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domingo, 3 de junho de 2018

POEMA PÓSTUMO


Duas horas em breve.
                Estás deitada, talvez.
Na noite,
               como um Oka de prata
                       a Via Láctea corre.
O tempo é meu, e os relâmpagos
              que eram meus telegramas,
não mais te virão
             despertar,
                             atormentar.
Como se diz: encerra-se o incidente.
A canoa do amor
            foi-se quebrar de encontro ao quotidiano.
Eis-me quite contigo.
           E é inútil o passar em revista
penas,
           azares
                         e recíprocas feridas.
Vê,
          que paz no universo.
A noite
         impôs ao céu
                        a servidão de tantas
                                        tantas estrelas.
Chegou a hora
        Em que a gente se ergue e em que fala
aos séculos,
       à História,
                      ao universo…

Maiakowski em Autobiografia e Poemas

Nota do tradutor: Oka: um grande rio, afluente do Volga

segunda-feira, 12 de março de 2018

DIGAM!


Digam !
Lá porque estão acesas as estrelas,
será porque elas são necessárias a alguém?
Será porque alguém há a desejar que existam?
Será porque alguém chama a esses escarros, pérolas?
E, vencendo
a poeirenta borrasca do meio-dia,
alguém corre p'ra Deus,
temendo chegar tarde,
chora,
beija-lhe a mão nodosa,
implora -
que lhe falta uma estrela! -
jura
que, sem estrelas, não pode suportar este martírio.
E depois,
lá vai com a sua angústia,
mostrando paz na cara.
Perguntando a qualquer:
"Agora, estás melhor, não é assim?
Já não tens medo?
Não?"
Digam !
Lá porque estão acesas
as estrelas -
será porque elas são necessárias a alguém?
será porque é - indispensável,
que cada noite
por cima dos telhados
uma só estrela, ao menos, se ponha a reluzir?

Maiakowski em Autobiografia e Poemas

Legenda: pintura de Van Gogh

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Autobiografia e Poemas

Maiakowski
Tradução: Carlos Grifo
Colecção Forma nº 2
Editorial Presença, Lisboa s/d

Podia devorar
como um lobo
toda a burocracia,
não é comigo
o respeito
por mandatos,
e mando
para o diabo
que os carregue
todos os «papéis».
Menos aquele...
Passando ao longo
dos compartimentos
e cabinas,
um funcionário,
e que polido,
avança.
Cada um apresenta o passaporte,
e eu,
dou
o meu
pequeno bilhete escarlate.
Para alguns passaportes
há sorrisos,
para outros -
vontade de os cuspir.
Têm, por exemplo,
o direito ao respeito
os passaportes
com o leão inglês
em dois lugares.
Devorando
com os olhos o grande personagem,
fazendo saudações e curvaturas
pega-se,
como numa gorjeta,
no passaporte
de um americano.
Para o polaco
há o olhar
da cabra frente ao edital.
Para o polaco -
uma fronte enrugada
num elefantismo policial -
de onde vem este
e que são
estas inovações na Geografia?
Mas é sem voltar
a abóbora-cabeça,
sem experimentar
qualquer emoção forte,
que se aceita
sem pestanejar
os papéis do dinamarquês
e dos suecos
de todas
as espécies.
Súbito,
como lambida
pelo fogo,
a boca
do cavalheiro
se torce.
O senhor
funcionário
tocou
a púrpura deste meu passaporte.
Toca nele
como se fosse bomba,
toca nele
como se fosse ouriço,
toca nele
como em cobra cascavel,
de vinte dentes,
de dois metros e mais de comprimento.
Cúmplice
piscou
o olho do carregador
que está pronto
a carregar, de graça as minhas malas.
O agente
contempla o chui,
e o chui
o agente.
Com que volúpia
me teria,
a espécie policíaca,
batido, crucificado,
porque
tenho nas mãos,
trazendo foice
e trazendo martelo,
o passaporte soviético.
Podia devorar
como um lobo
toda a burocracia,
não é comigo
o respeito
por mandatos,
e mando
para o diabo
que os carregue
todos os «papéis»,
menos aquele...
Das minhas
profundas algibeiras tirarei
o atestado
deste enorme viático.
Leiam-no bem,
Invejem -
eu
sou um cidadão
da União Soviética.


(1929)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Nesta vida é mais fácil morrer do que viver.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.