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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O QUE SE PASSA QUANDO NÃO SE PASSA NADA


De novo na esplanada do café de Perec, espero em vão como sempre, que passe Catherine Deneuve, que vive na praça. Mas, uma vez mais, ela não aparece. Surpreende-me, um pouco mais tarde, ler na revista Lire que Vargas Llosa também vive nessa praça, tem um duplex num edifício do século XVIII: «Neste bairro, sinto-me como em casa. É um bairro muito literário. Umberto Eco também vive na praça. Há quinze anos que espero ver Catherine Deneuve, mas ela nunca aparece.»
Neste momento, aparece Deneuve. Fico mudo de surpresa e pergunto-me se, durante um momento, Deneuve não foi «o que se passa quando não se passa nada».

Enrique Vila-Matas em Diário Solúvel

Legenda: Catherine Deneuve

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

GUERRILHEIRO VELHO NÃO ABANDONA AS ARMAS


Chegámos ao fim das cartas que Mário-Henrique Leiria escreveu a Isabel, a Maruska bonita, o seu mais profundo e silencioso amor, ele que tantos teve.
Este livro, Depoimentos Escritos, é um livro notável.
Os lampejos que, desde Julho do ano passado, por aqui fui deixando não reflectem a ternura, a raiva, a ironia, a maldade nas palavras que dirigia à mãe e à tia, as suas «velhas», o apuramento da memória que a solidão sempre lhe trouxe.
Conheci Mário-Henrique Leiria, antes do 25 de Abril na redacção do jornal República.
E nunca mais fui o mesmo!
É provável que a E-Primatur, que está a publicar a obra completa de Mário-Henrique, inclua estas cartas que constam de Depoimentos Escritos.
Já estão publicados dois volumes e são livros que aconselho vivamente.
Por favor, dêem algum desconto à admiração desmedida que tenho por este rapaz amante de gin, mas leiam.

Amor perdido

O teu ABC fez-me chorar de raiva. Para descontrair os nervos grilados por não te poder bater e beijar ao mesmo tempo, por apenas imaginar os “netos/netas” para quem escreveste o teu magnífico ABC bebi o resto da vodka enquanto o Vodka me lambia s mãos tão doridas, meu amor, tão doridas. Já não posso escrever senão na máquina que o teu bom coração me mandou.
Mas diz-me Isabelinha que estavas a fazer escrevendo poemas às 6 da manhã? Devias estar na cama com o teu marido – desculpa já me esquecia que na tua deliciosa frase não há “comunhão de camas”…
Gaita! Mas espera guerrilheiro velho não abandona as armas… e então pensei responder ao teu poema com um não meu, não estou com veia, mas electrónico!!! Eu sei… tu, a clássica vais ficar arrepiada e empandeirada de fúria. Melhor, ficas mais bonita para a filhada e o marido. Fui a casa de um amigo depois da tosga ter aclareado e ele tem um computador americano e com ou dois dedos que não me doíam comecei a escrever e aí vai o resultado. Desculpa a papelada mas sei que tens a mania de colecionar papéis e outras antiguidades. Não faz sombra ao teu ABC mas foi tudo o que se conseguiu numa noite e mais uma manhã de criação electrónica. Valha-me Deus e que ele te acompanhe, na árdua tarefa de me leres.
A saúde não dá, não dá mesmo embora tu e o teu Pai façam tudo por me manterem medicado. Se pudesse ia à bruxa… mas aqui, não há a Inquisição, masi a PIDE, mais o 25 da abrilada matou tudo…
Não te preocupes… ainda tenho o telefone se não puder mesmo a arrastar a caneta.
O meu enorme amor de sempre vai para ti, meu Amor, com um beijão à meninada e um abraço ao camarada John

Mário-Henrique


Legenda: Mário-Henrique Leiria com Natália Correia, Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny de Vasconcelos

sexta-feira, 27 de julho de 2018

FOI POUCO...PACIÊNCIA. MAS FOI DE BOA VONTADE


Em pleno Verão quente de 75. Mário-Henrique Leiria mostra-se desesperado, cansado de tudo.

