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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

ORIGEM DOS SONHOS ESQUECIDOS


Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

Qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre ti e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo.

Mário-Henrique Leiria

sábado, 12 de janeiro de 2019

ESCUTA



escuta amor

talvez um dia
em que de mim já nada mais
te lembres de dois braços existia
que te abraçaram convulsivamente
nessa altura
deixa que os lábios te sangrem
deixa que o sangue
te corra pelo peito

e as mãos
essas
abandona-as

Mário-Henrique Leiria, Expresso, 25 de Janeiro de 1975

Legenda: não foi possível obter o autor/origem da imagem.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

PARTIR


Partir para a noite
sem saudade nem esperança
olhando apenas aquilo
que já não temos
      nunca tivemos
aquilo que só possuímos
dentro da memória de um sonho

Partir para o espaço solitário
como uma sombra da distância
sem receio
sem sequer a angústia
de saber que não há regresso

Partir como quem fuma um cigarro
o último
talvez como a nuvem
que se desfaz lentamente
queimada por um sol
implacável       feroz      inconsciente

Partir sem um sorriso
nem uma tristeza perdida

Partir

(15/12/61

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

PEQUENA ELEGIA A FEDERICO GARCIA LORCA


PEQUENA ELEGIA A FREDERICO GARCIA
(Para viola, pífaro e pandeireta)

a lua desenha o céu
feita de papel de prata
a lua acende a planície
feita de papel de prata

cá em baixo berram tiros
no cavalgar de espingardas
uniformes cor de chumbo 
caras como caveiras

ai camponês    camponês
que não sabes o que és

a lua ri lá no alto
feita de papel de prata

ai cigano traficante
vendes bandeiras e pano
vendes relógio e G3
e G3 avariada 
ai cigano ai cigano
ai cigano português

ai camponês tu também
dessas planícies largas
a lua está a mirar-te
sempre em papel de prata
pede a G3 ao cigano
mesmo que seja de pano
e que esteja avariada
camponês ai camponês

a lua já te não mira
a planície é do sol
como um cavalo no mar
a planície que é tua
mais bonita que a lua

ai camponês camponês
que já não sabes o que és

a lua deixou a prata
de papel e fugiu

e os guardas republicanos
vão prá puta 
que os pariu
todos

nós somos…
nós somos inúmeros
desconhecidos
feitos de revoltas e de lutas
nós somos inúmeros
feitos de sangue e de combates
nós somos todos os de nome ignorado
feitos de força e de amor
somos aqueles que
de Ocidente a Oriente
olham o sol bem de frente
e acreditam nas estrelas
somos os que caem a sorrir
que morrem a cantar
folhas ignoradas duma árvore
que ao tombar     verticais     belas
vêm fecundar a raiz
de outras árvores por nascer
aquecer a terra
onde nascerão papoilas vermelhas
que serão colhidas por crianças sorridentes
nós somos os que caminham
de olhos bem abertos virados à manhã
canções nos lábios

nós somos inúmeros
desconhecidos…

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

domingo, 10 de junho de 2018

EU SEI


eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como uma ponte de velhos manequins
o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através dos
teus cabelos

Mário-Henrique Leiria no Expresso, 25 de Janeiro de 1975

sábado, 24 de março de 2018

REPREENSÃO


Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
para gritar
convicto
um último viva a revolução

Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tonic

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O DIA SEGUINTE


…sim, a possibilidade existia…
… mas poucos a quiseram olhar…
… agora estamos face à realidade, dentro da casa dos horrores, como titula o jornal do dia…
…angustiante…
…muitas outras palavras, inúteis palavras, para classificar o que aconteceu à América… ao mundo…
…e há o silêncio…
… ou ir ouvir blues…
… ou reler o humor, ácido e cortante, do Mário-Henrique Leiria nos seus Contos Do Gin-Tonic;

- Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes,
camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os
mesmos direitos.
Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda
com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer,
era outra coisa.
Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos.
Acho um snobismo.
- Eu sou democrático - rugi entre dentes, como resposta. - Tenho amigos no exílio,
todos democráticos.
Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem,
ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático.
Eras capaz de fazer isso?
- Não sou democrático.
Não havia resposta a dar. Nenhuma. Ele não era democrático, não
sabia de democracia.
Eu sim, sou democrático, até já quis ir à América, que me afirmaram que
lá é que é a democracia.
Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista!

