúva, Pilar del Rio, e a
filha, Violante Saramago Matos, e ainda por Tiago Morais Sarmento e Zeferino
Coelho, da Editorial Caminho.
José Sucena,
administrador da Fundação José Saramago
já tornou público que a instituição está a fazer diligências no sentido de encontrar uma editora que sirva a Saramago e
a quem Saramago sirva, e avançou a hipótese de, caso não seja
encontrada uma editora, ser a própria fundação e editar os livros de José
Saramago
Almeida Faria, João Tordo, José Eduardo Água Lusa, Ricahrd Zimler, João Tordo, os herdeiros de
Sophia Mello Breyner Andresen, o anteriormente citado Mário de carvalho, já
abandonaram a Leya.
Miguel Sousa Tavares
seguiu o mesmo caminho e, hoje, em declarações ao Público, fala de
descontentamento quanto ao trabalho do grupo que, matou a identidade das
editoras” que agregou desde a sua fundação, em 2008. Não creio que o grupo Leya
esteja vocacionado para a edição de livros. A Leya partiu do princípio que juntando várias editoras faziam
sinergias e conseguiam fazer melhor, mas isto não é como juntar as salsichas
Nobre com as salsichas Aveirense.
Dos telemóveis reconheço a sua utilidade para emergências, sejam elas quais
forem, mas apenas para isso.
Há alguns meses que sou proprietário de um primitivo modelo
de telemóvel, apenas porque a família entendeu que, começando a ficar gagá,
servirá para chamar o 112, o que quer que seja, alguém que
me dê uma mãozinha em caso de aflição.
Há quem fique aterrorizado com a ideia de ficar sem bateria,
rede ou saldo no telemóvel.
Os ingleses chamam-lhe nomofobia e
já está definida como uma sensação de angústia que surge quando
alguém se sente impossibilitado de se comunicar ou se vê incontactável estando
sem seu telemóvel.
A psicóloga Maria João Moura diz que há pessoas
que não desligam o telemóvel para não estarem sozinhas.
Mário de Carvalho a págs. 13 de Fantasia para
Dois Coronéis e Uma Piscina:
Telefones móveis! Soturma apoquentação! Um país
tagarela tem, de um momento para o outro, dez milhões de íncolas a quere saber
onde é que os outros param, e a transmitir pensamentos à distãncia.
A sociedade moderna, excessivamente tecnológica,
torna-nos bichos solitários (no masculino, claro). No Facebook, apanhei há
tempos uma fotografia divertida de um bar, na parede do qual o proprietário
afixara um pedido para que os clientes largassem os telemóveis e falassem, por
favor, uns com os outros. É verdade que muita gente vive completamente escrava
destes e de outros aparelhos, talvez para não se sentir muito sozinha, mas
ainda assim sozinha porque ignorando por causa disso os que ali estão e podiam
fazer-lhe companhia melhor do que as SMS que chegam, irritantemente, a todo o
momento e exigem resposta. Com muitos cafés transformados em agências
bancárias, desapareceram também as conversas e tertúlias que, nos anos 1960 e
1970, segundo me conta o Manel, juntavam à roda de uma mesa (em Lisboa e no
Porto, pelo menos) muita gente que queria falar e discutir assuntos, conhecer
escritores e mostrar poemas, levantar a voz contra o poder instituído e planear
acções culturais e políticas. Hoje, os cafés têm poucas mesas e, ao que parece,
os jovens intelectuais perderam o gosto de se encontrar e trocar impressões, a
menos que seja por e-mail. Talvez os blogues tenham substituído esses
encontros ao vivo, mas, num período tão mau como o que vivemos, não era
descabido que se realizassem de novo tertúlias, até porque delas poderiam sair
ideias boas e criativas que nos alegrassem os dias.
Jorge Listopad:
À mesa de uma esplanada, vejo chegar um casal, jovem
ainda. Sentam-se, encomendam a bebida, e logo, no mesmo tempo, como em
simultâneo, puxam dos respectivos telemóveis e põem-se a conversar.
O comandante da nave de loucos que nos (des)governa, disse ontem à nação que pretende discutir a refundação do memorando de entendimento com a troika.. Os teóricos-os-comentadores-a-malta-dos-fatos-às-riscas-e-gravatas-azul-bebé-do-costume, não sabem o que é que o homem quer com esta história do refundir. Mas os dos costume já sabem: um qualquer outro meio de nos lixar ainda mais a vida já lixada que enfrentamos. Esta garotada, como lhes chamou o escritor Mário de Carvalho, está completamente fora das realidades e demonstram uma insensibilidade desesperante, trágica mesmo, sobre os dramas sociais que estão, a todo o momento, a acontecer no país. Sem qualquer ponta de dúvida, estamos a ser dirigidos por uma cambada de aldrabões Estes ministros, os deputados que irão aprovar o orçamento para 2013., deviam pensar, por um único segundo, no descalabro que vão causar. Poderão sorrir aos filhos? Falar aos amigos? Pelas amostras que vamos vendo, rigorosamente nada os afecta. Um governo como este, diria o Eça de Queiroz, não cai porque não é um edifício, mas sai com benzina porque é uma nódoa. Mas, como com benzina, certamente, não cairá, temos que nos juntar e, por um destes dias, corrê-los à paulada. Sim, à paulada, para que tudo o que já sofremos não tenha sido em vão!