Em carta de 16 de Julho, a partir de Carcavelos, escreve à querida Isabel dando conta do que vai acontecendo no pedaço político, à espera de uma qualquer clarificação:

«Sabes do PS e do PPD. Foi como devia ser, sempre te disse. As coisas têm que se classificar e é realmente realmente conveniente saber quem temos pela frente. Já te disse há tempos que realmente não precisamos para nada de social-democratas nem de socialistas (ditos) totalmente comprometidos com a burguesia fácil e o capitalismo europeu»

O final da carta é amargo, doloroso… cruel…

«Notícias propriamente minhas, poucas tenho. Tenho andado sem me poder mexer, mas isso já é hábito consuetudinário . Estou desempregado full time vai para três meses. O COISO, onde eu tinha acabado de chegar a director interino, morreu em consequência do “CASO REPÚBLICA”, e de eu não estar disposto a fazer fretes à social-democracia. Pois.
A Jovília vai ser internada no Instituto do Cancro para ser operada. Sabe o que tem, e, às vezes, chora. Coitada. Espero que morra. É mais barato.
A mãe anda mais parva. Cansaço, sei lá… às vezes fica tempos sem perceber nada. Aconselhei-lhe um bife. Não quis. Coisas…
O cão vai óptimo. Morde que se farta.
Olha, sabes menina, estou num cansaço total. Creio que já dei a colaboração que tinha a dar. Foi pouca… paciência. Mas foi de boa vontade.»

Em  Depoimentos Escritos

Legenda: capa do 2º número do semanário O COISO, onde Mário-Henrique Leiria chegou a director-interino. Reprodução tirada do blogue Portadaloja.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

E AÍ PARECE QUE SOU SUFICIENTEMENTE BOM


Manuel da Fonseca, num dos seus poemas, deixou lavrado que os místicos andaram pelos séculos construindo noites geladas solidões.
Toda uma vida, se bem que haja breves lampejos de alguma felicidade, Mário-Henrique Leiria transportou aos ombros do seu débil corpo, geladas solidões que nem os amigos, os cigarros, os seus fiéis leitores, o gin, conseguiram aliviar.

Desde Carcavelos, em 17 de Dezembro de 1974 – Ah! o Natal! sempre o Natal - , corta a direito:

Acabo de receber a tua carta. O teu cartão. O teu cheque. Não sei bem que te dizer. Cartas tuas, todos os dias, se quiseres. Cartões também. Cheques, querida menina, faz-me o favor: não repitas. Olha que não é ingratidão, não é mesmo. Estou comovido e impressionado. Mas, Isabel, tenho um vício e um orgulho só aceito aquilo que obtenho por briga, seja ela qual for. Aceito o teu amor, todo, Obtive-o. É o que quero de ti. O teu dinheiro não posso. É teu e és tu quem o obtém. Percebes? Creio que sim. E agora, obrigado mesmo pelo cheque. Aliás veio a calhar, parece que a Jovília tem que ser operada em breve e sabes como são as coisas neste excelso país.
Eu aqui, desiludido (aliás já é costume), Estou retraído, à espera. Sabes bem que as coisas se fazem até ao fim, ou não se fazem. E por cá tudo vai pelo meio termo. Não aceito um socialismo que o não é, tal como nunca aceitei a tal democracia com escravos e tudo. Talvez eu seja radical demais (ou excessivamente honesto) para entrar no jogo. De jogos, só gosto de poker e aí parece que sou furiosamente bom. Mas só poker, mais nada.
Demiti-me de tudo. Estou só- Aliás, sempre estive. Agora dizem que sou anarquista, inimigo do Estado. Talvez seja, não sei. O que eu não sou, com certeza, é oportunista.
Bem, deixemo-nos disto.
Cá por casa há frio. O malvado Vodka morde em toda a gente. Ainda bem.
A mãe, muito velhinha e cansada.
A Jovília continua com análise, biópsias, radiografias. Tem dores e chateia toda a gente. Deve ter que ser operada, não sei a quê. Nem estou interessado em saber.
Eu, dores de cabeça de manhã à noite, reumatismo excelente e incapaz de escrever. No entanto tenho mesmo de escrever as habituais besteiras para os jornais. Questão de dinheiro, mais nada.

terça-feira, 10 de julho de 2018

UM DIA DESTES PIFO...


Curta carta de Mário-Henrique Leiria para a «Querida menina», enviada de Carcavelos a 28 de Setembro de 1974, data da hipotética manifestação da maioria Silenciosa orquestrada por Spínola.
As breves linhas falam do momento político, mas não abordam a cena circense de Spínola:

Por enquanto estou aceitando a Junta de Salvação nacional. Por enquanto, é o que digo. Porque não sei o que vai ser concretamente. Estou esperando o melhor. Mas não acredito em míticos, nunca acreditei. E então em generais, muito menos. Veremos…
Trabalha-se…
Tentar reorganizar o PC e legalizá-lo. Veremos, também.
No Mário Soares é que francamente, não vale a pena. Já começou a falar demagogicamente, como nos anos 20. Benza-os Deus… mas comigo não.
Isabel, isto é importante, pelo menos para nós que vivemos aqui..
Não tenho tempo para mais. Estão à minha espera, já aqui ao lado para uma reunião. Amanhã tenho mais e um dia destes pifo. Não faz mal; pifar é bom, quando temos uma realidade.

domingo, 1 de julho de 2018

POR AQUI TUDO ÓPTIMO


Já aconteceu o 25 de Abril, Mário-Henrique está em Carcavelos e no dia 18 de Setembro de 1974 escreve à «Menina Isabelinha do Carrapito».
Começa por a informar que recebeu o pacote com as pastilhas ant-reumátivas. Chama-lhe benfeitora, «como dizem os ceguinhos quando lhes dão 5$00… Muito obrigado, minhe benfeitora! (nessa altura a benfeitora, muito chareada, tira a bengala ao ceguinho e dá-lhe um pontapé no cu.»