Viram isto? 

domingo, 15 de maio de 2016

CHAMADA GERAL



 avisam-se todas as polícias
fugiu um homem

tem
olhos muito abertos
duas mãos dois pés
caminha persistentemente

atenção
supõe-se que é perigoso

sinais particulares:
baixa-se com frequência
para fazer festas a um gato
apanha folhas caídas
antes que o varredor as leve
gosta de tremoços

atenção
GOSTA DE TREMOÇOS

repete-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem à solta
à solta

atenção
tem-se como certo
que é
realmente perigoso

os aeroportos
já estão sob vigilância permanente
tudo está a postos
não poderá passar
por nenhuma fronteira
que seja conhecida

insiste-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem em liberdade

atenção
em liberdade


delações muito recentes
permitem afirmar
que fala com frequência

todo o cuidado é pouco

consta também
embora sem referências concretas
que está sempre presente
nos locais os mais suspeitos
apela-se com insistência
para o civismo de todos os cidadãos
para a denúncia rápida e eficaz
há recompensa

atenção
anda pelo país um homem
livre

não se sabe o que fará

exige-se
a quem o vir
que atire imediatamente
é urgente

atenção
atenção
chamam-se todas as polícias
uma informação
da máxima importância
relatórios afirmam
que frequentemente
sorri com extrema virulência

repete-se o apelo

ATIREM PARA MATAR
NADA DE PERGUNTAS

Mário-Henrique Leiria

segunda-feira, 28 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como uma ponte de velhos manequins

o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento    só o vento
soprado através
dos teus cabelos

Mário-Henrique Leiria

Legenda: pintura de  Heidi Mallott

quinta-feira, 2 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Imagem Devolvida

Mário-Henrique Leiria
Nota: Mário Cesariny de Vasconcelos
Capa: Júlio Navarro
Ilustrações: Cruzeiro Seixas
Plátano Editora, Lisboa Maio de 1974

Síntese

estrada  garganta  carta  asa;  navio  esfera  engano
talvez  relógio-de-sol  cogumelo  estação  árvore
nuvem; recordação  acaso  anel  sapatos  fumo-cara;
elefante  estômago  caneta  pássaro; vela  vara  cír-
culo  chuva  sempre  pêndulo  sol  comboio  ramo-lápis
cama; negação  permanência  cabelos  rua  crocodilo


                                      a  bala  volta  SEMPRE  à  origem

                                      o  teu  braço
                                      mais  afastado
                                      cada  vez  mais  afastado



A BALA    e   o teu braço

sábado, 10 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Novos Contos do Gin

Mário-Henrique Leiria
Capa: Mário-Henrique Leiria
Editorial Estampa, Lisboa 1973

ESCLARECIMENTO

Quando estamos cansados
deitamos o corpo
e adormecemos

às vezes não

procuramos outra mão
outros olhos
que nos limpem a fadiga
e evitem o sono
que nos vem antigo

quando estamos cansados
podemos erguer o corpo
e acordar
e morrer acordados

sem cansaço

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

35 ANOS SEM O MÁRIO-GIN-TONIC


Morreu no Hospital de Cascais, há 35 anos, ficou sepultado em campa rasa no
Cemitério de S. Domingos de Rana.

Segundo Ruy Lemos, duas razões são apontadas para o seu falecimento: os médicos referem neoplasia, os poéticos explicam que Mário morreu por muito haver vivido. Informações de etiologia antagónica, mas que têm em comum o facto de omitir a causa.
Mário-Henrique Leiria morreu porque passou fome nos últimos anos de vida. Não morreu devido a prolongado e total jejum, voluntário ou involuntário – morreu de subnutrição real e carências várias.

Morrer de fome nos anos 80, em Lisboa, na Europa.

Como é costume, neste país de esquecer gente, já poucos dele se lembram, pouquíssimos o leem.

Uma angústia com várias faces, uma amargura torturante.


Pois é!

Sentado, a escrever no computador, coincidência ou não, sempre que olho a estante em frente, ressaltam as lombadas dos seus livros.

Não são necessárias efemérides para, por aqui, aparecerem artistas e escritores.

