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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Obras Completas de Mário-Henrique Leiria
Volume I

Mário-Henrique Leiria
Introdução, Organização e Notas de Tania Martuscelli
E-Primatur, Lisboa Maio de 2019

A VIAGEM, ENFIM

Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites torna-se aborrecido.
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família «vamos lá fazer essa viagem». Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. É verdade que empurrava menos, talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar os sogros no carro alucinante.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ou menos apertados mas entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.
- Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso – insistia a mulher, já arreliada, e preocupada também, com aquelas viagens nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa.
O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era extraordinário! Às vezes até ia lá jantar. E respondeu à mulher:
- Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão menina.
Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro. Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado. O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas.
Chegou a casa aliviado e esclareceu a Xuxa:
- Vou derivar, menina.
- Derivar?
Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa. Amo-te mas vou derivar.
Xuxa concordou. Desde que derivar resolvesse o caso, ele que derivasse quanto fosse preciso.
Nessa noite ainda teve o sonho e acordou estafado de tanto empurrar os sogros.
No dia seguinte avisou para o emprego que ia mais tarde, foi ao Banco buscar o que sobrava e entregou-se a uma moto, uma Rudge poderosa e em segunda mão. Estava a derivar em cheio.
O sonho foi-se diluindo. Cada vez empurrava menos, com grande satisfação da mulher.
Então após ter passado um fim-de-semana a mexer na máquina para ver se percebia alguma coisa e a dar voltas pela vizinhança de capacete preto e amarelo enfiado na cabeça, deixando ao carro na garagem, sentiu-se livre.
E era berdade.
À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes.
Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família «vamos lá fazer essa viagem». A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao volante. E não havia lugar  para os sogros! Começaram a empurrar para os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem. Estava um pouco diferente mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo. Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para  trás e lá ao longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida, acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens. Ainda não voltou.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Mário Gin-Tónico Volta a Atacar

Mário-Henrique Leiria e Mário Viegas
Textos inéditos, semi-inéditos, desconhecidos, esquecidos e muito divertidos
Capa do programa do Teatro Estúdio no S. Luiz, Março de 1987
Único actor e irresponsável: Mário Viegas

«A minha cumplicidade com Mário em 1978 e com o seu Humor foi fulminante!!
Estreei Mário Gin-Tónico no Porto em Junho de 1986 e durante dois anos foi das experiências maiores da minha vida: milhares de gargalhadas e espectadores.
Quando o espectáculo chegou às 3 horas… decidi parar. Aqui está de volta e com novos textos.
Vai um copo?

quinta-feira, 2 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Imagem Devolvida

Mário-Henrique Leiria
Nota: Mário Cesariny de Vasconcelos
Capa: Júlio Navarro
Ilustrações: Cruzeiro Seixas
Plátano Editora, Lisboa Maio de 1974

Síntese

estrada  garganta  carta  asa;  navio  esfera  engano
talvez  relógio-de-sol  cogumelo  estação  árvore
nuvem; recordação  acaso  anel  sapatos  fumo-cara;
elefante  estômago  caneta  pássaro; vela  vara  cír-
culo  chuva  sempre  pêndulo  sol  comboio  ramo-lápis
cama; negação  permanência  cabelos  rua  crocodilo


                                      a  bala  volta  SEMPRE  à  origem

                                      o  teu  braço
                                      mais  afastado
                                      cada  vez  mais  afastado



A BALA    e   o teu braço

sábado, 21 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Casos de Direito Galático
O Mundo Inquietante de Josela (Fragmentos)

Mário-Henrique Leiria
Capa: Cruzeiro Seixas, Mário-Henrique Leiria, Carlos Rocha
Ilustrações: Cruzeiro Seixas
Editorial República, Lisboa, Abril de 1975

Ternura

Cheguei a casa um pouco mais cedo do que o costume. Tirei a ventoinha da cabeça, pus-me à vontade, fui ver se os mamutes estavam a fazer disparates e sentei-me na sala, no velho e confortável sofá que a tia Mizé nos oferecera pelo casamento. Querida tia Mizé! Preparei um gin.
Josela ainda não chegara. Estava atrasada, talvez as compras, quem sabe.
Foi quando ouvi abrir a porta. Fui ver. Josela chegava, empurrando o carrinho antigo que servira para o nosso filho agora com dezoito anos como sabem, e com um bom lugar de Viet qualquer coisa, lá não estou bem certo onde; lugar seguro e de futuro, foi o que me disseram. Bom rapaz, o nosso garoto.
Olhei o carrinho. Trazia um bebé dentro. Josela sorria. Vi o preço. Razoável. Do talho do senhor Esteves. Manias da Josela.
Olhei Josela.
Tinha os olhos brilhantes, havia uma ternura inesperada que a envolvia, uma tristeza distante nas mãos.
- Achas que podemos ficar com ele? – perguntou-me, afirmando.
Concordei. Josela manda.
Arrumei o carrinho.
Era um bebé ainda em muito bom estado. Durou cinco dias até apodrecer, calculem!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Mário e Isabel

Mário-Henrique Leiria
Ilustrações de Isabel Lobinho
Forja Editora, Lisboa, Maio de 1975

Antifibiologia

Ainda conseguiu voltar à superfície e pôr outra vez a cabeça fora de água.
Então, deram-lhe mais uma bordoada com a pá do remo, sólida e certeira, bem no alto da cabeça.