A meio da carta, Mário-Henrique, com o humor negro habitual, entra a fazer o ponto político e termina-a, de um modo fulminante, a falar da mãe da tia que vivem com ele em Carcavelos;

« Quanto á minha posição, saberás que me estou a radicalizar ao uso de “la Sud-América”. O PC está a adaptar-se oportunisticamente. Todos sabemos que o poder nunca se tomou eleitoralmente (vide erro chileno) e que isto de ter um ministro “comunista” (?) no governo liberal-burguês chega a dar vontade de rir… embora o PC seja, actualmente, o partido mais forte e bem organizado Mas essa força e organização, por medidas de táctica eleitoreira, começa a voltar-se contra os trabalhadores realmente revolucionários. Então que é isto? Não há dúvidas que o meu velho camarada Palma Inácio está certo, certíssimo. E a minha experiência pode ser útil…
… porque isto de andar em reuniões inúteis, a colar papéis, a aconselhar os camaradas trabalhadores a “não fazer greve porque é prejudicial à economia da nação” (leia-se “economia do poder capitalista”…) a andar aos beijinho aos filhos da puta das forças armadas (que no mês passado mataram pura e simplesmente a tiro um companheiro), a dizer que a revolução dos cravos foi linda /detesto o fedor dos cravos), isto não me serve…
Democracia à moda ocidental, claro, liberdade de imprensa (já tive três textos cortados), tudo isto está lindo. Não para mim, que não sou democrata desse jeito. Nem de jeito nenhum, já que nada tenha a ver com democracias…
Pois é, menina, desabafei.
E agora cá por casa:
A Jovília lá vai andando, com o seu cancrozito eficiente. Agora, como não tem dores, até pensa que já não é. Deixá-la pensar. Fez 11 (onze) radiografias a semana passada. Fiquei pasmado. Tanta radiografia para quê? Bem, afinal todo o mundo precisa de ganhar a vida, não é? Também fez uma biópsia, esteve internada 10 dias e já está em casa. No dia 26 vai fazer mais qualquer coisa que não sei o que é. Afinal, o que é preciso e fazer até morrer, conforme dizem os professores de moral.
A mãe, com uma gripe gigantesca, mas insiste em ir à praça. Eu deixo, talvez morra mais depressa.
Eu, um pouco pifado. Os camaradas, dado que eu andava pelo já não perceber nada do que me diziam e aos tombos mais ou menos incerto, arrastaram-me a um especialista não sei de quê, ontem. O homem disse-me várias coisas, pôs-me nú (Vê lá tu!) apalpou-me e parece que me explicou fosse lá o que fosse. Não me lembro. Mandou-me fazer várias análises e um encéfalo-não-sei-quê. Disse logo que sim, claro, que eu não sou doido. E pronto. É o fazes.
Como vês, por aqui tudo óptimo.»

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

Legenda: desenho de Mário-Henrique Leiria tirada de Mário-Gin-Tónico Volta a Atacar.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

CONSTANTINOPLA DOS NOSSOS SONHOS DE INFÂNCIA


De Carcavelos, a 16 de Abril de 1974 – mais uns dias e será 25 de Abril de 1974! –  Mário-Henrique escreve à «Querida Menina»:

É pena que não tenha gostado de Istambul, a velha Constantinopla dos nossos sonhos de infância. Eu confesso que gostei; mas eu sou um vagabundo, bem sabes. Galata, peixe frito com aquele vinho transparente da Ásia Menor, azeitonas, andar pendurado nos eléctricos à cunha, negociatas aldrabonas no Bazar, enfim, uma gente humana, gritadora e trafulha, mas muito viva. Bem, isto foi por 1957, já lá vão tantos anos que talvez o que m reste na memória seja apenas aquela saudade melancólica que embeleza tudo. Sei lá!
Desculpa este discordar de ti. Olha tenho andado (e ando9 numa tal depressão moral (e até física) que nem sei como vou sair dela. Não consigo escrever uma linha, nem sequer as colaborações para os habituais pasquins. Nada. O que desejava era meter-me num buraco, numa terra distante, ficar só, nem sei o que desejo, realmente estou besta mesmo. Passo os dias deitado a olhar para o tecto e a fumar cigarros… e a beber doses industriais de tudo o que consigo arranjar (se consigo, já se vê). Valerá a pena estar vivo? Cada vez pergunto com mais insistência isto a mim mesmo. Não sei, na verdade não sei nada.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