O melhor que há a fazer é ir colocando os seus textos, que falam muito melhor do que as palavras de circunstância que se engatilhem na hora.



«CHAMADA GERAL»


«avisam-se todas as polícias
fugiu um homem

tem
olhos muito abertos
duas mãos dois pés
caminha persistentemente

atenção
supõe-se que é perigoso

sinais particulares:
baixa-se com frequência
para fazer festas a um gato
apanha folhas caídas
antes que o varredor as leve
gosta de tremoços

atenção
GOSTA DE TREMOÇOS

repete-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem à solta
à solta

atenção
tem-se como certo
que é
realmente perigoso

os aeroportos
já estão sob vigilância permanente
tudo está a postos
não poderá passar
por nenhuma fronteira
que seja conhecida

insiste-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem em liberdade

atenção
em liberdade

delações muito recentes
permitem afirmar
que fala com frequência

todo o cuidado é pouco

consta também
embora sem referências concretas
que está sempre presente
nos locais os mais suspeitos
apela-se com insistência
para o civismo de todos os cidadãos
para a denúncia rápida e eficaz
há recompensa

atenção
anda pelo país um homem
livre

não se sabe o que fará

exige-se
a quem o vir
que atire imediatamente
é urgente

atenção
atenção
chamam-se todas as polícias
uma informação
da máxima importância
relatórios afirmam
que frequentemente
sorri com extrema virulência

repete-se o apelo
ATIREM PARA MATAR
NADA DE PERGUNTAS»


Mário-Henrique Leiria, poema publicado no Aqui, 31 de Agosto de 1976, semanário, de vida efémera, de que foi director, chefe de redacção, escriba, tudo.

domingo, 20 de outubro de 2013

É A VIDA...


é mijar meus senhores
é mijar
à revolução alegre
à revolução traída
em Lisboa
que querem?
é  a vida


Fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo do Pássaro, Forja Editora, Lisboa Abril de 1979.

domingo, 13 de outubro de 2013

COISAS...


como sabemos
em Lisboa
o comércio avança
tal como se vê e como é
Lisboa não tarda
está aqui
está na C.E.E.

coisas…




Fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo do Pássaro, Forja Editora, Lisboa Abril de 1979.

domingo, 6 de outubro de 2013

AQUELA MÃO FELIZ


e sempre
sempre aquela mão feliz
que encontra outra mão


Fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo do Pássaro,Forja Editora, Lisboa Abril de 1979.

domingo, 29 de setembro de 2013

COMO UMA RIBALTA


da antena imperativa e alta
como uma ribalta de teatro lisboeta
chega-se à velha
passando com certeza pelo pombo

em Lisboa é isto
fatalidade drástica
antena lá no alto
pombo pelo meio
velha cá em baixo


Fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo do Pássaro, Forja Editora, Lisboa Abril de 1979.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

DAS NOITES E DOS VENTOS DE LISBOA

uma parede curiosamente branca
como uma mancha de sangue
dentro de água
com óculos atentos
e a janela quase fria
que ainda não sabe das noites
e dos ventos
de Lisboa


Fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo do Pássaro, Forja Editora, Lisboa Abril de 1979.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A LEITURA DE QUEM LÊ


tão importante
que quem vende o que se lê
lê também
claro
sem saber porquê
talvez pelo pluralismo
tão dado a conhecer
ao lisboeta alegre
pluralismo que manda
na leitura e no papel
e que pensa querer reger a leitura
a leitura de quem lê


Fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo do Pássaro, Forja Editora, Lisboa Abril de 1979.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

UMA CIDADE DE LEITORES


Lisboa
é uma cidade de leitores
lê-se seja o que for
e quanto mais próximo melhor
entre o olho e a parede
sobre sempre a cabeça
do leitor
Lisboa é realmente
uma cidade de leitores
sem preocupações
em dissabores

Mário-Henrique Leiria


Fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo do Pássaro, Forja Editora, Lisboa Abril de 1979.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

OLHAR AS CAPAS


Lisboa Ao Voo do Pássaro

Mário-Henrique Leiria
Fotos: João Freire
Capa: Artur Henriques
Forja Editora, Lisboa Abril de 1979

pássaros
passarinhos
passarões
todos deputados
galifões
numa
assembleia da república
com certeza
votam o aumento
dos próprios
ordenados
ou não fossem eles
deputados