Ao mergulhar definitivamente, engolindo água e sentindo-se ir para o fundo, teve um último pensamento lúcido: “ que felizes devem ser os anfíbios!”

domingo, 11 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Novos Contos do Gin Seguidos de Algumas Fábulas do Próximo Futuro

Mário-Henrique Leiria
Capa: Mário-Henrique Leiria
Editorial Estampa, Lisboa, Janeiro de 1978
Esta 2ª edição contém textos que não fazem parte da anterior edição, datada de Dezembro de 1973


O LUNA-PARQUE

Recordo-me perfeitamente. Era esplêndido, ir aos sábados ao Luna-Parque com a família.
Logo à entrada havia uma série de barracas de tiro ao alvo, com meninas simpáticas a chamar pela gente. Foi aí que o primo Rodrigo, ao disparar com o canhão de 12, se enganou e ficou sem a cabeça.
Havia também carrinhos com amendoins, sorvetes e aquele algodão de açúcar que nos deixava todos lambuzados. Sopeiras e magalas aos pares, de mão dada, a olhar para
tudo. Vejam lá há quanto tempo isto foi!
E a Montanha Russa! Ah, a Montanha Russa, como eu gostava de andar nela! Um sábado íamos todos na Montanha Russa. No meio do entusiasmo, o tio Leocádio deu um empurrão à avó Amélia, lá mesmo no alto da maior subida. Sem querer. Esborrachou-se toda cá em baixo, pobre avozinha. Tivemos pena.
Era realmente divertido. Nessas tardes fartava-me de comer tremoços e até bebia o meu pirolito.
Havia também a Grande Roda. Lá de cima via-se o Parque todo, ouvia-se a musiquinha que nos chegava como um som de distância. Era bonito. Certa vez, quando estávamos já na segunda volta, a tia Clarinda inclinou-se para ver melhor e ficou entalada nas engrenagens. Deu um certo trabalho a tirar dali os restos, coitados dos empregados.
No Comboio Fantasma foi-se o tio Geraldo. À saída, quando as portas se abriram e nos libertámos daquela escuridão medonha onde toda a gente dava gritinhos, demos por falta dele. O meu pai disse-me discretamente que devia ter sido um esqueleto que o apanhou. A verdade é que nunca mais o vimos.
E o papagaio que tirava a sina, lembram-se? Metiam-se dez tostões numa caixinha e o papagaio lá ia com o bico, zás, buscar a nossa sina. Como era engraçado!
Mas divertido, divertido mesmo, era o Grande Chicote. Levava-se cada safanão! Os carros batiam uns contra os outros e fartávamo-nos de rir. O Zezito, o filho da tia Josefa, levou um safanão tal que partiu a espinha. Era bom. Que saudade!
Depois comiam-se também umas farturas e eu até tinha direito a um copinho de abafado.
Quando chegava Outubro, com a melancolia das primeiras chuvas e as folhas douradas começando a cair das árvores, o Luna-Parque fechava e eu ficava já a pensar no ano seguinte.
Então o meu pai fazia as contas. Além de nós ali em casa, ainda sobrava o tio Inácio do Ministério, o primo Jerónimo que estava no Brasil, a prima Josefina que depois casou com o Clarimundo da Fonseca, devem estar lembrados, e mais alguns. A família, por esses tempos, era grande, graças a Deus.
Há quantos anos!
Como o tempo passa!
 

sábado, 10 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Novos Contos do Gin

Mário-Henrique Leiria
Capa: Mário-Henrique Leiria
Editorial Estampa, Lisboa 1973

ESCLARECIMENTO

Quando estamos cansados
deitamos o corpo
e adormecemos

às vezes não

procuramos outra mão
outros olhos
que nos limpem a fadiga
e evitem o sono
que nos vem antigo

quando estamos cansados
podemos erguer o corpo
e acordar
e morrer acordados

sem cansaço

segunda-feira, 8 de julho de 2013

OLHAR AS CAPAS


Lisboa Ao Voo do Pássaro

Mário-Henrique Leiria
Fotos: João Freire
Capa: Artur Henriques
Forja Editora, Lisboa Abril de 1979

pássaros
passarinhos
passarões
todos deputados
galifões
numa
assembleia da república
com certeza
votam o aumento
dos próprios
ordenados
ou não fossem eles
deputados

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Depoimentos Escritos – Contos, Poemas e Cartas de Amor

Mário-Henrique Leiria
Prefácio: Leonor Correi de Matos
Capa: Carlos António de Oliveira e Sousa
Ilustração da capa: José Antunes
Colecção Ficções nº 26
Editorial Estampa, Lisboa Abril de 1997

Demiti-me de tudo. Estou só. Aliás, sempre estive. Agora dizem que sou anarquista, inimigo do Estado. Talvez seja, não sei. O que eu não sou, com certeza é oportunista.

De uma carta a Isabel, datada de Carcavelos, 17 de Dezembro de 1974.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS



Contos do Gin-Tonic


Mário-Henrique Leiria
Capa: Mário-Henrique Leiria
Editorial Estampa, Lisboa Março 1973

- Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes,
camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os
mesmos direitos.
Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda
com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer,
era outra coisa.
Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos.
Acho um snobismo.
- Eu sou democrático - rugi entre dentes, como resposta. - Tenho amigos no exílio,
todos democráticos.
Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem,
ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático.
Eras capaz de fazer isso?
- Não sou democrático.
Não havia resposta a dar. Nenhuma. Ele não era democrático, não
sabia de democracia.
Eu sim, sou democrático, até já quis ir à América, que me afirmaram que
lá é que é a democracia.
Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista!
Viram isto?


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

OLHAR AS CAPAS


"Conto do Natal Para Crianças"

Mário-Henrique Leiria

Colecção "Roda Livre"
Forja Editora SARL
Lisboa, Fevereiro 1975
Este Conto de Natal foi composto por Mário-Henrique Leiria, em Dezembro de 1972, e oferecido a Álvaro Belo Marques.