VOU TER DE AGUENTAR


Carta, datada de 22 de Março de 1974, de Mário-Henrique Leiria para a «Querida menina»:

Recebi ontem o teu pacote medicinal. Agradeço como se seve. Chegou mesmo na hora, tu estás sempre atenta às coisas. É espantoso! Um beijão, se quiseres aceitar. Pode ser?
Por aqui, houve o que sabes e até muito mais. No fundo, mais uma palhaçada , que na farda não se pode acreditar nem no boné. Contarei, se valer a pena, quando cá vieres. Aqui não. Os meus papéis estão vigiados, tal como o telefone, mas isso não tem importância nenhuma, até porque eles sabem que eu sei que eles sabem…
Cá por casa há problema, mas não fiques preocupada, por favor. É assim:
Tivemos a notícia, no domingo, que o prédio foi vendido e vai ser demolido para dar lugar a mais uma pequena colmeia de obcecados… Muito bem. O diabo é que eu tenho duas velhas, 17 divisões, um cão, 7000 livros, toneladas de mobília idiota, sei lá…! E além disso, pago só 550$00!!! Oh pasmo! Mas é verdade. Nem de outra maneira podia ser, pois a média geral aqui de casa de casa não chega a 3000$00 por mês.
Aí está. A gaita é que vou para a rua e, neste magnífico país ultra-iflacionário, um cochicho onde não cabe nada com o máximo de quatro assoalhadas (como se chama aqui) vai logo para entre 4000$00 e 5000$00 e já não é mau…
Um bode dos grandes…
Vou ter de aguentar. Não sei como, mas vou. E o diabo é que isto está a deitar as velhas abaixo… e eu sempre a fingir que tudo há-de ir pelo melhor.
Sabes, querida, o cansaço tem o seu limite. Tem mesmo.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A BEBER GIN QUE NEM UM DROMEDÁRIO QUE GOSTE DE GIN


Carta, datada de Carcavelos 11 de Março de 1974, para Isabel:

Tenho andado com um cansaço enorme, a beber gin que nem um dromedário que goste de gin, a ter que ir às compras e outras chatices. Portanto, recuso tudo o mais: o almoço com o pessoal da “República” no sábado, o jantar com o Lopes-Graça no domingo, etc.
Basta de chatices obrigatórias. Aliás, como sabes, cada vez gosto menos de ver pessoas cheia de dentes e a falar às pampas. Basta de pessoas…
O reumatismo também me tem irritado razoavelmente, quase mais que a minha mãe e a minha tia. O costume, sabe-se.
Segue a entrevista da V.M. Tudo uma trapalhada, como verá. Cortes à farta (onde há reticências, foi corte). Nada daquilo foi revisto por mim: está cheio de enganos, gralhas e confusões. Cheguei a ficar envergonhado. Paciência… Não se vai repetir. Aliás, já retirei as poesias que estavam na “Ed Plátano” e os contos de F.C. que estavam na Ed. República”. Basta de escrever e dizer asneiras.
O “Vodka”, que depois de me ter posto um olho negro há uns dias, me pôs a mão em sangue há uns momentos, recomenda-se e dá três pulos dedicados à tua filharada. ´É uma simpatia, não haja dúvidas… raios parta o cão!

sábado, 19 de maio de 2018

ESTOU FARTO MESMO


Em 2 de Março de 1974, Mário-Henrique Leiria escreve à sua «Querida Beluska»:

Cá por casa tudo no costume chato.
Eu vou recebendo cartas anónimas, com ameaças por causa do que escrevo. No mínimo sou traidor e devo ser fuzilado. Rio-me à farta e deito os papéis ao lixo.
As velhas não há maneira de morrerem, e por isso, tenho de continuar a gostar delas. Lá vou às compras, de barrete russo enfiado na mocha, lá tento fazer o que posso. Estou farto, é claro.
Editoras pedem coisas. Não tenho nem quero dar.
As pessoas dantes nem ligavam ao Mário-Henrique, agora chateiam-me pelo telefone e até vêm, à caça do autógrafo. Mando à merda e desligo ou, então, mando dizer que saí com voz bastante alta para ouvirem. Estou farto mesmo.
Ainda não é hoje que vai a carta para o John. Pede-lhe desculpa, mas tenho andado tão desorientado em relação ao que devo fazer, que não consigo escrever nada. Como precisava de dinheiro, tenho estado a traduzir bandas desenhadas para a Arcádia. Tradução de M.-H. Leiria, estás a ver, não é? Isso ajuda à venda, agora. E até pagam que, afinal, é o que eu quero.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

SE ME DEIXO CAIR NA ENGRENAGEM, LIXO-ME...


Estamos a 13 de Fevereiro de 1974 e Mário-Henrique Leiria escreve carta para a sua «Beluska distante».

Uma gripe atirou-o às malvas, a mãe com uma recaída, Jovília de cama, também, com gripe. A humidade de Carcavelos dá-lhe cabo do reumatismo.

«Não sei, menina, realmente não sei como ainda tenho paciência para aturar estas velhas e isto tudo.
Realmente eu sou um animal solitário por excelência, gosto mesmo de estar só, não aguento este constante palrar das velhas e o ladrar do Vodka. É bom que saibas que é assim mesmo, uma espécie de lobo velho que nem sequer já acredita na alcateia.
(…)
De literatura e outras tretas, informo-te que a semana passada passei para best-seller nº 1. Claro que isto não quer dizer nada, já que eu não acredito mesmo em best-sellers. Bem, mas para a editora quer, é evidente. Tanto que, logo à noite, vêm buscar-me para ir jantar com os editores. Não me aguento nas pernas com a gripe e o reumatismo, mas vou. Já viste a merda em que as pessoas me metem? Pois aí, até sei o que querem: 2º edições dos dois livros e pedido para um terceiro, já me avisaram por carta. Estão enganados. Se me deixo cair na engrenagem, lixo-me. Não senhora. Não tenho nada a ver com isto e já o disse, veio cá um jornalista da VIDA MUNDIAL, brasileiro calcula tu, e simpatiquérrimo. Vai nas páginas centrais, com fotos e tudo. Desta vez estoirei e disse mesmo que quero que vão todos para a puta que os pariu. Também apareceu uma moça judia brasileira correspondente da MANCHETE. De facto o humor negro e a crueldade risonhamente amarga é bem uma característica semita. Não estou certo do que disse, mas creio que vai sair uma bronca daquelas, já que percebemos a linguagem um do outro à primeira palavra, ao som de discos de Israel.


Legenda: fotografia de Luís Severo de ume entrevista publicada em O Diário, 28 de Dezembro de 1978

quarta-feira, 2 de maio de 2018

SABES COMO EU FALO, NÃO É?


Carta de Mário-Henrique Leiria, datada de 27 de Janeiro de 1974, para a «Querida Menina»:

Lamentos  por andar todo empenado, nem tem conseguido sair da cama, «dores monumentais e mãos totalmente inutilizadas». Hoje, lá conseguiu pegar na caneta, na máquina de escrever, nem pensar.

Vê lá tu que no EXPRESSO da semana passada saí como o best-seller nº 2 da quinzena. À minha frente só o tal Prémio Nobel australiano (que acho péssimo, mas enfim…). Olha, aí está. Aliás, não tenho nada com isso nem quero.
Convites, agora, têm sido aos molhos. Para jantar com este, para almoçar com aquele, sei lá. Deves saber, claro, que não aceito. Primeiro porque me custa mexer e depois (e principalmente) porque realmente me estou nas tintas para ser escritor, continuo a sentir-me realmente um marginal e não funciono, mas não funciono mesmo, em relação aos literatos e outras coisas igualmente idiotas. Calcula que até um fulano que faz o programa literário da TV me mandou convite para lá ir botar
Palavra! Nem valeu a pena responder, não tenho nada a ver com TVs estatais portuguesas e, além disso, se fosse à primeira frase que eu dissesse cortavam logo tudo, Sabes como eu falo, não é?
Bem. Menina, se vieres realmente ao Algarve e eu puder mexer um pouco o canastro, tentarei ir ver-te. Seria magnífico, mas o meu corpo já não me dá licença a tomar decisões… eu é que tenho de esperar a licença dele. Por exemplo, ir agora pôr esta carta no correio vai ser uma espécie de travessia do Mar Vermelho, mas vou mesmo, ainda que as pernas recalcitrem à farta.

terça-feira, 24 de abril de 2018

CADA UM ESCOLHE O CAMINHO QUE QUER


Carta, sem data, de Mário-Henrique Leiria para a doce e maravilhosa Jezebel:

Chegou-me a tua carta ontem, tal como o teu desespero e a tua dúvida. Porquê, querida?
Afinal, sabes tão bem como eu que cada um escolhe o caminho que quer. Há caminhos que levam à torta de chocolate e outros que levam ao inferno. Quanto a mim, acho os segundos mais excitantes; pelo menos lá é quente e há gin.
Escuta, querida.
Não deves estar tão desesperada e tão duvidosa, até porque sabes perfeitamente que, se deixasses para trás os filhotes e o companheiro, ias passar a vida com tremendos casos de consciência. E isso era pior.
Claro que te explico isto com a normal e bruta indiferença que todo o mundo afrma existir em mim. Mas aí está: ei sou bruto e indiferente, tu não. A ti tudo te magoa e fere, a mim nada me atinge, como de costume.
Olha.
Gosto tanto de ti que até me parece que fui injusto quando afirmei que não tinha coragem para abandonar tudo e vir ter comigo. Coragem tens, e enorme. Só que não podes (não deves) fazê-lo, senão ias destruir-te. E, afinal, eu não quero a destruição de ninguém. Parece mentira, mas é verdade.

terça-feira, 17 de abril de 2018

ELE HÁ CADA COISA!


Em Carcavelos, a 25 de Novembro de 1973, Mário-Henrique Leiria envia, à «Querida Menina», uma carta em que pede desculpa por ser uma «carta um pouco desarticulada, mas confesso-te que a minha cabeça anda a entrar num cansaço que, por vezes, não digo coisa com coisa».
Também lhe fala da mãe e de livros:

Quanto à minha velha, vai numa recuperação magnífica. Já anda aí pela casa de um lado para o outro e até já quer voltar ao comando do barco. Cá por mim, acho óptimo que ela funcione o mais possível mas, discretamente, não a vou deixando abusar e vou mantendo o controlo na sombra, claro.
Como vês, querida, isto por aqui continua na chateza habitual.
Quanto ao meu livro, já está em primeiras provas. Talvez esteja na rua lá para meados de dezembro. Achei que tinha historietas demais e tirei um monte delas, não gosto de chatear demais os leitores.
Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do “Diário de Notícias”? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!


Legenda: João Gaspar Simões

terça-feira, 10 de abril de 2018

MAS É O QUE POSSO FAZER...


Em 15 de Novembro de 1973, Mário-Henrique Leiria está de novo em Carcavelos e escreve a Isabel, chamando-lhe «Jezebel querida.»
Diz que continua a amá-la, «não será muito, mas é o que posso fazer» e conta-lhe:

 A mãe teve um espasmo cerebral e ficou paralisada do lado direito: médicos, especialistas, injecções diárias, pílulas, comprimidos, eu sei lá! Uma encrenca. Lá vai um bocado melhor, perfeitamente lúcida. Já consegue dar-me um berro de vez em quando, o que é óptimo sintoma. A minha tia, coitada, achacada como é e com os nervos desorientados, tem aumentado ainda mais o sarilho, Quanto a mim, é o que calculas: sempre que posso lá vou à rua, às compras com o carrinho e tudo. Mas às vezes não posso, o reumatismo resolveu apanhar-me também as costas e tornozelos e os joelhos (talvez seja um pouco de nervosos miudinho, sei lá) e as dores são frequentemente tão abundantes que até para mexer a cabeça é uma ventura dificílima. Drogas para a frente e pronto, que um homem tem que aguentar… até poder.



Em Maio de 1973, a Ulisseia publicou os Contos do Gin-Tonic com um sucesso que poucos esperavam e não mais largou o Mário para um outro livro:

Há quase dois meses que o editor anda em cima de mim para publicar a coisa. Leu o bicho e parece que achou excepcional, muito melhor que o outro. Eu não acho, mas enfim, o problema é dele. Só que eu não queria publicar, não queria mesmo, estou farto de palhaçadas, Mas agora teve de ser, tenho que aguentar o barco seja lá como for, que já está a meter água por todos os lados. E o editor paga; mal, mas paga. Pronto. O homem ficou satisfeitíssimo, veio cá, levou os papéis, deu-me logo o contrato (não fosse eu voltar atrás, sabe-se lá) e o tal livro deve sair em Dezembro. Não tenho nada com isso, estou farto de tudo. Eles que façam o que quiserem, desde que paguem. E aí está como vendi meio quilo de papel, que é afinal a que se reduz a nossa brilhante literatura.

Querida, desculpa estes desabafos, tem um pouco de paciência para aturar este teu amigo velho e cansado.

Os Novos Contos do Gin saíram mesmo em Dezembro de 1973.

quinta-feira, 29 de março de 2018

MALEITAS DE SE LHE TIRAR O CHAPÉU...


Ainda estamos com a carta que Mário-Henrique Leiria enviou a «Isabelinha, a doce menina do sorriso bonito».
Falava do espírito de Natal, mas também disto:

Tive fortes complicações, como deves supor, daí o não te ter escrito. Por os sítios onde andei fazendo “férias”, agarrei uma série de maleitas tropicais e sub-tropicais de se lhe tirar o chapéu, Assim apesar de ter conseguido recuperar-me mais ou menos, fiquei com um joelho (o direito) e um pé (o esquerdo) totalmente desarranjados, coisa que de vez em quando não me permite dar um passo e me chateia incrivelmente com dores. Creio que ficarei coxeando para o resto da vida, o que já não é nada mau, visto que sempre é andar. A mão direita de vez em quando fica do tamanho de um barril e, zás, não consigo nem pegar num lápis e o ombro esquerdo, por espírito de equipa, faz o mesmo. Bem, podia ser muito pior…
Passei também um período de fome, daquela que só se encontra nos romances neo-realistas de má qualidade. Fome mesmo, fome total… mas não morri. Quando voltei a esta santa cidade, a única coisa que arranjei foi vender de porta em porta. E agora vê lá tu o digno exemplo moral que eu sou: ao fim de seis meses tinha subido de vendedor de porta em porta a gerente técnico da Editora! Muito bonito! Passei por lay-out man, por art-director e agora aqui estou manobrando o departamento gráfico, contactos com litografias e tipografias, arranjos gráficos e etc. Eis um exemplo muito moral para ser citado no livro único da 3ª classe! Assim tenho um quarto numa casa de italianos e até almoço! E, às vezes, janto! Espantosos! É claro que todas estas histórias poderiam ser contadas longamente, com tragédia e muita dignidade mas, como sabes, não tenho jeito nenhum para isso. E é bom estar vivo, continuar a lutar, saber que existem muitas meninas como a Ann e muitas mamãs maravilhosas como tu.


Legenda: fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo doPássaro

segunda-feira, 19 de março de 2018

QUASE NATAL...


Repito: Mário-Henrique Leiria gostava do Natal.
Há em Depoimentos Escritos diversas referências ao espírito natalício, principalmente numa carta datada de 17 de Dezembro de 1961.
Na carta de 15 de Dezembro de 1964, «quase Natal…» volta a falar do Natal à «Menina Isabelinha»:

E sabes porque também te escrevo esta carta? Sabes sim, que tu sabes tudo quanto penso. Pois é Natal, doce Beluska, uma época nostálgica, triste, doce e tão dolorosa! Tenho a certeza que vocês vão ter uma linda árvore, um belo fogo e muita ternura. Tudo isso eu desejo que tenham e terão certamente. Para ti e para o teu John um enorme abraço natalício, de braços muito abertos de forma a envolver os dois, com a Ann no meio….
Será possível que dês, por mim, um beijo muito leve à vossa Ann? Diz-lhe que um velho amigo distante mas sempre presente como um fantasma benéfico, um duro couro chamado Mário, está cheio de ternura por ela e que, um dia destes, lhe vai mandar um retrato como paga daquele muito bonito que ela mandou.

Antes deste pormenor natalício, a carta tem divagações sobre os dias difíceis que Mário continua a passar em S.Paulo.
A essas divagações, voltaremos na próxima semana.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

domingo, 11 de março de 2018

PENSARAM QUE EU ERA UM BONECO.


Carta de Mário-Henrique Leiria, enviada de S. Paulo com a data de 11 de Fevereiro de 1964, para a «Isabelinha bonita»:

Dou-te agora algumas notícias da minha vida, que mão tem sido das mais aleres, talvez porque eu não tenha jeito para saber viver.
O trabalho, coisa que mão tenho outro remédio senão fazer, continua um tipo “free lance”, visto que, indocumentado (ainda), calcula tu!) quase 2indesejável”, não posso ter emprego fixo. Tenho ultimamente trabalhado em arquitectura promocional, realizando stands para Feiras e Salões que abundam por aqui. É geralmente bem pago… quando pagam; e eu sou um razoável criador desse tipo de coisas; muito alumínio, muito vidro, estruturas metálicas, montagens fotográficas e pronto, Não esqueças que fui “quase” arquitecto antes de ser expulso (com o Zé Dias Coelho) da ESBA em 1942, por políticas, claro, diziam até que eu tinha muito jeitinho e ia ter um lindo futuro… viu-se…
Entretanto a minha teimosia cabeçuda tem-me continuado a levar para aquilo que ainda continuo a acreditar como justo e certo. Entrei para o PC cá da terra, mas já tive briga grossa. Raios me partam, porque diabo nunca mais aprendo a ser aluno e pacífico? Quando te disse que estive perto de ti é porque estive de facto. Fui, há meses, com outro nome e só por quatro dias, a uma espécie de congresso num país socialista. Mas, ó diabo, voltei a toque de caixa, porque também aí briguei quando pensaram que eu devia fazer só que sim com a cabeça. Sou ou não sou briguento? Como me pagaram tudo (não tenho nem sombra de dinheiro para uma viagem dessas) pensaram talvez que eu era um boneco. Porra, não sou.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

domingo, 4 de março de 2018

NÃO ME CONTES ONDE ESTÁ O MEU CACHIMBO...



Ainda pelo Brasil, a 30 de Abril de 1963, Mário-Henrique escreve à «distante Maruska, doce como o olhar das gazelas do Volga»:

Fazes o favor de não me escreveres mais como escreveste na tua última carta, sim? Já viste um cão vadio e magro que rosna e morde constantemente, quando lhe fazem uma festa na cabeça? Fica com uns olhos muito humildes e encosta-se à perna de quem, finalmente, lhe deu um pouco de ternura. Pois é Isabel, foi como eu fiquei quando recebi a tua carta… só me faltou dar ao rabo. E olha, Isabelinha querida, ternura e amizade são coisas dolorosas demais quando se está totalmente só. por favor, não tenhas mais palavras de ternura para mim, não digas outra vez que eu sou o amigo que te resta, não me contes onde está o meu cachimbo e o teu isqueiro (e foi tão doce saber que alguma coisa resta de mim numa casa onde há amor e felicidade!...) Desculpa isto, mas estou quase estoirado e não quero ter que ficar com os olhos com uma nuvem de água ao sentir o teu carinho distante. É uma vergonha, Beliska, é uma vergonha chorar de saudade. Não pode ser… Isabel, é tão difícil continuar assim, vivo e vazio, com tudo perdido, cada vez mais perdido! Tenho que acreditar furiosamente no Partido, no meu Partido, para poder continuar. Um comunista não se mata, não pode matar-se, senão é um traidor. Mas passar os dias agarrado a uma ideia, só a uma ideia, para poder continuar vivo, é difícil, muito difícil. Há sempre o recurso do whisky e do brandy, que isso o Partido não proíbe. Quase todos os dias (isto é, todas as noites) apanho a minha sólida bebedeira, assim, às vezes até consigo dormir.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

Legenda: imagem de René Magritte

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

AINDA POSSO DAR ABRAÇOS COM O BRAÇO DIREITO...


A 29 de Março de 1963, Mário-Henrique ainda está em S. Paulo e escreve à sua «Isabelinha de blusa branca».

Revela que finalmente conseguiu, por portas, travessas, um passaporte, «custou-me os olhos da cara». Negaram-lhe a França e a Alemanha mas está decidido a voltar à «minha saudosa Europa, embora ainda não tivesse conseguido o documento brasileiro que me dá a existência jurídica neste país.»

Aproveita, então, para dizer que «esteve preso quatro dias ao fazer parte da organização do “Congresso da Solidariedade de Pro-Cuba” que agora se está realizando aqui, com gente de toda a parte do mundo. Ao fim desses dias, deputados e advogados camaradas conseguiram “habeas-corpus” e lá saí, mas levei tanta pancada e fiquei tanto tempo pendurado pelos braços (estes sul-americanos têm uma organização político-policial totalmente filha da puta que creio ter ficado com o ombro esquerdo estoirado para o resto dos meus dias. Mas não faz mal, ainda posso dar abraços com o braço direito.
Também me deu uma fúria de fazer qualquer coisa que fique quando me for embora e, assim, aceitei dirigir um grupo de teatro-oficina onde estou agora ensaiando uma peça (“O Auto da Compadecida”) misto de auto medieval, “comédia dell’arte” e peça social. Aí, encontrei um pouco daquele calor humano de que tanto te falo e tanto desejo. Chego a ficar envergonhado ao ver a maneira como aceitam o que eu digo, como desejam compreender-me. Parece que eu sei tudo (e tu sabes que, na realidade, não sei nada, Isabelinha). É gente que deseja, tanto como eu, que não haja mais ódio nem mais violência entre os homens.
Além disso, chamaram-me para assistente de um filme sobre as favelas de S. Paulo (os “queridos” bairros da lata, da fome e da miséria). São dois franceses quem faz o filme, o Maurice e o Jean-Claude, dois tipos do Partido com quem já trabalhei o ano passado num filme sobre Sindicatos (proibido depois, como era de esperar).
É claro que tudo isto, teatro e cinema, não me dá um tostão, mas que importa? Às vezes não tenho dinheiro nem para um cigarro, outras vezes até posso comprar uma dúzia de garrafas de whisky. Mas, de facto, que importa? Não tenho companheira, não tenho casa, não tenho nada…

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos
Legenda: favela em São Paulo